"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(12) A SABEDORIA, A LIBERDADE E O DESTINO: ENTRE A ESCOLHA E O IMPREVISÍVEL

 


Ensaio Teológico IX(12) A SABEDORIA, A LIBERDADE E O DESTINO: ENTRE A ESCOLHA E O IMPREVISÍVEL

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Aos vinte e poucos anos, recusei um emprego seguro para seguir um caminho incerto. Na véspera, quase não preguei os olhos. Fiquei pesando salários, medos, conselhos da família e o olhar preocupado de minha mãe. Era como se cada possibilidade puxasse meu braço para um lado, enquanto eu tentava descobrir qual caminho fazia mais sentido. Na manhã seguinte, disse "não" e saí com a impressão de que havia decidido tudo sozinho. Hoje, porém, desconfio dessa certeza. Afinal, será que decidi sozinho mesmo? Ou pesaram na minha escolha a criação que recebi, o temperamento herdado, as circunstâncias daquele momento e até uma conversa casual que já nem me lembro de ter ouvido? Fui eu quem escolheu, sim, mas não escolhi do nada. É justamente aí que começa a inquietação deste ensaio: será que a sabedoria, uma vez escolhida, determina nosso destino de maneira inexorável? Quero examinar essa ideia com respeito, sem transformá-la num espantalho fácil de derrubar.

Começo pela tradição bíblica, porque seria muito cômodo atribuir às Escrituras uma matemática simplória, dessas em que quem obedece prospera e quem erra paga a conta. Ora, a própria literatura sapiencial nos convida a desconfiar dessa leitura. Provérbios apresenta orientações para uma vida bem conduzida e associa a sabedoria a caminhos de prudência e bem-estar (Pv 3:1-2). Eclesiastes, por sua vez, reconhece que há justo que perece na sua justiça (Ec 7:15) e lembra que "o tempo e o acaso" alcançam a todos (Ec 9:11). Já o livro de Jó, do começo ao fim, é um grande protesto contra a ideia de que a virtude sempre recebe recompensa e o sofrimento é necessariamente castigo. Veja só: os próprios sábios de Israel reconheceram que a vida não cabe numa fórmula pronta. Quem transforma Provérbios numa lei de ferro acaba exigindo do texto bíblico uma certeza que nem os demais livros das Escrituras confirmam. A sabedoria oferece caminhos, mas não nos entrega o controle absoluto sobre os resultados.

A ciência chega a esse mesmo território por outra estrada, embora também nos convide à humildade. Daniel Kahneman mostrou como boa parte dos nossos julgamentos acontece por meio de atalhos mentais rápidos e automáticos, revelando que somos menos senhores das próprias decisões do que gostamos de imaginar (KAHNEMAN, 2011). E não para por aí: entram nessa conta a genética, o ambiente, a família, a educação e a época em que vivemos. Afinal, ninguém escolhe o berço em que nasce, a língua que aprende primeiro ou o século em que vem ao mundo. Isso significa que não somos livres? Não necessariamente. Reconhecer os limites da liberdade não é eliminá-la, mas compreendê-la com mais honestidade. Somos como o marinheiro que não comanda o vento, mas pode ajustar as velas e escolher, dentro das possibilidades, como navegar. A sabedoria, portanto, não é uma relíquia guardada numa prateleira, muito menos um conjunto de respostas que serve para todas as épocas. É a arte de reler o mundo quando ele muda, aprender com a experiência e rever as próprias certezas sem jogar fora tudo o que veio antes. A tradição, nesse sentido, deve funcionar menos como âncora, que nos mantém presos ao mesmo lugar, e mais como bússola, que ajuda a encontrar direção sem prometer um percurso livre de tempestades.

É por isso que me incomoda reduzir a existência a um tribunal de causa e efeito, como se cada sofrimento fosse consequência de um erro e cada conquista, prova de virtude. Há dores que não escolhemos, perdas que não prevemos e circunstâncias que escapam ao nosso alcance. Nem tudo o que acontece é castigo, assim como nem tudo o que dá certo é recompensa pela nossa sabedoria. A vida tem contingências, contradições e mistérios que nenhuma explicação consegue eliminar por completo. E há um perigo nessa mania de querer explicar tudo: quando alguém acredita já possuir todas as respostas, deixa de fazer perguntas; quando deixa de perguntar, fecha as portas para o aprendizado. A sabedoria começa, muitas vezes, justamente quando temos coragem de admitir: ainda não sei. Isso não é fraqueza, véi; é reconhecer que o mundo é maior do que nossas certezas e que sempre há alguma coisa a aprender.

