"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

Pesquisar neste blog ou na Web

MINHAS PÉROLAS

sábado, 24 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(5) AS DUAS MESAS DA CONSCIÊNCIA: SABEDORIA, EVIDÊNCIA E HUMILDADE

 


Ensaio Teológico IX(5) AS DUAS MESAS DA CONSCIÊNCIA: SABEDORIA, EVIDÊNCIA E HUMILDADE

Por Claudeci Ferreira de Andrade


Em Provérbios, a Sabedoria e a Tolice são duas mulheres que disputam a atenção de quem passa. Ambas têm casa, ambas preparam a mesa, ambas chamam da porta. A força dessa alegoria está justamente nisso: o viajante não encontra uma placa que lhe permita distinguir, de imediato, qual convite conduz à vida e qual pode levá-lo à ruína. Confesso que, ao ler essa cena, sempre acabo diante de uma pergunta incômoda: de qual dessas mesas tenho me alimentado sem perceber? Durante algum tempo, tentei interpretar essa disputa como duas maneiras de encarar a realidade: de um lado, a busca por evidências; do outro, a confiança em suposições. Uma mesa ofereceria o banquete dos fatos verificáveis; a outra, um cardápio de meias-verdades, servido com aparência de certeza. A comparação faz sentido, mas será que dá conta de toda a complexidade da sabedoria?

Essa leitura tem seu valor, e a tradição crítica nos ajuda a compreendê-la. Bertrand Russell é frequentemente associado à ideia de que os tolos têm certezas excessivas, enquanto os sábios vivem cheios de dúvidas. Como a formulação exata e sua fonte são incertas, prefiro não tratá-la como uma citação comprovadamente sua, mas como expressão de uma intuição importante: a sabedoria começa onde a certeza fácil termina. Entretanto, preciso reconhecer uma tensão que essa interpretação pode esconder. Em Provérbios 1.7, o temor do Senhor aparece como princípio da sabedoria. Não se trata simplesmente de reunir evidências ou acumular informações, mas de cultivar reverência, disposição para escutar e humildade para aceitar correções. Reduzir a sabedoria àquilo que pode ser demonstrado por evidências seria trocar uma raiz profunda por outra mais estreita. Afinal, conhecer os fatos é fundamental, mas saber o que fazer com eles exige também discernimento, responsabilidade e consciência dos próprios limites.

A própria Escritura adverte que a ilusão não mora apenas na cabeça de quem desconhece os fatos. Em Provérbios 14.12, lemos que há caminho que parece direito ao ser humano, mas cujo fim conduz à morte. Repare bem: o caminho parece correto. Quem o percorre pode estar sinceramente convencido de que fez a escolha certa, apoiado em argumentos que lhe parecem sólidos. É justamente aí que minha inquietação ganha força: e quando a própria evidência nos engana? Quando um dado verdadeiro é interpretado pelos olhos do desejo, ou quando o rigor intelectual se transforma numa forma elegante de vaidade? Sim, até a razão pode servir de escudo para o orgulho, e até os fatos podem ser convocados para defender aquilo em que já decidimos acreditar. Nesse ponto, a dúvida deixa de ser inimiga da sabedoria e passa a atuar como sua guardiã. Não aquela dúvida que nos paralisa ou nos faz negar tudo, mas a que nos obriga a examinar nossas convicções antes de transformá-las em verdades absolutas. Talvez a diferença entre as duas mesas esteja também no efeito que produzem em quem delas se alimenta: uma nos torna mais humildes e dispostos a aprender; a outra nos deixa cada vez mais convencidos de que não temos nada a aprender.

Chego, então, ao que considero o centro dessa reflexão: saber não basta. O conhecimento sem compaixão pode endurecer o coração, enquanto a curiosidade sem ética pode transformar o outro em objeto de investigação, julgamento ou ferida. Escolher entre sabedoria e tolice é também escolher entre cuidar e ignorar, entre manter a pergunta aberta e acomodar-se à própria opinião. É aqui que a mensagem de Tiago me oferece um horizonte de esperança. Em Tiago 1.5, quem reconhece a própria falta é convidado a pedir sabedoria a Deus, que a todos dá liberalmente e sem censura. Pedir, nesse contexto, não significa cruzar os braços e esperar que as respostas caiam do céu; significa reconhecer que a busca começa com a humildade de quem admite não saber tudo. Não vou fingir que já aprendi a distinguir perfeitamente as duas mesas, porque seria contradizer justamente aquilo que estou tentando compreender. Sei apenas que a pergunta continua comigo e que, talvez, a sabedoria não consista em nunca se enganar, mas em ter coragem para rever o caminho, escutar o outro e reconhecer os próprios erros. No fim das contas, o desafio não é apenas escolher onde sentar, mas descobrir no que estamos nos transformando enquanto comemos. E continuar perguntando, mesmo quando a resposta ameaça o conforto das nossas certezas, pode ser o primeiro sinal de que começamos, de fato, a aprender.

