"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sábado, 7 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(18) A Palavra a Tempo: Sobre Dizer a Verdade sem Ferir

 


Ensaio Teológico X(18) A Palavra a Tempo: Sobre Dizer a Verdade sem Ferir

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Confesso que toda família tem uma frase que nunca deveria ter sido dita. Ela fica ali, atravessada na memória, sobrevivendo ao tempo, seja num jantar, num corredor de hospital ou numa simples conversa ao telefone. Às vezes, dura mais que qualquer promessa. Mas, toda família também guarda seus silêncios cúmplices: aqueles que, em vez de resolverem os conflitos, deixam apodrecer justamente o que precisava ser nomeado. Entre a palavra que fere e o silêncio que omite, mora a questão deste ensaio. Minha tese é simples, embora talvez incômoda: o problema da linguagem nunca esteve na quantidade de palavras, mas na falta de amor e discernimento tanto naquilo que dizemos quanto naquilo que escolhemos calar.

Começo, então, pela própria tradição sapiencial. Reconheço que Provérbios conhece muito bem o poder da língua sobre a vida e a morte (18:21), assim como adverte que quem multiplica palavras não escapa da transgressão (10:19). Seria um equívoco, entretanto, interpretar essas advertências como uma condenação da fala. Afinal, o mesmo livro elogia a palavra dita a seu tempo, comparando-a a maçãs de ouro em salvas de prata (25:11). O problema, portanto, não está em conversar, aconselhar ou corrigir, mas em fazê-lo sem prudência. Vejo nesse ensinamento a figura de um sábio que não é mudo nem se esconde atrás de silêncios convenientes: ele simplesmente sabe quando falar, o que dizer e como fazê-lo. Assim, a Escritura não é uma adversária que preciso derrotar, mas uma aliada que me oferece o critério para compreender o valor da palavra.

Esse critério ganha uma formulação especialmente significativa no Novo Testamento: falar a verdade em amor (Efésios 4:15). Entendo que essa orientação resolve uma tensão antiga ao rejeitar dois extremos igualmente perigosos. Quem diz a verdade sem amor transforma a sinceridade em arma e ainda chama de franqueza a própria crueldade. Por outro lado, quem preserva o amor sem compromisso com a verdade acaba confundindo diplomacia com covardia. Convenhamos: nem toda cortesia é virtude, assim como nem todo silêncio é sinal de sabedoria. Há silêncios que protegem, mas também há aqueles que traem, omitem e alimentam injustiças. Por isso, diante de uma conversa difícil, prefiro trocar a pergunta "devo falar?" por outra, muito mais exigente: "o que esta pessoa precisa ouvir, e como posso dizê-lo de modo que ela consiga escutar?". A filosofia contemporânea também oferece contribuições importantes para essa reflexão. Byung-Chul Han, em A Sociedade da Transparência, analisa como a exigência de expor tudo pode produzir vigilância e controle, esvaziando a intimidade necessária para que as relações humanas respirem. Marshall Rosenberg, por sua vez, em Comunicação Não-Violenta, propõe uma disciplina prática para expressar sentimentos, necessidades e verdades sem transformar a conversa num campo de batalha. São abordagens distintas, mas que ajudam a compreender a importância de preservar, ao mesmo tempo, a honestidade e o vínculo humano. Faço questão de esclarecer que apresento aqui sínteses das ideias desses autores, não citações literais.

Concluo, então, que ninguém aprende a falar bem apenas estudando teorias ou decorando regras de comunicação. Aprende-se na vida, errando, pedindo perdão e voltando para consertar aquilo que nossas palavras quebraram. Percebo que uma verdade dita sem cuidado pode esconder uma dose de vaidade, assim como um silêncio prolongado pode disfarçar o medo de enfrentar o necessário. No fundo, a boa comunicação não é apenas uma técnica: é o caráter colocado à prova no encontro com o outro. Por isso, em vez de condenar a linguagem ou absolvê-la indiscriminadamente, proponho a mim mesmo um ofício mais difícil: pesar as palavras antes de soltá-las e, depois de pronunciadas, assumir a responsabilidade por elas. Afinal, palavra lançada não volta intacta, e há feridas que nem o pedido de desculpas consegue fechar por completo. Posso ainda errar, claro, mas quero errar como erra quem ama: reconhecendo o dano, buscando repará-lo e tentando, mais uma vez, dizer a verdade de um jeito que o outro consiga receber. Porque, no fim das contas, não basta ter razão; é preciso também saber o que fazer com ela.