Mas, minhas escolhas não terminam em mim. Aquela decisão de juventude, por exemplo, não afetou apenas meu caminho profissional; também mexeu com minha mãe, com as relações que construí e, de algum modo, com aqueles que vieram depois de mim. É que ninguém vive numa ilha, tomando decisões sem tocar a vida alheia. Yuval Noah Harari destaca a importância da cooperação em larga escala para a trajetória da espécie humana, sustentada por histórias e formas de confiança compartilhadas (HARARI, 2015). Isso me leva a pensar que a sabedoria não deve ser medida apenas pelo sucesso individual, pelo dinheiro acumulado ou pela posição alcançada, mas também pelas consequências de nossas escolhas na vida dos outros. De que adianta acertar o próprio caminho e deixar um rastro de sofrimento por onde passamos? Uma decisão pode ser vantajosa para quem a toma e, ainda assim, injusta com quem precisa conviver com seus efeitos. Por isso, escolher bem exige mais do que inteligência: exige responsabilidade, empatia e consciência de que fazemos parte de uma história coletiva.

É nesse ponto que encontro uma aproximação possível entre ciência e fé. Einstein, em reflexões sobre a relação entre religião e ciência, defendeu que essas dimensões não precisam ser inimigas, embora trabalhem com questões e perspectivas distintas (EINSTEIN, 1941). Vejo nessa aproximação uma oportunidade de diálogo, não uma licença para confundir os campos de conhecimento. A ciência investiga os fenômenos, examina evidências e procura compreender como as coisas acontecem; a fé, para quem a vive, também pode abrir espaço para perguntas sobre valores, responsabilidade e o sentido que damos à existência. Uma não precisa ocupar o lugar da outra. Quando a ciência é usada para justificar a indiferença, perde-se de vista a dimensão humana do conhecimento; quando a fé é usada para proibir perguntas, corre-se o risco de transformar a busca espiritual em obediência cega. O desafio é aprender com ambas sem exigir que respondam, da mesma maneira, a todas as perguntas da vida.

Volto, então, àquela noite de insônia, aos cálculos que fiz, ao medo de errar e ao olhar preocupado de minha mãe. Na juventude, eu queria saber qual decisão me garantiria um futuro melhor. Hoje percebo que talvez essa fosse a pergunta errada. O futuro nunca esteve inteiramente nas minhas mãos, e a sabedoria não me daria poderes para controlar o que estava por vir. A pergunta mais honesta seria outra: "que tipo de pessoa quero ser diante de um futuro que não controlo?" Essa mudança de perspectiva faz toda a diferença. Em vez de procurar uma garantia impossível, passo a buscar critérios para escolher com responsabilidade, reconhecer os erros, reparar o que for possível e continuar aprendendo com as consequências dos meus atos.

No fim das contas, a sabedoria não é uma promessa de que tudo dará certo, nem uma força misteriosa que determina nosso destino sem deixar espaço para a liberdade. É a disposição de caminhar com humildade, considerar as circunstâncias, ouvir a tradição sem ficar prisioneiro dela e aprender com a ciência sem abrir mão da sensibilidade humana. Não escolhemos todas as condições da nossa caminhada, mas podemos refletir sobre a maneira como respondemos a elas. E, mesmo quando nossas escolhas parecem individuais, seus efeitos se espalham, alcançando pessoas, famílias e gerações. Talvez seja essa a lição que levo comigo: viver sabiamente não é ter o destino nas mãos, mas assumir a responsabilidade pelo caminho possível. Porque, no fim, o que construímos nunca é obra de uma pessoa só; é parte de uma história que construímos juntos.

