O Eterno Retorno ao Chiqueiro: TRANSCENDÊNCIA DA FERRUGEM ("A expansão da consciência é um verdadeiro ato de transcendência." — Samuel Ranner)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Tem coisa que parece sina coletiva. O sujeito mal sai da lama e já começa a sentir saudade do barro. Basta abrir uma frestinha — pronto: lá vem a multidão correndo, ansiosa pra mergulhar de cabeça naquele “velho normal” que a gente conhece tão bem. E, convenhamos, a cena não é nova. Já estava lá, registrada naquele provérbio bíblico, seco e direto: "O cão volta ao seu vômito" e "A porca lavada volta a revolver-se na lama" (2 Pedro 2:22).
Às vezes, é exatamente isso que parece: uma espécie de antropofagia da mediocridade. O sistema mastiga as próprias falhas, engole de novo e, com a maior cara de pau, chama isso de normalidade.
Eu me lembro como se fosse hoje. Final de tarde. Eu chegava em casa com o cansaço grudado nos ombros e um caderno de plano aberto sobre a mesa — desses que não servem exatamente pra ensinar alguém, mas servem muito bem pra provar que você “planejou”. O dilema era sempre o mesmo: ou eu preparava uma aula que prestasse, daquelas que fazem o olho do aluno acender, ou gastava o pouco gás que me restava enchendo página atrás de página com objetivos, metodologias e avaliações que, no fundo, ninguém ia ler de verdade.
E lá ficava eu, barganhando com o tempo como quem negocia com agiota. Porque o jogo era claro. Sem o tal “visto” da coordenadora, vinha o susto: bloqueio de salário, corte de bônus, alguma sanção administrativa surgindo do nada. A chamada meritocracia educacional tinha um tempero curioso: premiava quem melhor dominasse a coreografia burocrática. Ensinar, no fim das contas, virava quase detalhe.
O mais curioso — ou mais triste, dependendo do humor do dia — era o teatro coletivo. As coordenadoras fingiam que avaliavam aqueles cadernos com rigor pedagógico. A gente fingia que planejava com devoção acadêmica. No fundo, todo mundo sabia que aquilo era uma encenação institucional cuidadosamente mantida.
E, claro, sempre havia o atalho conhecido: copiar um plano pronto da internet, dar uma ajeitadinha aqui, outra ali… pronto. Missão cumprida. O documento existia, o carimbo vinha, e a engrenagem continuava girando.
Hoje, com a tecnologia, esse jogo ganhou novas ferramentas. O professorado aprendeu a domar plataformas, montar documentos em série, resolver em minutos o que antes consumia horas. A coordenação também entrou no baile: planilhas, formulários, sistemas digitais. A burocracia, digamos assim, ganhou Wi-Fi.
Mas a pergunta continua ali, cutucando. Será que melhoramos de fato… ou só ficamos mais rápidos no velho esporte nacional do “seleciona, copia e cola”?
Enquanto isso, a escola segue respirando — meio ofegante, é verdade, mas respirando. Entre um clique e outro, entre um formulário e outro, ela vai sobrevivendo. Não porque o sistema seja brilhante, mas porque a vida, teimosa como sempre, insiste em escapar pelas frestas.
O problema é que existe um tipo de normalidade que tem cheiro de chiqueiro. E quando alguém tenta sair dele — quando ousa imaginar outra forma de fazer escola, de pensar educação, de romper com esse ritual de papel carimbado — a reação costuma ser previsível. O sistema se inquieta. Range. Reclama.
Porque o chiqueiro tem uma força silenciosa: ele acostuma. A lama esquenta os pés, o cheiro vira rotina, e logo aparece alguém dizendo que sempre foi assim, que sempre vai ser assim, que mudar dá trabalho demais. E então o ciclo recomeça. A porca lavada volta pra lama.
E a escola, coitada, continua ali, encostada na cerca, esperando o dia em que alguém perceba — finalmente — que ela nasceu pra campo aberto… não pra viver eternamente dentro do chiqueiro.
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Que texto potente para uma aula de Sociologia. Ele toca em feridas abertas da nossa estrutura educacional e social: a burocratização da vida, o fetiche do formulário e a resistência cultural às mudanças reais (o famoso "sempre foi assim").
Como seu professor de Sociologia, selecionei 5 questões que conectam esse cenário "do chiqueiro e da lama" com conceitos fundamentais da disciplina, como a teoria da burocracia de Max Weber e o controle social.
Questão 1
O texto menciona um "teatro coletivo" onde professores fingem que planejam e coordenadores fingem que avaliam, priorizando o "carimbo" em vez do ensino real. Relacione essa situação ao conceito de Burocracia de Max Weber. Até que ponto a busca pela eficiência documental pode acabar sufocando o objetivo principal de uma instituição (neste caso, a educação)?
Questão 2
O autor utiliza metáforas viscerais (o cão que volta ao vômito, a porca que volta à lama) para descrever a resistência ao novo e o desejo pelo "velho normal". Na sociologia, como chamamos o conjunto de pressões e mecanismos que a sociedade exerce para que os indivíduos se comportem de acordo com padrões estabelecidos, mesmo que estes sejam ineficientes? Explique o conceito de Controle Social presente no texto.
Questão 3
O texto afirma que a "meritocracia educacional" muitas vezes premia quem domina a "coreografia burocrática" e não necessariamente quem ensina melhor. Discuta como a Meritocracia, quando aplicada sem considerar as condições reais de trabalho e as falhas do sistema, pode se tornar uma ferramenta de injustiça em vez de incentivo.
Questão 4
Com a chegada da tecnologia, o autor diz que "a burocracia ganhou Wi-Fi", facilitando o "copia e cola". Reflita: o uso de novas tecnologias nas instituições sociais (escolas, empresas, governos) alterou a essência das relações de poder ou apenas acelerou processos antigos e viciados? Justifique com base no texto.
Questão 5
A metáfora final sugere que a escola "nasceu para o campo aberto", mas vive "dentro do chiqueiro" devido ao hábito e ao medo da mudança. Analise a importância da mudança social e dos agentes transformadores. Por que instituições tendem a ser conservadoras e por que é tão difícil romper com o que o autor chama de "sina coletiva"?
Sugestão Pedagógica: Peça aos alunos que identifiquem outras "burocracias vazias" no dia a dia deles (em redes sociais, em outros empregos ou na própria escola) para ilustrar as respostas.
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Uma pessoa só fala mal de mim quando me quer por igual para me proteger. Os iguais se protegem!