"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" A hipocrisia é a arma dos mercenários." — Alessandro de Oliveira Feitosa

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sábado, 28 de março de 2009

QUALIDADE A QUALQUER PREÇO (Quantidade X Qualidade)


Crônica

QUALIDADE A QUALQUER PREÇO (Quantidade X Qualidade)


Claudeci ferreira de Andrade

          Muitos de nós suspeitamos um pouco da escola que se diz de qualidade, mas quando sabemos ou lemos das pretensões “a qualquer preço”, tais como as medidas para a diminuição da evasão escolar, progressão continuada (aprovação automática) e até oferecer vaga para quem quer que procure em qualquer época, descobrimos que há má-fé e mentira astuciosa em algum setor.

          Trabalho em uma sala de 8º ano, em uma escola municipal, com 50 alunos devidamente matriculados, na qual, no mínimo 45, todos os dias, comparecem; também, o lanche dá uma forcinha! Indisciplinada, sem controle, uma das piores que já conheci. Mas, nesta semana, já quase fechando o primeiro bimestre, deparei-me com um aluno novato, que o matricularam, exatamente naquele 8º ano superlotado. São 51, “uma boa ideia”, alunos agradecidos pela vaga na escola, falando bem, talvez, assim, assegurem a "qualidade"!

          De modo semelhante, o olhar unilateral quase se tornou uma prática corriqueira entre os burocratas da educação que visam somente quantidade. Entretanto, demasiadamente ludibriados por essa Imposição social, muitíssimo simplista, querem “tampar o sol com a peneira”. Eles querem salvar apenas sua pele e estão se apoiando em sua consciência cauterizada a fim de suster a garantia de seu sucesso como gestores populistas. Mas, com “a boa ideia” de primar pela quantidade sobre a qualidade, a evidência vem à tona e desaparece como a sombra na água. Este é o Ato de má-fé, a mentira astuciosa.

          É semelhante a uma brincadeira cruel. Tudo isso pode dar ao professor o direito de desconfiar da busca pela qualidade tão recomenda por retórica apenas. Se não for desilusão, será desespero. O que resta se as resoluções do conselho, que pretendem zelar pela a qualidade do ensino, são desrespeitadas?
          Suponho que o problema não está com as resoluções do conselho da educação, mas em nossa compreensão delas, talvez. Quando são enfatizados os interesses políticos egoístas, aí acontece um cegamento e consequentemente, essas barbaridades; falhamos! Então concluo que a luta maior é do professor que recebe o rótulo de “sem domínio de classe”, “sem conteúdo” e o sem tudo.
          São muitos os "Felipes" e as "Larissas" que se estragam pela exorbitante transigência de seus pais, que não se preocupam com a qualidade da educação para seus filhos (já que a escola faz pouco caso, os pais deveriam se preocupar). Nós professores queremos classes com 20 alunos para uma dedicação equilibrada, como se alunos não representassem dinheiro na escola (PDDE), isto é, quanto mais aluno mais verbas para a escola. Então, como equilibrar qualidade e quantidade? Sou um sem domínio de classe sim, pelas circunstâncias, mas também como provarei meu domínio de conteúdo? Eu só peço a quem domina meu direito, uma chance para sobreviver.
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 15/06/2009
Código do texto: T1649899

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sábado, 21 de março de 2009

ALUNO, FILHO DE PROFESSORA (Filho de professora invade escola e mata 27 nos EUA)




Crônica

A EDUCAÇÃO COM CONSEQUÊNCIA (Filho de professora invade escola e mata 27 nos EUA)