Ensaio Teológico X(17) O Discípulo e a Dúvida: Sobre Aprender sem Servir

 


Ensaio Teológico X(17) O Discípulo e a Dúvida: Sobre Aprender sem Servir

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Confesso que todo mundo já teve um mestre a quem sentiu medo de fazer perguntas. E quase todo mundo descobriu, mais tarde, que o melhor professor era justamente aquele que não tinha medo das perguntas dos alunos. Por isso, desconfio dessa velha equação que insiste em juntar sabedoria e obediência como se fossem irmãs inseparáveis. Ora, se aprender fosse apenas acatar ordens, bastaria um bom manual para fabricar sábios em série. Um aluno que nunca discorda de nada não demonstra necessariamente sabedoria; muitas vezes, revela apenas boa memória e disposição para obedecer. Convém, entretanto, fazer justiça à tradição que estou discutindo. Provérbios exalta quem ama a disciplina e chama de insensato aquele que aborrece a repreensão (12:1). Mas, o sábio ali retratado não é um servo de boca fechada: ele inclina o ouvido, procura o entendimento como quem cava à procura de um tesouro (2:1-5) e aceita a correção porque deseja enxergar melhor, não porque tem medo de contrariar o mestre.

Entendo que a distinção decisiva está entre docilidade e servilismo. A primeira é a abertura de quem reconhece que não sabe tudo; o segundo é a abdicação da própria consciência, de quem prefere deixar que os outros pensem em seu lugar. Por isso, a pergunta importante nunca deveria ser apenas "devo obedecer?", mas também "quem me corrige, com que autoridade e em favor de quê?". Afinal, a orientação de um mestre que deseja meu crescimento não se confunde com a imposição de um poder que pretende me manter calado. E a própria Bíblia oferece bons exemplos dessa diferença. Jó recusou as explicações simplistas dos amigos e, ao final, recebeu a aprovação divina (Jó 42:7). Jacó lutou durante toda uma noite com o anjo e saiu manco, mas abençoado (Gênesis 32). Já os judeus de Bereia foram elogiados por examinarem as Escrituras para verificar o que ouviam, mesmo quando a mensagem vinha de um apóstolo (Atos 17:11). Percebo, assim, que a fé capaz de enfrentar perguntas e sobreviver ao exame é muito mais robusta do que aquela que depende do silêncio para continuar de pé.

A filosofia e a psicologia também ajudam a compreender esse percurso. Kant, em Resposta à pergunta: o que é o Esclarecimento? (1784), definiu a menoridade como a incapacidade de utilizar a própria razão sem a direção de outra pessoa. Para ele, essa condição não decorre necessariamente da falta de inteligência, mas da ausência de decisão e coragem para pensar por conta própria. Daí seu conhecido lema Sapere aude: ousa saber! Entendo, porém, que Kant não nos convida a desprezar os mestres, mas a submeter aquilo que recebemos ao crivo da razão. Piaget, por sua vez, mostrou que o conhecimento se desenvolve nesse movimento entre assimilar o que vem de fora e acomodar nossas próprias estruturas diante daquilo que as desafia. Faço aqui uma ressalva: o desenvolvimento cognitivo da criança não equivale, por si só, à sabedoria moral do adulto. Ainda assim, a intuição que aproxima essas reflexões é valiosa: ninguém aprende verdadeiramente quando se comporta como um simples recipiente, recebendo informações sem examiná-las. Lembro-me, aliás, de uma instrução que segui sem compreender e que, mais tarde, revelou-se um presente; lembro também de outra que recusei, de coração apertado, e cuja rejeição me custou caro. Nas duas situações, a lição não estava apenas na ordem recebida ou na decisão tomada, mas na relação entre quem orientava e quem precisava decidir.

Concluo, então, que a humildade bem compreendida não é inimiga da autonomia; pelo contrário, é uma de suas condições. Só aprende de verdade quem admite que não sabe tudo, assim como só consegue pensar por si mesmo quem reconhece o quanto deve aos outros. O orgulho que impede a sabedoria aparece tanto na submissão de quem não pergunta quanto na rebeldia de quem não escuta. Embora pareçam atitudes opostas, os dois extremos acabam se encontrando no mesmo lugar: ambos recusam o trabalho de pensar. Aprender é um ofício de duas mãos: uma recebe, a outra examina e pondera. Quem apenas recebe vira eco; quem apenas questiona, sem disposição para acolher, corre o risco de se transformar numa ilha. Quero ser aquele que faz as duas coisas: ter humildade bastante para agradecer a quem me ensinou e coragem bastante para ir além. Afinal, um bom discípulo não precisa permanecer eternamente à sombra do mestre. Pode, sim, aprender com ele, caminhar ao seu lado e, quando chegar a hora, enxergar caminhos que ainda não foram percorridos.

