Mergulhar no caso do Colégio Goyases é como encostar numa ferida que o tempo se recusa a fechar. Não é cicatriz — é carne viva. Fica ali, latejando em silêncio, só esperando um descuido para sangrar de novo. Diante de um horror desses, a reação quase automática é apontar o dedo para quem puxou o gatilho. Dá um certo alívio, né? Como se bastasse isso. Mas, no fundo, essa pressa em achar um único culpado tem mais de fuga do que de justiça. Porque aquilo ali não nasceu de repente — foi sendo cultivado, dia após dia.
O bullying, esse crime sem manchete, não explode de uma vez. Antes, ele corrói. Vai desgastando por dentro, em pequenas doses, quase invisíveis, até que o invisível vira insuportável. Não, não é “coisa de criança”. É violência em estado bruto — só que maquiada de riso, de piada, de “brincadeira”.
Sempre aparece alguém para simplificar o caos com rótulos prontos — “maldade”, “desvio”, “ideologia”. É confortável pensar assim. Dá aquela sensação de controle. Mas, conforto não explica tragédia nenhuma. Como bem lembra Dhiogo J. Caetano, “culpar o outro é um escapismo diante da omissão dos fatos e a não compreensão dos efeitos”. A verdade, essa sim, incomoda: ninguém colhe o que não foi plantado. E ali, naquele ambiente, o que se semeava todo dia era humilhação.
Os colegas sabiam. Viram. Alguns riram. Outros preferiram o silêncio. E, olha, silêncio nessas horas não é neutralidade — é cumplicidade das mais eficientes.
É aqui que a reflexão pede coragem. Não para passar pano para o erro, mas para encarar o que levou até ele. Quando as instituições falham — escola, família ampliada, Estado — quem tá acuado não deixa de sentir, não. Só deixa de ser amparado. E quando a dor não encontra palavra, ela arruma outro jeito de sair. Nem sempre o certo, quase nunca o aceitável — mas ainda assim, uma saída.
“A paz só se conquista com a Justiça!”, lembra Hermes C. Fernandes. E justiça não é só correr atrás depois do estrago feito. Justiça de verdade é impedir que o processo chegue a esse ponto.
A gente chora — e tem que chorar — pelos mortos. Mas existe uma outra morte, mais lenta, que quase nunca comove: a de quem vai sendo desmontado por dentro, um pouco a cada dia, diante de todo mundo. O menino não era só “o alvo”. Era alguém. Talvez com um sonho guardado, desses que a gente nem conta para não virar piada. Talvez gostasse de coisas simples — desenhar, ouvir música baixinho, imaginar um futuro onde fosse visto sem ser julgado. Talvez tivesse um sorriso que foi sumindo aos poucos… até sobrar só o vazio de quem já não se reconhece.
Aí veio a tal “brincadeira”. A campanha do desodorante. Para alguns, besteira. Para quem recebe, uma pancada. Porque não é sobre cheiro — é sobre pertencimento. Ou melhor, sobre a negação dele: “você não pertence”.
Cláudia Hanna capta isso com precisão quando diz que “existem situações que vão acabando com a pessoa, coisas que quem está de fora acha besteira, mas para quem é o alvo da chacota, sofre muito”. Não é comentário solto — é um alerta. Um desses que a gente ouve, mas insiste em não escutar direito. Respeitar o outro como ele é não devia ser lição aprendida depois da tragédia. E, mesmo assim, a gente continua aprendendo no tranco.
Só que aqui cabe um freio: nada de cair no fatalismo. Não, a paz não pode depender do medo da próxima tragédia. Se for assim, não é paz — é só um silêncio tenso, uma convivência à base de receio. O que precisa é outra coisa: mudança de postura, de verdade. Um esforço diário — às vezes incômodo, às vezes contra a corrente — de cortar o riso cruel, de acolher quem tá à margem, de lembrar, na prática, que dignidade não se negocia.
Porque, no fim das contas, como escreveu Bento Fleury, “cada um morre um pouco na morte de cada outro”. E, se isso é verdade, então também é nossa a responsabilidade de manter os vivos inteiros.
A ferida não fecha sozinha. Ou a gente cuida — ou, mais cedo ou mais tarde, aprende a conviver com o sangue.
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Como seu professor de sociologia, preparei este roteiro de reflexão baseado no texto. O objetivo aqui não é apenas "checar o conteúdo", mas exercitar sua capacidade de enxergar as estruturas sociais e as relações de poder que se escondem por trás de eventos trágicos como o do Colégio Goyases. Aqui estão 5 questões discursivas para você desenvolver seu pensamento crítico:
1 A Invisibilidade da Violência: O texto descreve o bullying como um "crime sem manchete" que corrói a vítima por dentro antes de explodir em tragédia. Do ponto de vista sociológico, por que muitas vezes a sociedade só reconhece a violência quando ela se torna física e letal, ignorando as microagressões cotidianas?
2 O Papel do Grupo (Espectadores): O autor menciona que o silêncio dos colegas diante da humilhação não é neutralidade, mas "cumplicidade das mais eficientes". Explique como a omissão de um grupo social pode validar e fortalecer o comportamento de um agressor.
3 Instituições e Falha Social: De acordo com o texto, quando instituições como a escola e a família falham, o indivíduo acuado deixa de ser amparado. Como a ausência de mecanismos de mediação de conflitos nessas instituições contribui para que a dor se transforme em atos desesperados de violência?
4 Estigmatização e Identidade: A "campanha do desodorante" citada no texto é apresentada como uma negação de pertencimento. Como a criação de rótulos negativos e a desumanização de um indivíduo dentro da escola afetam a construção da sua identidade e sua saúde mental?
5 Justiça Preventiva vs. Justiça Punitiva: O texto cita que "a paz só se conquista com a Justiça" e que a verdadeira justiça deveria impedir que o processo de bullying chegue ao extremo. Diferencie, com base na leitura, uma resposta baseada apenas na punição do culpado de uma abordagem que busque a "mudança de postura" e a dignidade coletiva.
Dica do prof: Ao responder, tente se colocar no lugar dos diferentes atores sociais mencionados (vítima, agressores, escola e colegas). Use trechos do texto para fundamentar seus argumentos! Bom estudo.