Claudeci Ferreira de Andrade

          Uma mãe que também é professora, de cujo filho sou professor, disse-me a coordenadora que ela estava aterrorizada por medo de que eu pudesse estar marcando seu filho para a reprovação! Isso aconteceu pela terceira vez, pois ela mesma já tinha falado comigo. Na tal conversa, falei quem era seu filho na sala: um dos piores, em comportamento e aprendizagem. Eu não condeno essa mãe professora por alimentar tamanho medo. Apenas a compreendi ternamente e procurei ganhar melhor a sua confiança com a verdade.
          Estou aprendendo muito com esse filho de professora. Já tive outros filhos de professor como aluno. Mas, eu os tinha sempre como exemplos de aluno, apesar do fato de que evidentemente eles nunca foram bons exemplos, tratavam-me com o mesmo descaso que provavelmente tratavam seus pais, pelo o motivo que eles sempre misturam os papéis: o professor na pele de mãe e a mãe na pele de professor. Mesmo que esse aluno basicamente se preocupasse comigo e com os colegas, não deixou de se colocar como fofoqueiro, inventando tantas mentiras para denegrir minha imagem perante sua mãe; sentia grande necessidade de ter cuidado de si mesmo. Não confia em professor algum.
          Não obstante, agora estou coagido a ceder a seus caprichos, ele levanta a hora que quer, não posso impedi-lo de ir ao banheiro, conversa à vontade, perturbando o bom andamento da aula, pois não posso repreendê-lo. E estou obrigado pelas circunstâncias a facilitar para que tire notas boas, tenho medo que interprete minha atitude de bom professor como marcação; conte à sua mãe, e ela venha correndo pela quarta vez à escola, e dessa vez fale com a diretora.
          Que visão acanhada! Como me dissesse que não é capaz de acompanhar os outros com a mesma competência. Eu não poderia admitir por fim que seja destruído, mas sua mãe não me deixa trabalhar melhor.

          Eu sei que condenando esse aluno, não estaria resolvendo o seu problema. Isto jamais resolve os problemas de alguém. Assim, o melhor que posso fazer é deixá-lo tranquilo, não o prejudicarei mais do que já estar e que descubra ao longo de sua vida escolar que tem diferença entre professores. Não sou de marcar aluno, afinal, não chamo a atenção de aluno algum que não seja para demonstrar maior cuidado. E esses respondem geralmente como fez Ryan Lanza. "O policial disse que a mãe de Ryan Lanza, Nancy Lanza, trabalhava como professora na escola. Um atirador de 24 anos que matou 27 pessoas numa escola escola elementar Sandy Hook em Newtown." http://www.dgabc.com.br/News/5999387/eua-atirador-mata-pelo-menos-27-em-escola-primaria.aspx  (visto em 15/12/012).
          Agora estou condescendendo com esse aluno, por medo do que poderá acontecer à minha reputação e por se tratar de um filho de professora, perdi a confiança e o respeito dele. Sei que somente quando chegar a perceber que minha atitude anterior — antes de descobrir que ele é filho de professora — seria seu melhor caminho, totalmente adequado, vai lamentar, pois poderá ser tarde demais para que nossos temores finalmente sejam desfeitos. Poupe-me e não me torture com a pergunta mais desprovida de sabedoria e de boas intenções: Por que meu filho tirou esta nota?
          
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 14/06/2009
Código do texto: T1648072


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domingo, 15 de março de 2009

BAGUNÇA INCOMPETENTE ( É preciso aprender aprender)




CRÔNICA

BAGUNÇA INCOMPETENTE ( É preciso aprender aprender)

Por Claudeci Ferreira de Andrade
          A irreverência e a incompetência são dois conceitos bem compatíveis! Refiro-me ao tipo de comportamento que muitos alunos da rede pública adotam. O pior é que os professores, quando no papel de aluno, fazem o mesmo. Mas, o que isso poderia significar para nós professores? A falta do saber aprender dos alunos tornou repentinamente o seu caráter impróprio para ser contemplado em sala de aula. Ou há um significado mais profundo nesses comportamentos perturbadores que eu não consigo ver?