Ensaio Teológico X(16) A Linha que Atravessa o Coração: Sobre a Complexidade da Condição Humana

 


Ensaio Teológico X(16) A Linha que Atravessa o Coração: Sobre a Complexidade da Condição Humana

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Confesso que existe um conforto antigo em dividir o mundo em dois times: de um lado, os justos, que trabalham, oram e prosperam; do outro, os perversos, que colhem exatamente o que plantaram. É uma maneira cômoda de explicar a vida, sobretudo quando a desgraça acontece na casa alheia. Mas, quem já esteve à beira de uma cama de hospital, diante de um réu ou diante do próprio espelho sabe que esse mapa nem sempre corresponde ao território. Penso numa mulher que, durante quarenta anos, cumpriu fielmente cada preceito religioso e, de repente, recebeu um diagnóstico devastador, enquanto o vizinho, indiferente à religião e aos seus mandamentos, seguia a vida sem sequer um resfriado. Se a moral fosse uma questão de aritmética, o universo teria errado a conta. Na verdade, o equívoco está em quem insiste em fazer dessa conta uma explicação para tudo.

Reconheço que a tradição sapiencial parece, à primeira vista, sustentar essa lógica, como em Provérbios 10:16. Entendo, porém, que transformar o provérbio numa promessa mecânica é desconhecer sua natureza literária: ele condensa uma regularidade da experiência humana, não oferece uma garantia de recompensa para cada indivíduo. Aliás, a própria Bíblia se encarrega de questionar essa interpretação. Jó desmonta os argumentos dos amigos que enxergam no sofrimento uma espécie de sentença divina, enquanto Eclesiastes reconhece ter visto o justo perecer e o ímpio prolongar seus dias. Ora, se essas vozes estão dentro das Escrituras, não faz sentido ignorá-las para defender uma interpretação simplista. Por isso, não vejo a Bíblia como o espantalho que preciso combater, mas como uma interlocutora que, sem medo das contradições humanas, também discute consigo mesma.

O problema começa quando dessa leitura simplificada se constrói uma fronteira entre "nós" e "eles", como se o bem e o mal fossem propriedades de grupos distintos, facilmente identificáveis. Soljenítsin, depois de conhecer os campos soviéticos, chegou à conclusão de que a linha entre o bem e o mal atravessa o coração de cada ser humano. Jung chamou de sombra esse território interior que preferimos não visitar. Paulo, citando os Salmos, foi ainda mais incisivo ao afirmar que não há justo, nem sequer um. Isso, entretanto, não significa dissolver a moral num cinza indistinto, como se todas as atitudes tivessem o mesmo peso ou merecessem o mesmo julgamento. Hannah Arendt, ao refletir sobre Eichmann, mostrou como o mal também pode brotar de funcionários obedientes que renunciaram ao próprio pensamento. A responsabilidade, portanto, não desaparece: pensar, julgar e responder pelos próprios atos continuam sendo exigências éticas. Mas, há outra dimensão que não podemos ignorar: a estrutural. Com Foucault, compreendo o poder como uma situação estratégica complexa; com Wilkinson e Pickett, em O Nível, percebo como sociedades profundamente desiguais produzem piores indicadores de saúde e convivência; com Geertz, lembro que somos animais envolvidos em teias de significados que nós mesmos tecemos; e, com Haidt, reconheço que a moral tanto pode nos unir quanto nos cegar. Afinal, nem tudo se explica pelas escolhas individuais, assim como nem toda injustiça pode ser atribuída exclusivamente às estruturas sociais.

E onde fica a esperança no meio dessa travessia? Se ninguém é inteiramente justo, a salvação não pode ser tratada como prêmio por bom comportamento, muito menos como recompensa conquistada por mérito religioso. É justamente aí que a teologia oferece uma palavra que a sociologia, por si só, não pretende oferecer: a graça. Afinal, o sol nasce sobre maus e bons (Mateus 5:45). O mundo não é uma balança que distribui recompensas conforme nossas virtudes; é também uma dádiva que recebemos sem apresentar currículo moral. E quem já recebeu sem merecer deveria pensar duas vezes antes de cobrar do outro uma perfeição que também não possui. Abandonar o pensamento binário, portanto, não é desistir da justiça, tampouco passar pano para a perversidade: é alcançar certa maturidade para reconhecer a complexidade da condição humana sem abrir mão da responsabilidade. Prefiro trocar a pergunta "de que lado ele está?" por outra, bem mais humana: "que história o trouxe até aqui, e o que posso fazer, sendo tão frágil quanto ele, para que a próxima página seja melhor?" Assim, sem romantizar o erro nem condenar o outro à própria história, talvez aprendamos a caminhar com mais consciência. E, quando errarmos — porque também erramos —, que seja ao menos de olhos abertos e com a mão estendida.

