"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

domingo, 25 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(8) DIÁLOGO E TRANSFORMAÇÃO: CONSTRUINDO PONTES, NÃO MUROS

 


Ensaio Teológico IX(8) DIÁLOGO E TRANSFORMAÇÃO: CONSTRUINDO PONTES, NÃO MUROS

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Acredito que a sabedoria bíblica nos convida a refletir sobre como lidar com quem rejeita conselhos. Em Provérbios 9:7-8, encontro um alerta sobre o escarnecedor, mas me pergunto se essa condição é definitiva ou apenas uma fase da vida. Reconheço que há conversas desgastantes e pessoas que usam o debate para ferir, por isso considero legítimo estabelecer limites, como sugere Mateus 7:6. Entretanto, prefiro distinguir o afastamento necessário de uma condenação permanente: posso interromper uma conversa sem decretar que alguém não tem mais jeito.

Com Carl Rogers, em Tornar-se pessoa (1961), compreendo que a aceitação pode favorecer a transformação, sem significar aprovação dos erros. Eric Kandel e os estudos sobre plasticidade cerebral também me ajudam a reconhecer que as experiências podem modificar o cérebro ao longo da vida, embora nem toda mudança seja garantida. Por isso, não me sinto autorizado a declarar alguém incapaz de mudar. Prefiro manter essa possibilidade como uma aposta ética, reconhecendo que cada pessoa tem sua história, seus limites e seu próprio tempo.

Penso no homem que zombava da fé dos colegas e já era considerado alguém com quem não adiantava conversar. Quando uma colega mais velha decidiu ouvi-lo sem tentar vencê-lo, algo começou a mudar. Essa cena me lembra que uma pergunta sincera pode abrir caminhos que a condenação fecha. Também compreendo, com John Stuart Mill, em Sobre a Liberdade (1859), que o confronto entre opiniões nos ajuda a examinar nossas convicções. Quando me cerco apenas de quem pensa como eu, corro o risco de confundir concordância com verdade e transformar minhas certezas em hábitos nunca questionados.

Na tradição bíblica, encontro em Jesus um exemplo de aproximação: ele se sentava à mesa com publicanos e pecadores (Lucas 15:1-2) e acolheu Zaqueu, cujo encontro com ele foi seguido por mudanças concretas (Lucas 19:1-10). Vejo nisso uma sabedoria que une prudência, responsabilidade e acolhimento. Não preciso aceitar tudo nem permanecer em relações prejudiciais, mas posso evitar que meus limites se transformem em sentenças definitivas sobre os outros. Afinal, acredito que uma sociedade mais justa e compassiva se constrói quando aprendemos a proteger nossa integridade sem perder a humanidade e a construir pontes, em vez de levantar muros contra quem ainda pode mudar.

Ensaio Teológico IX(7) A LUZ DO CORREDOR: ENTRE O LIMITE, A ESPERANÇA E A RESPONSABILIDADE PELO OUTRO

 


Ensaio Teológico IX(7) A LUZ DO CORREDOR: ENTRE O LIMITE, A ESPERANÇA E A RESPONSABILIDADE PELO OUTRO

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Conheço uma frase que costuma ser dita com cansaço e, quase sempre, sem maldade: "com este não adianta mais". Não zombo de quem chega a esse ponto, porque sei que o desgaste é real e merece respeito. Afinal, ninguém é de ferro, e há momentos em que insistir numa relação parece remar contra a correnteza. Reconheço, portanto, que estabelecer limites não é um defeito, muito menos sinal de falta de amor. Existem relações abusivas nas quais permanecer significa continuar se ferindo, e a própria sabedoria bíblica, em Provérbios 15:12, aconselha cautela diante do escarnecedor. É preciso, porém, distinguir duas coisas que a pressa costuma misturar: não desistir de alguém não significa permanecer em risco. Posso fechar uma porta para proteger minha integridade e, ainda assim, deixar acesa a luz do corredor. Posso me afastar sem transformar o afastamento numa sentença definitiva sobre o valor ou o futuro de quem ficou do lado de lá.