Ensaio Teológico IX(11) A SABEDORIA, A FÉ E A CIÊNCIA DIANTE DO MISTÉRIO DA LONGEVIDADE

 



Ensaio Teológico IX(11) A SABEDORIA, A FÉ E A CIÊNCIA DIANTE DO MISTÉRIO DA LONGEVIDADE


Por Claudeci Ferreira de Andrade

Quando meu avô completou oitenta anos, alguém lhe perguntou, entre uma fatia de bolo e outra de prosa, qual era o segredo da longevidade. Ele pensou um instante e respondeu, com a franqueza de quem já viu muita coisa, que não sabia, e que tinha enterrado amigos bem mais cuidadosos do que ele. A mesa riu, mas a pergunta ficou comigo, velha como o medo da morte e teimosa como toda pergunta sem resposta fácil. Hoje acredito que ela merece ser tratada sem caricaturas: nem a que reduz a fé a uma fórmula, nem a que reduz a ciência a uma frieza.

Por isso, não vou brigar com uma tese que a melhor tradição bíblica nunca sustentou. Provérbios, é verdade, associa a sabedoria a “dias longos” (Pv 3:1-2; 10:27), mas basta ler a literatura sapiencial até o fim para ver que ela se corrige sozinha. O Eclesiastes reconhece, com uma lucidez quase dolorosa, que há justo que perece na sua justiça (Ec 7:15). Jó, de ponta a ponta, é um protesto contra a conta simples que iguala piedade e recompensa. E o Salmo 90 admite, sem rodeios, que os anos de uma vida são poucos e carregados de fadiga. Entendo, então, os provérbios como promessas de sentido, não como leis biológicas. Lê-los como determinismo é empobrecer a fé e, pior, tornar cruel o consolo de quem perde alguém cedo, porque a dor ganha, nas entrelinhas, o peso de uma acusação.

Do outro lado da mesa, a ciência tem o que dizer, e diz muito. Foram a medicina, a nutrição e a saúde pública que mudaram a duração da vida: a expectativa global, que rondava os trinta e poucos anos no início do século XX, ultrapassa hoje os setenta (RILEY, 2005; ROSER; ORTIZ-OSPINA; RITCHIE, 2013). O envelhecimento deixou de ser mistério para virar campo de estudo, com seus marcos, como a instabilidade genômica, o encurtamento dos telômeros e a senescência celular (LÓPEZ-OTÍN et al., 2013). Blackburn e Epel mostram que o estresse crônico deixa marcas mensuráveis nesse relógio celular. Sinclair defende que o envelhecimento é passível de intervenção, tese debatida entre seus pares, mas que aponta uma direção. E Marmot revela algo que tira o sono de qualquer um: a posição social prediz saúde e morte, o que faz da longevidade, antes de tudo, uma questão de justiça. Ainda assim, não dá para falar em holismo e deixar o espírito na porta. Uma meta-análise (McCULLOUGH et al., 2000) e um estudo com enfermeiras (LI et al., 2016) associam o envolvimento religioso a menor mortalidade. Com a ressalva de que associação não é causalidade, leio nisso um sinal de que comunidade, hábitos e esperança protegem. A fé, ao que parece, age menos como contrato e mais como laço.

Concluo, então, que a sabedoria não causa a longevidade, mas pode ser a arte de lidar com ela, como sugere Carstensen ao notar que o tempo vivido nos ensina a investir nos vínculos que importam (CARSTENSEN, 2011). Quem reduz a longevidade ao pecado erra por simplificação; quem a reduz à bioquímica erra pelo mesmo motivo, só que pelo outro lado. Penso de novo em meu avô e acho que ele tinha razão em não saber. A ciência nos entrega probabilidades e a chance de cuidar uns dos outros; a fé, no seu melhor, nos lembra por que vale a pena durar: para amar, para servir e para partir sem ter vivido em vão.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(10) A Evolução do Pensamento Humano e a Busca pelo Conhecimento

 


Ensaio Teológico IX(10) A Evolução do Pensamento Humano e a Busca pelo Conhecimento

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há perguntas que chegam sem pedir licença. A minha surgiu numa madrugada silenciosa, depois de uma perda que nenhuma resposta pronta conseguiu consolar. Enquanto as pessoas ao meu redor ofereciam certezas como quem estende um cobertor a alguém que sente frio, eu tentava encontrar um sentido para aquilo que estava vivendo. Mas, por mais que me acolhessem, as palavras pareciam curtas demais para cobrir o tamanho da minha inquietação. Foi ali, entre a dor e a necessidade de compreender, que nasceu a reflexão que hoje compartilho: como conciliar o desejo de crer com a necessidade de pensar? De um lado, o entendimento humano avança quando alguém se atreve a perguntar, observar e examinar aquilo que antes parecia indiscutível. De outro, a tradição bíblica afirma que “o temor do Senhor é o princípio do conhecimento” (Provérbios 1:7). Em vez de colocar essas duas perspectivas em lados opostos, prefiro deixá-las conversar. Afinal, quem sabe a sabedoria não esteja justamente nesse espaço em que a fé encontra a razão, a convicção aceita ser examinada e a dúvida deixa de ser uma inimiga para se tornar companheira da busca?