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(15) A Ilusão da Suficiência Financeira Quando a igreja vira fábrica de dinheiro, e o que a Escritura tem a dizer sobre isso

 




Ensaio Teológico X(15) A Ilusão da Suficiência Financeira Quando a igreja vira fábrica de dinheiro, e o que a Escritura tem a dizer sobre isso

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há uma frase que repito com certo ar de sabedoria popular: “o dinheiro responde a tudo”. Quase ninguém sabe que ela é bíblica. Está em Eclesiastes 10:19, registrada por alguém que conheceu a riqueza de sobra e, ao fazer o balanço da existência, resumiu muita coisa numa palavra: “vaidade”. O Pregador apresenta essa frase como uma observação da realidade, não como uma recomendação de vida. Afinal, o dinheiro responde a muita coisa, mas o livro inteiro parece existir justamente para nos mostrar aquilo a que ele não consegue responder.

Penso, então, em Ezequiel, um pastor fictício que começou sua igreja numa garagem, com doze cadeiras de plástico e uma fé que lhe queimava a garganta. Vinte anos depois, já prega num auditório climatizado e, antes da oferta, conduz uma verdadeira liturgia de pressão: escolhe cuidadosamente o versículo, promete que “semente não volta vazia” e prepara o terreno para a contribuição. Até que, numa sexta-feira, uma viúva o procura com o carnê de uma dívida contraída para fazer uma oferta “de fé”. Diante daquele papel, o dinheiro não lhe responde absolutamente nada. É nesse momento que a crença de que o dinheiro basta deixa de ser apenas uma falácia teológica e se transforma numa ferida humana.

A ciência confirma parte dessa intuição, embora também a torne mais complexa. Maslow sugeriu que os recursos materiais têm grande peso quando falta o básico, mas perdem importância relativa à medida que buscamos pertencimento, estima e sentido para a existência. É bom lembrar, entretanto, que essa interpretação, em termos estritamente monetários, é uma leitura feita por seus intérpretes. Em 2010, Kahneman e Deaton indicaram que o bem-estar emocional tendia a se estabilizar perto dos 75 mil dólares anuais. Em 2021, porém, Killingsworth apresentou resultados segundo os quais a felicidade continuava crescendo com a renda. Já em 2023, ele e Kahneman, com a participação de Barbara Mellers, conciliaram os dados: para a maioria das pessoas, o bem-estar aumenta com o dinheiro, mas, entre as mais infelizes, essa curva tende a se achatar. Ora, essa nuance fortalece minha tese: quem nega que o dinheiro alivia a vida perde credibilidade; quem afirma que ele basta acaba perdendo de vista a própria vida.

É justamente aí que surge uma pergunta da qual a ética não me permite fugir. Peter Singer, desde 1972, insiste que o excesso acumulado raramente é neutro, pois pode carregar um custo invisível pago por alguém. Essa reflexão ganha ainda mais peso quando envolve quem fala em nome de Deus. Não ignoro que a própria Escritura defende o sustento ministerial. Paulo afirma que o obreiro é digno do salário (1Timóteo 5:17-18; 1Coríntios 9), e negar esse direito seria cometer uma injustiça contra tantos pastores que exercem seu ministério com simplicidade e dignidade. Entretanto, o mesmo Paulo recordou aos presbíteros de Éfeso que nunca cobiçou prata nem ouro (Atos 20:33-35). Pedro, por sua vez, recomendou que o rebanho fosse cuidado “não por torpe ganância” (1Pedro 5:2), enquanto o profeta Ezequiel denunciou os pastores de Israel que se apascentavam a si mesmos (Ezequiel 34:2-3).

Portanto, a fronteira entre o sustento digno e o negócio religioso não se estabelece simplesmente pelo valor do salário, mas pela direção do fluxo financeiro e, sobretudo, pela finalidade do ministério. Uma coisa é viver do trabalho pastoral; outra, bem diferente, é transformar a fé alheia em instrumento de enriquecimento. Quando o rebanho passa a existir para alimentar o pastor, a lógica do Evangelho cede lugar à de Mamom, um senhor que não aceita sócios (Mateus 6:24).

Por fim, volto ao aviso de Lucas: a vida de um homem não consiste na abundância dos seus bens (Lucas 12:15). O agricultor da parábola não comete um erro escandaloso aos olhos do mundo; seu engano está em acreditar que o futuro está garantido simplesmente porque seus depósitos estão cheios. Por outro caminho, Seligman aponta cinco pilares do florescimento humano: emoções positivas, engajamento, relacionamentos, sentido e realização. Curiosamente, o saldo bancário não aparece entre eles. Paulo, mesmo preso e desprovido de recursos, aprendeu a viver contente. E isso, convenhamos, era liberdade, não resignação.

Volto, então, àquela viúva no corredor. Ela não precisava de uma teologia da prosperidade, muito menos de uma nova promessa de multiplicação. Precisava de alguém que lhe dissesse, sem alarde e sem explorar sua fragilidade, que Deus não cobra carnê. O dinheiro responde ao aluguel, ao remédio, à escola e ao pão. E ainda bem que responde! Mas, não responde ao luto, à culpa, à solidão nem ao medo da morte. Uma igreja que finge o contrário vende, no máximo, uma ilusão com ar-condicionado. E, cá entre nós, não há climatização que consiga refrescar uma consciência em chamas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(14) A Sabedoria na Era da Informação: Entre o Silêncio que Guarda e a Palavra que Constrói

 


Ensaio Teológico X(14) A Sabedoria na Era da Informação: Entre o Silêncio que Guarda e a Palavra que Constrói

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Lembro-me de dois silêncios que me ensinaram coisas opostas. No primeiro, durante uma discussão que corroía as relações familiares, um tio de poucas palavras permaneceu calado. Quando finalmente falou, bastou-lhe uma frase para desfazer a tensão. Saí daquela experiência convencido de que sabedoria era justamente isso: calar, esperar e falar na hora certa. Anos depois, porém, presenciei uma situação bem diferente. Um colega percebeu que determinado projeto caminhava para o erro, mas preferiu não se manifestar, por prudência e por um respeito mal compreendido. O resultado? O projeto ruiu. Entre essas duas cenas nasceu a pergunta que move este ensaio: será o silêncio, por si só, sinal de sabedoria, e a abundância de palavras, sinal de tolice?

Antes de derrubar esse pilar que eu mesmo havia construído, resolvi examiná-lo de perto. Afinal, a tradição sapiencial bíblica realmente elogia a contenção. Provérbios afirma que até o insensato, quando permanece calado, pode ser tido por sábio (Pv 17:28), enquanto Tiago compara a língua ao freio e à centelha, advertindo-nos a ser prontos para ouvir e tardios para falar (Tg 1:19; 3:3-6). Entretanto, a Escritura não recomenda o mutismo, mas o domínio da língua. Eclesiastes ensina que há tempo de calar e tempo de falar (Ec 3:7); a própria Sabedoria "clama nas ruas" (Pv 1:20), e a palavra dita no momento oportuno é "maçã de ouro em salva de prata" (Pv 25:11). Portanto, essa oposição entre sábios silenciosos e tolos falantes está mais próxima de uma simplificação popular do que de uma verdadeira doutrina bíblica. Afinal, nem todo silêncio é prudência, assim como nem toda palavra é precipitação.

Essa simplificação precisa ser revista, sobretudo numa época em que o conhecimento deixou de ser escasso e o sábio-depósito vem cedendo lugar ao sábio-aprendiz. Harari aponta que, num mundo de mudanças aceleradas, saber reaprender vale mais do que carregar um repertório fixo de informações. Carol Dweck, com seu conceito de "mindset de crescimento", mostra que o desempenho extraordinário nasce da persistência diante das dificuldades e da capacidade de enxergar o erro não como sentença, mas como matéria-prima para aprender. Gladwell, em Blink, lembra que a intuição pode ser precisa quando alimentada por uma longa experiência, mas também pode falhar, contaminada por preconceitos e julgamentos precipitados. Daí a importância do pensamento crítico: decidir rapidamente só se torna uma virtude quando existe uma longa trajetória de reflexão por trás da decisão.

Mas, aprender é apenas metade do caminho. O conhecimento que não circula corre o risco de virar uma espécie de patrimônio trancado a sete chaves. Tyson defende que a ciência só cumpre plenamente seu papel quando alcança as pessoas, enquanto Freire vê no diálogo o encontro em que os homens, mediatizados pelo mundo, o pronunciam. É nesse ponto que a palavra recupera sua importância: não como instrumento de exibição intelectual, mas como possibilidade de compartilhar saberes, questionar certezas e transformar a realidade. Admito, contudo, a objeção de que as redes sociais demonstram diariamente os perigos do excesso de palavras e de que os defensores da prudência têm, em parte, razão. Afinal, vivemos cercados de opiniões instantâneas, julgamentos apressados e certezas fabricadas. Ainda assim, penso que o grande problema do nosso tempo não é falar demais, mas falar sem ter ouvido, sem ter verificado e, principalmente, sem ter considerado a humanidade de quem está do outro lado.

Resta, porém, o ponto mais delicado dessa reflexão: Mateus 12:36 afirma que daremos conta de toda palavra ociosa. Posso compreender, com Sam Harris, que a moralidade não precisa estar fundamentada no medo de um juízo divino. Confesso, entretanto, que esse texto bíblico me diz algo a mais: a palavra tem peso, é também uma forma de agir, e toda ação produz consequências — seja diante de um tribunal, da própria consciência ou da memória de alguém que ferimos. Orwell, por sua vez, lembra que a linguagem corrompida também corrompe o pensamento. E é justamente aí que volto às duas cenas do início. Por fora, os silêncios eram idênticos; por dentro, porém, havia um abismo entre eles. Um foi sábio; o outro, covarde. O que os distinguia não era a ausência de palavras, mas a intenção, a oportunidade e o cuidado com o outro.

Por isso, hoje, já não acredito que a sabedoria caiba no cofre do silêncio ou no palanque da opinião. Ela exige algo bem mais difícil: ouvir com humildade, pensar com rigor e falar com responsabilidade. Afinal, o saber não é um estoque de informações prontas, muito menos um troféu para exibir diante dos outros. É um processo contínuo de questionamento, revisão e aprendizado. No fim das contas, não é a quantidade de palavras que revela a sabedoria de alguém, mas a consciência com que escolhe pronunciá-las — e a coragem de não se calar quando o silêncio também pode ferir.

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(13) A Língua do Sábio e a Gagueira do Justo: sobre a fala, a tolice e a vara que não ensina

 


Ensaio Teológico X(13) A Língua do Sábio e a Gagueira do Justo: sobre a fala, a tolice e a vara que não ensina

Por Claudeci Ferreira de Andrade
 

Penso num menino da terceira fila que sabe a resposta, levanta a mão, mas, na hora de falar, sente as palavras emperrarem na porta da boca: "o-o-o-o...". Alguém ri baixinho, o professor passa a vez para outro aluno, e o menino se senta novamente, levando consigo a resposta intacta e a vergonha inteira. De fora, alguém poderia dizer: eis um tolo; por dentro, porém, havia ali talvez o aluno mais atento da turma. É dessa cena tão simples, mas tão reveladora, que nasce uma antiga suspeita minha: confundimos o jeito de falar com a qualidade de quem fala. É verdade que a tradição bíblica frequentemente associa a palavra ao caráter, e seria desonesto fingir que não há razões para isso. Provérbios, sobretudo, é um livro que estabelece relações entre a boca, a conduta e a sabedoria (Pv 10:13; 17:28; 18:2). Seu autor parece conhecer bem a natureza humana e observa que nossas palavras frequentemente denunciam aquilo que carregamos por dentro. Negar essa possibilidade seria empobrecer a própria reflexão. Afinal, a fala pode revelar muita coisa, mas será que revela tudo?

É preciso, entretanto, ler as Escrituras com atenção, sem confundir as coisas. O "tolo" de Provérbios (kesil, ewil) não é o gago, o iletrado ou o tímido. Trata-se de uma categoria moral: aquele que despreza a correção, rejeita o conselho e se fecha à possibilidade de aprender. E, convenhamos, esse sujeito pode ser eloquentíssimo! O sábio bíblico não é necessariamente o bom orador, mas aquele que teme ao Senhor, reconhece seus limites e se dispõe a aprender. Basta lembrar de Moisés, que confessou ter a boca e a língua pesadas (Êx 4:10). Deus não o descartou por sua dificuldade de comunicação, tampouco exigiu que se transformasse num grande orador; deu-lhe um irmão para falar ao seu lado. Paulo também reconheceu que sua palavra em Corinto não tinha "excelência de linguagem" (1Co 2:1; 2Co 10:10). E os coríntios, que mediam a sabedoria pela capacidade retórica, estavam equivocados. Percebo, então, uma distinção fundamental: a fala pode revelar disposições interiores, mas não determina a capacidade intelectual nem o valor moral de alguém. A dificuldade de Moisés para falar não era tolice; já a soberba fluente de Faraó não era sinal de sabedoria. Uma coisa é o talento para falar; outra, bem diferente, é a disposição para ouvir e aprender.

