O PENSAMENTO: DESMATERIALIZAÇÃO DO QUE EXISTE ("A esperança é a materialização do nada." – Isabel Monteiro)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Para pra pensar — mas pensar de verdade, sem pressa, sem pose. E se a gente não fosse tão original quanto gosta de acreditar? E se o pensamento não nascesse da gente, mas apenas atravessasse a gente?
Pois é… às vezes me bate essa suspeita meio incômoda: pensar não é criar — é captar. Como se as ideias já estivessem no ar, feito poeira de luz, esperando um pulmão distraído que as puxe pra dentro. A gente não pare ideia nenhuma… a gente pesca.
E, cá entre nós, como explicar duas pessoas, em cantos opostos do mundo, tendo a mesma sacada quase ao mesmo tempo? Coincidência demais já começa a cheirar a outra coisa. Talvez o acontecimento seja o mesmo — o que muda é o jeito que cada um sente o impacto, mastiga e devolve pro mundo com a própria assinatura.
No fim das contas, a tal da originalidade mora mais na reação do que na criação. E isso desmonta um bocado de fantasia bem vendida por aí. Esse discurso inflado, com cara de palco iluminado, sussurrando no ouvido da gente: “você é um deus”. Olha… vou te dizer: tem dia que a gente quase compra essa ideia.
Eu já quase comprei. Teve um tempo em que eu acreditei — ou quis acreditar — que bastava desejar com força suficiente pra entortar a realidade, como se o mundo fosse barro fresco na palma da minha mão. Era bonito, sedutor até. Dava uma sensação de poder… mas também tinha algo de frágil, de infantil. Porque a vida, quando responde, responde com um “menos” bem colocado — e pronto, coloca a gente de volta no eixo.
E aí não tem muito pra onde correr. As coisas já estão aí. Sempre estiveram. A gente rearranja, combina, adapta, transforma — mas criar do nada? Sinceramente… não se sustenta muito tempo. Como já disse Lavoisier, sem firula: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.
É uma dança contínua de reaproveitamentos. Uma espécie de reciclagem cósmica, silenciosa e inevitável. E, no meio desse movimento todo, o pensamento aparece — não como dono da festa, mas como quem observa, aprende e participa. Talvez por isso ele se pareça mais com eco do que com grito. Ou melhor: com um grito que começou antes da gente e só encontrou passagem aqui dentro.
Lembro de João Cabral de Melo Neto, em Tecendo a Manhã, quando solta essa: “Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos.” Pronto. Não precisa de mais nada. Nenhuma ideia nasce isolada. Pensar é um ato coletivo — uma costura invisível de vozes que se cruzam, se respondem, se prolongam.
A gente pensa junto, mesmo quando jura que tá pensando sozinho. Agora, tem um ponto delicado aqui — e é onde muita gente escorrega feio. Quando esse processo todo é simplificado num atalho meio místico: “pensou, criou”. Como se bastasse imaginar pra que o mundo obedecesse. Calma lá. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.
É claro que o pensamento move, influencia, abre caminho. Mas dizer que ele cria a realidade do nada… já é dar um passo maior que a perna. E, sinceramente, é um passo perigoso. Porque, quando a gente se coloca no centro de tudo, esquece de algo básico: somos parte, não origem. E admitir isso, convenhamos, não é confortável.
A gente gosta de se sentir autor absoluto da própria história. Só que, olhando bem, somos muito mais resposta do que causa. Mais consequência do que princípio. E, curiosamente, isso não diminui — só reposiciona.
Pensar, então, deixa de ser um ato de domínio e vira um gesto de escuta. Um ajuste fino com o que já pulsa antes da gente. Uma tentativa — às vezes bonita, às vezes capenga — de traduzir o que nos atravessa. Não somos deuses. Mas também não somos vazios. Somos ponte.
E talvez seja justamente isso que nos salva da arrogância — e, de quebra, nos dá alguma grandeza: participar da teia, receber o fio e passá-lo adiante, do nosso jeito, com nossas marcas, nossas falhas, nossa humanidade. No fim, o pensamento não é trono. É trânsito. E a gente… bem, a gente é só mais um ponto por onde ele passa.
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O texto que acabamos de ler é um "prato cheio" para a gente discutir como a nossa identidade e os nossos pensamentos não nascem num vácuo. Na sociologia, a gente estuda muito como o meio em que vivemos nos molda, e esse texto traz uma reflexão profunda sobre o mito do "indivíduo criador absoluto". Preparei 5 questões discursivas para a gente exercitar o pensamento crítico. Lembrem-se: não quero respostas de "copia e cola", quero ver vocês mastigando essas ideias!
1. O Pensamento como Fato Social: O texto sugere que o pensamento "atravessa a gente" e que "pensar é um ato coletivo". Relacione essa ideia com o conceito de que somos seres socialmente construídos. É possível ter um pensamento totalmente isolado da cultura e da sociedade em que vivemos? Justifique.
2. A Desconstrução do "Eu-Deus": O autor critica o discurso de que "você é um deus" ou de que basta desejar para "entortar a realidade". Do ponto de vista sociológico, por que essa visão extremamente individualista pode ser perigosa para a compreensão dos problemas reais da nossa sociedade?
3. A Metáfora dos Galos: Citando João Cabral de Melo Neto, o texto afirma que "um galo sozinho não tece uma manhã". Como essa imagem ajuda a explicar a importância das instituições (escola, família, mídia) e das gerações passadas na formação do que você acredita ser a "sua" opinião hoje?
4. Originalidade vs. Reprodução: O texto afirma que a originalidade mora mais na reação (em como devolvemos a ideia ao mundo) do que na criação do zero. Como a moda, as gírias ou os gostos musicais da sua turma exemplificam essa ideia de "rearranjar e adaptar" o que já existe?
5. O Homem como "Ponte": Ao final, o texto diz que não somos a origem de tudo, mas sim uma "ponte" ou "ponto de trânsito". Explique como essa ideia de "passar o fio adiante" se conecta com o conceito de socialização, em que transmitimos normas, valores e conhecimentos de uma geração para outra.
Dica do Prof: Para responder bem, tente se colocar no lugar do "galo" da poesia. Como você está ajudando a tecer a "manhã" (a sociedade) com os fios que recebeu dos outros?
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