Bertrand Russell dedicou boa parte de sua reflexão filosófica à pergunta sobre o que podemos conhecer com certeza. Gosto de compreender essa inquietação como um método de investigação, não como uma arma para derrotar quem pensa diferente. Afinal, quem questiona com honestidade precisa aprender, antes de tudo, a examinar as próprias convicções, em vez de passar a vida pesando as crenças alheias com uma balança e as suas com outra. Carl Sagan também defendia uma postura semelhante ao apresentar a ciência como uma maneira de pensar, fundamentada na investigação, na dúvida e na busca por evidências. Essa disciplina não surgiu pronta, muito menos caiu do céu: foi construída ao longo da história, entre descobertas, enganos, revisões e novas perguntas, por pessoas religiosas e não religiosas. A neurociência acrescenta outra camada a essa conversa. Sam Harris, ao investigar a relação entre cérebro, consciência e crenças, convida-nos a considerar como nossas convicções se relacionam com os processos mentais. Isso me leva a uma pergunta incômoda, mas necessária: se somos tão capazes de enxergar as contradições dos outros, por que temos tanta dificuldade para reconhecer as nossas? O profeta Jeremias já expressava uma inquietação semelhante ao perguntar quem conhece o coração humano (Jeremias 17:9). Embora haja muitos séculos entre a reflexão bíblica e a investigação científica contemporânea, ambas nos colocam diante de nossos limites. O tempo passa, os métodos mudam, mas continuamos sujeitos à velha ilusão de acreditar que nos conhecemos melhor do que realmente nos conhecemos.

Quando o assunto é moralidade, porém, a conversa exige ainda mais cuidado. Em A Era da Empatia (2009), Frans de Waal examina comportamentos de outros primatas, como o consolo, a reciprocidade e a cooperação, que ajudam a compreender as possíveis raízes evolutivas de aspectos da vida moral humana. Isso não significa que a biologia explique tudo, muito menos que possa substituir a reflexão ética, mas sugere que algumas disposições para a convivência são anteriores à organização das grandes tradições religiosas e filosóficas. A moralidade humana, afinal, não nasceu de uma única fonte. Ela foi sendo construída e reinterpretada ao longo do tempo, entre experiências, conflitos, descobertas e diferentes maneiras de compreender o bem e o mal. Um exemplo importante dessa convergência é a Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada em 1948, depois de um período de guerra e brutalidade que expôs, de maneira dolorosa, até onde a humanidade pode chegar quando despreza a dignidade alheia. O documento reuniu princípios e aspirações de diferentes tradições culturais, filosóficas e religiosas, sem se fundamentar em uma teologia específica. Seria ingenuidade, contudo, imaginar que essa construção histórica surgiu num terreno vazio, sem a contribuição de séculos de debates sobre justiça, dignidade, responsabilidade e respeito à vida. É nesse ponto que me chama a atenção a passagem de 2 Timóteo 3:16, segundo a qual a Escritura serve para ensinar, repreender, corrigir e instruir na justiça. Cada leitor interpretará a afirmação sobre sua origem divina conforme suas convicções, mas há uma dimensão humana nessa função que merece ser considerada: a leitura que realmente nos transforma não serve apenas para confirmar aquilo em que já acreditamos. Às vezes, ela nos confronta, revela nossas contradições e nos obriga a rever o caminho. E não é justamente isso que esperamos de um espelho honesto? Ele não existe para nos elogiar, mas para nos mostrar o que talvez preferíssemos não enxergar.

