A "CORUJA DE MINERVA" EXISTE ("O perigo não é o que anuncia mudança — é o que faz a gente aceitar tudo como se nada precisasse mudar.” — Cifa)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Rapaz… o dia hoje amanheceu com um silêncio estranho — desses que não são vazios, não; são cheios de coisa que a gente ainda não sabe nomear. Quase seis da manhã, aquele azul indeciso, meio frio, prometendo o sol a qualquer instante. Saí pro batente ainda meio grudado no travesseiro, mas com a cabeça longe, fazendo conta da vida, somando cansaço com esperança, dividindo medo por fé. Foi aí que ela apareceu.
Do nada — ou de algum lugar que não é bem “lugar” — uma coruja pousou no meu portão. Sem pedir licença, mas também sem invadir. Só… ocupou. Desceu leve, quase impossível, como se tivesse rasgado o ar e se ajeitado ali, bem na fronteira entre o que eu entendo e o que me escapa. Passei por baixo dela com o coração apertado — não de esforço, mas de pressentimento. E ela? Nada. Nem piscou. Só me encarou com aquele olho antigo, redondo, como quem já viu o fim antes do começo.
Aí, meu amigo, não tem jeito: o pensamento dispara. A gente até tenta bancar o racional, o moderno, mas tem símbolo que atravessa a gente sem pedir passagem. Coruja nunca é só coruja. Vem carregada — de mito, de presságio, de uma sabedoria que não alivia, pesa. Lembrei de Minerva, nascida pronta, armada, saída da cabeça de um deus — como quem já chega sabendo que pensar também é entrar em guerra. E é. Pensar corta. Ver, então, nem se fala.
Segui assim, meio dividido — entre o fascínio e um certo desconforto que não larga fácil. Até agora, nada aconteceu. Nenhum estrondo, nenhuma notícia ruim batendo à porta. Mas também não tive sossego completo. Fica aquela sensação no ar, meio suspensa, como se o dia estivesse me olhando de volta, esperando um movimento — meu ou dele.
Nisso, um gavião que observava tudo lá de cima resolveu agir. Veio num rasante seco, sem rodeio, como quem não filosofa — resolve. A coruja segurou. E eu ali, no meio daquele pequeno espetáculo bruto, torcendo em silêncio, como se aquilo não fosse só instinto, mas recado. Como se, de algum jeito, aquele choque lá no alto pudesse dar conta das brigas que a gente trava por dentro, calado.
E, olha… talvez dê. Ou, no mínimo, ensine. Porque não demorou muito pra cair a ficha: a coruja não tava ali à toa. Não era só mito, não. Era tempo. Era o tempo que a gente anda vivendo, pousando sem pedir licença nos nossos dias. E não foi um corte brusco, não — foi mais como um fio sendo puxado devagar, ligando uma coisa na outra. Afinal, já faz tempo que a gente acorda com essa inquietação no peito. Já faz tempo que o mundo chega antes do café.
A pandemia — palavra pesada, dessas que ainda ecoam — não entrou na nossa vida de uma vez. Foi chegando de mansinho, igual a coruja: discreta, inevitável… e, quando a gente viu, já tava ali, ocupando tudo. Desde então, a gente vive nesse meio-termo estranho: entre o que parece aviso e o que já virou consequência.
E o tempo de plantar? Passou. Sem alarde. Agora é colheita — e, convenhamos, nem sempre é boa. Tem um gosto atravessado no que amadureceu. Um quê de coisa fora do lugar, como se a vida tivesse invertido o ciclo e a gente estivesse andando de ré, tentando entender em que ponto a conta desandou. Mesmo assim… eu não cedo fácil, não.
E nem é teimosia, viu? É quase sobrevivência. É segurar um fiapo de humor, um restinho de luz no olhar, uma vontade — ainda que tímida — de encontrar o outro, mesmo que de longe, mesmo que cheio de cuidado. Porque, no fundo, é isso que segura a gente: continuar tentando quando tudo conspira pro contrário.
E tem mais: quanto mais o mundo pesa, mais escancarada fica uma distorção antiga. A gente se acostumou com o sofrimento. Naturalizou o cansaço, a dureza, o desgaste. Como se fosse normal. Como se fosse regra. Mas não é.
Felicidade não devia ser exceção, prêmio raro, bônus de ocasião. Não mesmo. O normal era ser leve — ou, pelo menos, mais justo. Talvez seja esse o recado da coruja. Não um aviso de desgraça, mas um incômodo necessário. Porque pensar dói, enxergar incomoda — mas é justamente aí que mora a chance de virar o jogo.
Se ainda existe alguma sabedoria possível nesses dias tortos, ela começa por isto: não aceitar como regra aquilo que nasceu pra ser desvio. E enquanto o mundo continua pousando nos nossos portões, sem aviso, sem cerimônia… o que sobra pra gente é segurar a própria escolha. Não endurecer de vez. Não virar pedra. Mesmo sabendo que não é simples. Mesmo sabendo que, às vezes, o gavião nem chega. Ainda assim… a gente segue.
-/-/-/-/-/-/-/-/-/--/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/
Olá! Como seu professor de sociologia, preparei estas questões para te ajudar a refletir sobre como os símbolos, os mitos e o contexto social (como a pandemia) moldam a nossa percepção da realidade e das relações humanas. Aqui estão 5 questões discursivas baseadas no seu texto:
1 Símbolos e Imaginário Social: O texto menciona que "Coruja nunca é só coruja" e cita a figura de Minerva. Na sociologia, como os símbolos e mitos influenciam a maneira como os indivíduos interpretam eventos cotidianos e lidam com o medo do desconhecido?
2 Impacto das Crises Globais na Subjetividade: O autor compara a chegada da coruja à forma como a pandemia entrou em nossas vidas: "discreta, inevitável... ocupando tudo". De que maneira grandes crises sanitárias ou sociais alteram a rotina e o comportamento emocional das pessoas em sociedade?
3 Naturalização do Sofrimento: O texto afirma que "naturalizamos o cansaço, a dureza, o desgaste" como se fossem regras da vida. Explique, sob uma ótica sociológica, o risco de a sociedade passar a enxergar situações de precariedade ou sofrimento como algo "normal" ou "natural".
4 Trabalho e Cotidiano: O relato começa no momento em que o narrador sai para o "batente", misturando "cansaço com esperança". Como a pressão por produtividade e as incertezas do mundo do trabalho atual afetam o bem-estar e a saúde mental do trabalhador moderno?
5 Resistência e Laços Sociais: Mesmo diante de um cenário pesado, o narrador fala sobre a "vontade de encontrar o outro" e não "virar pedra". Qual é a importância da manutenção dos laços afetivos e da solidariedade para a preservação da nossa humanidade em tempos de isolamento ou crise?
Espero que essas questões ajudem você a mergulhar nas camadas sociais desse texto tão sensível! Bom estudo!

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Um leitor competente faz a diferença.
Uma pessoa só fala mal de mim quando me quer por igual para me proteger. Os iguais se protegem!