Ensaio Teológico IX(4) SABEDORIA E LOUCURA: AS DUAS PORTAS DA CONSCIÊNCIA

  


Ensaio Teológico IX(4) SABEDORIA E LOUCURA: AS DUAS PORTAS DA CONSCIÊNCIA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Provérbios 9 é um dos capítulos mais bem construídos da literatura sapiencial. De um lado, a Sabedoria edifica sua casa, prepara a mesa e envia suas servas à cidade; do outro, a Loucura, sentada à porta da própria casa, chama os que passam. Curiosamente, ambas fazem praticamente o mesmo convite: "Quem é simples, volte-se para aqui". No entanto, os destinos são diferentes: uma conduz à vida; a outra, aos "convidados do Sheol". A cena é belíssima e, confesso, também me inquieta. Antes de qualquer crítica, porém, preciso fazer uma ressalva por uma questão de justiça: a "Loucura" do texto não representa a diversidade psíquica, o inconformismo ou a dúvida sincera, mas a imprudência de quem rejeita a correção. Criticar o capítulo como se ele condenasse todo aquele que pensa diferente seria erguer um espantalho. O que me interessa, de fato, é outra questão: o que acontece quando esse mapa de duas portas é aplicado, sem reflexão, à vida de pessoas reais, onde quase nunca encontramos placas indicando o caminho certo ou o errado?

Penso que a própria tradição sapiencial reconhece que esse mapa é mais frágil do que a leitura isolada de Provérbios 9 pode sugerir. Eclesiastes põe o sábio e o tolo lado a lado e constata, com certa amargura, que "o mesmo destino" os alcança; além disso, reconhece que o coração humano está cheio "de loucura enquanto vivem". Jó, por sua vez, questiona a lógica simplista de que quem anda corretamente necessariamente prospera. Afinal, se toda pessoa justa fosse poupada do sofrimento, como explicar as dores de Jó? E, se toda adversidade fosse sinal de culpa, quantos inocentes não seriam injustamente condenados? A própria Bíblia, portanto, abre espaço para perguntas que complicam as respostas fáceis. Isso me tranquiliza, pois questionar uma passagem não significa abandonar a Escritura, mas continuar a conversa que ela mesma começou.

É nessa conversa que Michel Foucault me ajuda a pensar, desde que eu não o transforme em oráculo. Em História da Loucura, ele examina como a fronteira entre razão e desrazão foi traçada historicamente, muitas vezes ao preço do silenciamento daqueles colocados do lado considerado "errado". Já em A Hermenêutica do Sujeito, recupera o cuidado de si dos antigos como um exercício constante de atenção e transformação pessoal, e não como um mergulho egoísta no próprio umbigo. Clifford Geertz, em O Saber Local, completa essa reflexão ao mostrar que até o chamado "bom senso" é atravessado pela cultura: aquilo que uma sociedade considera prudência outra pode interpretar como fuga. A sabedoria, vista por esse ângulo, também tem sotaque, endereço e história. Isso não significa que tudo seja relativo, mas que convém pensar duas vezes antes de transformar nossos próprios critérios em medida universal para julgar os outros.

Entretanto, minha crítica a essa divisão entre sabedoria e loucura também exige cautela. Seria incoerente rejeitar a ideia de um caminho único e, logo depois, transformar o autoconhecimento numa nova estrada obrigatória. Afinal, olhar para dentro também pode ser uma forma sofisticada de vaidade; nem tudo o que nasce em nosso íntimo merece ser tratado como verdade. O próprio livro de Provérbios afirma, logo após a cena dos dois convites, que o princípio da sabedoria é o temor do Senhor. Essa afirmação me lembra que existe algo além de mim, capaz de questionar minhas certezas, corrigir meus passos e me fazer reconhecer os limites daquilo que penso saber. Talvez a sabedoria que procuro não esteja exclusivamente fora, nas tradições e nos ensinamentos que recebo, nem apenas dentro de mim, nos sentimentos e nas reflexões que cultivo. Quem sabe ela nasça justamente do encontro entre uma voz que me chama de fora e um coração que aprende, por dentro, a ouvir sem se anular, a questionar sem desprezar e a mudar sem perder a própria consciência.

