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MINHAS PÉROLAS

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

"Oia o Lanchi" (Gororoba novamente)










CRÔNICA

"Oia o Lanchi" (Gororoba novamente)

Por Claudeci Ferreira de Andrade


          A unidade escolar estava meio parecida com um lugar qualquer, desses que a gente não se porta mais com cerimônia; onde deveria cheirar livro novo, fedia comida. Lembro-me sempre, com uma sensação misturada de tristeza e saudade, da hora do lanche naquele colégio, não só pelas razões que traziam aquele momento de sabor e gosto evidentemente, mas primeiro porque era sempre no momento mais interessante da aula que aquela voz perturbadora, rechonchuda e marginal; de porta a dentro, agredia meus ouvidos: — “Oia o lanchi!” Eles saíam correndo como se não tivesse um professor ali. Pois é, quem deveria merecer toda a atenção ficava falando sozinho até que voltassem, mas para retomar ao bom andamento da aula era preciso mais vinte minutos de sofrimento. Digo melhor, uma sessão desgastante de linguagem fática.

          Num desses desregrados intervalos, que considerei de grande valia para avaliar meus alunos, pus-me a observar o conhecimento e a criatividade que circulavam naquele ambiente que pretendia ser um ambiente de formação de princípios. Desta vez, foi distribuído para o Ensino Médio um saquinho retangular de forma arredondada, com mais ou menos 6 cm de diâmetro, contendo 120g de iogurte de coco, tratava-se do “famoso Goianinho”, que também trazia na embalagem a seguinte recomendação de uso: “Agite antes de beber”. Não é que meus alunos descobriram a ambiguidade, ou melhor, a polissemia, da tal recomendação! E aquele se tornara um “grande” momento lúdico e produtivo. Uns saltitavam como se tivessem pulando corda, outros rodopiavam, faziam flexões no abdome, é certo que nunca vi tanta criatividade para obedecer a posologia recomendada pelo fabricante do tal iogurte. Pareciam estar envolvidos em uma competição, até porque, os mais ousados faziam movimentos extremos, daqueles que as meninas olhavam, viam e viravam as costas imediatamente. Eles recorriam da obscenidade, também, para extravasar seus conhecimentos prévios, sacudiam a embalagem com a mão direita e depois passavam para a esquerda com a frequência de um ato masturbatório.

          A experiência mais recente que vivi, nesse sentido, foi no terceiro ano do Ensino Médio daquela mesma unidade escolar. Por sua vez, foi distribuído, para os alunos, como lanche: rosquinhas, e além dos transtornos em minha aula, como já falei, ainda tinha que ouvir deles: —“quem queimou sua rosquinha?”; —“hein, paga minha rosquinha”; —“o orifício de sua rosquinha é apertadinho!”; —“quer comer rosquinha, professor?”. Expressões essas endossadas com sorrisos desavergonhados. Se intencional ou não, foi um prato cheio para os maliciosos que estavam sempre a postos, bastando apenas apagar a luz para se manifestarem. Mas, o mais depravado que achei foi quando a coordenadora de merenda da unidade entrou na sala, naquele mesmo dia, comprometendo minhas duas aulas de Língua Portuguesa, que eram seguidas, para dizer que não tinha vasilha suficiente, não chegou verba e que ninguém vendia mais fiado para o colégio. Os meninos reclamaram porque queriam uma explicação nova, pois estavam cansados de comer “rosquinha seca”. E naquela reunião a sugestão mais aplaudida seria que o colégio servisse também um “sucuzinho” na hora do lanche, “para molhar as rosquinhas”, sendo assim os alunos trariam os "copinhos". É, apesar de mal formada, a palavra mais votada ali (sucuzinho), era um diminutivo afetivo e não o que pensaram. Mas, valeu, o colégio repensou o cardápio e incluiu o tal "molhador de rosquinha".
          Porém, visto que reclamam de tudo, só mais um pouquinho de tempo e chamá-lo-ão tudo de gororoba novamente.
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 03/05/2009
Código do texto: T1572888

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