ALUNOS QUE EVOLUÍRAM OU SE ADAPTARAM ("Conheci muitos canalhas no passado e hoje percebo que os mesmos evoluíram ao canalhismo." — Elias Torres)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Olha, vou te falar: ainda é de cair o queixo — mas já não é só espanto. É um cansaço antigo, desses que a gente aprende a domar, que antes de julgar prefere observar. Fico aqui, no silêncio que sobra entre uma explicação e outra, espiando essa garotada do fundamental II e tentando entender o que foi que se perdeu no caminho. Porque, sim, mudou — e não foi pouco. O respeito pela autoridade do professor não sumiu de repente; foi se diluindo devagarinho, feito tinta em água demais, até quase desaparecer.
Agora, também não dá pra jogar tudo nas costas deles, como se tivessem acordado assim por capricho. Esses meninos já chegam atravessados por um mundo barulhento, apressado, que promete tudo pra ontem e transforma opinião em verdade absoluta num piscar de tela. Cresceram ouvindo que têm voz — e têm mesmo, ainda bem —, mas quase ninguém ensinou o valor de escutar. E aí, no meio desse ruído todo, o professor, que antes era porto seguro, virou só mais uma voz tentando não se afogar.
Tem, claro, uma distorção perigosa nesse discurso de igualdade mal mastigado — aquele “ninguém é melhor que ninguém” que, quando perde o rumo, vira desculpa pra ignorar quem estudou, quem se preparou, quem tem o que ensinar. Só que o problema não é a ideia; é o descuido com ela. É a troca do rigor pelo improviso, da construção pelo atalho. Confunde-se igualdade de dignidade com negação de esforço — e, nesse embaralhamento, os alunos também se perdem. Não são vilões. Na maioria das vezes, são só náufragos tentando boiar.
Dar aula expositiva hoje? Olha… é quase um ato de teimosia. A cada frase, uma interrupção; a cada linha de raciocínio, um ruído que corta. Eles falam, opinam, rebatem — o que, em si, não é ruim —, mas nem sempre conseguem sustentar o que dizem. E, no fundo, a pressa não é de aprender; é de cumprir tabela: a nota, o boletim, o próximo degrau. O conhecimento, que devia acender luz, muitas vezes nem chega a faiscar — fica ali, morno, esquecido no canto.
Mas — e talvez seja isso que ainda me segura — existem brechas. Pequenas, raras, mas teimosas. Um olhar que fixa de verdade. Uma pergunta que não é só pra preencher silêncio. Um instante de quietude que não é desinteresse, é atenção pura. É pouco? É. Mas é ali que mora o fiapo de esperança que ainda me puxa de volta quando o cansaço pesa demais.
E, sendo sincero, eu já devia estar aposentado, curtindo a paz que prometi a mim mesmo lá atrás. Só que a burocracia… ah, essa tem um dom quase cruel de nos manter onde a gente já não cabe direito. Sigo, meio em marcha lenta — não por falta de vontade, mas por desgaste. Ensinar cansa quando parece que o chão cede sob o próprio passo.
E o sistema… bom, o sistema precisa ser dito sem floreio: ficou pesado, travado, mais preocupado em se sustentar do que em sustentar quem está dentro dele. Tem falha que não é do aluno, nem só do professor — é da engrenagem inteira, que perdeu o sentido e continua girando por pura inércia.
Esse desrespeito que a gente vê em sala não brota do nada. É sintoma. Falta limite? Falta. Mas falta também propósito — algo que faça todo mundo acreditar, de verdade, no que está sendo construído ali. Porque, quando ninguém acredita, tudo vira fachada. E fachada, você sabe, não sustenta vínculo.
Ainda assim, eu fico. Entre o cansaço e a teimosia, escolho ficar mais um pouco. Porque, no fundo — lá no fundo mesmo — ainda acredito: ensinar não é só despejar conteúdo. É insistir, quase em silêncio, que o conhecimento pode, sim, mudar alguém. Mesmo quando esse alguém ainda nem percebeu isso.
-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/
Olá! Como professor de sociologia, vejo nesse texto um material riquíssimo para discutirmos não apenas a educação, mas como a nossa sociedade está se transformando e como essas mudanças batem à porta da sala de aula. Eu trago reflexões profundas sobre autoridade, o papel do conhecimento e a crise das instituições. Para ajudar meus alunos a mergulharem nessas ideias de forma simples, mas crítica, preparei estas 5 questões:
1 A Diluição da Autoridade: O texto afirma que o respeito pela autoridade do professor foi se "diluindo devagarinho". Do ponto de vista sociológico, como as mudanças na forma como a sociedade enxerga as hierarquias podem ter influenciado essa percepção dos alunos?
2 O Valor da Escuta no Mundo Digital: O autor menciona que os jovens vivem em um "mundo barulhento" que promete tudo rápido e transforma opiniões em verdades. De que maneira esse ambiente digital e acelerado dificulta o processo de aprendizado, que exige silêncio e escuta?
3 Igualdade vs. Reconhecimento do Esforço: O texto faz uma distinção importante: "confunde-se igualdade de dignidade com negação de esforço". Explique, com suas palavras, por que o discurso de que "ninguém é melhor que ninguém" pode se tornar perigoso quando usado para ignorar o preparo e o estudo de alguém.
4 A Escola como "Cumprimento de Tabela": O autor diz que a pressa dos alunos muitas vezes não é de aprender, mas de "cumprir tabela" (notas, boletins). Por que podemos dizer que a educação perde seu sentido social quando o foco se torna apenas o resultado burocrático e não o conhecimento que "acende a luz"?
5 O Problema Sistêmico: Segundo o texto, o desrespeito em sala de aula não é apenas um problema individual do aluno, mas um "sintoma" de algo maior. O que o autor quer dizer quando afirma que a "engrenagem inteira" do sistema educacional está perdendo o sentido?
Dica pedagógica: Ao aplicar essas questões, incentive os alunos a pensarem se eles se identificam com os "náufragos" mencionados no texto e como eles acham que o "vínculo" entre professor e aluno poderia ser reconstruído.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Um leitor competente faz a diferença.
Uma pessoa só fala mal de mim quando me quer por igual para me proteger. Os iguais se protegem!