É justamente aí que encontro um dos pontos mais delicados dessa reflexão. O mesmo livro de Provérbios afirma que "o que poupa a vara odeia o seu filho" (Pv 13:24), passagem que muitos leitores interpretaram como autorização para corrigir a criança pela força física, inclusive quando sua dificuldade está na fala. Quero, porém, ser honesto tanto com o texto bíblico quanto com sua história de interpretação. A "vara" também pode ser compreendida à luz da imagem do cajado do pastor, instrumento de condução e proteção (Sl 23:4), e as tradições judaica e cristã debateram, ao longo dos séculos, os limites e a natureza dessa disciplina. Hoje, entretanto, dispomos de conhecimentos que exigem uma reflexão ainda mais cuidadosa. A Organização Mundial da Saúde recomenda a eliminação dos castigos corporais e documenta seus efeitos prejudiciais ao desenvolvimento infantil. A psicóloga Joan Durrant, da Universidade de Manitoba, tornou-se referência nos estudos e programas de disciplina positiva, que valorizam o ensino, a explicação, o diálogo e a orientação em lugar da violência. Diante disso, pergunto: afinal, o que a vara deveria representar na educação? Se a entendermos como instrumento de orientação, proteção e condução, sua finalidade não pode ser confundida com a agressão. Guiar uma criança que tropeça nas palavras exige paciência, acolhimento e incentivo, não pancada. Ora, se ela já sofre por não conseguir expressar o que pensa, por que transformar a dificuldade em motivo de castigo?

Resta-me, então, a sabedoria, justamente aquilo que a pressa dos rótulos costuma esquecer. Daniel Dennett, em Intuition Pumps (2013), recomenda uma humildade disciplinada: reconhecer a possibilidade do próprio erro e procurar compreender o argumento do outro em sua melhor versão. Não deixa de ser uma postura muito próxima do ensinamento bíblico de que "o que ouve a repreensão adquire entendimento" (Pv 15:32). Deborah Tannen (1990), por sua vez, lembra que os estilos de conversação variam conforme a cultura e o gênero, enquanto Brené Brown (2012) sustenta que expor-se diante dos outros, mesmo com medo e vulnerabilidade, é também uma expressão de coragem. São três vozes que, por caminhos diferentes, parecem apontar para o mesmo ensinamento: antes de sentenciar alguém pelo som de sua voz, é preciso aprender a escutar. Volto, então, àquela terceira fila e imagino o professor esperando, sem pressa e sem risos. O menino respira fundo, tropeça, recomeça. Dessa vez, ninguém o interrompe. Aos poucos, a resposta sai inteira, com o custo de cada sílaba. E talvez ele descubra, naquele instante, que sua voz também merece ser ouvida. Afinal, a sabedoria não está na rapidez com que alguém fala, mas na disposição com que escuta. O tolo não é aquele que gagueja, hesita ou demora a encontrar as palavras; é aquele que não quer ouvir, não aceita aprender e se julga pronto. Sábio, por sua vez, é aquele que, mesmo tropeçando nas sílabas, continua disposto a aprender.

Ensaio Teológico X(12) A Paz que Cala e a Paz que Cura: sobre o perdão, a justiça e o preço de manter a casa em silêncio

 


Ensaio Teológico X(12) A Paz que Cala e a Paz que Cura: sobre o perdão, a justiça e o preço de manter a casa em silêncio

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Penso numa mesa de domingo em que todos sabem o que o tio fez à sobrinha, mas ninguém tem coragem de tocar no assunto. A avó serve o café, ajeita as xícaras e pede: "Vamos manter a paz, minha filha". A moça sorri, passa o açúcar e engole, junto com o café, aquilo que gostaria de dizer. Mas será que existe paz naquela sala? Não. Existe silêncio, que muitas vezes veste as roupas da paz justamente para não ser reconhecido. É contra esse disfarce que me levanto. Não contra a paz, que é uma bênção, mas contra essa ideia de que ela só pode ser alcançada pelo apagamento da verdade: perdoar sempre, calar sempre, "cobrir" tudo. Como se a harmonia familiar e a sabedoria divina exigissem uma mansidão sem rosto, uma espécie de submissão disfarçada de virtude.