          Você sabe o que é sentir-se desprovido do conhecimento que lhe é exigido na presença de terceiros? Já desejou poder esconder todos os medos e decepções, todos os malogros e louquice do passado e também as incompetências do presente, que certamente o perturbariam se outros os descobrissem? Nenhum de nós gosta de ter a vida revelada e fragilizada à vista e à apreciação dos outros. É como diz apropriadamente minha professora de produção textual James Deam Amaral Freitas, do curso Pró-funcionário, que as pessoas não gostam de escrever porque se expõem. Talvez seja por isso que meus alunos me pedem para não ler seus textos, apenas dar a nota.
          E assim, eles adotam um comportamento que possa desviar a atenção das pessoas para outro ponto que não sejam as suas debilidades. Tenho um aluno surdo e que usa aparelho para melhorar a sua audição, é o que mais faz barulho na sala, os mais esdrúxulos, para ser notado como normal, assim como se tivesse pedindo para comunicarmos a ele, pois está nos escutando um pouco agora. Assim, também, aquela jovem que não tira o aparelho celular, recém comprado, dos ouvidos. Almeja a atenção dos rapazes porque intimamente está medrosa de que não seja notada, não amada, não solicitada. A exibição do aparelho novo torna sua tentativa para esconder a dor, para cobrir a solidão. E ai de quem tentar impedi-la, leva porrada, como aconteceu com a professora de ciências Caroline Kalinca Rabelo, da Escola Estadual Maria Ilidya Resende de Andrade, no bairro Furtado de Menezes, Juiz de Fora, zona da mata, MG. Apanhou na cara!
http://www.otempo.com.br/supernoticia/noticias/?IdNoticia=28374 (19/12/2012).
          Existe o menino que exagera no uso das gírias, esperando deste modo tornar suas palavras mais poderosas, e mais atordoantes o seu impacto sobre outros. Contudo, ele não vê que está disfarçando miseravelmente seu desnudo medo de ser considerado como de baixo valor!
          Na vida, temos mil formas de esconder nossas fraquezas, e o modo do professor se esbaldar em fichas e relatórios inúteis. Cada um prometendo cobrir suas vergonhas, alguns expostos traços negativos que estão arraigados em nossa separação dos nossos ideais; como disse a professora Lourdinha, especialista em filosofia da arte:
         — As máscaras existem e de máscara, todo mundo fica igual!
         Todas as dramatizações bem ensaiada prometem restaurar a autoconfiança imediata dos atores. Mas, nesse caso, todas são impróprias e deselegantes para a vida real. E nos empenhamos com unhas e dentes, tentando impedi-las de dar às escondidas.
          Eu compreendo a posição daqueles meus muitos alunos irreverentes, egoístas, orgulhosos, zombadores, desobedientes, ingratos, mentirosos, desordeiros, rudes, cruéis, escarnecedores, traidores, irascíveis, fanfarrões, estas são as qualidades do Satanás, para preencher as lacunas da falta de ideais na vida. Recentemente surpreendi meu aluno D..., representante de sala, com o gravador de voz do aparelho celular ligado para me denunciar, sobre sei lá o que, no conselho de classe, parecendo minha vizinha, a qual bastado ouvir o chiado dos meu passos nas folhas secas do quintal, ela sobe imediatamente no muro empunhando um celular para me filmar. Talvez porque eu já fui professor dela! Esse também é um subterfúgio para intimidar. Eles estão escandalizados com a sua própria pobreza, mas não confiam em seus educadores, então não há mais saída. O que na verdade eles precisam é aprender aprender.
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 13/06/2009
Código do texto: T1646487


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domingo, 8 de março de 2009

MIL CRÔNICAS (Uma resposta às más intensões)


Crônica

MIL CRÔNICAS (Uma resposta às más intensões)

Claudeci Ferreira de Andrade


            Quero produzir mil crônicas da vida escolar, abordando os mil erros mais ponderosos das escolas públicas em que milito. Portanto, não terei nenhuma montanha para transportar, pois os trato sempre como eventos educativos. As minhas maiores difuculdades são os comentários mal intencionados de colegas com sofrível leitura. Chamaram-me de louco e de aético, sim, em certo sentido parece ser uma loucura, mas, através dos anos, tenho um desígnio em tudo isso: iluminar a educação!

            Consigo recordar alguns comentários equivocados, de algumas colegas com função pedagógica, que ouvi, quando escrevi os textos: “Cabeça Fraca” e "Nas Tetas da Vaquinha" que permaneceram em minha memória desde então. Se acaso, eu incorresse na grande desdita de resolver ser feliz, teria de fazer uma tentativa para esquecê-los. Isto seria uma tarefa gigantesca. Lembro-me na íntegra de um outro comentário que ouvi numa reunião da EJA municipal, de uma professora de Língua Portuguesa, que dizia:

           — Tem um professor em Senador Canedo metido a escritor, mas que em seu livro tem muitos erros ortográficos e agora quer nos orientar!
            Baseava-se em poucos textos de meu primeiro livro: “Confissão de Um Anjo I” que realmente tinha alguns erros gráficos, mas sua fala mal entonada salientava mesmo era os tais aspectos da sua falta de respeito a minha pessoa. Recordo ainda os pontos principais de seu discurso. Como meu coração ficou sensibilizado e comovido! Meus textos têm tantos pontos dignos de valor para um professor de Língua Portuguesa trabalhar com os alunos, inclusive os erros ortográficos, que senti grande necessidade que tivesse sido ela quem escrevesse assim para que, pelo menos, eu pudesse conhecer sua produção. Eu a respondi, não no mesmo nível, mas respeitando a razão e o bom senso com a crônica: “Professor Cadê o Seu Texto?”.
           Lembro-me de uma publicação do Professor Jânio Donizete, no Jornal Gazeta do Entorno, que questionava a postura de imposição religiosa em meu texto: “Lentes de Aluno” e a reação posterior de minha aluna Michelly Martins, também publicada (Gazeta, nº100), que o chamou de incompetente para ler e entender. As palavras-chave desse parágrafo são as seguintes: fiz a briga e saí de perto.
           Li de um homem entrevistado no hospital. Esse indivíduo era um fumante inveterado. Disse ele:
           "— Qualquer covarde pode deixar de fumar, mas é preciso ser um verdadeiro herói para morrer de câncer do pulmão!"
           Há algo de errado em sua lógica. Naturalmente, ele estava sendo jocoso. Todavia, ao acender um cigarro, teria de transpor a enorme montanha da razão e do bom senso. Sem jocosidade nenhuma, eu seria covarde demais em parar de escrever antes de completar as minhas mil crônicas por causa de críticas maldosas de quem não se utiliza da razão e do bom senso.
           A sensatez é uma proteção indicada por Deus para dificultar ao máximo o fracasso de alguém.
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 12/06/2009
Código do texto: T1644708

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domingo, 1 de março de 2009

POR QUE LAMENTAR O PONTO? ( Dói a Carimbação mais que a falta do salário)


Crônica

POR QUE LAMENTAR NO PONTO? ( Dói a Carimbação mais que a falta do salário)

Claudeci Ferreira de Andrade


          Na escola em que trabalho, o Livro de Ponto é um caderno simples sem nenhum carimbo de reconhecimento de firma, mas tem, sim, o carimbo de “não compareceu”. Está sempre bem visível à mesa, “gordo” como é, entulhado de anexos grampeados, são muitos atestados médicos e declarações infindáveis até relatórios íntimos!

          Você se sente mal quando seu ponto é contado? E quando não é seu dia de trabalho naquela unidade escolar, mas no lugar da sua assinatura está carimbado um "Não Compareceu"? Quando não, está escrito: "Folga". Estaria certo se você realmente fosse “Folgado”! Até que isso é suportável, porém quando você trabalhou duro e recebe um "Não Compareceu", aí o “bicho pega”! Entretanto, tenho colegas imunes, faltam o quanto queiram e não receberam nenhum carimbadinha ainda! Que situação, se o professor tem duas aulas no período e não compareceu, cortam-lhe o ponto, normal, mas se trabalhou a primeira, assinou o ponto e foi embora sem ministrar a outra, qual o procedimento? Se a escola está sem água, todos foram embora sem trabalhar, quem justifica o ponto de quem? Se um advogado precisar verificar a frequência de um funcionário da escola de seis anos atrás, a escola terá esse “documento” guardado?
           Estas perguntas são muito mais do que simples minúncias da educação; tocam nas mais profundas motivações do coração. Se o seu incentivo para evitar faltas no trabalho é tal que você não se prestigia diante da profissão, sua motivação básica é egoísta. Se, por outro lado, sua razão para evitar faltas no trabalho origina-se de uma consideração intensamente alta pela educação dos seus alunos, sua motivação básica é altruísta.
          Quando chegamos diretamente ao ponto, a motivação faz toda a diferença. Teremos uma boa frequência quando o fogo que arde por trás dos nossos olhos é a dedicação altruísta. Só podemos ser verdadeiramente assíduos quando amamos o que fazemos. Mas, o egoísmo não pode produzir altruísmo. Quando temos um motivo egoísta para desejarmos ser altruísta, isto simplesmente não funciona.
          Um bom funcionário sabe o porquê, por este motivo alimenta razões totalmente altruístas para querer ser melhor ainda. Digo aos nossos coordenadores que mais do que quaisquer preocupações com nós mesmos, tornemo-nos zelosos da boa reputação do nosso colega. Sabemos que outros estarão fazendo decisões eternas em relação a si mesmos, muitas vezes, baseados no que contemplam em nossa prática. Um bom líder não usa a influência da rejeição emocional a fim de ordenar a vida de alguém de seu grupo, porque isto somente aprofundaria a “lambança” que principalmente o leva ao gazeamento.
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 11/06/2009
Código do texto: T1643045

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sábado, 21 de fevereiro de 2009