É justamente essa sentença que as reflexões contemporâneas da psicologia e da pedagogia nos convidam a questionar. Com Carol Dweck, em Mindset (2006), compreendo que a maneira como enxergamos nossas capacidades influencia nossa relação com o aprendizado e com os próprios erros. Quando alguém é rotulado como "incorrigível", corre-se o risco de tratá-lo como se estivesse condenado a ser para sempre aquilo que hoje demonstra ser. Com Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido (1968), lembro que ninguém se constrói sozinho, isolado da palavra, do trabalho, da ação e da reflexão. Já Urie Bronfenbrenner, em A ecologia do desenvolvimento humano (1979), ajuda-nos a perceber que o comportamento não nasce no vazio: é influenciado pelas relações familiares, pela escola, pela comunidade e pelo contexto cultural em que cada pessoa vive. Nada disso elimina a responsabilidade individual, nem transforma todo erro em culpa do ambiente. O que muda é o alcance do nosso olhar. Em vez de perguntar apenas "o que há de errado com ele?", vale perguntar também: o que aconteceu em sua trajetória? Que relações alimentam esse comportamento? E, sobretudo, que outras experiências poderiam ajudá-lo a encontrar um caminho diferente?

Penso, então, na cena de um professor diante de um adolescente que debocha de tudo, enfrenta as regras e já foi considerado um caso perdido por três escolas. Cansado, o educador poderia simplesmente repetir o diagnóstico dos colegas e tratá-lo como mais um problema a ser despachado. Em vez disso, mantém a firmeza, corrige sem humilhar e, dia após dia, cumprimenta o garoto pelo nome. Não passa a mão na cabeça dele, tampouco finge que nada aconteceu. Apenas se recusa a confundir o comportamento de hoje com o destino de amanhã. Até que, certa tarde, depois da aula, o adolescente se aproxima e pergunta, quase sem levantar os olhos, se pode levar um livro emprestado. Não há música de fundo, discurso emocionante ou transformação milagrosa. Há apenas um pequeno gesto, desses que quase ninguém nota, mas que podem mudar a direção de uma vida. Anos depois, talvez aquele rapaz nem se lembre de uma frase específica do professor. O que ficará na memória será o fato de alguém ter continuado a enxergá-lo para além das suas dificuldades. Reconheço que essa é uma cena ilustrativa, e a substituiria, sem hesitar, por um rosto real do meu próprio percurso. Afinal, quem passou anos entre o giz, os cadernos e os desafios da sala de aula sabe que nem toda mudança faz barulho. Às vezes, ela começa num cumprimento, num livro emprestado ou na simples decisão de não tratar ninguém como um caso encerrado.

Por fim, creio que a raiz mais profunda dessa postura está na ética e na fé. Emmanuel Levinas, em Totalidade e Infinito (1961), coloca a responsabilidade pelo outro no centro da reflexão ética. Essa ideia me faz lembrar o "eis-me aqui" de Isaías 6:8 e, sobretudo, as parábolas de Lucas 15. Ali encontramos o pastor que vai atrás da ovelha perdida, sem transformar o resgate numa conta de custo e benefício, e o pai que corre ao encontro do filho quando ainda está "ainda longe". A imagem é poderosa: antes mesmo de o filho chegar à porta, o pai já se movimenta em sua direção. Não se trata de aprovar os erros do rapaz, mas de reconhecer que a possibilidade de recomeçar não precisa morrer junto com a confiança perdida. Quem transforma a rejeição em princípio corre o risco de se parecer mais com o irmão mais velho, que permanece do lado de fora da festa, agarrado às próprias razões, do que com o pai, que acolhe sem fingir que nada aconteceu.

Por isso, prefiro encerrar com um convite, não com uma ordem: sejamos firmes sem nos tornarmos fechados, pacientes sem cair na ingenuidade e acolhedores sem abandonar nossos limites. Nem todo mundo está pronto para mudar quando estendemos a mão; alguns sequer reconhecerão o gesto. E tudo bem: não somos donos do tempo, da consciência nem das escolhas alheias. Nossa responsabilidade não é garantir a transformação de ninguém, mas evitar que o cansaço nos convença de que certas pessoas já não merecem nenhuma possibilidade de mudança. Afinal, nem toda semente brota na estação em que a plantamos. Algumas precisam de mais tempo, de outro terreno ou de cuidados diferentes. E, se não podemos obrigar a semente a florescer, podemos ao menos evitar que a nossa impaciência transforme o jardim inteiro em chão abandonado. Uma sociedade mais justa não se constrói com a ingenuidade de quem aceita tudo, mas com a coragem de quem estabelece limites sem perder a humanidade. Porque, às vezes, não precisamos manter a porta aberta para sempre; basta não apagar, por completo, a luz do corredor.

