"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

Pesquisar neste blog ou na Web

MINHAS PÉROLAS

quarta-feira, 22 de março de 2023

REPESCANDO ALUNOS DISPERSOS PELA PANDEMIA: quando a Educação encena e a verdade insiste em permanecer ("Não existe mau aluno, só mau professor. Professor diz, aluno faz." — Senhor Miyagi)

 


REPESCANDO ALUNOS DISPERSOS PELA PANDEMIA: quando a Educação encena e a verdade insiste em permanecer ("Não existe mau aluno, só mau professor. Professor diz, aluno faz." — Senhor Miyagi)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Olha, vou te falar — sem rodeio, mas ainda com aquele resto de esperança que teima em não morrer: tem algo de profundamente cênico na Educação de hoje. E não é no bom sentido, não. É um teatro cansado, desses em que os atores já nem lembram por que subiram ao palco. Simula-se quase tudo: a prova, a disciplina, a legalidade… e até essa tal “proximidade”, que muitas vezes não passa de maquiagem social. Até as greves, que deveriam ecoar como grito, às vezes soam como cena ensaiada. E assim, a escola — que já foi chão firme — vai virando cenário móvel: bonito de longe, oco por dentro.

Agora, também não dá pra parar só no diagnóstico, né? Porque, apesar de tudo, ainda pulsa alguma coisa viva por baixo dessa encenação. O nó da questão é que, no meio desse enredo, a gente passou a confundir movimento com sentido. Faz-se de tudo um pouco, mas quase nada com profundidade. Enfeitam-se crianças de “índio”, de coelho que põe ovo, e pronto: tá feito o espetáculo. Aí vêm os nomes pomposos — “trilhas de aprofundamento” — como se batizar bonito resolvesse o vazio. Quando, na real, mal se arranha a superfície.

E as reuniões pedagógicas? Viraram verdadeiros quartéis-generais de estratégia. Só que estratégia, quando vira vício, deixa de ser ferramenta e passa a ser muleta. Planeja-se a próxima reunião pra justificar a anterior… e assim vai, num giro infinito que não sai do lugar. Um samba torto, repetido, que cansa até quem ainda tenta acompanhar o compasso.

E, no meio dessa coreografia toda, falta o mais básico: parar e perguntar — com honestidade mesmo — o que, afinal, vale a pena ensinar… e pra quê.

Quando alguém resolve “agir”, a solução aparece quase no susto: “vamos buscar o aluno em casa”. Olha, intenção boa até tem — e isso precisa ser reconhecido. Mas também tem um desconforto aí que não dá pra varrer pra debaixo do tapete. A linha entre cuidado e invasão é fina, delicada. Professor não é cobrador de presença, nem pode virar agente de resgate social improvisado. Educação não se impõe na porta de ninguém. Ela nasce — ou não nasce — no vínculo. E vínculo, convenhamos, não brota de pressão; brota de sentido, de encontro, de verdade.

Ainda assim, tem uma pergunta que insiste — e ela é incômoda, mas necessária: se o aluno foi embora, o que foi que se quebrou antes? Talvez o ponto não seja “como trazê-lo de volta?”, mas “por que ele não quis ficar?”.

A pandemia… ah, essa bagunçou mais do que a gente gosta de admitir. Não levou só a saúde, não — levou um pedaço do nosso eixo. Escancarou fragilidades que já estavam ali, só que disfarçadas pela rotina. A escola sentiu — e sentiu fundo. Teve hora em que parecia que tudo tinha murchado: o ânimo, o propósito, a clareza do caminho.

Mas — e isso importa — nem tudo se perdeu. Porque, mesmo nesse cenário meio esgarçado, ainda tem professor que resiste. E não é com pirotecnia, não — é com presença. Daquelas que não se mede em relatório. Ainda existem salas em que o silêncio não é abandono, é atenção. Ainda acontecem encontros em que algo verdadeiro atravessa — às vezes pequeno, quase invisível, mas real.

Talvez seja aí, nesse quase, que mora a fresta. Não em soluções grandiosas, nem em discursos inflados, mas num retorno ao essencial. Um movimento mais honesto: reconhecer o que não funciona, largar o que é só encenação e reconstruir, aos poucos, o que faz sentido. Menos espetáculo, mais substância. Menos técnica pra convencer, mais verdade pra sustentar.

Porque, no fim das contas, quem vive só de estratégia até pode parecer competente. Mas é a honestidade com a realidade — nua, crua, sem maquiagem — que devolve à Educação aquilo que ela nunca deveria ter perdido: a capacidade de formar gente de verdade, e não plateia. E, apesar de tudo… ainda dá tempo.

-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/

Olá! Como professor de sociologia, fico muito feliz em entregar um texto que provoca uma reflexão tão profunda sobre as instituições sociais, especialmente a Escola. O texto que trago toca em conceitos fundamentais como a Sociedade do Espetáculo (Guy Debord), o Simulacro (Jean Baudrillard) e a crise das instituições na modernidade. Para ajudar meus alunos a mergulharem nessas ideias de forma crítica, elaborei também estas 5 questões discursivas que conectam o texto aos conceitos sociológicos:

1. O Conceito de Simulacro:

No início do texto, afirma-se que "quase tudo na Educação de hoje é simulacro". Explique, com base na leitura, o que o autor quer dizer com "simular a prova, a disciplina e a legalidade" e como isso afeta a função real da escola na formação do indivíduo.

2. A Escola como Espetáculo:

O autor menciona o uso de "nomes pomposos" para atividades superficiais, como enfeitar crianças e chamar de "trilhas de aprofundamento". Relacione esse trecho à ideia de que a aparência se tornou mais importante que a essência. Por que o texto afirma que isso "mal arranha a superfície"?

3. Burocratização e Estratégia:

O texto critica as reuniões pedagógicas que viraram "quartéis-generais de estratégia", onde se planeja a próxima reunião para justificar a anterior. Do ponto de vista sociológico, como essa "burocracia do vazio" pode impedir que o professor se concentre no que o autor chama de "o mais básico: o que vale a pena ensinar"?

4. O Vínculo versus a Coerção:

Ao discutir a busca ativa de alunos em casa, o texto afirma que "Educação não se impõe na porta de ninguém. Ela nasce no vínculo". Discuta a diferença entre o papel do professor como "agente de resgate" e o papel do professor como mediador de um conhecimento que faça sentido para a vida do aluno.

5. Crise Institucional Pós-Pandemia:

Segundo o autor, a pandemia "escancarou fragilidades que já estavam ali". Quais seriam essas fragilidades da escola moderna que o distanciamento social apenas evidenciou? Use trechos do texto para sustentar sua resposta sobre o "murchar do propósito" educativo.

Dica para o professor: Ao corrigir, valorize a capacidade do aluno de identificar que a "encenação" citada no texto é uma crítica à perda de sentido das relações humanas dentro das instituições. Essas questões buscam tirar o aluno da passividade e fazê-lo pensar sobre a própria realidade escolar.

Comentários

Nenhum comentário: