O Teatro das Urnas Escolares: POVO SUFRAGISTA, TOLOS COM INICIATIVA ("Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar." — João Batista Figueiredo)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Engraçado… basta chegar eleição pra gestor escolar que o roteiro se repete — meio torto, meio automático, e, pior, sem nenhum constrangimento. Surge, então, a figura quase folclórica do candidato único: sozinho no papel, mas cercado por expectativas, pressões e, sobretudo, silêncios que pesam mais do que qualquer disputa. É como correr sozinho… e, ainda assim, ter medo de não chegar.
Porque ali, convenhamos, o silêncio não ajuda — atrapalha, e muito. Nada de “quem cala consente”. Aqui, quem cala complica. O eleitor precisa aparecer, dar as caras, legitimar o óbvio. E, no meio desse ritual meio engessado, sempre tem alguém, num tom quase doméstico, que orienta:
— “É só marcar o quadradinho.”
Pronto. Resolvido. Ou quase. Mas é justamente aí que o incômodo começa a cutucar. Vota-se em quem, exatamente, quando só existe um nome? Não é escolha — é protocolo. Um carimbo coletivo numa decisão que já veio pronta, embalada e entregue antes mesmo da urna ser ligada. E deixar em branco? Dizem que é omissão. Mas, cá entre nós, será que participar desse jogo não é também uma forma mais sofisticada de silêncio?
Eu fico olhando isso de longe — e não nego, com um certo cansaço atravessado no peito. Já vi esse filme. Já comprei esse ingresso. Hoje, assisto com outro olhar: reparo no aperto de mão que demora um segundo além do necessário, no sorriso que não sustenta o próprio peso, na promessa que já nasce fadigada, quase pedindo desculpa por existir.
O curioso — ou trágico, depende do humor do dia — é que ninguém quer entrar no jogo, mas quem entra não larga o osso. E, argumentam os eleitores que, de repente, quando menos se espera, pode aparecer um nome novo, um interventor qualquer, como se tivesse saído de uma porta lateral que ninguém viu abrir. Explicação? Rara. Transparência? Só no discurso — e olhe lá. Então é melhor este.
Quando chega a eleição, então, tudo ganha pressa. O roteiro acelera. Vem o tapinha nas costas, o abraço mais demorado, a palavra doce. Tudo muito humano, muito próximo… até não ser mais. Porque depois — ah, depois — vem o empurrão. E a gente aprende, quase sempre tarde demais, que ali o afeto tem prazo de validade e contrato não assinado.
E não, não falo isso por amargura barata. Falo porque já estive ali, de algum jeito. Já acreditei em palavras bem postas, em discursos que pareciam firmes — e que, no fim, se revelaram ocos, como balão cheio demais: bonito de longe, vazio por dentro. Existe uma encenação cuidadosa nesses gestos, uma coreografia ensaiada: promessas, elogios, aproximações repentinas… tudo muito convincente — até o momento em que deixa de ser.
Talvez — e isso me incomoda admitir — o problema não esteja só em quem sobe ao palco, mas em quem aceita o espetáculo sem questionar o script. Porque, no fim, é a plateia que legitima a peça. Coloca-se alguém no topo meio na pressa, meio no susto… e, pouco depois, começa aquele movimento discreto, quase silencioso, de puxar o tapete.
E aí me vem à cabeça, como um sussurro antigo, essa estranheza das relações humanas: mudam rápido, se desfazem fácil, seguem uma lógica que nem sempre faz sentido — mas insiste em se repetir.
No fim das contas, o que assusta não é só o candidato único, nem o sistema que o sustenta. É algo mais banal — e, justamente por isso, mais perigoso: a mistura de ingenuidade com iniciativa. Porque não há força mais imprevisível do que alguém que age sem entender direito o jogo em que está metido.
E talvez seja isso que transforme tudo, de fato, num teatro. Não o palco, nem os atores — mas a plateia que, mesmo desconfiada, permanece ali… aplaudindo.
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Olá! Como seu professor de sociologia, fico muito contente em ver seu interesse em analisar criticamente as estruturas de poder que nos cercam, mesmo aquelas que parecem "menores", como uma eleição escolar. O texto que trago é um prato cheio para discutirmos conceitos como legitimação, alienação política e a encenação do poder. Utilizo a metáfora do "teatro" para descrever um processo que deveria ser democrático, mas que, na prática, muitas vezes se torna apenas um ritual vazio. Para te ajudar a fixar esses conceitos e refletir sobre a obra, preparei 5 questões discursivas simples e diretas.
1. O Protocolo da Escolha
O texto afirma que, em uma eleição de chapa única, o voto deixa de ser uma "escolha" para se tornar um "protocolo". Explique, com suas palavras, por que a falta de concorrência pode enfraquecer o caráter democrático de um processo eleitoral.
2. A Legitimação pelo Silêncio
O autor menciona que "o silêncio não ajuda — atrapalha" e que é necessário "legitimar o óbvio". Como a participação do eleitor (mesmo que apenas para "marcar o quadradinho") serve para dar validade a um sistema que já tem um resultado definido?
3. A Encenação Política
A crônica descreve gestos como "o tapinha nas costas" e o "sorriso que não sustenta o próprio peso". Relacione esses comportamentos ao conceito de "teatro" mencionado no texto. O que esses gestos buscam esconder?
4. O Papel da Plateia
Segundo o texto, "é a plateia que legitima a peça". Na sua visão, qual é a responsabilidade dos eleitores (estudantes, pais e professores) na manutenção de sistemas que eles próprios consideram "estranhos" ou "irracionais"?
5. A "Ingenuidade com Iniciativa"
O autor termina dizendo que o mais perigoso é a "mistura de ingenuidade com iniciativa". Por que agir dentro de um sistema político sem entender as suas regras e intenções pode ser considerado um risco para a própria comunidade escolar?
Dica do Prof: Ao responder, tente pensar em situações que você já viu na escola ou na sua cidade. A sociologia fica muito mais viva quando a gente olha para a nossa realidade! Bons estudos e capriche na análise!
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