"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(12) A Paz que Cala e a Paz que Cura: sobre o perdão, a justiça e o preço de manter a casa em silêncio

 


Ensaio Teológico X(12) A Paz que Cala e a Paz que Cura: sobre o perdão, a justiça e o preço de manter a casa em silêncio

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Penso numa mesa de domingo em que todos sabem o que o tio fez à sobrinha, mas ninguém tem coragem de tocar no assunto. A avó serve o café, ajeita as xícaras e pede: "Vamos manter a paz, minha filha". A moça sorri, passa o açúcar e engole, junto com o café, aquilo que gostaria de dizer. Mas será que existe paz naquela sala? Não. Existe silêncio, que muitas vezes veste as roupas da paz justamente para não ser reconhecido. É contra esse disfarce que me levanto. Não contra a paz, que é uma bênção, mas contra essa ideia de que ela só pode ser alcançada pelo apagamento da verdade: perdoar sempre, calar sempre, "cobrir" tudo. Como se a harmonia familiar e a sabedoria divina exigissem uma mansidão sem rosto, uma espécie de submissão disfarçada de virtude.

Antes de avançar, quero fazer justiça ao argumento contrário. Quem defende a paz a qualquer custo nem sempre é covarde; muitas vezes, é alguém que já viu de perto o estrago provocado pela discórdia e deseja proteger aquilo que ainda permanece de pé. E não lhe faltam referências bíblicas: "o amor cobre multidão de pecados" (1Pe 4:8; Pv 10:12) e "quanto depender de vós, tenhais paz com todos" (Rm 12:18). Entretanto, é preciso ler esses ensinamentos com discernimento. Cobrir, nesse contexto, não significa esconder a violência, proteger o agressor ou impedir que a verdade venha à tona. Significa não transformar o erro alheio em arma, espetáculo ou instrumento de vingança. Além disso, Paulo reconhece que a paz depende também da disposição do outro, não apenas da nossa. É justamente aí que aparece uma distinção que aquela mesa de domingo parece ter esquecido: o perdão é pessoal, uma decisão de quem foi ferido, que ninguém tem o direito de exigir ou extorquir; a justiça, por sua vez, tem uma dimensão pública e existe também para proteger aqueles que ainda podem ser vítimas. Posso perdoar alguém de todo o coração e, ainda assim, exigir que essa pessoa não tenha acesso aos meus filhos. Uma coisa não anula a outra. Confundir perdão com impunidade é pedir à vítima que pague, com o próprio silêncio, uma dívida que nunca contraiu.

Os profetas já conheciam muito bem essa diferença. Amós exige que "corra o juízo como as águas" (Am 5:24), enquanto Jeremias denuncia aqueles que tratam superficialmente as feridas do povo, proclamando "Paz, paz; quando não há paz" (Jr 6:14). É como colocar uma gaze sobre uma ferida infeccionada e anunciar que o paciente está curado. Ora, a aparência de saúde não elimina a infecção! Até Jesus, que ensinou a oferecer a outra face, derrubou as mesas dos cambistas com um chicote de cordas (Jo 2:15). O mesmo Cristo que acolhia os pequenos e ensinava o amor também se indignava diante da exploração e da injustiça. Sua mansidão nunca foi sinônimo de passividade. A reflexão moderna, por outros caminhos, também nos ajuda a compreender essa questão. Martin Luther King Jr., na Carta da Prisão de Birmingham (1963), distingue a paz negativa, entendida como ausência de tensão, da paz positiva, que pressupõe a presença da justiça. Hannah Arendt, em Eichmann em Jerusalém (1963), mostra como o mal em larga escala pode se alimentar da irreflexão e da obediência burocrática, embora sua reflexão não trate especificamente do perdão. Foucault, por sua vez, ensina-me a desconfiar de práticas aparentemente inocentes que acabam sustentando relações de poder e desigualdades. Numa família, por exemplo, a velha sentença "assunto encerrado" pode funcionar como uma dessas práticas: encerra-se a conversa, mas a injustiça continua respirando debaixo do tapete. Esther Perel também me ajuda a compreender que relações vivas não são necessariamente relações sem atritos. O conflito, quando enfrentado com maturidade, pode revelar problemas que a aparente tranquilidade apenas escondia.

Mas não quero, evidentemente, trocar um equívoco por outro. O conflito não é uma virtude em si mesmo, e há quem confunda agressividade com coragem, gritaria com sinceridade e desejo de vingança com justiça. Nem toda discussão esclarece; algumas apenas machucam. A questão, portanto, é mais profunda: o que estou realmente curando e o que estou escondendo quando pronuncio a palavra "paz"? Discernir essa diferença é uma virtude que não nasce da pressa, muito menos da imposição. Aprende-se ouvindo, observando e, sobretudo, tendo coragem de encarar aquilo que preferíamos deixar quieto. Volto, então, àquela mesa de domingo. Imagino a moça respirando fundo, levantando os olhos e dizendo, com a voz trêmula, mas firme: "Eu quero conversar sobre o que aconteceu." O silêncio que vem depois não representa o fim da paz. Talvez seja, finalmente, o primeiro som dela. Afinal, perdoar sem justiça pode se transformar em anestesia; justiça sem amor pode se tornar amputação. A sabedoria está justamente em discernir quando cobrir e quando descobrir, quando acolher e quando confrontar. E, acima de tudo, em ter coragem de pronunciar a palavra que interrompe o silêncio confortável da mesa para devolver àquela casa a paz que, até então, nunca existiu.

Ensaio Teológico X(11) O Coração Não Cabe na Boca: sobre os limites da palavra como retrato do caráter

 


Ensaio Teológico X(11) O Coração Não Cabe na Boca: sobre os limites da palavra como retrato do caráter

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Todos nós já dissemos, no calor de uma discussão, algo que não éramos — ou fomos exatamente aquilo que dissemos e só descobrimos tarde demais. É nessa fresta entre o que se diz e o que se sente que me instalo para perguntar: será que a palavra revela o coração por inteiro ou apenas um recorte dele, às vezes disfarce, às vezes, confissão involuntária? Penso numa cozinha, onze da noite. Uma mulher exausta, depois de um dia daqueles, diz ao marido: "Faça o que quiser. Eu não me importo." À primeira vista, suas palavras expressam uma indiferença glacial; entretanto, quem conhece aquela mulher talvez escute nelas um pedido de socorro. A frase é a mesma, mas os sentidos são opostos. Quem julga apenas pelo som corre o risco de condenar sem compreender.

Reconheço, porém, que o próprio Cristo ensinou que a boca fala do que o coração está cheio (Lc 6:45; Mt 12:34). Seria desonesto, portanto, negar que nossas palavras frequentemente denunciam aquilo que carregamos por dentro. Ainda assim, a Escritura nos oferece um contraponto fundamental: o homem vê o exterior, mas o Senhor vê o coração (1Sm 16:7). Só Deus lê a alma sem intermediários; a nós cabe interpretar aquilo que escapa pelos lábios, sabendo que se trata de vestígios, não de veredictos. Basta lembrar os amigos de Jó: falaram com piedade aparentemente impecável, mas erraram profundamente em seus julgamentos. Pedro, por sua vez, negou o Mestre três vezes e, depois, chorou amargamente. Suas palavras diziam uma coisa; suas lágrimas, outra. A ciência moderna chega a conclusões semelhantes por caminhos diferentes. Com Goffman (1959), compreendo que ajustamos nossos papéis conforme o público, e quem conhece apenas a ribalta conhece a personagem, não necessariamente a pessoa. Com Pinker (2007), entendo que a fala indireta muitas vezes serve para administrar relações, e não simplesmente para expressar sentimentos. Tannen (1990), por sua vez, mostra que interromper alguém pode representar entusiasmo em determinada cultura e grosseria em outra. Já Damasio (1994) me recorda que somos organismos em movimento, atravessados por emoções e circunstâncias, não estátuas morais condenadas a permanecer iguais para sempre.