Ensaio Teológico IX(6) A PRUDÊNCIA, A LOUCURA E A SABEDORIA DO ENCONTRO

 


Ensaio Teológico IX(6) A PRUDÊNCIA, A LOUCURA E A SABEDORIA DO ENCONTRO

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há uma tentação antiga, tão velha quanto o próprio medo: levantar muros em volta da alma e chamar isso de paz. Não zombo desse desejo, porque sei que ele nasce de uma busca legítima por integridade. Afinal, existe verdade no rigorismo quando nos alerta que aquilo que consumimos e as pessoas com quem convivemos influenciam nossa maneira de pensar e agir. Provérbios 13:20 e 1 Coríntios 15:33 nos lembram disso, e prudência não é pecado. Entretanto, vale prestar atenção ao sentido das palavras: o "andar" do provérbio sugere convivência habitual, enquanto o "tolo" (kesil) é aquele que se fecha ao aprendizado, não simplesmente quem pensa diferente de nós. O texto bíblico alerta contra as más influências, mas não nos manda viver numa quarentena cultural, como se todo mundo de fora fosse uma ameaça.

O problema, a meu ver, começa quando a prudência endurece e vira um sistema de classificação das pessoas. De repente, dividimos o mundo entre "sábios" e "tolos", como quem pretende separar o joio do trigo antes da hora, esquecendo que Jesus adverte contra essa pressa em Mateus 13:29-30. A partir daí, o outro deixa de ser alguém com quem podemos aprender e passa a representar um perigo a ser evitado. Ora, a história da cultura está cheia de exemplos que desmentem essa falsa segurança. Erasmo, no Elogio da Loucura (1511), deu voz a verdades que os sisudos não tinham coragem de admitir. Séculos depois, Foucault, em História da Loucura (1961), examinou como as sociedades constroem a figura do "louco" para afastar aquilo que não conseguem compreender ou controlar. E Paulo, muito antes dos dois, já havia provocado uma reviravolta ao afirmar que Deus escolheu as coisas loucas para envergonhar os sábios (1 Coríntios 1:27). Eis aí uma ironia que merece nossa atenção: quem se apressa em condenar a loucura pode acabar rejeitando justamente aquilo por onde o novo, o criativo e até a sabedoria poderão chegar.

Penso, então, numa jovem criada num lar zeloso, onde não havia televisão e a música "do mundo" aparecia nos sermões como motivo de preocupação. Não havia, necessariamente, maldade naquela atitude, mas amor, cuidado e o desejo sincero de protegê-la. O problema é que, aos dezoito anos, ao entrar na universidade, ela descobriu que não sabia conversar com quem pensava diferente. Aquilo que nunca tinha conhecido lhe parecia perigoso, e o desconhecido, sem mais nem menos, ganhava a aparência de uma ameaça. Sua transformação começou quando uma colega a convidou a conversar sobre o conteúdo das canções, em vez de simplesmente condená-las. Aos poucos, ela percebeu que discernir não é fugir de tudo o que nos desafia, mas aprender a examinar, comparar e fazer escolhas conscientes. Afinal, discernimento não se herda como sobrenome: desenvolve-se na experiência, no diálogo e na disposição de rever certezas. É nessa perspectiva que compreendo a cultura popular, como sugere Henry Jenkins em Cultura da Convergência (2006), como uma espécie de praça pública onde a sociedade conversa consigo mesma. Claro que existem conteúdos nocivos, e não precisamos fechar os olhos para isso. A questão é saber se vamos preparar as pessoas para pensar criticamente ou apenas ensiná-las a obedecer a proibições. A meu ver, a formação do olhar é mais fecunda do que a censura prévia. Com Bakhtin, reconheço que o diálogo entre diferentes vozes amplia as possibilidades de compreensão; no monólogo, ao contrário, nossas certezas correm o risco de apenas ecoar a si mesmas.

Por fim, volto a Paulo, que nos lembra que o corpo não é constituído por um só membro, mas por muitos (1 Coríntios 12:14). Sei que, nesse trecho, o apóstolo fala da igreja e da diversidade de seus dons, não propriamente dos debates culturais. Ainda assim, a imagem nos oferece uma reflexão que vai além desse contexto: se a unidade do corpo depende da existência de membros diferentes, a diferença não é um defeito a ser corrigido, mas parte daquilo que torna a comunhão possível. O mesmo vale para a convivência humana. Quem se fecha numa redoma de afinidades acaba perdendo a oportunidade de ser corrigido, de enxergar outros ângulos e de experimentar aquele espanto que só o encontro com o diferente pode provocar. Por isso, prefiro terminar com um convite, não com uma ordem: sejamos prudentes sem nos tornarmos fechados, firmes sem ficarmos surdos e cuidadosos sem transformar o medo em regra de vida. Diante daquilo que julgamos ser "loucura", que tal escutar antes de condenar? Nem tudo o que nos contraria nos ameaça, assim como nem tudo o que nos conforta nos ensina. Às vezes, a sabedoria bate à porta vestida de estranheza, trazendo uma pergunta que nossas certezas não sabem responder. Se tivermos coragem de abrir a porta, talvez descubramos que o diálogo não enfraquece nossas convicções: ajuda-nos a amadurecê-las. E, de conversa em conversa, podemos nos tornar mais humanos e contribuir para uma sociedade mais justa, hospitaleira e viva.

sábado, 24 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(5) AS DUAS MESAS DA CONSCIÊNCIA: SABEDORIA, EVIDÊNCIA E HUMILDADE

 


Ensaio Teológico IX(5) AS DUAS MESAS DA CONSCIÊNCIA: SABEDORIA, EVIDÊNCIA E HUMILDADE

Por Claudeci Ferreira de Andrade


Em Provérbios, a Sabedoria e a Tolice são duas mulheres que disputam a atenção de quem passa. Ambas têm casa, ambas preparam a mesa, ambas chamam da porta. A força dessa alegoria está justamente nisso: o viajante não encontra uma placa que lhe permita distinguir, de imediato, qual convite conduz à vida e qual pode levá-lo à ruína. Confesso que, ao ler essa cena, sempre acabo diante de uma pergunta incômoda: de qual dessas mesas tenho me alimentado sem perceber? Durante algum tempo, tentei interpretar essa disputa como duas maneiras de encarar a realidade: de um lado, a busca por evidências; do outro, a confiança em suposições. Uma mesa ofereceria o banquete dos fatos verificáveis; a outra, um cardápio de meias-verdades, servido com aparência de certeza. A comparação faz sentido, mas será que dá conta de toda a complexidade da sabedoria?

Essa leitura tem seu valor, e a tradição crítica nos ajuda a compreendê-la. Bertrand Russell é frequentemente associado à ideia de que os tolos têm certezas excessivas, enquanto os sábios vivem cheios de dúvidas. Como a formulação exata e sua fonte são incertas, prefiro não tratá-la como uma citação comprovadamente sua, mas como expressão de uma intuição importante: a sabedoria começa onde a certeza fácil termina. Entretanto, preciso reconhecer uma tensão que essa interpretação pode esconder. Em Provérbios 1.7, o temor do Senhor aparece como princípio da sabedoria. Não se trata simplesmente de reunir evidências ou acumular informações, mas de cultivar reverência, disposição para escutar e humildade para aceitar correções. Reduzir a sabedoria àquilo que pode ser demonstrado por evidências seria trocar uma raiz profunda por outra mais estreita. Afinal, conhecer os fatos é fundamental, mas saber o que fazer com eles exige também discernimento, responsabilidade e consciência dos próprios limites.