FAZENDO "TRANSAÇÕES" NO AMBIENTE ESCOLAR




Crônica


FAZENDO "TRANSAÇÕES" NO AMBIENTE ESCOLAR

         Por  Claudeci Ferreira de Andrade

    
Não há nada mais decepcionante do que está concentrado em uma aula de interpretação de texto, e bate à porta um para interromper: é um vendedor de livro; ora um vendedor de carteirinha estudantil; ora representantes de cursos de informática; ora o presidente do bairro e/ou da igreja, fazendo convites vários; vendedor de camiseta; depois a turma do grêmio estudantil com uma nova ideia; bem como os estagiários da saúde para distribuir camisinhas; anúncios da coordenação; os alunos da sala vizinha para tomar algo emprestado; até a merendeira. Aqui não dou conta de enumerar quantas futilidades oficiais nos pretendem encher o tempo de aula. Isso sem falar de um ou outro engraçadinho na própria sala que articula a inviabilização da boa aula com piadas sem graça. Eu sei muito bem o que é trabalhar até tarde da noite, preparando uma boa aula e sentir meus esforços desconsiderados. É como o recipiente em que você está levando morangos maduros para casa, rasga-se precisamente no momento em que você sai do carro, fazendo uma sujeira horrível. A sala de aula é um recipiente desejável, público cativo, porém frágil.
           Desde há muito tempo, a escola pública brasileira tem se escondido da qualidade. Escondido porque está com medo da sociedade. Não precisa esconder-se! Seus temores têm sido baseados em falsos relatórios dos enganadores: "estatistiqueiros". Enfrentar a comunidade para mostrar o caráter da boa educação é um indicador de qualidade. Não podemos deixar nem um só momento sequer de aula esvair-se como gás para o espaço. Não tenho visto nenhuma expressão de amor verdadeiro à causa, nessas interrupções. Contêm elas o conteúdo que o sistema planejou para ser dado em sala livremente? A escola quer encher nossa vida apenas com sua amizade?
           Cabe a nós professores a não entregar a esses interruptores a sala, esta, sacola de papel. Porque eles entram e saem e o público fica vazio, tão horrivelmente vazio! Nós, tão somente, admitimos que necessitassem do nosso conteúdo curricular, roguemos à unidade escolar, para que possamos dá-lo sem a interrupção dos que não têm propósito educacional, mas visam somente aos seus bolsos!
           Qual é a nossa resposta? Se a resposta da escola for uma de conivência, ela é forçada a ajudar-nos a lidar com essa realidade. Com muito cuidado ela terá que nos explicar o porquê de tanta incoerência como: não deixar entrar alunos com as roupas que eles têm, “escandalosas” e permitir a distribuição de camisinha para os menores do Ensino Médio. A princípio imaginamos que os tempos modernos estão nos apanhando como se apanha moscas em mel. Mas, enquanto estamos tremendos em nossa nudez diante da comunidade, ela cobre-nos com seu próprio manto, suas propagandas bem elaboradas e amigáveis, continuam nos oferecendo enganação: “isso te tornará mais confortável”.
            E isto resolve: que nos ofereçam palestras substanciosas que encham as salas de aula com algum conteúdo interdisciplinar que adicione. Até agora, reconhecemos prontamente que, perturbam-nos com coisas que não justificam a interrupção, entram e saem, deixando apenas um boqueirão vazio, ou melhor, cheio de indignação.
             Que sejam pelo menos ajustados: Professora vende confeitos; alunos vendem bombons, mas no pátio e na hora do recreio. Um desse dias comuns, eu comprei um vidrinho de óleo aquecedor, para comprovar que uma menina estava vendendo produtos eróticos no espaço escolar. Apenas confirmei, mais uma vez, que os ambientes moralistas modernizaram-se, pois já havia lido que existem vários sex shops para evangélicos inaugurados pelo país afora (http://dm.com.br/jornal/#!/view?e=20130426&p=23 ). (acessado em 08/05/2013). Eu ia repreender? Claro que não! Sofro, mas tento acompanhar a evolução cultural.
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 10/06/2009
Código do texto: T1641207

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domingo, 15 de fevereiro de 2009

ALUNO RECONHECIDO, PROFESSOR MANIPULATÓRIO


Crônica

ALUNO RECONHECIDO, PROFESSOR MANIPULATÓRIO

Claudeci Ferreira de Andrade


          Não há dúvida de que as autoridades políticas possuam mecanismo que promova o reconhecimento devido ao profissional da educação e que elas desejam torná-lo disponível.