Isso, entretanto, não me autoriza a concluir que a palavra não importa. Afinal, se a fala nunca revela nada sobre o caráter, a calúnia seria inocente e a humilhação, mero acidente? Ora, não é por aí! É preciso distinguir a palavra como janela, nem sempre transparente, da palavra como ato, cujas consequências são bem reais. Austin (1962) ensinou que dizer também é fazer, enquanto o antigo provérbio bíblico já advertia que a morte e a vida estão no poder da língua (Pv 18:21). A palavra importa, sobretudo, pela responsabilidade que temos sobre aquilo que provocamos com ela, e não por funcionar como um diagnóstico infalível de quem somos. Posso, sim, ser cobrado pelo golpe que desferi com minhas palavras, sem que isso autorize alguém a decretar, de uma vez por todas, quem sou. Com Habermas (1984), prefiro trocar a pergunta "que tipo de pessoa fala assim?" por outra, muito mais produtiva: "que tipo de diálogo estamos construindo?" Desse modo, saímos do tribunal e nos sentamos à mesa, onde ainda é possível ouvir, ponderar e reconstruir pontes. Isso não significa adotar um relativismo preguiçoso, como se tudo pudesse ser desculpado em nome das circunstâncias. Afinal, uma crítica franca e até uma palavra profética podem nascer de um amor profundo, enquanto uma doçura excessiva, dessas que escorrem mel pelos lábios, pode muito bem esconder veneno.

Resta-me, então, a lição mais antiga, deixada pelo apóstolo Tiago: quem não tropeça no falar é homem perfeito (Tg 3:2). Como perfeitos não somos, convém ser lentos para sentenciar e rápidos para ouvir. Julgar o coração alheio a partir de uma frase solta é usurpar um ofício que não me foi confiado (Mt 7:1). Chomsky (2006) nos lembra da assombrosa criatividade da linguagem, e um ser capaz de tamanha infinitude não cabe nos limites de uma única frase. Cada fala é apenas um instante de um rio; ninguém conhece o rio inteiro contemplando a fotografia de uma onda. Que eu aprenda, portanto, a escutar com a paciência de quem reconhece que a pessoa diante de mim é sempre maior que suas palavras. E que também aprenda a falar com o temor de quem sabe que as próprias palavras, mesmo quando não revelam inteiramente quem sou, carregam minha responsabilidade e me comprometem. Afinal, entre aquilo que sentimos, aquilo que dizemos e aquilo que fazemos existe uma distância que exige menos julgamento e mais consciência.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(10) A Máscara e o Rosto: Ensaio sobre Vulnerabilidade, Vergonha e Graça

 


Ensaio Teológico X(10) A Máscara e o Rosto: Ensaio sobre Vulnerabilidade, Vergonha e Graça

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Aprendi cedo a arte de parecer: inteligente na escola, seguro de mim mais tarde, incansável no trabalho. Ninguém ensina isso formalmente numa sala de aula, mas, de um jeito ou de outro, todos aprendemos que existe uma versão de nós mesmos feita para agradar aos outros e outra, mais lenta, frágil e cheia de dúvidas, que escondemos quando há alguém por perto. É assim que a máscara nasce: dessa espécie de contabilidade entre o que mostramos e o que somos. No começo, parece escudo e até cumpre bem esse papel. O problema é que, com o passar do tempo, ela cobra seu preço. Afinal, ninguém consegue amar um rosto que nunca viu, e nós mesmos acabamos impedidos de receber amor quando não permitimos que alguém nos conheça de verdade.

A tradição bíblica conhece muito bem esse mecanismo. No Gênesis, homem e mulher estavam nus e não sentiam vergonha (Gn 2,25). A máscara aparece depois, quando entram em cena a folha de figueira, o esconderijo entre as árvores e a pergunta "Onde estás?" (Gn 3,9). Deus não pergunta por desconhecer o paradeiro humano, mas para provocar um encontro, chamar à consciência quem já havia começado a se esconder. Mais adiante, na parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14), encontramos outra face dessa mesma questão: volta justificado para casa aquele que, sem ostentar méritos, bate no peito e pede misericórdia. O fariseu não era propriamente um vilão; seu equívoco estava em confundir currículo religioso com identidade, aparência de virtude com transformação interior. A psicologia também nos oferece boas pistas para compreender esse comportamento. Brené Brown, em A Coragem de Ser Imperfeito (2012), sustenta que a vulnerabilidade é o berço da criatividade, do pertencimento e do amor. Jürgen Habermas, por sua vez, na Teoria da Ação Comunicativa (1981), distingue o agir estratégico do agir comunicativo. Essa diferença me ajuda a compreender a máscara como uma espécie de administração silenciosa das impressões: mostramos o que convém, escondemos o que incomoda e, quase sem perceber, passamos a viver em busca de aprovação.