A própria Escritura adverte que a ilusão não mora apenas na cabeça de quem desconhece os fatos. Em Provérbios 14.12, lemos que há caminho que parece direito ao ser humano, mas cujo fim conduz à morte. Repare bem: o caminho parece correto. Quem o percorre pode estar sinceramente convencido de que fez a escolha certa, apoiado em argumentos que lhe parecem sólidos. É justamente aí que minha inquietação ganha força: e quando a própria evidência nos engana? Quando um dado verdadeiro é interpretado pelos olhos do desejo, ou quando o rigor intelectual se transforma numa forma elegante de vaidade? Sim, até a razão pode servir de escudo para o orgulho, e até os fatos podem ser convocados para defender aquilo em que já decidimos acreditar. Nesse ponto, a dúvida deixa de ser inimiga da sabedoria e passa a atuar como sua guardiã. Não aquela dúvida que nos paralisa ou nos faz negar tudo, mas a que nos obriga a examinar nossas convicções antes de transformá-las em verdades absolutas. Talvez a diferença entre as duas mesas esteja também no efeito que produzem em quem delas se alimenta: uma nos torna mais humildes e dispostos a aprender; a outra nos deixa cada vez mais convencidos de que não temos nada a aprender.

Chego, então, ao que considero o centro dessa reflexão: saber não basta. O conhecimento sem compaixão pode endurecer o coração, enquanto a curiosidade sem ética pode transformar o outro em objeto de investigação, julgamento ou ferida. Escolher entre sabedoria e tolice é também escolher entre cuidar e ignorar, entre manter a pergunta aberta e acomodar-se à própria opinião. É aqui que a mensagem de Tiago me oferece um horizonte de esperança. Em Tiago 1.5, quem reconhece a própria falta é convidado a pedir sabedoria a Deus, que a todos dá liberalmente e sem censura. Pedir, nesse contexto, não significa cruzar os braços e esperar que as respostas caiam do céu; significa reconhecer que a busca começa com a humildade de quem admite não saber tudo. Não vou fingir que já aprendi a distinguir perfeitamente as duas mesas, porque seria contradizer justamente aquilo que estou tentando compreender. Sei apenas que a pergunta continua comigo e que, talvez, a sabedoria não consista em nunca se enganar, mas em ter coragem para rever o caminho, escutar o outro e reconhecer os próprios erros. No fim das contas, o desafio não é apenas escolher onde sentar, mas descobrir no que estamos nos transformando enquanto comemos. E continuar perguntando, mesmo quando a resposta ameaça o conforto das nossas certezas, pode ser o primeiro sinal de que começamos, de fato, a aprender.

Ensaio Teológico IX(4) SABEDORIA E LOUCURA: AS DUAS PORTAS DA CONSCIÊNCIA

  


Ensaio Teológico IX(4) SABEDORIA E LOUCURA: AS DUAS PORTAS DA CONSCIÊNCIA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Provérbios 9 é um dos capítulos mais bem construídos da literatura sapiencial. De um lado, a Sabedoria edifica sua casa, prepara a mesa e envia suas servas à cidade; do outro, a Loucura, sentada à porta da própria casa, chama os que passam. Curiosamente, ambas fazem praticamente o mesmo convite: "Quem é simples, volte-se para aqui". No entanto, os destinos são diferentes: uma conduz à vida; a outra, aos "convidados do Sheol". A cena é belíssima e, confesso, também me inquieta. Antes de qualquer crítica, porém, preciso fazer uma ressalva por uma questão de justiça: a "Loucura" do texto não representa a diversidade psíquica, o inconformismo ou a dúvida sincera, mas a imprudência de quem rejeita a correção. Criticar o capítulo como se ele condenasse todo aquele que pensa diferente seria erguer um espantalho. O que me interessa, de fato, é outra questão: o que acontece quando esse mapa de duas portas é aplicado, sem reflexão, à vida de pessoas reais, onde quase nunca encontramos placas indicando o caminho certo ou o errado?

Penso que a própria tradição sapiencial reconhece que esse mapa é mais frágil do que a leitura isolada de Provérbios 9 pode sugerir. Eclesiastes põe o sábio e o tolo lado a lado e constata, com certa amargura, que "o mesmo destino" os alcança; além disso, reconhece que o coração humano está cheio "de loucura enquanto vivem". Jó, por sua vez, questiona a lógica simplista de que quem anda corretamente necessariamente prospera. Afinal, se toda pessoa justa fosse poupada do sofrimento, como explicar as dores de Jó? E, se toda adversidade fosse sinal de culpa, quantos inocentes não seriam injustamente condenados? A própria Bíblia, portanto, abre espaço para perguntas que complicam as respostas fáceis. Isso me tranquiliza, pois questionar uma passagem não significa abandonar a Escritura, mas continuar a conversa que ela mesma começou.

É nessa conversa que Michel Foucault me ajuda a pensar, desde que eu não o transforme em oráculo. Em História da Loucura, ele examina como a fronteira entre razão e desrazão foi traçada historicamente, muitas vezes ao preço do silenciamento daqueles colocados do lado considerado "errado". Já em A Hermenêutica do Sujeito, recupera o cuidado de si dos antigos como um exercício constante de atenção e transformação pessoal, e não como um mergulho egoísta no próprio umbigo. Clifford Geertz, em O Saber Local, completa essa reflexão ao mostrar que até o chamado "bom senso" é atravessado pela cultura: aquilo que uma sociedade considera prudência outra pode interpretar como fuga. A sabedoria, vista por esse ângulo, também tem sotaque, endereço e história. Isso não significa que tudo seja relativo, mas que convém pensar duas vezes antes de transformar nossos próprios critérios em medida universal para julgar os outros.

Entretanto, minha crítica a essa divisão entre sabedoria e loucura também exige cautela. Seria incoerente rejeitar a ideia de um caminho único e, logo depois, transformar o autoconhecimento numa nova estrada obrigatória. Afinal, olhar para dentro também pode ser uma forma sofisticada de vaidade; nem tudo o que nasce em nosso íntimo merece ser tratado como verdade. O próprio livro de Provérbios afirma, logo após a cena dos dois convites, que o princípio da sabedoria é o temor do Senhor. Essa afirmação me lembra que existe algo além de mim, capaz de questionar minhas certezas, corrigir meus passos e me fazer reconhecer os limites daquilo que penso saber. Talvez a sabedoria que procuro não esteja exclusivamente fora, nas tradições e nos ensinamentos que recebo, nem apenas dentro de mim, nos sentimentos e nas reflexões que cultivo. Quem sabe ela nasça justamente do encontro entre uma voz que me chama de fora e um coração que aprende, por dentro, a ouvir sem se anular, a questionar sem desprezar e a mudar sem perder a própria consciência.

Termino, então, sem distribuir sentenças nem apontar vencedores. Se todo ser humano carrega em si a possibilidade da sabedoria e da imprudência, a questão deixa de ser simplesmente escolher uma porta e fechar a outra para sempre. O desafio é reconhecer nossas contradições sem permitir que elas assumam o comando da casa. Por isso, a pergunta que me acompanha não é apenas "qual porta devo escolher?", mas "como convivo com a que me inquieta, sem entregar a ela o comando da casa?". E há outra, ainda mais difícil, daquelas que continuam martelando na cabeça mesmo depois que o livro se fecha: quantas vezes chamei de loucura aquilo que era apenas o começo de uma pergunta nova? Afinal, talvez o maior perigo não esteja somente em seguir a voz errada, mas também em acreditar tanto que já conhecemos a verdade que deixamos de escutar.

Ensaio Teológico IX(3) A SABEDORIA NÃO É UM BANQUETE: É UMA CONQUISTA

 


Ensaio Teológico IX(3) A SABEDORIA NÃO É UM BANQUETE: É UMA CONQUISTA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há uma cena em Provérbios 9 que chama a atenção: a Senhora Sabedoria edifica a sua casa, prepara a mesa e envia suas servas para convidar a cidade: "Vinde, comei do meu pão". Gosto dessa imagem, porque ela revela algo essencial: a sabedoria toma a iniciativa, abre as portas e faz o convite. Afinal, nem tudo começa em nós. No entanto, confesso que essa cena também me inquieta, pois minha experiência com o aprendizado nunca se pareceu muito com um banquete. Lembro-me de uma noite em que li o mesmo parágrafo onze vezes e, somente na décima segunda, percebi que o problema não estava no texto, mas na pergunta que eu levava a ele. Não havia pão servido à mesa, nem resposta pronta para matar minha fome. O que aconteceu foi mais doloroso: precisei abandonar uma certeza que, até então, julgava sólida. E, cá entre nós, nem sempre é fácil admitir que aquilo em que acreditávamos pode estar errado.