Termino, então, sem distribuir sentenças nem apontar vencedores. Se todo ser humano carrega em si a possibilidade da sabedoria e da imprudência, a questão deixa de ser simplesmente escolher uma porta e fechar a outra para sempre. O desafio é reconhecer nossas contradições sem permitir que elas assumam o comando da casa. Por isso, a pergunta que me acompanha não é apenas "qual porta devo escolher?", mas "como convivo com a que me inquieta, sem entregar a ela o comando da casa?". E há outra, ainda mais difícil, daquelas que continuam martelando na cabeça mesmo depois que o livro se fecha: quantas vezes chamei de loucura aquilo que era apenas o começo de uma pergunta nova? Afinal, talvez o maior perigo não esteja somente em seguir a voz errada, mas também em acreditar tanto que já conhecemos a verdade que deixamos de escutar.

Ensaio Teológico IX(3) A SABEDORIA NÃO É UM BANQUETE: É UMA CONQUISTA

 


Ensaio Teológico IX(3) A SABEDORIA NÃO É UM BANQUETE: É UMA CONQUISTA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há uma cena em Provérbios 9 que chama a atenção: a Senhora Sabedoria edifica a sua casa, prepara a mesa e envia suas servas para convidar a cidade: "Vinde, comei do meu pão". Gosto dessa imagem, porque ela revela algo essencial: a sabedoria toma a iniciativa, abre as portas e faz o convite. Afinal, nem tudo começa em nós. No entanto, confesso que essa cena também me inquieta, pois minha experiência com o aprendizado nunca se pareceu muito com um banquete. Lembro-me de uma noite em que li o mesmo parágrafo onze vezes e, somente na décima segunda, percebi que o problema não estava no texto, mas na pergunta que eu levava a ele. Não havia pão servido à mesa, nem resposta pronta para matar minha fome. O que aconteceu foi mais doloroso: precisei abandonar uma certeza que, até então, julgava sólida. E, cá entre nós, nem sempre é fácil admitir que aquilo em que acreditávamos pode estar errado.

Essa experiência encontra eco no pensamento de Karl Popper, para quem o conhecimento avança a partir de problemas e conjecturas submetidas à crítica, e no de Thomas Kuhn, que analisou as crises responsáveis pelas mudanças de paradigma na ciência. Não os convoco como teólogos, mas como pensadores que ajudam a compreender uma questão maior: muitas vezes, o conhecimento que nos transforma nasce do confronto com aquilo que já não conseguimos explicar, e não do conforto de permanecer onde estamos. A própria Escritura parece conhecer bem esse caminho. Provérbios nos orienta a buscar a sabedoria "como a prata" e "como a tesouros escondidos", recorrendo à imagem de quem cava a terra à procura de algo precioso. Eclesiastes reconhece que o aumento do conhecimento pode trazer sofrimento, enquanto Jó, depois de perguntar onde se encontra a sabedoria, atravessa o peso da dor e dos próprios limites humanos. A Bíblia, portanto, não é um simples cardápio de respostas prontas; é uma biblioteca de conflitos, perguntas, quedas e recomeços. Quem a lê com atenção percebe que, muitas vezes, a verdade não nos acaricia a cabeça: ela nos tira o chão para nos obrigar a rever o caminho.

Ainda assim, seria injusto colocar a Senhora Sabedoria de um lado e o esforço humano do outro, como se o convite ao banquete dispensasse o trabalho de aprender. Uma coisa é ser convidado; outra, bem diferente, é alimentar-se. É preciso levantar, entrar na casa, sentar-se à mesa, mastigar e, sobretudo, estar disposto a digerir o que nem sempre agrada ao paladar. Até aceitar o convite exige uma escolha. Imagino, então, uma casa de portas abertas, cuja mesa só alimenta de verdade quem decide entrar e permanecer. A graça abre a porta, mas somos nós que precisamos percorrer o caminho. E não pensemos que a sabedoria mora exclusivamente nas páginas sagradas. A literatura sapiencial bíblica apresenta afinidades com a Instrução de Amenemope, do antigo Egito, enquanto Sócrates fez do reconhecimento da própria ignorância um ponto de partida para a vida examinada. Reconhecer essas aproximações não diminui minha fé; pelo contrário, amplia minha compreensão de que a busca pela sabedoria atravessa culturas, épocas e tradições. A Bíblia participa dessa conversa milenar com uma voz singular, sem que precisemos fingir que todas as outras vozes são mudas.

Chego, assim, a uma conclusão que não me parece confortável, mas é necessária: o conhecimento verdadeiro cobra seu preço. Às vezes, custa certezas, vaidade e até algumas horas de sono. Custa-nos a coragem de dizer "não sei", de voltar atrás e de reconhecer que passamos anos defendendo uma ideia que já não se sustenta. Ainda assim, esse preço me parece menor do que o da ignorância confortável, aquela que nos poupa o trabalho de pensar, mas também nos condena a repetir os mesmos erros. E seu valor ultrapassa o de qualquer banquete, por mais farta que seja a mesa. Conservo, com a devida ressalva, a ideia expressa numa frase frequentemente atribuída a Einstein, segundo a qual a mente, uma vez ampliada por uma nova compreensão, não retorna às dimensões anteriores. A autoria da frase é incerta, e admitir isso também faz parte do compromisso com a verdade. Afinal, de que adianta defender a sabedoria e descuidar da honestidade intelectual? No fim das contas, a sabedoria não é um prato que alguém coloca diante de nós; é uma fome que se educa, uma busca que nos modifica e uma estrada que exige disposição para continuar caminhando. Talvez a pergunta decisiva não seja "onde está a mesa?", mas "estou disposto a pagar o preço de me sentar?"

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(2) A MESA DA SABEDORIA: ENTRE A CIÊNCIA E A COMPANHIA

 


Ensaio Teológico IX(2) A MESA DA SABEDORIA: ENTRE A CIÊNCIA E A COMPANHIA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há textos que envelhecem como o pão e outros que envelhecem como o vinho. Ao abrir Provérbios 9, pergunto-me não se o cardápio ainda serve, mas a quem pertence a mesa posta ali. Deparo-me com a Sabedoria, a Hokmá da tradição hebraica, construindo sua casa, preparando o banquete, misturando o vinho e enviando suas servas às praças para fazer um convite (Pv 9:1-5). Ela não impõe regras nem distribui receitas prontas: chama o ingênuo a abandonar a ingenuidade e a trilhar o caminho do discernimento (Pv 9:6). Afinal, mais do que encher a barriga, é preciso aprender a alimentar a consciência.

Confesso que, numa primeira leitura, reagi como um sujeito moderno, desses que logo puxam a calculadora antes de se sentarem à mesa. Vi carnes e vinho e me vieram à cabeça as recomendações atuais da ciência sobre alimentação, consumo de álcool e prevenção de doenças crônicas. A Organização Mundial da Saúde recomenda o consumo diário de pelo menos quatrocentos gramas de frutas e hortaliças, além de uma alimentação equilibrada, com grãos integrais e leguminosas, e moderação no consumo de açúcares, sal e gorduras. Sob esse olhar, transformar um banquete de carnes e vinho em modelo de alimentação cotidiana seria, de fato, um mau conselho. Mas, será que o texto bíblico está mesmo querendo nos ensinar a montar o prato?

Foi aí que percebi o tropeço: eu estava cobrando de um poema a precisão de uma receita médica. Provérbios 9 pertence à literatura sapiencial, e seu banquete é, antes de tudo, uma imagem de partilha, abundância, acolhimento e formação humana. A Sabedoria põe a mesa para ensinar a viver, não para prescrever um cardápio. E o próprio livro de Provérbios trata de desfazer qualquer interpretação que transforme fartura em virtude automática: condena a glutonaria e a embriaguez (Pv 23:20-21), recomenda moderação até no consumo do mel (Pv 25:16) e afirma que é melhor um prato de hortaliças servido com amor do que um boi cevado acompanhado de ódio (Pv 15:17). A mensagem, portanto, não está apenas no que se põe sobre a mesa, mas também no que se cultiva ao redor dela. Estudiosos como Michael V. Fox e Gerhard von Rad ajudam a compreender essa dimensão formativa da sabedoria antiga. E, quando penso nisso, volto à mesa de minha avó: arroz, feijão, couve e frango só em dia de festa. Era comida simples, sem luxo nem cerimônia, mas ali aprendi, sem saber, que o alimento também mora na conversa, no afeto e na presença de quem se senta ao nosso lado.