Chego, então, ao ponto em que preciso assumir minha posição, sem a pretensão de apresentar um veredicto definitivo. Não acredito que a busca pela verdade deva ficar limitada pelas crenças religiosas, mas também não considero que o pensamento humano esteja livre de pressupostos. Sejam religiosos, seculares ou simplesmente resultantes de nossas experiências, eles influenciam a maneira como interpretamos o mundo. Reconhecer isso não significa desistir de encontrar respostas; significa apenas compreender que nossas certezas precisam permanecer abertas ao exame. Para mim, aprender é questionar, rever e adaptar o pensamento diante de novas evidências, sem transformar a mudança de opinião em motivo de vergonha nem fazer da certeza um esconderijo contra tudo aquilo que nos desafia. O pensamento crítico, a investigação paciente e o diálogo aberto sustentam essa caminhada. Ainda assim, há experiências humanas que não cabem inteiramente em números, fórmulas ou explicações: o luto que nos cala, a gratidão que nos surpreende, o amor que nos transforma e o assombro de simplesmente estarmos vivos. São dimensões que também merecem atenção, embora não devam ser confundidas com provas de uma explicação específica para a realidade. Por isso, não sinto necessidade de eliminar a tensão entre fé e razão, como se uma delas precisasse vencer para que a outra pudesse existir. Prefiro aprender a conviver com as perguntas que permanecem abertas, sem abandonar o rigor do pensamento nem desprezar a profundidade da experiência humana. Volto, assim, àquela madrugada que deu origem a esta reflexão. Naquele momento, eu queria uma resposta capaz de aliviar a dor; hoje compreendo que nem toda pergunta precisa ser encerrada para que possamos continuar vivendo. Não precisei escolher entre a pergunta e a reverência. Precisei, isso sim, aprender a carregar as duas, com humildade, coragem e disposição para continuar buscando. Afinal, amadurecer talvez seja justamente isso: reconhecer que nem sempre sabemos onde a verdade termina de se revelar, mas que podemos seguir caminhando sem transformar nossas dúvidas em vergonha, nossas crenças em prisões ou nossas convicções em sentenças contra quem pensa diferente.

Ensaio Teológico IX(9) Curiosidade e Ceticismo: As Chaves para a Sabedoria Moderna

 


Ensaio Teológico IX(9) Curiosidade e Ceticismo: As Chaves para a Sabedoria Moderna

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Numa noite de que já nem me lembro o ano, perguntei a alguém que amava por que o mundo existia. A resposta veio entre um carinho e outro: “isso não se pergunta”. Não guardei rancor, não. Guardei a pergunta. E hoje desconfio de que ela tenha sido uma das primeiras coisas verdadeiramente minhas. Afinal, pensar por conta própria começa, muitas vezes, quando a gente se atreve a perguntar aquilo que os outros preferem deixar quieto. Foi assim que aprendi a desconfiar das vitórias fáceis desta era da informação. Ter acesso a tudo não significa compreender coisa alguma. Do mesmo modo, imaginar que a fé pertence ao território do dogma e a razão, ao da dúvida, é uma caricatura que, durante muito tempo, os dois lados aceitaram sem questionar.

Convém começar pelo poder, porque nem todo conhecimento é sabedoria, embora a sabedoria dificilmente floresça onde o conhecimento não encontra espaço. A expressão “conhecimento é poder” é tradicionalmente associada a Francis Bacon, enquanto Michel Foucault foi além ao mostrar como saber e poder se entrelaçam, influenciando-se mutuamente. Nenhum conhecimento circula completamente livre das relações humanas, nem mesmo aquele que consola, liberta ou promete transformar o mundo. Diante disso, talvez a sabedoria não esteja apenas naquilo que sabemos, mas na maneira como lidamos com o que sabemos. Carol Dweck chamou de “mentalidade de crescimento” a disposição para aprender, rever estratégias e desenvolver capacidades. David Eagleman, por sua vez, ajuda a compreender como o cérebro continua se reorganizando em resposta às experiências e ao aprendizado. Ora, se somos capazes de mudar, por que haveríamos de transformar nossas convicções em prisões? Somos feitos de possibilidades, não de certezas definitivas. Aprender, no fundo, é continuar a nos refazer.

