O Refúgio de Prata e o Vácuo das Estrelas: O LUNÁTICO NO MEIO DA NOITE ("O bom de ser lunático, é que os problemas não têm gravidade." — Marco Paschoal)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Bastou uma noite — dessas em que a lua resolve exagerar — pra eu me enxergar com clareza: sou, sim, um lunático. Um astronauta de quintal, desses que viajam sem sair do lugar. A superlua veio cheia, próxima, quase íntima… e me puxou inteiro. Fiquei ali, parado, como quem escuta um segredo antigo. Quando percebi, já tinha me mudado pra ela — de mala, cuia e pensamento. Fiz daquele disco branco um abrigo, quase um confessionário. E, por um triz, não me esqueci de onde meus pés ainda teimam em tocar. Mas a gente sempre volta. Não tem jeito.
E foi lá, nesse silêncio suspenso, que a ausência ganhou corpo. Eu, que sempre acreditei em gente boa — gente que encosta, sustenta, empurra quando a vida emperra —, jurava que ia encontrá-la ali, intacta, quase ideal. Um lugar alto, limpo, sem ruído… parecia cenário pronto. Não tinha ninguém. Nenhum gesto, nenhum rosto, nenhuma presença. Só o vazio — curioso — bem iluminado.
A pergunta veio mansa, mas funda: se nem no meu melhor devaneio eu encontro essa gente, o que é que ando buscando aqui embaixo? Em quem, afinal, tenho apostado minhas fichas? Não é amargura — ou não é só isso. É cansaço. Um cansaço fino, de quem procura no outro algo que talvez não venha pronto, embalado, com laço. A gente cresce ouvindo que vai encontrar, que existe por aí um abrigo humano, um porto seguro com nome e sobrenome. Mas e se não? E se essa promessa já nascer com fissura?
Desci da lua com essa pulga insistente atrás da orelha. Talvez o problema não esteja na busca, mas no desenho que fiz dela. Talvez a tal gente boa não apareça inteira, como eu sonhei lá do alto. Talvez venha em pedaços: num gesto distraído, numa palavra fora de hora, num cuidado que quase passa batido. Ou — e isso dói um pouco — talvez, em certos dias, ela simplesmente não venha. E aí sobra o quê? Sobra o ofício silencioso de seguir. Sobra o esforço — teimoso — de não endurecer. Sobra, veja só, a responsabilidade de ser, ainda que em migalhas, aquilo que a gente tanto espera dos outros.
No fim das contas, a lua continua linda. Mas não resolve. E as estrelas… ah, essas seguem firmes no lugar delas: distantes, frias, insistentes em brilhar fora de alcance. Não por crueldade — talvez por função. Porque, no fundo, há esperanças que não vêm pra consolar. Vêm só pra manter a gente em movimento.
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Como seu professor de sociologia, li com muita atenção esse texto que é quase uma "viagem espacial" para dentro de nós mesmos. Ele nos ajuda a pensar sobre como construímos nossas expectativas em relação aos outros e à sociedade em que vivemos. Para a nossa atividade de hoje, preparei 5 questões discursivas simples para exercitarmos nosso olhar sociológico sobre esse "desembarque da lua".
1. Expectativa Social e Realidade:
O autor menciona que crescemos ouvindo a promessa de que encontraremos um "porto seguro" nas outras pessoas. Do ponto de vista sociológico, como a nossa cultura e a educação que recebemos moldam o que esperamos dos nossos grupos sociais (amigos, família, colegas)?
2. O Isolamento na Modernidade:
No texto, o narrador busca por "gente boa" e apoio, mas encontra o vazio, mesmo em seu devaneio. Como podemos relacionar essa sensação de "não encontrar ninguém" com o conceito de individualismo nas sociedades modernas?
3. Instituições e Amparo:
O narrador questiona: "Em quem, afinal, tenho apostado minhas fichas?". Quando os indivíduos sentem que não podem confiar uns nos outros, qual é a importância das instituições sociais (como o Estado, a escola ou as ONGs) para garantir que ninguém fique desamparado?
4. A Construção da Solidariedade:
Ao final, o texto sugere que a "gente boa" pode vir em "pedaços" ou pequenos gestos, e que temos a responsabilidade de ser aquilo que esperamos dos outros. Como essa ideia se conecta com o conceito de solidariedade e a construção de uma comunidade mais unida?
5. O Papel da Esperança no Movimento Social:
O autor termina dizendo que algumas esperanças servem apenas para "manter a gente em movimento". Na sociologia, por que é importante que os grupos sociais mantenham ideais e esperanças (mesmo que pareçam distantes como as estrelas) para que ocorram mudanças e melhorias na sociedade?
Dica do Prof: Não se preocupem em achar uma resposta "certa" ou "errada" como na matemática. O importante aqui é vocês conseguirem relacionar o sentimento do texto com a forma como a gente vive e se organiza em sociedade. Usem exemplos do dia a dia de vocês!
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Se me apetece rir de um louco, não preciso de ir procurar muito longe; rio de mim mesmo.
ResponderExcluirSêneca