          Mas, nem sempre está claro como esse reconhecimento se torna nosso. Você já notou a maneira em que costumeiramente reivindicamos o reconhecimento? Rogamos: — “Aumentem o nosso salário”! “Diminuam nossa carga horária”! Mas, o que estamos supondo? É o reconhecimento “aspergido” de cima para baixo como estamos acostumados a engolir as outras resoluções e decretos mil. Implantariam as autoridades políticas para este reconhecimento em forma de um aumento salarial à categoria do magistério tão prontamente como aumentariam os seus próprios salários? É nossa profissão mais árdua se não pedirmos esse reconhecimento?

          Talvez fosse mais apropriado se começássemos fazendo movimentos grevistas, pedindo mais trabalho, pois é sempre assim, quando ganhamos um adicional no salário, vem junto, mais trabalho e um aumento na parcela da previdência. Poderíamos afirmar a estes chefes, com essa atitude irônica, que estamos dispostos a ser lembrados mesmo a preço de “banana”.
          Há três abordagens gerais à pergunta sobre como obtemos o reconhecimento da sociedade. Elas podem ser sumarizadas deste modo: Primeiro, o reconhecimento é merecido, os governantes são obrigados a no-lo dar por causa de nossa utilidade social; segundo, o reconhecimento é conseguido com agrado ou lisonja, as autoridades são induzidas por nossa mendicância e terceiro, o reconhecimento é inerente, as autoridades políticas são sábias, bem preparadas academicamente a ponto de ver o futuro da educação.
          A maior parte de nossas greves e petições por reconhecimento cai na segunda categoria. Supomos que nossos chefes retêm todos os mecanismos promovedores do nosso reconhecimento e que eles arbitrariamente dispensam àqueles com quem estão satisfeitos (como o Papai Noel das grandes casas comerciais doam bombons às crianças). Naturalmente, o outro lada desta ideia é que eles também podem se utilizar de maldições e despejar algumas delas sobre aqueles com quem estão descontentes (perseguição).
          Segundo um ou outro raciocínio, os nossos chefes usam seus recursos a fim de manipular-nos. Votando e aplaudindo um governo manipulador nos tornamos como resultado: manipulatórios. Que tal se a rebeldia, a irreverência e a indisciplina de nossos alunos nos manipulassem, também, para com os nossos chefes. Talvez quem sabe, teríamos o reconhecimento que eles têm, advindo das providências dos governantes em sua sede de erradicar o analfabetismo (gratificações, livros, merenda, transporte escolar, kit uniforme, vale cesta básica, salário escola etc.). Consequentimente, o reconhecimento não é o ato de um governo arbitrário! O aluno é importante, o professor não?!
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 09/06/2009
Código do texto: T1640459

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sábado, 7 de fevereiro de 2009

O que há de melhor? (Instigando o Desejo de Melhorar)


Crônica

O que há de melhor? (Instigando o Desejo de Melhorar)

Claudeci Ferreira de Andrade


           Você já comeu sem sentir vontade, comendo até ficar cheio, mas sem prazer? Pois, é exatamente o que sinto em ministrar a sexta aula de Língua Portuguesa, por semanas a fio, na mesma sala por falta de um horário de aula bem elaborado.

          O primeiro passo rumo a um ano letivo promissor é corresponder com as necessidades minimamente básicas. Muitos professores em toda parte estão ingerindo sem prazer alguma comida estragada, servida assim por incompetência de alguns no sistema educacional. Tenho dito: não podemos terminar bem se começamos mal; não se termina certo se se começou errado.

          Os três pilares que sustentam uma educação ideal a meu ver, primeiro organização gestora, depois conteúdo adequado e por último um vasto material didático atualizado. Esses pilares estão atraindo todo indivíduo da comunidade escolar para que enfrente as verdadeiras questões deste tempo de crise educacional e dê sua contribuição competente.

          Você professor tem desejo de alguma coisa melhor do que aquilo que conhece atualmente? Em caso afirmativo, então isso prova que nem tudo está perdido, há uma partícula ígnea de competência que lhe dá esse desejo. Quer esteja disposto admiti-lo ou não; quer o identifique dessa maneira, ou não; esse desejo é dado pelo bom senso de responsabilidade inerente em qualquer pessoa normal. Ele está lhe coagindo. Está impulsionando seu coração, sua vida, sua mente para fazer o que é preferível.