Essa experiência encontra eco no pensamento de Karl Popper, para quem o conhecimento avança a partir de problemas e conjecturas submetidas à crítica, e no de Thomas Kuhn, que analisou as crises responsáveis pelas mudanças de paradigma na ciência. Não os convoco como teólogos, mas como pensadores que ajudam a compreender uma questão maior: muitas vezes, o conhecimento que nos transforma nasce do confronto com aquilo que já não conseguimos explicar, e não do conforto de permanecer onde estamos. A própria Escritura parece conhecer bem esse caminho. Provérbios nos orienta a buscar a sabedoria "como a prata" e "como a tesouros escondidos", recorrendo à imagem de quem cava a terra à procura de algo precioso. Eclesiastes reconhece que o aumento do conhecimento pode trazer sofrimento, enquanto Jó, depois de perguntar onde se encontra a sabedoria, atravessa o peso da dor e dos próprios limites humanos. A Bíblia, portanto, não é um simples cardápio de respostas prontas; é uma biblioteca de conflitos, perguntas, quedas e recomeços. Quem a lê com atenção percebe que, muitas vezes, a verdade não nos acaricia a cabeça: ela nos tira o chão para nos obrigar a rever o caminho.

Ainda assim, seria injusto colocar a Senhora Sabedoria de um lado e o esforço humano do outro, como se o convite ao banquete dispensasse o trabalho de aprender. Uma coisa é ser convidado; outra, bem diferente, é alimentar-se. É preciso levantar, entrar na casa, sentar-se à mesa, mastigar e, sobretudo, estar disposto a digerir o que nem sempre agrada ao paladar. Até aceitar o convite exige uma escolha. Imagino, então, uma casa de portas abertas, cuja mesa só alimenta de verdade quem decide entrar e permanecer. A graça abre a porta, mas somos nós que precisamos percorrer o caminho. E não pensemos que a sabedoria mora exclusivamente nas páginas sagradas. A literatura sapiencial bíblica apresenta afinidades com a Instrução de Amenemope, do antigo Egito, enquanto Sócrates fez do reconhecimento da própria ignorância um ponto de partida para a vida examinada. Reconhecer essas aproximações não diminui minha fé; pelo contrário, amplia minha compreensão de que a busca pela sabedoria atravessa culturas, épocas e tradições. A Bíblia participa dessa conversa milenar com uma voz singular, sem que precisemos fingir que todas as outras vozes são mudas.

Chego, assim, a uma conclusão que não me parece confortável, mas é necessária: o conhecimento verdadeiro cobra seu preço. Às vezes, custa certezas, vaidade e até algumas horas de sono. Custa-nos a coragem de dizer "não sei", de voltar atrás e de reconhecer que passamos anos defendendo uma ideia que já não se sustenta. Ainda assim, esse preço me parece menor do que o da ignorância confortável, aquela que nos poupa o trabalho de pensar, mas também nos condena a repetir os mesmos erros. E seu valor ultrapassa o de qualquer banquete, por mais farta que seja a mesa. Conservo, com a devida ressalva, a ideia expressa numa frase frequentemente atribuída a Einstein, segundo a qual a mente, uma vez ampliada por uma nova compreensão, não retorna às dimensões anteriores. A autoria da frase é incerta, e admitir isso também faz parte do compromisso com a verdade. Afinal, de que adianta defender a sabedoria e descuidar da honestidade intelectual? No fim das contas, a sabedoria não é um prato que alguém coloca diante de nós; é uma fome que se educa, uma busca que nos modifica e uma estrada que exige disposição para continuar caminhando. Talvez a pergunta decisiva não seja "onde está a mesa?", mas "estou disposto a pagar o preço de me sentar?"