A ciência representa uma das expressões mais rigorosas dessa disposição para aprender. Neil deGrasse Tyson costuma destacar que a realidade não muda conforme nossas crenças: ela continua sendo o que é, acreditemos nela ou não. A pandemia de COVID-19 tornou essa questão concreta, dolorosa e impossível de ignorar. Hipóteses submetidas a testes, resultados avaliados por outros pesquisadores e conhecimentos corrigidos à medida que novas evidências surgiam contribuíram para o desenvolvimento de vacinas que salvaram milhões de vidas. A ciência não avançou porque seus pesquisadores possuíam todas as respostas, mas porque aceitaram o risco de estar errados e trabalharam para corrigir os próprios erros. E a dúvida, vale lembrar, não é propriedade exclusiva dos laboratórios. Agostinho, nas Confissões, retratou a inquietação de um coração que não encontra descanso; Tomás de Aquino estruturou os artigos da Suma Teológica apresentando objeções antes de desenvolver suas respostas; e Paul Tillich reconheceu na dúvida uma dimensão da própria fé, não necessariamente sua negação. Portanto, tachar toda sabedoria religiosa de dogmática é ignorar uma tradição inteira de pensadores que fizeram da inquietação, da reflexão e da busca elementos essenciais de sua caminhada. Fé e razão nem sempre precisam andar de mãos dadas, mas tampouco estão condenadas a viver de costas uma para a outra.

O problema é que, enquanto o conhecimento se multiplica, nossa capacidade de prestar atenção parece encolher. Neil Postman advertiu sobre os efeitos das tecnologias na cultura e no pensamento, especialmente quando o entretenimento passa a ocupar o lugar da reflexão. E não é difícil reconhecer esse cenário: informação chega aos montes, opiniões disputam espaço, notícias envelhecem em minutos e, quando a gente mal começa a pensar sobre um assunto, já aparece outro exigindo atenção. Temos acesso a uma quantidade imensa de conteúdos, mas será que dispomos de tempo e disposição para compreendê-los? É nesse terreno que defendo o ceticismo como um exercício paciente, não como um cinismo apressado. Ser cético não é duvidar de tudo por esporte, muito menos rejeitar qualquer ideia que contrarie nossas convicções. É examinar, comparar, perguntar e, se necessário, reconhecer que estávamos errados. Richard Feynman, ao refletir sobre a beleza de uma flor com um amigo artista que acreditava ter perdido algo ao conhecer sua estrutura científica, mostrou justamente o contrário: compreender seus mecanismos não precisava diminuir seu encanto. Para ele, o conhecimento podia ampliar a beleza, revelando detalhes que o olhar desavisado não alcançava. Carl Sagan também encontrou na ciência uma fonte de assombro e de sentido, mostrando que compreender o universo não precisa apagar o mistério de existir.

No fim das contas, ciência e religião podem nascer do mesmo assombro diante da existência, embora percorram caminhos diferentes e nem sempre cheguem às mesmas conclusões. Ambas, contudo, correm o risco de adoecer quando a pergunta é proibida e a certeza se transforma em dona da verdade. A ciência perde sua força quando se fecha às evidências; a religião perde sua profundidade quando exige obediência sem reflexão. E nós, seres humanos, perdemos a oportunidade de crescer quando confundimos convicção com infalibilidade. Hoje compreendo que aquela pergunta da minha juventude nunca foi o problema. O problema seria ter aceitado o silêncio como resposta definitiva e passado o resto da vida sem querer saber mais. Afinal, a curiosidade nos põe a caminho, o ceticismo nos ajuda a examinar a estrada e a humildade nos permite mudar de rumo quando descobrimos que estamos seguindo na direção errada. Talvez a sabedoria moderna comece justamente aí: na coragem de perguntar, na disposição de aprender e na consciência de que ninguém precisa ter todas as respostas para viver com responsabilidade. Porque manter a mente aberta não significa acreditar em qualquer coisa, assim como ter fé não exige abandonar o pensamento. Significa, antes de tudo, reconhecer nossos limites sem desistir da busca — e compreender que cuidar de nós mesmos e uns dos outros também passa pela maneira como pensamos, acreditamos, duvidamos e aprendemos a conviver com aquilo que ainda não sabemos.

domingo, 25 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(8) DIÁLOGO E TRANSFORMAÇÃO: CONSTRUINDO PONTES, NÃO MUROS

 


Ensaio Teológico IX(8) DIÁLOGO E TRANSFORMAÇÃO: CONSTRUINDO PONTES, NÃO MUROS

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Acredito que a sabedoria bíblica nos convida a refletir sobre como lidar com quem rejeita conselhos. Em Provérbios 9:7-8, encontro um alerta sobre o escarnecedor, mas me pergunto se essa condição é definitiva ou apenas uma fase da vida. Reconheço que há conversas desgastantes e pessoas que usam o debate para ferir, por isso considero legítimo estabelecer limites, como sugere Mateus 7:6. Entretanto, prefiro distinguir o afastamento necessário de uma condenação permanente: posso interromper uma conversa sem decretar que alguém não tem mais jeito.

