O Teatro do Absurdo: entre máscaras, megafones e plateias cansadas ("DIDÁTICA. A sutil diferença entre um professor e uma pessoa comum." — Míssola Arezza)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Sempre tem aquele professor que fala pra dentro, quase sussurrando pra própria consciência, e não alcança nem a terceira fileira. A crítica vem ligeira, afiada: “não tem didática”. Mas, peraí… e quando o sujeito tá de máscara, no auge de uma pandemia, com o ar curto e o medo pairando feito poeira invisível na sala? A régua muda, ué. Mudam os critérios, mudam as certezas — e o que ontem era falha hoje vira ato de resistência. É curioso como o vento das circunstâncias redefine virtudes e pecados.
A verdade é que a gente passou a viver num palco onde o avesso recebe aplauso. O feio desfila como belo, o raso posa de profundo, e a incoerência ganhou camarim cativo. Não é força de expressão: é espetáculo mesmo. Tem ator convicto, plateia histérica e um roteiro que mistura tragédia e pastelão na mesma cena. Em Samuel Beckett, os personagens esperavam Godot; por aqui, a gente espera bom senso — e ele também vive se atrasando. Já Eugène Ionesco transformava homens em rinocerontes; hoje, basta wi-fi e um celular na mão pra surgir mais um especialista instantâneo, diplomado pela própria timeline.
E então veio a pandemia — não só com vírus, mas com lives em excesso, certezas enlatadas e uma safra generosa de “autoridades” brotando como mato depois da chuva. A timeline virou megafone. De repente, todo mundo tinha a fórmula da felicidade, o protocolo infalível, a verdade absoluta — amém. O ruído foi tanto que até as cigarras, que antes anunciavam a primavera, pareciam imitar moto sem escapamento. Era cada um acelerando sua opinião, competindo por atenção num mundo que já não escuta — só reage.
No calor dessa febre opinativa, ciência virou trincheira; descrença, bandeira. Teve negacionismo irresponsável, sim. Teve também dogmatismo cego. E, no meio desse cabo de guerra, as nuances — ah, as nuances — ficaram pelo caminho. Hackers e algoritmos operaram como iluminadores enviesados: focaram no escândalo, deixaram a ponderação na penumbra. Fake news não brotaram do nada; foram fabricadas, impulsionadas, monetizadas. O caos tinha método. E plateia.
Quando o debate político entrou em cena, o público já estava dividido antes da primeira fala. Palavras viraram pedras. Rótulos tomaram o lugar dos argumentos. Criticar um lado passou a significar, quase automaticamente, defender o outro. Só que não. Se o teatro do absurdo ensina alguma coisa, é que a irracionalidade não tem partido fixo — ela troca de figurino conforme a conveniência e sempre encontra aplauso disposto.
E esse tal patriotismo, tão invocado quanto esvaziado? Não se mede no grito mais alto nem na destreza em ofender autoridade. Discordar é da democracia; transformar divergência em campeonato de humilhação é outra história. Amar um país talvez seja menos sobre idolatrar governantes e mais sobre cuidar do que é comum — instituições, vínculos, responsabilidade compartilhada. É menos performance, mais compromisso.
No fim das contas, prefiro não emprestar voz pra fechar a cortina. Falo eu mesmo: enfrentar um vírus invisível já é duro; enfrentar a epidemia da superficialidade é ainda pior. E enquanto a gente insistir em confundir palco com vida real, vai continuar aplaudindo o absurdo — sem notar que também tá em cena, decorando falas que nem percebe que aprendeu.
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Olá! Como seu professor de sociologia, preparei cinco questões discursivas baseadas no texto, focando em conceitos como a "Sociedade do Espetáculo", o papel das redes sociais na formação de opinião e a crise do debate público contemporâneo.
1 A Sociedade do Espetáculo e a Superficialidade: O texto afirma que "vivemos num palco onde o avesso recebe aplauso". Relacione essa frase ao conceito de espetacularização da vida social. Como a busca por "likes" e visibilidade pode transformar a seriedade de temas como uma pandemia em um "espetáculo"?
2 Cidadania e Especialismo Digital: O autor menciona que "basta wi-fi e um celular na mão pra surgir mais um especialista instantâneo". Do ponto de vista sociológico, como essa democratização técnica do acesso à fala, sem o rigor do conhecimento, afeta a autoridade científica e a confiança nas instituições?
3 Bolhas Sociais e Algoritmos: O texto refere-se a "hackers e algoritmos" como "iluminadores enviesados". Explique como o funcionamento das redes sociais pode contribuir para a polarização política, impedindo que as pessoas escutem opiniões divergentes e favorecendo o que o autor chama de "dogmatismo cego".
4 Patriotismo vs. Performance: Segundo o autor, o patriotismo é "menos performance, mais compromisso". Diferencie o patriotismo baseado em símbolos e ataques a autoridades (mencionado no texto) do patriotismo focado no "cuidar do que é comum". Qual deles é mais vital para a manutenção da democracia?
5 A "Epidemia da Superficialidade": No fechamento, o autor alerta sobre o perigo de "confundir palco com vida real". Como o comportamento de "decorar falas que nem percebe que aprendeu" (reprodução de discursos prontos) prejudica a autonomia do indivíduo e o pensamento crítico na sociedade atual?
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