Por essas e outras, já não vejo a ciência e a sabedoria antiga como adversárias disputando o mesmo prato. Cada uma tem seu lugar à mesa. A ciência nos ajuda a compreender o que faz bem ao corpo; a sabedoria nos provoca a pensar no sentido daquilo que fazemos e na maneira como vivemos. Sem reflexão, podemos até seguir uma dieta impecável e continuar famintos de companhia. Por outro lado, sem conhecimento científico, corremos o risco de santificar hábitos que já não nos fazem bem, confundindo tradição com obrigação. Reinterpretar Provérbios, para mim, não significa corrigir a Bíblia como quem corrige a lição de um aluno, mas continuar a conversa que ela iniciou, trazendo para a mesa de hoje o vegetariano, o enfermo, quem tem fé e quem não tem. Afinal, uma mesa verdadeiramente sábia não exige que todos comam a mesma coisa; exige que ninguém seja tratado como menos digno por aquilo que come ou deixa de comer. No fim das contas, talvez a sabedoria alimentar consista em saber o que comer e com quem compartilhar a refeição. A primeira parte, a ciência continua refinando a cada década; a segunda, os Provérbios já me ensinam há milênios. E eu, feito aprendiz que ainda não sabe tudo, continuo aceitando o convite.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(1) Além da Sabedoria: A Importância das Instituições Sociais

 


Ensaio Teológico IX(1) Além da Sabedoria: A Importância das Instituições Sociais

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há uma cena que me acompanha: numa enfermaria de interior, de madrugada, uma senhora de mãos calejadas vela o marido doente. Ela reza, e é sábia, pois sabe esperar, consolar e suportar. Mas o que salvará aquele homem não é só essa sabedoria; é também o plantonista que estudou anos, o antibiótico fruto de décadas de pesquisa e o hospital que uma comunidade decidiu construir. A sabedoria sustenta a alma, as instituições sustentam o corpo, e o ser humano precisa de ambos. Não pretendo rebaixar o tesouro de Provérbios 3:13-14, que declara a sabedoria melhor que a prata e o ouro. Lembro, porém, que o livro inteiro trata de tribunais, trabalho, governo e vizinhança: a sabedoria bíblica já nasce prática e comunitária, e minha tese é a seu favor, pois ela floresce quando encontra estruturas que a encarnem.

Nesse ponto, Yuval Noah Harari ajuda. Em Sapiens, ele sustenta que nossa espécie venceu por cooperar em larga escala, apoiada em ficções compartilhadas como leis, moedas e instituições. Embora ele trate a religião como uma dessas ficções, e eu não concorde com essa conclusão, reconheço a força do diagnóstico: nenhuma civilização se mantém só de boas intenções individuais. Steven Pinker, em Os Anjos Bons da Nossa Natureza, reforça a ideia ao documentar que a queda da violência e da miséria resultou de esforço coletivo, feito de comércio, ciência, direitos humanos e governos responsáveis. Também ele vê mais sombra que luz na religião, e é honesto admitir a divergência. Paulo, a seu modo, já intuía a lição: sabedoria, conhecimento e fé são dons distintos (1Co 12:8-9), e a sabedoria é um dom entre dons, não o corpo inteiro.

Além disso, o conhecimento muda. Carl Sagan, em O Mundo Assombrado pelos Demônios, defende que a ciência vive de dúvida e autocorreção, e que isso é sua grandeza, não sua fraqueza. Curiosamente, o texto sapiencial concorda: "O sábio ouvirá e aumentará o aprendizado" (Pv 1:5). Quem aumenta o aprendizado admite não o possuir por inteiro, e essa humildade intelectual é, talvez, o ponto de encontro mais honesto entre o laboratório e o templo. Dela decorre a objeção mais séria: o pluralismo não enfraqueceria a fé? Penso o contrário. Se só uma "sabedoria divina", entendida como monopólio, conduzisse à vida plena, a vizinha que não crê, o médico que duvida e o professor de outra tradição seriam inúteis à nossa felicidade, e sabemos que não são. Paulo, ao lembrar que temos muitos membros num só corpo (Rm 12:4-5), me autoriza a ver na diversidade uma arquitetura, não uma ameaça.