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(2) A MESA DA SABEDORIA: ENTRE A CIÊNCIA E A COMPANHIA

 


Ensaio Teológico IX(2) A MESA DA SABEDORIA: ENTRE A CIÊNCIA E A COMPANHIA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há textos que envelhecem como o pão e outros que envelhecem como o vinho. Ao abrir Provérbios 9, pergunto-me não se o cardápio ainda serve, mas a quem pertence a mesa posta ali. Deparo-me com a Sabedoria, a Hokmá da tradição hebraica, construindo sua casa, preparando o banquete, misturando o vinho e enviando suas servas às praças para fazer um convite (Pv 9:1-5). Ela não impõe regras nem distribui receitas prontas: chama o ingênuo a abandonar a ingenuidade e a trilhar o caminho do discernimento (Pv 9:6). Afinal, mais do que encher a barriga, é preciso aprender a alimentar a consciência.

Confesso que, numa primeira leitura, reagi como um sujeito moderno, desses que logo puxam a calculadora antes de se sentarem à mesa. Vi carnes e vinho e me vieram à cabeça as recomendações atuais da ciência sobre alimentação, consumo de álcool e prevenção de doenças crônicas. A Organização Mundial da Saúde recomenda o consumo diário de pelo menos quatrocentos gramas de frutas e hortaliças, além de uma alimentação equilibrada, com grãos integrais e leguminosas, e moderação no consumo de açúcares, sal e gorduras. Sob esse olhar, transformar um banquete de carnes e vinho em modelo de alimentação cotidiana seria, de fato, um mau conselho. Mas, será que o texto bíblico está mesmo querendo nos ensinar a montar o prato?

Foi aí que percebi o tropeço: eu estava cobrando de um poema a precisão de uma receita médica. Provérbios 9 pertence à literatura sapiencial, e seu banquete é, antes de tudo, uma imagem de partilha, abundância, acolhimento e formação humana. A Sabedoria põe a mesa para ensinar a viver, não para prescrever um cardápio. E o próprio livro de Provérbios trata de desfazer qualquer interpretação que transforme fartura em virtude automática: condena a glutonaria e a embriaguez (Pv 23:20-21), recomenda moderação até no consumo do mel (Pv 25:16) e afirma que é melhor um prato de hortaliças servido com amor do que um boi cevado acompanhado de ódio (Pv 15:17). A mensagem, portanto, não está apenas no que se põe sobre a mesa, mas também no que se cultiva ao redor dela. Estudiosos como Michael V. Fox e Gerhard von Rad ajudam a compreender essa dimensão formativa da sabedoria antiga. E, quando penso nisso, volto à mesa de minha avó: arroz, feijão, couve e frango só em dia de festa. Era comida simples, sem luxo nem cerimônia, mas ali aprendi, sem saber, que o alimento também mora na conversa, no afeto e na presença de quem se senta ao nosso lado.

Por essas e outras, já não vejo a ciência e a sabedoria antiga como adversárias disputando o mesmo prato. Cada uma tem seu lugar à mesa. A ciência nos ajuda a compreender o que faz bem ao corpo; a sabedoria nos provoca a pensar no sentido daquilo que fazemos e na maneira como vivemos. Sem reflexão, podemos até seguir uma dieta impecável e continuar famintos de companhia. Por outro lado, sem conhecimento científico, corremos o risco de santificar hábitos que já não nos fazem bem, confundindo tradição com obrigação. Reinterpretar Provérbios, para mim, não significa corrigir a Bíblia como quem corrige a lição de um aluno, mas continuar a conversa que ela iniciou, trazendo para a mesa de hoje o vegetariano, o enfermo, quem tem fé e quem não tem. Afinal, uma mesa verdadeiramente sábia não exige que todos comam a mesma coisa; exige que ninguém seja tratado como menos digno por aquilo que come ou deixa de comer. No fim das contas, talvez a sabedoria alimentar consista em saber o que comer e com quem compartilhar a refeição. A primeira parte, a ciência continua refinando a cada década; a segunda, os Provérbios já me ensinam há milênios. E eu, feito aprendiz que ainda não sabe tudo, continuo aceitando o convite.