O QUINHÃO DO PLANTIO: O Peso de Não Ser Rebanho ("O sucesso torna as pessoas modestas, amigáveis e tolerantes; é o fracasso que as faz ásperas e ruins." — W. Somerset Maugham)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Confesso: teve dia em que pensei em me calar. Não por concordar com o coro — nunca foi isso —, mas pelo cansaço mesmo, de falar sozinho num mundo que parece ter desaprendido a escutar. Sabe quando a gente insiste numa ideia e o resto só quer repetir o que já vem pronto? Pois é. Cansa. E, ainda assim, eu sigo. Não por coragem — seria bonito dizer isso —, mas por teimosia… ou, quem sabe, por não saber ser de outro jeito.
Essa gente que vive de tendência, no fundo, nem me intimida tanto assim. O que incomoda de verdade não é o barulho — é o vazio. Falta pergunta. Sobra certeza pronta, embalada, etiquetada como verdade absoluta. E eu aqui, cheio de dúvida, de fresta, de reticência… acabo parecendo o estranho da sala. E talvez eu seja mesmo.
Só que, antes de sair apontando a ruína moral ou espiritual do mundo, eu tive que engolir um pouco do meu próprio orgulho. Já me escondi, sim, atrás de palavra grande demais pra sustentar. Já confundi indignação com argumento. Já quis ganhar no grito quando me faltava chão. E é aí que a coisa muda de figura: não basta denunciar o vazio — tem que mostrar onde ele nasce, como cresce e, pior, por que a gente aceita.
Dizem que a tecnologia vai salvar a educação. Pode até ajudar, claro. Mas, vamos combinar? Tem coisa que nenhuma tela acende: o brilho no olho de quem descobre. O problema não é falta de ferramenta — é falta de presença. Não é saudade do passado, não… é ausência de profundidade no presente. Os antigos não eram melhores porque tinham menos recursos, mas porque tinham mais compromisso com o pensar. E hoje… pensar virou risco. O Avesso da Escola.
No chão da escola — que era pra ser terreno fértil — tem uma inversão que, olha, dá um aperto. Não é regra, mas também não é raro: esforçar-se, muitas vezes, constrange; já a mediocridade… essa se junta, se fortalece, se protege. E não, não é que os “ruins” sejam vilões. Na maioria das vezes, são só inseguros, acuados, com medo de errar em público. Só que o medo, quando encontra eco, vira muro. E muro não deixa ninguém passar. Aí quem tenta subir sente — e sente mesmo — o peso invisível de mãos puxando pra baixo ( os caranguejos no balde...). Não por maldade pura, mas por desconforto. Porque ver alguém sair da linha expõe o quanto a gente próprio ficou.
E os bons? Ah… os bons também falham. Nem sempre são ponte. Às vezes, cansam. Às vezes, se fecham. E o que podia ser contágio vira silêncio — um silêncio pesado, quase cúmplice. Eu sei porque já estive dos dois lados. Já tentei puxar e já desisti no meio do caminho. Então não, não tem pureza nessa história. O que tem é conflito — e dos honestos.
Ainda assim, eu me agarro à metáfora do pomar. Não como quem se acha melhor, mas como quem entende o risco: quem produz se expõe. E quem se expõe… vira alvo. Pedradas não faltam.
A pergunta é: vale a pena continuar dando fruto sabendo disso? Pra mim, vale. Mesmo doendo. O Quinhão de Cada Um. Tem quem chame de loucura essa recusa em aceitar o raso. Pode até ser. Mas existe uma dignidade quieta em não se moldar ao que empobrece. Só que, claro, isso cobra. E cobra caro.
Envelhecer, por si só, já vem carregado de rótulos. Agora, envelhecer pensando diferente… aí o isolamento aumenta. Em certos dias, dá a sensação de estar sendo empurrado, devagarinho, pras margens — como se não houvesse mais lugar pra quem insiste em complexidade num mundo viciado em atalhos. E mesmo assim… eu não largo. Não porque me ache melhor — isso seria só mais uma ilusão confortável —, mas porque já provei o gosto do pensamento livre. E, depois disso, não tem volta. Tem algo de definitivo em enxergar além do óbvio, ainda que isso custe mais silêncio do que aplauso.
Quanto ao destino… hoje eu vejo diferente. Não como um roteiro místico que privilegia uns poucos, mas como acúmulo — de escolhas, de recusas, de insistências que ninguém vê. Tem mistério? Tem. Mas também tem responsabilidade, e muita. No fim das contas, não é tão complicado assim. Cada um carrega o peso daquilo que escolhe cultivar.
E eu — cansado, às vezes em dúvida, mas ainda de pé — sigo plantando. Mesmo onde quase ninguém tem paciência pra esperar florescer.
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Olá! Que prazer ler um texto com tanta alma. Como seu professor de sociologia hoje, fico feliz em ver um material que foge do "decoreba" e foca no que a sociologia tem de melhor: a investigação das relações humanas e das estruturas que nos moldam. O seu texto toca em pontos centrais da disciplina, como conformidade social, anomia, geracionalidade e a função da escola. Aqui estão 5 questões discursivas, elaboradas para que os alunos do Ensino Médio reflitam sobre a sua "obra-prima":
1. O Peso do "Coro":
No início do texto, o autor menciona o cansaço de "falar sozinho num mundo que parece ter desaprendido a escutar" e a pressão das "tendências". Como a sociologia explica a pressão que o grupo exerce sobre o indivíduo para que ele se conforme ao comportamento da maioria? Relacione sua resposta ao conceito de controle social.
2. A Tecnologia e o "Pensar":
O texto afirma que "pensar virou risco" e que a tecnologia, embora ajude, não substitui a "presença" e o "compromisso com o pensar". Na sua visão, como a velocidade das redes sociais e das informações prontas pode empobrecer o debate democrático e a profundidade das relações sociais?
3. A Dinâmica dos "Caranguejos no Balde":
O autor utiliza a metáfora das mãos que puxam para baixo quem tenta se destacar ou "sair da linha" no ambiente escolar. Explique por que, em muitos grupos sociais, o sucesso ou a busca por excelência de um indivíduo é visto como uma ameaça ou um desconforto para os demais membros do grupo.
4. A Árvore e as Pedradas:
"Quem produz se expõe. E quem se expõe... vira alvo." Relacione essa frase ao fenômeno moderno do cancelamento. Por que a sociedade contemporânea tem tanta dificuldade em lidar com a pluralidade de ideias e com quem escolhe não se moldar ao que o autor chama de "o raso"?
5. O Cultivo das Escolhas:
Ao final, o texto sugere que o destino é o "acúmulo de escolhas, de recusas e de insistências". Para a sociologia, o indivíduo é fruto do meio, mas também é um agente transformador. Como o "ato de continuar plantando", mesmo em solos difíceis, pode ser considerado um ato de resistência política e social?
Dica do Prof: Ao responder, tente não apenas identificar o que o autor sente, mas como esses sentimentos revelam as "regras invisíveis" que comandam o nosso comportamento em grupo.
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