Volto, então, à enfermaria. A senhora continua rezando, e faz bem, mas agradeço também, com igual sinceridade, à enfermeira que ajusta o soro, ao pesquisador que jamais conhecerei e ao legislador que garantiu aquele leito. A sabedoria, isolada, é uma lamparina preciosa num quarto escuro; unida à ciência, às instituições e à diversidade, torna-se cidade iluminada. Não é a sabedoria que perde com isso. É o ser humano que ganha.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(36) A SABEDORIA E O MEDO: DA COERÇÃO À LIBERDADE DE PENSAMENTO

 


Ensaio Teológico VIII(36) A SABEDORIA E O MEDO: DA COERÇÃO À LIBERDADE DE PENSAMENTO

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Aprendi cedo que certas perguntas não se faziam em voz alta. Não havia proibição escrita, nem precisava. Bastava o silêncio que caía sobre a sala, o olhar atravessado de quem se sentia incomodado ou aquela frase pronta, repetida como se encerrasse qualquer discussão: “é o temor do Senhor que nos guarda”. Cresci entendendo que duvidar era quase um desacato, uma espécie de rebeldia contra o sagrado, e que a obediência silenciosa representava a forma mais elevada de sabedoria. Só muito tempo depois comecei a perceber o preço daquela educação pelo medo. Quanta pergunta ficou entalada na garganta? Quantas ideias deixei de explorar, quantas possibilidades de aprendizagem abandonei, sem sequer me dar conta? Pois é, há silêncios que não fazem barulho, mas vão apagando, devagarinho, partes importantes de quem somos.

Com o tempo, compreendi que esse silêncio não nasce do nada. Em determinados ambientes religiosos, exige-se a aceitação irrestrita da chamada “Sabedoria”, quase sempre acompanhada de um vocabulário de ameaças. Quem questiona “esfria”, “se perde”, “dá lugar ao inimigo”, enquanto o destino de quem rejeita as orientações estabelecidas é anunciado em tons de condenação e ruína. Convém esclarecer: não estou falando de todos os crentes, muito menos ignorando aqueles que encontram na dúvida uma forma sincera de aprofundar a própria fé. Conheço a importância da experiência religiosa na vida de muita gente. Minha crítica se dirige a uma pedagogia específica: aquela que transforma o medo em método de ensino e confunde obediência com compreensão, como se repetir uma verdade fosse o mesmo que entendê-la. Ora, uma coisa é respeitar uma convicção; outra, bem diferente, é proibir que alguém examine os fundamentos dessa convicção.

O mais irônico é que essa postura costuma encontrar respaldo em Provérbios 1.7: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”. Seria fácil, talvez até tentador, transformar o versículo em adversário e atribuir à própria Escritura a responsabilidade por tudo o que se fez em seu nome. Mas isso seria uma leitura apressada, daquelas que condenam o texto sem examinar as interpretações construídas ao redor dele. No hebraico, a expressão yirat YHWH está associada ao temor reverente diante de Deus, uma atitude que envolve respeito, assombro e reconhecimento dos próprios limites, não necessariamente terror ou submissão cega. Nessa perspectiva, o versículo não precisa ser entendido como uma ordem para calar, mas como um convite à humildade e à aprendizagem. Afinal, reconhecer que não sabemos tudo deveria nos tornar mais dispostos a aprender, e não mais receosos de perguntar. O problema, portanto, não está necessariamente no texto bíblico, mas no uso que se faz dele quando a reverência vira ameaça e o princípio da sabedoria, que deveria abrir uma caminhada, passa a ser tratado como ponto final.

Para enfrentar essa confusão, vale chamar alguns interlocutores que, embora venham de caminhos diferentes, ajudam a iluminar a questão. Bertrand Russell nos convida a reconhecer os limites do conhecimento e a desconfiar das certezas que se julgam intocáveis. Afinal, quem acredita já possuir todas as respostas fecha as portas para aquilo que ainda poderia aprender. Chimamanda Ngozi Adichie, por sua vez, alerta para “o perigo de uma história única”, mostrando como uma narrativa exclusiva pode reduzir pessoas e culturas a uma imagem incompleta, apagando suas diferenças, experiências e possibilidades. E o que acontece quando, no campo religioso, uma única interpretação recebe o direito de falar em nome de toda a verdade? Acontece que as perguntas desaparecem, as experiências divergentes são desconsideradas e, pouco a pouco, pessoas inteiras deixam de caber no discurso oficial. Quando a Sabedoria se transforma numa voz única, não é apenas o pensamento que empobrece: são vidas humanas que perdem o direito de se expressar e de participar da construção do conhecimento.