Seria ingenuidade, entretanto, defender uma transparência absoluta, como se devêssemos abrir a alma para qualquer pessoa ou transformar a intimidade num espetáculo público. Erving Goffman, em A Representação do Eu na Vida Cotidiana (1956), mostrou que a vida social é constituída por papéis e representações, e que desempenhá-los não significa, necessariamente, viver na hipocrisia. O médico que procura tranquilizar o paciente, o professor que mantém a compostura diante da turma e o pai que sorri para não transmitir suas preocupações ao filho também usam máscaras. Só que, nesses casos, elas podem expressar cuidado, responsabilidade e até amor. Portanto, a questão decisiva não é simplesmente saber se usamos máscaras, mas se ainda somos capazes de tirá-las quando encontramos alguém diante de quem podemos ser nós mesmos. Há, contudo, um detalhe que não podemos ignorar: nem todo ambiente acolhe a vulnerabilidade. Revelar nossas fragilidades a quem pode transformá-las em armas contra nós não é coragem, é imprudência. A autenticidade também exige sabedoria para discernir a quem, quando e até que ponto devemos nos revelar.

Lembro-me de uma conversa em que, depois de anos sustentando a imagem de quem tinha tudo sob controle, finalmente admiti a um amigo que estava exausto. Confesso que esperava algum julgamento, talvez um conselho pronto ou aquela velha tentativa de me convencer a ser forte. Mas, ele simplesmente respondeu: "Eu também." Foi só isso. Nenhuma grande explicação, nenhum discurso motivacional. Por fora, nada mudou; por dentro, porém, alguma coisa se desatou. Era como perceber que eu carregava um peso que ninguém havia me pedido para carregar sozinho. Talvez seja essa uma das grandes lições da convivência humana: não precisamos arrancar todas as máscaras de uma vez, mas reconhecer que existe um rosto debaixo delas, com suas contradições, seus medos e suas cicatrizes. E que esse rosto pode ser visto sem que o mundo desabe. A tradição religiosa chama essa experiência de graça; a psicologia, de pertencimento. Eu diria que ambas apontam para uma necessidade profundamente humana: ser reconhecido por inteiro, sem precisar representar o tempo todo, e descobrir que, mesmo depois de vistos nossos defeitos e fragilidades, ainda podemos ser acolhidos. Afinal, que sentido tem passar a vida inteira construindo uma imagem para os outros, se, no fim das contas, nem nós mesmos conseguimos reconhecer quem está por trás dela?

Ensaio Teológico X(9) O Corpo, a Lei e a Vida Boa: Ensaio sobre Liberdade Sexual e Caráter Humano

 


Ensaio Teológico X(9) O Corpo, a Lei e a Vida Boa: Ensaio sobre Liberdade Sexual e Caráter Humano

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Carrego, desde a infância, perguntas que nem sei de onde vieram: o que faz de alguém uma pessoa boa? O que separa uma vida bem vivida de outra apenas bem comportada? Durante séculos, os códigos religiosos responderam a essas questões por nós. E não me parece justo desprezá-los, afinal, sustentaram comunidades, consolaram os enlutados e deram forma aos desejos humanos. Por isso, prefiro começar pela tradição, não contra ela. Tomás de Aquino compreendia a moral como a razão aplicada à busca do bem, enquanto João Paulo II defendia que a sexualidade é uma linguagem de entrega, traída quando o outro se transforma em instrumento. Reconheço nessas perspectivas uma intuição que não posso simplesmente descartar: o desejo sem cuidado fere. O desacordo, a meu ver, não está entre quem leva a moral a sério e quem não leva, mas entre diferentes maneiras de compreender como o respeito deve se manifestar.

É justamente aí que a pergunta ganha outros contornos. Martha Nussbaum sustenta que uma vida digna se mede pelas capacidades reais de pensar, amar, associar-se e escolher, sem que uma doutrina imponha um único modelo de existência a quem pensa diferente. Isso não significa que tudo seja permitido, mas que a dignidade humana exige espaço para que cada pessoa encontre e construa aquilo que a faz florescer. Com a devida cautela, recorro também a Angela Duckworth. Sei que ela trata de perseverança, não de moral sexual, mas suas reflexões me lembram que a constância e a capacidade de recomeçar são virtudes cultivadas por pessoas de crenças muito diferentes. Já Peter Singer descreve a história moral como um processo de ampliação do círculo daqueles que merecem consideração. É nessa perspectiva que compreendo o consentimento como núcleo da ética sexual: ninguém deve ser reduzido a instrumento do prazer alheio. Afinal, o outro não é objeto, é sujeito.