Com Carl Rogers, em Tornar-se pessoa (1961), compreendo que a aceitação pode favorecer a transformação, sem significar aprovação dos erros. Eric Kandel e os estudos sobre plasticidade cerebral também me ajudam a reconhecer que as experiências podem modificar o cérebro ao longo da vida, embora nem toda mudança seja garantida. Por isso, não me sinto autorizado a declarar alguém incapaz de mudar. Prefiro manter essa possibilidade como uma aposta ética, reconhecendo que cada pessoa tem sua história, seus limites e seu próprio tempo.

Penso no homem que zombava da fé dos colegas e já era considerado alguém com quem não adiantava conversar. Quando uma colega mais velha decidiu ouvi-lo sem tentar vencê-lo, algo começou a mudar. Essa cena me lembra que uma pergunta sincera pode abrir caminhos que a condenação fecha. Também compreendo, com John Stuart Mill, em Sobre a Liberdade (1859), que o confronto entre opiniões nos ajuda a examinar nossas convicções. Quando me cerco apenas de quem pensa como eu, corro o risco de confundir concordância com verdade e transformar minhas certezas em hábitos nunca questionados.

Na tradição bíblica, encontro em Jesus um exemplo de aproximação: ele se sentava à mesa com publicanos e pecadores (Lucas 15:1-2) e acolheu Zaqueu, cujo encontro com ele foi seguido por mudanças concretas (Lucas 19:1-10). Vejo nisso uma sabedoria que une prudência, responsabilidade e acolhimento. Não preciso aceitar tudo nem permanecer em relações prejudiciais, mas posso evitar que meus limites se transformem em sentenças definitivas sobre os outros. Afinal, acredito que uma sociedade mais justa e compassiva se constrói quando aprendemos a proteger nossa integridade sem perder a humanidade e a construir pontes, em vez de levantar muros contra quem ainda pode mudar.

Ensaio Teológico IX(7) A LUZ DO CORREDOR: ENTRE O LIMITE, A ESPERANÇA E A RESPONSABILIDADE PELO OUTRO

 


Ensaio Teológico IX(7) A LUZ DO CORREDOR: ENTRE O LIMITE, A ESPERANÇA E A RESPONSABILIDADE PELO OUTRO

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Conheço uma frase que costuma ser dita com cansaço e, quase sempre, sem maldade: "com este não adianta mais". Não zombo de quem chega a esse ponto, porque sei que o desgaste é real e merece respeito. Afinal, ninguém é de ferro, e há momentos em que insistir numa relação parece remar contra a correnteza. Reconheço, portanto, que estabelecer limites não é um defeito, muito menos sinal de falta de amor. Existem relações abusivas nas quais permanecer significa continuar se ferindo, e a própria sabedoria bíblica, em Provérbios 15:12, aconselha cautela diante do escarnecedor. É preciso, porém, distinguir duas coisas que a pressa costuma misturar: não desistir de alguém não significa permanecer em risco. Posso fechar uma porta para proteger minha integridade e, ainda assim, deixar acesa a luz do corredor. Posso me afastar sem transformar o afastamento numa sentença definitiva sobre o valor ou o futuro de quem ficou do lado de lá.