É nesse ponto que Paulo Freire nos oferece uma chave preciosa: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão.” Essa afirmação desmonta duas ilusões de uma só vez. A primeira é a do mestre que acredita libertar os outros pela imposição de suas próprias certezas, como se ensinar fosse depositar respostas prontas na cabeça de quem aprende. A segunda é a do indivíduo que imagina poder construir sozinho todo o conhecimento de que necessita. A verdadeira aprendizagem exige encontro, escuta e participação. Ninguém precisa abrir mão de suas convicções para dialogar, assim como discordar não significa, necessariamente, desrespeitar. A sabedoria que liberta é um trabalho a muitas mãos, tecido com diálogo, divergências, paciência e disposição para rever caminhos. É nesse exercício que o conhecimento deixa de ser instrumento de controle e passa a ser possibilidade de emancipação.

Por isso, recuso-me a escolher entre a fé e a liberdade de pensamento, como se uma precisasse sufocar a outra para sobreviver. Prefiro uma fé tão firme que não tenha medo de ser interrogada e uma dúvida tão honesta que também esteja disposta a escutar. Não vejo sabedoria em aceitar tudo sem exame, assim como não vejo lucidez em rejeitar tudo por princípio. O caminho exige discernimento, humildade e coragem. A busca da sabedoria é, sim, um empreendimento nobre, mas só merece esse nome quando não carrega a mão do medo sobre o ombro de quem pensa. Se o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, que seja um temor nascido da reverência, capaz de nos fazer reconhecer nossa pequenez sem transformar essa condição em prisão. Que seja o temor de quem se ajoelha, se levanta e continua perguntando, não o de quem se cala para escapar da punição.

Hoje, quando uma pergunta me sobe à garganta, já não a engulo como fazia antigamente. Deixo-a sair, ainda que a voz trema e que a resposta não venha na hora. Aprendi que perguntar não é necessariamente afrontar, assim como duvidar não significa abandonar a fé. Às vezes, é justamente a pergunta que impede a crença de virar repetição mecânica e abre espaço para uma compreensão mais profunda daquilo em que acreditamos. Continuo aprendendo, errando, revendo ideias e reconhecendo que ainda há muito a descobrir. E talvez seja essa a lição que mais demorei a compreender: a sabedoria não exige que eu saiba todas as respostas, mas que tenha coragem de procurá-las sem transformar o medo em senhor do meu pensamento. Afinal, se a sabedoria abre caminhos, a coragem é a primeira porta que precisamos atravessar.

Ensaio Teológico VIII(35) A SABEDORIA É UMA JORNADA: APRENDER A VIVER SEM TER TODAS AS RESPOSTAS

 


Ensaio Teológico VIII(35) A SABEDORIA É UMA JORNADA: APRENDER A VIVER SEM TER TODAS AS RESPOSTAS

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há perguntas que não se resolvem de uma vez por todas: elas habitam a gente, acompanham nossos passos e, vez ou outra, tiram nosso sono. A pergunta sobre como viver plenamente é uma delas. Levei-a para a oração, para os livros e para as madrugadas de reflexão, mas sempre voltei com a mesma suspeita: a sabedoria é uma jornada, e nenhum mapa, por melhor que seja, dá conta de todo o território. Numa dessas noites de dúvida, quando as certezas da infância já não me serviam como antes, 1 Coríntios 13.12 falou comigo de outro jeito. Encontrei ali a confissão de um apóstolo que reconhece suas limitações, admitindo que ainda vê de maneira incompleta, como quem se olha num espelho de bronze e contempla uma imagem turva. Foi então que percebi algo importante: a humildade de reconhecer os limites do próprio conhecimento não nasce contra a Escritura, mas dentro dela.