Mas, é preciso caminhar com cuidado quando o assunto envolve cultura e natureza. Gayle Rubin demonstrou como as sociedades hierarquizam as práticas sexuais com uma severidade que, muitas vezes, nasce de pânicos morais próprios de determinadas épocas. Eva Illouz, por sua vez, adverte que a liberdade prometida também pode produzir novas angústias: afinal, multiplicar as opções não significa, necessariamente, diminuir a solidão. Bruce Bagemihl documenta a diversidade dos comportamentos sexuais em centenas de espécies, mas convém não confundir as coisas: aquilo que acontece entre os animais não determina o que é moralmente bom para os seres humanos. Debra Soh, por outro lado, tem suas posições contestadas por parte da comunidade científica, e faço referência a seu trabalho com a modéstia de quem reconhece estar diante de um campo de investigação vivo, sujeito a revisões e controvérsias. Também há vozes importantes que enfrentam essas questões de dentro da própria fé. Margaret Farley fundamenta a ética sexual na justiça, enquanto Rowan Williams compreende o desejo como dom. Ambos mostram que é possível dialogar criticamente com a tradição religiosa sem precisar negá-la por inteiro.

Ainda assim, seria desonesto encerrar esta reflexão sem reconhecer aquilo que minha própria tese não consegue resolver. O consentimento, embora necessário, também é suficiente? Onde termina a autonomia e começa o dano, inclusive aquele que não deixa marcas visíveis? Imagino uma mulher ensinada, desde cedo, a enxergar o próprio desejo como motivo de vergonha e um homem educado a tratá-lo como troféu. Ambos, por caminhos opostos, aprenderam a não olhar o outro verdadeiramente de frente. E talvez seja justamente aí que esteja o problema: não basta ensinar o que se pode ou não fazer; é preciso aprender a reconhecer a humanidade de quem está diante de nós. O que poderia libertá-los não seria simplesmente acrescentar ou retirar um código de conduta, mas promover uma verdadeira educação do olhar. Talvez a sabedoria esteja nesse equilíbrio: não abolir a lei, tampouco transformá-la em objeto de adoração. Afinal, nenhuma lei deveria ser maior do que a dignidade humana, pois toda norma, religiosa ou não, só encontra sua razão de existir quando está a serviço do florescimento da vida.

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(8) A PERGUNTA COMO REVERÊNCIA

 



Ensaio Teológico X(8) A PERGUNTA COMO REVERÊNCIA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

No fundo da sala havia um menino que nunca levantava a mão. Sabia algumas respostas, ou pelo menos desconfiava delas, mas a pergunta que lhe queimava a garganta — "E se não for assim?" — parecia-lhe uma espécie de ofensa. Talvez tivesse medo de contrariar a professora, decepcionar os colegas ou simplesmente ser confundido com alguém que não respeitava a autoridade. Até que, certo dia, em vez de repreendê-lo, a professora escreveu a frase no quadro e disse: "Hoje vamos começar por aqui". Naquele instante, o menino aprendeu uma lição que talvez levasse anos para compreender por inteiro: há silêncios que nascem do respeito e outros que são filhos do medo. E só os primeiros merecem ser preservados. Lembro-me dele quando releio o velho provérbio segundo o qual o sábio ama ser ensinado, enquanto o tolo prefere ouvir a própria voz. Não pretendo desmentir essa sabedoria, afinal, quem se considera completo já fechou as portas para o aprendizado. Mas, fica uma inquietação: escutar bem significa deixar de perguntar ou será que uma atitude amadurece justamente com a outra?

A própria tradição sapiencial nunca confundiu humildade com obediência cega. No livro de Jó, encontramos um homem que interroga o Céu, expõe suas angústias e questiona a justiça divina. Curiosamente, é ele quem recebe reconhecimento, enquanto seus amigos, tão seguros de suas fórmulas e explicações prontas, acabam repreendidos. Os Salmos também estão cheios de clamores, perguntas e pedidos de explicação, mostrando que a inquietação pode ser uma forma legítima de oração. Em Atos 17, os judeus de Bereia são elogiados justamente porque recebiam a mensagem com entusiasmo, mas examinavam diariamente as Escrituras para verificar se aquilo correspondia à verdade. Ora, que bela demonstração de equilíbrio! Eles ouviam sem fechar os olhos e examinavam sem desprezar o que ouviam. Vejo nisso uma sabedoria que não coloca a escuta e a crítica em lados opostos: perguntar não é necessariamente desconfiar de quem ensina, mas levar a sério aquilo que foi ensinado.