Antes de avançar, quero fazer justiça ao argumento contrário. Quem defende a paz a qualquer custo nem sempre é covarde; muitas vezes, é alguém que já viu de perto o estrago provocado pela discórdia e deseja proteger aquilo que ainda permanece de pé. E não lhe faltam referências bíblicas: "o amor cobre multidão de pecados" (1Pe 4:8; Pv 10:12) e "quanto depender de vós, tenhais paz com todos" (Rm 12:18). Entretanto, é preciso ler esses ensinamentos com discernimento. Cobrir, nesse contexto, não significa esconder a violência, proteger o agressor ou impedir que a verdade venha à tona. Significa não transformar o erro alheio em arma, espetáculo ou instrumento de vingança. Além disso, Paulo reconhece que a paz depende também da disposição do outro, não apenas da nossa. É justamente aí que aparece uma distinção que aquela mesa de domingo parece ter esquecido: o perdão é pessoal, uma decisão de quem foi ferido, que ninguém tem o direito de exigir ou extorquir; a justiça, por sua vez, tem uma dimensão pública e existe também para proteger aqueles que ainda podem ser vítimas. Posso perdoar alguém de todo o coração e, ainda assim, exigir que essa pessoa não tenha acesso aos meus filhos. Uma coisa não anula a outra. Confundir perdão com impunidade é pedir à vítima que pague, com o próprio silêncio, uma dívida que nunca contraiu.

Os profetas já conheciam muito bem essa diferença. Amós exige que "corra o juízo como as águas" (Am 5:24), enquanto Jeremias denuncia aqueles que tratam superficialmente as feridas do povo, proclamando "Paz, paz; quando não há paz" (Jr 6:14). É como colocar uma gaze sobre uma ferida infeccionada e anunciar que o paciente está curado. Ora, a aparência de saúde não elimina a infecção! Até Jesus, que ensinou a oferecer a outra face, derrubou as mesas dos cambistas com um chicote de cordas (Jo 2:15). O mesmo Cristo que acolhia os pequenos e ensinava o amor também se indignava diante da exploração e da injustiça. Sua mansidão nunca foi sinônimo de passividade. A reflexão moderna, por outros caminhos, também nos ajuda a compreender essa questão. Martin Luther King Jr., na Carta da Prisão de Birmingham (1963), distingue a paz negativa, entendida como ausência de tensão, da paz positiva, que pressupõe a presença da justiça. Hannah Arendt, em Eichmann em Jerusalém (1963), mostra como o mal em larga escala pode se alimentar da irreflexão e da obediência burocrática, embora sua reflexão não trate especificamente do perdão. Foucault, por sua vez, ensina-me a desconfiar de práticas aparentemente inocentes que acabam sustentando relações de poder e desigualdades. Numa família, por exemplo, a velha sentença "assunto encerrado" pode funcionar como uma dessas práticas: encerra-se a conversa, mas a injustiça continua respirando debaixo do tapete. Esther Perel também me ajuda a compreender que relações vivas não são necessariamente relações sem atritos. O conflito, quando enfrentado com maturidade, pode revelar problemas que a aparente tranquilidade apenas escondia.

Mas não quero, evidentemente, trocar um equívoco por outro. O conflito não é uma virtude em si mesmo, e há quem confunda agressividade com coragem, gritaria com sinceridade e desejo de vingança com justiça. Nem toda discussão esclarece; algumas apenas machucam. A questão, portanto, é mais profunda: o que estou realmente curando e o que estou escondendo quando pronuncio a palavra "paz"? Discernir essa diferença é uma virtude que não nasce da pressa, muito menos da imposição. Aprende-se ouvindo, observando e, sobretudo, tendo coragem de encarar aquilo que preferíamos deixar quieto. Volto, então, àquela mesa de domingo. Imagino a moça respirando fundo, levantando os olhos e dizendo, com a voz trêmula, mas firme: "Eu quero conversar sobre o que aconteceu." O silêncio que vem depois não representa o fim da paz. Talvez seja, finalmente, o primeiro som dela. Afinal, perdoar sem justiça pode se transformar em anestesia; justiça sem amor pode se tornar amputação. A sabedoria está justamente em discernir quando cobrir e quando descobrir, quando acolher e quando confrontar. E, acima de tudo, em ter coragem de pronunciar a palavra que interrompe o silêncio confortável da mesa para devolver àquela casa a paz que, até então, nunca existiu.