Reparei, sobretudo, na ordem dos verbos usados por Paulo: conheço em parte, mas sou plenamente conhecido. Eis aí uma mudança e tanto de perspectiva! O autoconhecimento cristão não começa apenas em mim, no esforço de examinar meus pensamentos, minhas escolhas e minhas contradições, mas também no olhar de um Outro que já me conhece por inteiro. Sócrates nos convida a conhecer a nós mesmos; Paulo, por sua vez, acrescenta uma dimensão que amplia essa busca: somos também seres conhecidos, mesmo quando ainda não conseguimos compreender tudo a nosso respeito. Por isso, posso encarar o espelho sem tanto medo de minhas imperfeições. É nesse ponto que o diálogo com a filosofia deixa de ser uma concessão e se torna uma necessidade. Martha Nussbaum, herdeira do pensamento de Aristóteles, defende que uma vida boa não se mede apenas pela renda ou pela doutrina professada, mas pelas possibilidades reais de cada pessoa desenvolver suas capacidades, como cuidar da saúde, pensar, amar, brincar e participar da vida em sociedade. Reconheço algo dessa compreensão no fruto do Espírito apresentado em Gálatas 5.22-23: ali se desenha uma vida humana que floresce, não apenas alguém que obedece a regras. Digo isso com cuidado, porque não se trata de condenar toda experiência religiosa, mas de reconhecer um risco: quando a fé se reduz à vigilância doutrinária, seus frutos podem acabar tratados como simples enfeites, quando deveriam revelar a qualidade da vida que cultivamos.

E por que não ampliar ainda mais esse horizonte? Amartya Sen mostrou que o desenvolvimento humano não consiste apenas em acumular riquezas, mas em expandir as liberdades reais que permitem às pessoas escolher e realizar aquilo que valorizam. Kwasi Wiredu, por sua vez, defendeu a necessidade de examinar criticamente os conceitos de cada tradição, fazendo da conversação respeitosa um caminho para a busca da verdade. Esses pensadores me ajudam a compreender que nenhuma tradição, por mais rica que seja, pode falar sozinha em nome de toda a humanidade. Sei que alguém pode objetar que Provérbios 2.6 afirma que a sabedoria vem de Deus, sem apresentar explicitamente a pluralidade de suas fontes. A objeção merece ser considerada. Mas faço uma pergunta: se toda sabedoria procede de Deus, por que eu deveria desprezar uma verdade apenas porque ela foi percebida por alguém de outra cultura, tradição ou perspectiva filosófica? Se encontro uma reflexão valiosa em Atenas, em Acra ou em Calcutá, posso acolhê-la sem precisar renunciar à minha fé. Afinal, o próprio Paulo, no Areópago, dialogou com o pensamento grego e recorreu a palavras de poetas daquela tradição. O exemplo me ensina que escutar o outro não significa abandonar as próprias convicções, mas reconhecer que a verdade não precisa ser temida só porque também pode ser percebida fora dos limites do nosso grupo.

É claro que abertura sem discernimento vira dispersão. Não basta ouvir tudo, aceitar tudo e chamar isso de sabedoria. A própria Escritura oferece um princípio para essa caminhada: "Examinai tudo. Retende o bem" (1Ts 5.21). Gosto dessa orientação justamente porque ela não manda fechar os olhos, tapar os ouvidos ou desconfiar de antemão de tudo o que vem de fora. Manda examinar. O pluralismo que defendo não é uma mistura indiscriminada de ideias, mas a disposição de escutar diferentes vozes, confrontar argumentos e discernir o que contribui para uma vida mais justa, consciente e plena. É nessa mesma direção que compreendo o convite de Romanos 12.2 à renovação da mente: preciso permitir que a Escritura me leia enquanto eu a leio, que a filosofia questione minhas certezas, que a ciência me apresente evidências e que a experiência de outros povos me ensine aquilo que, sozinho, talvez eu nunca descobrisse. Nem sempre esse encontro será confortável; às vezes, vai mexer em convicções antigas e me obrigar a rever caminhos. Ainda assim, prefiro o desconforto de uma pergunta honesta à tranquilidade artificial de uma certeza que não aceita ser examinada.

No fim das contas, talvez a vida plena não consista em chegar a um ponto em que todas as perguntas estejam respondidas, mas em aprender a caminhar sem transformar nossas respostas provisórias em verdades intocáveis. A fé que não suporta perguntas pode esconder fragilidade; a que as acolhe, examina e enfrenta com honestidade revela confiança. Não preciso saber tudo para continuar buscando, nem concordar com todos para aprender alguma coisa com cada um. Talvez a sabedoria seja justamente essa travessia: olhar para o espelho turvo sem desespero, ouvir vozes diferentes sem perder a própria consciência e seguir adiante, mesmo sabendo que meu conhecimento é limitado. Se vejo em parte, mas sou plenamente conhecido, posso reconhecer meus limites sem fazer deles uma prisão. Afinal, a jornada continua, e ainda há muito a aprender, muito a rever e muito a viver. Por ora, isso basta para continuar caminhando.