É justamente essa sentença que as reflexões contemporâneas da psicologia e da pedagogia nos convidam a questionar. Com Carol Dweck, em Mindset (2006), compreendo que a maneira como enxergamos nossas capacidades influencia nossa relação com o aprendizado e com os próprios erros. Quando alguém é rotulado como "incorrigível", corre-se o risco de tratá-lo como se estivesse condenado a ser para sempre aquilo que hoje demonstra ser. Com Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido (1968), lembro que ninguém se constrói sozinho, isolado da palavra, do trabalho, da ação e da reflexão. Já Urie Bronfenbrenner, em A ecologia do desenvolvimento humano (1979), ajuda-nos a perceber que o comportamento não nasce no vazio: é influenciado pelas relações familiares, pela escola, pela comunidade e pelo contexto cultural em que cada pessoa vive. Nada disso elimina a responsabilidade individual, nem transforma todo erro em culpa do ambiente. O que muda é o alcance do nosso olhar. Em vez de perguntar apenas "o que há de errado com ele?", vale perguntar também: o que aconteceu em sua trajetória? Que relações alimentam esse comportamento? E, sobretudo, que outras experiências poderiam ajudá-lo a encontrar um caminho diferente?

Penso, então, na cena de um professor diante de um adolescente que debocha de tudo, enfrenta as regras e já foi considerado um caso perdido por três escolas. Cansado, o educador poderia simplesmente repetir o diagnóstico dos colegas e tratá-lo como mais um problema a ser despachado. Em vez disso, mantém a firmeza, corrige sem humilhar e, dia após dia, cumprimenta o garoto pelo nome. Não passa a mão na cabeça dele, tampouco finge que nada aconteceu. Apenas se recusa a confundir o comportamento de hoje com o destino de amanhã. Até que, certa tarde, depois da aula, o adolescente se aproxima e pergunta, quase sem levantar os olhos, se pode levar um livro emprestado. Não há música de fundo, discurso emocionante ou transformação milagrosa. Há apenas um pequeno gesto, desses que quase ninguém nota, mas que podem mudar a direção de uma vida. Anos depois, talvez aquele rapaz nem se lembre de uma frase específica do professor. O que ficará na memória será o fato de alguém ter continuado a enxergá-lo para além das suas dificuldades. Reconheço que essa é uma cena ilustrativa, e a substituiria, sem hesitar, por um rosto real do meu próprio percurso. Afinal, quem passou anos entre o giz, os cadernos e os desafios da sala de aula sabe que nem toda mudança faz barulho. Às vezes, ela começa num cumprimento, num livro emprestado ou na simples decisão de não tratar ninguém como um caso encerrado.

Por fim, creio que a raiz mais profunda dessa postura está na ética e na fé. Emmanuel Levinas, em Totalidade e Infinito (1961), coloca a responsabilidade pelo outro no centro da reflexão ética. Essa ideia me faz lembrar o "eis-me aqui" de Isaías 6:8 e, sobretudo, as parábolas de Lucas 15. Ali encontramos o pastor que vai atrás da ovelha perdida, sem transformar o resgate numa conta de custo e benefício, e o pai que corre ao encontro do filho quando ainda está "ainda longe". A imagem é poderosa: antes mesmo de o filho chegar à porta, o pai já se movimenta em sua direção. Não se trata de aprovar os erros do rapaz, mas de reconhecer que a possibilidade de recomeçar não precisa morrer junto com a confiança perdida. Quem transforma a rejeição em princípio corre o risco de se parecer mais com o irmão mais velho, que permanece do lado de fora da festa, agarrado às próprias razões, do que com o pai, que acolhe sem fingir que nada aconteceu.

Por isso, prefiro encerrar com um convite, não com uma ordem: sejamos firmes sem nos tornarmos fechados, pacientes sem cair na ingenuidade e acolhedores sem abandonar nossos limites. Nem todo mundo está pronto para mudar quando estendemos a mão; alguns sequer reconhecerão o gesto. E tudo bem: não somos donos do tempo, da consciência nem das escolhas alheias. Nossa responsabilidade não é garantir a transformação de ninguém, mas evitar que o cansaço nos convença de que certas pessoas já não merecem nenhuma possibilidade de mudança. Afinal, nem toda semente brota na estação em que a plantamos. Algumas precisam de mais tempo, de outro terreno ou de cuidados diferentes. E, se não podemos obrigar a semente a florescer, podemos ao menos evitar que a nossa impaciência transforme o jardim inteiro em chão abandonado. Uma sociedade mais justa não se constrói com a ingenuidade de quem aceita tudo, mas com a coragem de quem estabelece limites sem perder a humanidade. Porque, às vezes, não precisamos manter a porta aberta para sempre; basta não apagar, por completo, a luz do corredor.