Nosso tempo, aliás, torna essa lição ainda mais necessária. Yuval Noah Harari, historiador e autor de Sapiens e 21 Lições para o Século XXI, chama a atenção para um problema da sociedade contemporânea: a abundância de informações não significa, necessariamente, maior compreensão. Em meio a tantas notícias, opiniões e versões, o desafio é separar o que realmente importa do barulho que nos cerca. Daniel Kahneman, psicólogo e Nobel de Economia, demonstrou como o pensamento rápido pode nos conduzir a julgamentos equivocados, razão pela qual decidir bem exige, muitas vezes, desconfiar das próprias certezas. Carol Dweck, também psicóloga, acrescenta que a inteligência e a aprendizagem se desenvolvem quando estamos dispostos a errar, rever caminhos e tentar novamente. Paulo Freire, por sua vez, criticava a chamada "educação bancária", na qual o aluno é tratado como um cofre no qual o professor deposita conhecimentos, e defendia uma educação fundamentada no diálogo, em que ensinar e aprender são movimentos de mão dupla. Hannah Arendt, ao refletir sobre os perigos da ausência de pensamento crítico e sobre a responsabilidade individual diante do autoritarismo, também nos ajuda a compreender o risco de simplesmente aceitar o que nos dizem. Hoje, em meio à desinformação, às notícias fabricadas e às opiniões que circulam como verdades absolutas, quem não pergunta acaba ficando à mercê de quem fala mais alto. Até o progresso, penso eu, nasce muitas vezes da inquietação de alguém que resolve examinar aquilo que todos consideram indiscutível. A campanha "Think Different", da Apple, criada por uma agência de publicidade, e não uma declaração pessoal de seu fundador, sintetizou essa intuição: ideias novas costumam parecer insolentes antes de serem reconhecidas como necessárias. Afinal, quase toda mudança começa com alguém que tem coragem de perguntar: por que precisa continuar sendo assim?

Volto, então, ao menino do fundo da sala. O que a professora lhe ofereceu não foi uma licença para a rebeldia, muito menos um convite à contestação gratuita. Foi algo mais importante: a segurança de saber que sua pergunta seria recebida como contribuição, não como desacato. É esse equilíbrio que procuro defender, tanto na escola quanto na vida. A sabedoria não mora na submissão de quem aceita tudo, tampouco na soberba de quem rejeita qualquer ideia que venha do outro. Mora na atenção humilde de quem escuta até o fim, pensa, pondera e só então pergunta, mesmo que sua pergunta provoque algum desconforto. Afinal, não precisamos escolher entre ouvir e pensar, entre respeitar e questionar. Uma coisa não anula a outra; pelo contrário, completa-a. Escutar dá à dúvida o direito de existir; perguntar dá à escuta o seu verdadeiro sentido. Num mundo que muda depressa e onde tantas certezas envelhecem antes mesmo de serem compreendidas, precisamos de pessoas capazes de aprender sem se ajoelhar diante de qualquer discurso e de questionar sem perder a humildade. Gente que saiba ser, ao mesmo tempo, discípula e interlocutora. Porque, no fim das contas, perguntar também é uma forma de reverência: é reconhecer que o conhecimento merece respeito, mas nenhuma resposta humana deve ser confundida com a verdade absoluta.

Ensaio Teológico X(7) O NOME NA LÁPIDE: Para o dia de finados

 


Ensaio Teológico X(7) O NOME NA LÁPIDE: Para o dia de finados

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Na gaveta de minha avó havia uma fotografia sem legenda: quatro pessoas diante de uma casa de pau a pique. Ninguém sorria; todos apertavam os olhos contra o sol, como quem tentava enxergar além daquele instante. Quando perguntei quem eram, ela olhou demoradamente para a fotografia e respondeu: "Já soube". Foi, talvez, a resposta mais sincera que já ouvi sobre a morte. Afinal, aqueles rostos haviam desaparecido da memória dos vivos sem, contudo, jamais terem deixado de existir. Anos depois, aquela fotografia me devolveu uma pergunta inevitável: quando eu partir, o que restará de mim? Meu nome sobreviverá ao tempo ou acabará perdido em alguma gaveta, entre papéis antigos e lembranças sem identificação?