          Tal desejo não será satisfeito se apenas ocupamos alguma função no sistema. Há uma grande diferença entre ter um cargo de destaque e ser profissional. Há uma diferença entre conhecer os preceitos e conhecer a realidade. Pode haver uma grande lacuna entre submeter-se às formas exteriores, mostrar o regimento escolar e verdadeiramente conhecer as necessidades reais para um respeitoso funcionamento das engrenagens do sistema.
          Não somos professores por acaso. Nosso potencial é assombroso! Entretanto, muitas vezes decidimos tão pouco, nós que fomos destinados a partilhar o saber, conservamo-nos pouco acima dos animais, enquanto deveríamos ser um pouquinho abaixo dos anjos. Temos de ir deliberadamente contra esta forte vocação de deslizar para a escória da humanidade. Embora tenhamos ingressado no sistema educacional precisamos conservar o princípio que Deus colocou dentro de nós: o desejo de melhorar.
          Cientificamente, agora sabemos que o alimento digerido sem sabor não é utilizado pelo corpo na mesma extensão que o alimento consumido com prazer. Sem critério jamais poderemos ser felizes. Afinal, não somos criados para guardar as boas coisas só para nós!
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 08/06/2009
Código do texto: T1638115

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domingo, 1 de fevereiro de 2009

FLORES ANTES DO FUNERAL ( “Professor destaque")


Crônica

FLORES ANTES DO FUNERAL ( “Professor destaque")

Claudeci Ferreira de Andrade


          Eu nunca recebi flores e minha única chance de recebê-las, antes de meu funeral, seria se um dia fosse eleito o “Professor destaque" em minha unidade escolar. Mas, para ser eleito o destaque é preciso fazer milagres. Coisa que ainda não aprendi.

          Por que somos tão impressionados com coisas miraculosas? Damos toda a nossa atenção àquilo que faz nosso coração bater e acelera a nossa respiração. Quando o chefe vê o espetacular, ele baixa a faculdade de discriminação e perde a razão simplesmente pelo gozo do evento e mostra toda a sua fraqueza, elegendo o funcionário destaque.
          Não é de surpreender, portanto, que muitos recorram a testificar de atos deveras impressionantes na escola: índice de reprovação zero, promoção de passeio, aulas de campo, projeto de dança, entrega de diários e relatórios antecipados, nenhuma falta com o livro de ponto, assinado quinze minutos antes do horário. Tem uns que recorrem até a métodos desonestos para se evidenciar, como inspecionar a vida alheia para apresentar a mais quente fofoca, “verdadeiros milagres”.
          A maioria de nós talvez não sejamos capazes de jactar-nos de tão magnífico portfólio avaliativo como o deles, mas podemos lembrar-nos de que seríamos capazes de Produzir milagres menores. Pensamos na inundação de sentimentos que tivemos durante o chamado à coordenação, isso produziu até lágrimas, e permanecermos firmes. Pensamos na ocasião em que falamos com alguém importante para ajudar adquirir alguma coisa para facilitar a fluência do trabalho, recebendo um não. E que dizer da ocasião em que conduzimos algum aluno “trapalhão” à coordenação e ouvirmos dela que esse é um aluno especial? Não constitui tudo isto prova de que estamos entre os dignos de destaque, também?
          Mas, o resultado final nos adverte de que tudo isto simplesmente é um grande problema. O poder miraculoso pode impressionar-nos; mas somos gratificados mesmos somente por um salário que nos dignifique à vida. Podemos livrar-nos de alguns maus hábitos de professor; dar boas aulas; podemos até mesmo levar pessoa a passarem no vestibular. Entretanto, os únicos impressionados são os outros. O que realmente necessitamos é de ser impressionados com uma vida digna de um profissional que se preze. De outro modo estaremos ainda influenciados por aquele velho mito de que a felicidade está fundamentada no bom desempenho em vez de no poder aquisitivo lato.
          Mas, a história de vida de qualquer pessoa (porque todos passam pela Escola) confirma que isto produz servidores atrofiados. Por melhores, miraculosas e rotuladas que sejam as ações, feitas com o seco propósito de vencer o concurso: “professor destaque”, são ações atrofiadas. Não porque as ações em si sejam sinistras, mas porque são feitas por pessoas alienadas.
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 07/06/2009
Código do texto: T1636134

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