O Joio e o Trigo na Educação: Pequenas Histórias do Novo Normal ("2 Timóteo 4:3 — Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos.)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
No tempo que hoje chamam de “velho normal”, a escola tinha um cheiro inconfundível: café requentado misturado com giz úmido. Era cedo — cedo demais — e os corredores já ecoavam aquele arrastar de carteiras que só quem viveu escola reconhece de olhos fechados. Um som áspero, cotidiano, quase um despertador da realidade.
Mas, junto com o barulho, vinha outra coisa. Uma espécie de cansaço invisível — uma fadiga moral que pairava no ar como poeira de quadro-negro.
Havia professores extraordinários, claro. Sempre houve. Gente que iluminava a sala só de entrar. Mas, no meio deles, também circulava uma pequena multidão que parecia ter caído ali por acaso — ou por cálculo. Falavam muito de planilhas, carga horária, reajuste. De alunos… nem tanto. Alguns davam aula como quem cumpre turno em repartição: abriam o livro, repetiam o parágrafo e ficavam de olho no relógio, esperando o sinal tocar como quem aguarda uma libertação.
Lembro de um deles. Não vou dizer o nome — a memória também precisa de alguma delicadeza. Ele entrava sempre com pressa, camisa meio desalinhada, pasta debaixo do braço, e começava a falar antes mesmo de pousá-la sobre a mesa. Não era mau sujeito, não. Apenas parecia longe dali, como se a sala de aula fosse um lugar provisório em sua vida. Quando algum aluno arriscava uma pergunta fora do script, ele franzia a testa — não por raiva, mas como quem encontra um buraco inesperado na estrada. A aula seguia. O relógio também.
Só que, na sala ao lado… ah, ali acontecia outra história. Havia uma professora que começava as aulas contando histórias. Às vezes aparecia com um jornal amarelado para explicar uma equação; noutra, inventava um problema que envolvia planejar uma viagem impossível. Também reclamava do salário — quem não reclama? — mas havia nela um detalhe raro: quando explicava alguma coisa, os olhos brilhavam com a curiosidade de quem ainda aprende enquanto ensina. E aluno percebe essas coisas. Aliás, percebe rápido.
Durante muito tempo essas duas espécies conviveram em silêncio dentro da escola: o joio e o trigo, misturados no mesmo campo, compartilhando o mesmo quadro-negro. Até que veio a tempestade.
A pandemia — palavra que ainda hoje soa como sirene distante — virou o mundo de cabeça pra baixo. De repente, a escola cabia dentro de uma tela. Alguns professores desapareceram nesse processo como tinta fraca na chuva. Não necessariamente por maldade, nem sempre por pura incompetência, mas porque ensinar exige uma musculatura interior que não se improvisa quando o chão some debaixo dos pés.
Outros, porém, fizeram algo surpreendente. Aprenderam. Aprenderam a gravar aula, a reinventar exercícios, a falar com alunos que agora existiam em pequenos quadrados luminosos na tela. Descobriram, na marra, que ensinar não é repetir conteúdo. Ensinar é construir pontes — especialmente quando o terreno desaparece. Foi um tempo duro. Cruel, até. Mas também revelador.
Hoje, quando se fala em “novo normal”, muita gente pensa em plataformas digitais, metodologias híbridas, relatórios de inovação. Tudo isso tem seu lugar. Mas quem vive a escola de verdade sabe que a mudança mais profunda aconteceu em outro lugar: na consciência — cada vez mais clara — de que ensinar não é simplesmente um emprego. Ensinar é encontro.
A gente aprende de quem admira. Confia em quem demonstra respeito pelo esforço que fazemos para entender o mundo. Nenhum aplicativo substitui isso — nem hoje, nem daqui a cem anos.
Claro, as velhas tentações continuam rondando os corredores. Há quem ache que o segredo da sobrevivência é agradar: falar só o que os alunos querem ouvir, manter o clima leve, evitar qualquer desconforto. É compreensível — ninguém gosta de desagradar. Mas educação, convenhamos, raramente floresce no terreno da complacência.
O professor que realmente leva o ofício a sério costuma fazer algo incômodo: ele exige. Ele provoca. Ele levanta o sarrafo um pouco mais alto do que parecia confortável. Às vezes parece duro. Às vezes até injusto. Só que, anos depois, alguns alunos percebem o que estava escondido ali: não era dureza — era respeito. Respeito pelo que eles poderiam vir a ser.
Existe, inclusive, uma advertência antiga que atravessa os séculos e parece chegar intacta à sala de aula: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro”. Essa frase não é apenas teológica. Ela é profundamente pedagógica.
Sempre que a educação vira apenas produto — matrícula, meta, indicador — alguma coisa essencial começa a evaporar. Surgem projetos de nomes grandiosos, slogans brilhantes, metodologias embaladas como se fossem a última maravilha do século. Às vezes funcionam, é verdade. Mas, muitas vezes, não passam de vitrines elegantes escondendo prateleiras vazias.
Enquanto isso, nas salas reais — aquelas onde ainda se ouve o arrastar das carteiras — tudo continua dependendo de algo simples e antigo: uma pessoa tentando ajudar outra a compreender melhor o mundo.
No fim das contas, a escola sempre foi um campo onde joio e trigo crescem lado a lado. E, sendo sincero, talvez sempre seja. Mas há uma coisa curiosa sobre os campos. De tempos em tempos, uma tempestade passa. E depois da chuva, quem caminha por ali enxerga com mais clareza o que realmente criou raiz.
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Como professor de sociologia, fico muito feliz em oferecer a oportunidade de trabalhar com um texto tão rico e sensível sobre o papel da educação e do educador. Esse material nos permite discutir conceitos fundamentais como instituição social, trabalho, ética e as transformações sociais provocadas pela tecnologia e por crises globais.
Seguem 5 questões discursivas pensadas para o Ensino Médio, focadas na interpretação sociológica do texto:
1. A Instituição Escolar e o "Novo Normal"
O texto menciona uma mudança do "velho normal" para o "novo normal" após a pandemia. Do ponto de vista sociológico, como a escola se comportou como uma instituição social diante dessa crise? Explique se a mudança foi apenas tecnológica ou se houve uma transformação na função social do professor.
2. Trabalho: Vocação versus Mercantilização
O autor utiliza a citação bíblica sobre "servir a dois senhores" para criticar a educação quando ela vira apenas um "produto" (metas, indicadores, matrículas). Como essa visão se relaciona com o conceito de alienação no trabalho? É possível manter a "humanização" do ensino em um sistema que prioriza resultados quantitativos?
3. Relações de Poder e Autoridade em Sala de Aula
Segundo o texto, o professor que leva o ofício a sério "levanta o sarrafo" e, às vezes, parece duro, mas isso é interpretado como uma forma de respeito ao potencial do aluno. Diferencie a autoridade pedagógica (baseada no reconhecimento e respeito) do autoritarismo (baseado apenas na hierarquia), usando exemplos do texto.
4. O Professor como Agente Socializador
O texto afirma que "a gente aprende de quem admira". Pensando na escola como um agente de socialização secundária, qual a importância do vínculo afetivo e da confiança entre professor e aluno para a construção da cidadania e da identidade do jovem?
5. O Fenômeno da "Educação de Vitrine"
O autor critica projetos com "nomes grandiosos e slogans brilhantes" que, às vezes, escondem "prateleiras vazias". Relacione essa crítica ao conceito de sociedade do espetáculo ou à burocratização do ensino. Como o "ensinar como encontro" (mencionado no texto) pode servir de resistência a essa tendência?

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