Essa inquietação é tão antiga quanto a própria escrita. O autor de Eclesiastes a formulou com uma serenidade desconcertante: não há lembrança dos antigos, nem haverá dos que vierem depois. Entretanto, em vez de nos entregar ao desespero, o livro nos convida a voltar os olhos para o presente: comer o pão com alegria, desfrutar a vida e compartilhar os dias com quem amamos. Outras passagens bíblicas oferecem uma resposta diferente, falando de um "livro da vida" e de um nome que Deus não esquece, como se a memória verdadeiramente importante não dependesse da lembrança humana. São perspectivas distintas, mas que se encontram numa mesma inquietação sobre a existência. Seja qual for a resposta que eu abrace, permanece a pergunta: "valeu a pena?". Curiosamente, costumo fazê-la olhando para o futuro, quando talvez devesse fazê-la examinando o presente. Afinal, de que adianta desejar um nome na lápide se, em vida, não conseguimos deixar marcas de humanidade no caminho?

Tenho boas razões para desconfiar da posteridade como tribunal. Yuval Noah Harari, historiador e autor de Sapiens, lembra que a história preservou apenas uma pequena parcela da experiência humana. A imensa maioria das pessoas desapareceu sem deixar registros, independentemente de suas virtudes, maldades ou realizações. Já Daniel Schacter, psicólogo da memória, mostrou que recordar não é simplesmente abrir um arquivo e reproduzir o passado: é reconstruí-lo com as tintas do presente. Quem se lembra de nós também projeta sobre nossas histórias suas próprias experiências, sentimentos e interpretações. Zygmunt Bauman, ao analisar a modernidade "líquida", chamou a atenção para a fragilidade dos vínculos e a velocidade com que as relações se desfazem. O ambiente digital, por sua vez, acelerou esse paradoxo: armazenamos fotografias, mensagens e documentos aos milhares, mas nem por isso garantimos que alguém, um dia, se lembrará de nós. Guardamos quase tudo e, contraditoriamente, parecemos esquecer cada vez mais depressa. Diante dessa fragilidade, Viktor Frankl me ensina que o sentido da existência não deve ser perseguido como um troféu, mas encontrado na dedicação a algo maior que nós mesmos. Sartre, por sua vez, lembra que, condenado à liberdade, sou responsável por minhas escolhas e pelos meus atos, sem poder recorrer ao julgamento de um futuro desconhecido para me absolver ou condenar. No fim das contas, viver não é preparar um monumento para a posteridade, mas assumir a responsabilidade pelo que fazemos enquanto ainda estamos aqui.

Essa reflexão também me ensina a fazer justiça aos outros. Se a memória é reconstrução e o contexto exerce tamanha influência sobre o comportamento humano, como sugerem os experimentos de Philip Zimbardo, então condenar ou canonizar os mortos com veredictos definitivos pode ser um grave erro de perspectiva. A história está cheia de personagens que, conforme a época e os interesses de quem os interpreta, passaram de heróis a vilões e de vilões a heróis. A memória coletiva, afinal, nem sempre é justa; às vezes, apenas muda de opinião. Peter Singer me oferece um critério mais humano para avaliar a existência: perguntar quanto sofrimento conseguimos evitar e quanto bem-estar fomos capazes de produzir. É uma medida que dispensa monumentos, sobrenomes importantes e discursos depois da morte. Por isso, volto àquela fotografia esquecida na gaveta de minha avó. Não sei o nome das quatro pessoas, tampouco conheço suas histórias, seus sonhos ou as dificuldades que enfrentaram. Mas, sei que alguém as amou o bastante para guardar aquela imagem. E talvez o legado seja justamente isso: não a eternidade de um nome gravado na pedra, mas o cuidado que, enquanto estivemos vivos, tornou a caminhada de alguém um pouco menos pesada. Se um dia encontrarem uma fotografia minha numa gaveta, sem legenda, não faço questão de que saibam meu nome ou enumerem minhas realizações. Gostaria apenas que, ao segurá-la, alguém pudesse sentir que vivi com dignidade, tratei os outros com humanidade e, apesar das minhas contradições, fui capaz de fazer algum bem. Porque, no apagar das luzes, talvez não seja o nome na lápide que melhor conte quem fomos, mas a saudade silenciosa de quem teve a vida um pouco mais leve por nossa causa.