A HOSTILIDADE DE QUEM ENSINA: O Giz, o Grau e o Teatro de Sombras ("Divergência de opinião jamais deve ser motivo para hostilidade". — Mahatma Gandhi)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
A pergunta veio de mansinho — mas, olha, de inocente não tinha nada. Uma menina do 7º ano me encarou e soltou: Se eu era “formado de verdade” pra dar aula? Assim, seco. Aquilo não nasceu ali. Tinha dedo, tinha ensaio, tinha bastidor. Criança, quando duvida desse jeito, raramente duvida sozinha. O susto nem foi a pergunta — foi o eco. Dias depois, um aluno do Ensino Médio puxou o mesmo refrão, só que com mais convicção, como se medisse meu valor com régua emprestada. Aí já não era dúvida, não. Era tentativa de apequenar. E eu, veja só, tive que fazer o que mais me atravessa: abrir os diplomas, pôr tudo na mesa, como quem mostra documento numa fronteira invisível — só pra provar que podia passar.
Mas o incômodo, no fundo, não vinha deles. Nunca veio. O que pegava mesmo vinha de outro lugar — mais adulto, mais frio, mais calculado. No rastro daquilo, senti o cheiro azedo de vaidade ferida. Um certo “pseudointelectual” da área — desses que vestem erudição como quem veste terno alugado — se incomodou com a minha presença, com meu jeito sem verniz, com essa tal “caipiraneidade” que não pede licença pra existir. E aí fez o que esse tipo faz melhor: não veio de frente, não dialogou — soprou. Espalhou dúvida pelos cantos, usando voz de outros. Um teatro de sombras: ninguém se mostra por inteiro, mas todo mundo quer mandar na cena.
Só que tem uma coisa que esses estrategistas de corredor esquecem: criança vê. E, quando vê, aprende — e, às vezes, devolve. A menina, que serviu de ponte, virou espelho. Sacou o jogo e tratou o segredo como moeda. Eu, por minha vez, entrei na encenação de propósito: fiz de conta que eu e o tal colega éramos quase íntimos, como quem ignora o fio que mexe os bonecos. Resultado? Quase cômico. A trama se desfez sozinha, tropeçando na própria malícia. No fim, ninguém cresceu. Mas teve quem saísse menor do que entrou.
Agora, se me perguntarem se sou um “bom professor” — desses certinhos, que seguem cartilha, preenchem formulário com fé e cumprem ritual sem piscar — talvez eu decepcione: não sou. E não é por desleixo, não. É cansaço. É desgaste. O sistema, esse sim, funciona redondo: mói, repete, descarta. Trinta anos carregando piano nas costas, tentando afinar uma orquestra que insiste em tocar desafinada, e o que volta é um silêncio burocrático que não responde nada. Sugestão vira ata. Ideia vira arquivo morto. E a esperança… ah, a esperança vai virando teimosia, quase um vício de resistência — porque desistir, no fim das contas, também dá um trabalho danado.
A escola, que era pra ser abrigo, vira trincheira. O peso no ar nem faz barulho, mas esmaga. Todo dia tem um aluno que solta: “por que o senhor veio hoje?”. E não é nem deboche — é espanto mesmo, como se a presença de um professor fosse coisa fora de lugar. Na sala dos professores, o cansaço entorta o humor: a dor alheia vira alívio passageiro. Não é maldade pura, não — é sobrevivência torta. E, nesse cenário, o tal “acolhimento incondicional” vira frase bonita pra maquiar abandono de critério. Vai-se aceitando tudo, desde que a conta feche lá no fim do mês.
E, mesmo assim… eu venho. Não é pelo sistema. Não é pelos colegas. E, sinceramente, nem por diploma nenhum que precise ser exibido como escritura de existência. Eu venho por causa desses choques miúdos, desses instantes em que a máscara escorrega e alguém — um aluno, uma menina, ou até eu mesmo — enxerga o que tá por trás. Porque, no fundo, nunca foi sobre dar aula. Sempre foi sobre resistir.
E resistência, vamos combinar, não se aprende em faculdade nenhuma. Isso aí a gente escreve no corpo — e, quando aperta, sangra na página.
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Olá! Como professor de sociologia, fico feliz em ajudar com esse alinhamento construtivo. O texto que lhes apresento é riquíssimo para debatermos conceitos como relações de poder, instituições sociais, capital cultural e a precarização do trabalho. Aqui estão 5 questões discursivas, elaboradas com uma linguagem simples, mas que estimulam a reflexão crítica dos alunos do Ensino Médio:
1. O Jogo de Poder no Corredor
No texto, o autor menciona um "pseudointelectual" que usa intermediários para questionar sua formação. De acordo com o que estudamos sobre relações de poder e hierarquias sociais, por que o colega optou por "soprar" a dúvida em vez de um diálogo direto? O que isso revela sobre a ética nas instituições?
2. O Capital Cultural e a "Caipiraneidade"
O narrador afirma que sua "caipiraneidade" foi vista como uma ameaça. Relacione esse conceito ao de Capital Cultural (de Pierre Bourdieu): Por que modos de falar ou origens regionais diferentes do "padrão erudito" ainda são usados para desqualificar indivíduos no ambiente profissional?
3. A Escola como Instituição e "Moedora de Gente"
O autor descreve a escola não como um abrigo, mas como uma "trincheira" e um sistema que "mói, repete e descarta". Pensando na função social da escola, como a burocracia e a falta de escuta das ideias dos professores (mencionadas no texto) podem contribuir para o que chamamos de alienação do trabalho?
4. A Ética da Sobrevivência na Sala dos Professores
O texto narra que, na sala dos professores, a falta ou o sofrimento de um colega às vezes vira "alívio passageiro" (folga). Do ponto de vista sociológico, como as condições precárias de trabalho e o esgotamento físico/mental podem enfraquecer a solidariedade entre os trabalhadores?
5. Resistência vs. Sistema
Ao final, o professor diz que "nunca foi sobre dar aula, sempre foi sobre resistir". Como a escola, enquanto aparelho ideológico, tenta moldar o comportamento do professor e de que forma o ato de "continuar vindo" (apesar de tudo) pode ser interpretado como um ato de resistência política?
Dica pedagógica: Ao aplicar essas questões, incentive os alunos a trazerem exemplos que eles observam no cotidiano da própria escola, promovendo o que chamamos de "imaginação sociológica" (conectar a biografia individual com a estrutura social).
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