"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

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MINHAS PÉROLAS

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A Ilusão do Rigor como Sinônimo de Qualidade (ENAMED — 2026)

 



A ilusão do rigor como sinônimo de qualidade (ENAMED — 2026)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Desde a divulgação dos resultados da primeira edição do Enamed, em 2024, consolidou-se no debate público — especialmente em pronunciamentos de gestores estaduais, setores conservadores da categoria médica e editoriais de parte da imprensa — a interpretação de que o exame teria revelado falhas estruturais solucionáveis, sobretudo, por maior rigor regulatório e pela contenção da expansão dos cursos de Medicina. Embora politicamente sedutora, essa leitura simplifica um problema que é, em sua natureza, sistêmico e multifatorial.

Reduzir a qualidade da formação médica a indicadores pontuais ignora a complexidade do processo educacional. Avaliações em larga escala cumprem função diagnóstica, jamais explicativa. Como adverte Michael Power, “a obsessão por auditorias tende a confundir controle com melhoria real” (POWER, 1997). Um desempenho satisfatório ou insuficiente no Enamed não apreende, por si só, a densidade pedagógica dos currículos, a qualidade do internato, a integração com o Sistema Único de Saúde nem a trajetória formativa de longo prazo dos egressos. Eleger o exame como critério quase absoluto tende a estimular um ensino voltado ao treinamento para provas, em detrimento da complexidade da prática clínica.

Os dados globais reforçam essa cautela. A Organização Mundial da Saúde estima um déficit superior a 10 milhões de profissionais de saúde até 2030, afirmando que “a escassez de médicos é um dos principais entraves à equidade no acesso à saúde” (OMS, 2023). No Brasil, onde a distribuição desses profissionais permanece profundamente desigual, políticas restritivas de vagas tendem a ampliar vazios assistenciais, sem assegurar, por si mesmas, um salto qualitativo na formação.

O caso da Universidade Estadual de Goiás ilustra esse argumento. Relatórios institucionais e dados orçamentários indicam que a elevação da qualidade do curso decorreu de concursos docentes, investimentos em infraestrutura laboratorial, ampliação de convênios com o SUS e reorganização curricular — e não do simples fechamento temporário de turmas. Como observa Martha Nussbaum, “educação de qualidade não nasce da exclusão, mas do fortalecimento deliberado das capacidades humanas” (NUSSBAUM, 2011).

À objeção recorrente de que cursos frágeis formariam médicos inseguros, é preciso responder com rigor analítico: exames punitivos não substituem financiamento adequado, supervisão contínua e avaliação formativa. Experiências internacionais, como no Canadá e em Portugal, indicam que a melhoria sustentável resulta do acompanhamento institucional permanente, e não de interdições episódicas.

Assim, a qualidade não se impõe por proibição ou por rankings. Ela se constrói por políticas públicas consistentes, compromisso social e processos avaliativos orientados à melhoria — dimensões que nenhum exame isolado é capaz de mensurar plenamente.


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Olá! Como seu professor de Sociologia, vejo que este texto é uma excelente ferramenta para discutirmos a Sociologia das Organizações e as Políticas Públicas. Ele nos desafia a olhar além dos números e entender como as instituições tentam medir a "qualidade" e quais são as consequências sociais dessas escolhas. Aqui estão 5 questões discursivas pensadas para o nível de Ensino Médio, focadas na análise crítica do texto:


1. A "Cultura da Auditoria" e o Controle Social. O texto cita Michael Power para alertar que a "obsessão por auditorias tende a confundir controle com melhoria real". Do ponto de vista sociológico, como a transformação de um exame (como o Enamed) em um "critério absoluto" pode mudar o comportamento das escolas de medicina, fazendo-as focar mais em rankings do que na formação de bons médicos?

2. Desigualdade Regional e Acesso à Saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que a falta de médicos é um obstáculo à equidade. Considerando o cenário brasileiro, por que a proposta de "conter a expansão dos cursos" pode ser vista como uma medida que aprofunda a desigualdade entre as grandes capitais e o interior do país?

3. O Sucesso da UEG e o Investimento Institucional. O autor utiliza o exemplo da Universidade Estadual de Goiás (UEG) para mostrar que a qualidade veio de "investimentos em infraestrutura e concursos docentes", e não de punições. Como essa análise reforça a ideia de que o Estado deve atuar como um provedor de recursos e não apenas como um fiscalizador punitivo?

4. O Ensino como "Treinamento para Provas". O texto sugere que focar apenas em avaliações de larga escala pode "estimular um ensino voltado ao treinamento para provas". Explique como esse fenômeno (conhecido como "ensinar para o teste") pode esvaziar a função social da educação, transformando o conhecimento em uma mercadoria estatística.

5. Educação: Exclusão vs. Fortalecimento de Capacidades. Utilizando a citação de Martha Nussbaum ("educação de qualidade não nasce da exclusão"), discuta por que o autor defende que "qualidade não se impõe por proibição". Qual seria, segundo o texto, o papel da avaliação se ela não fosse usada para punir ou fechar cursos?

Dica do Professor:

Para responder a essas questões, pense na escola e na universidade como engrenagens da sociedade. Se a engrenagem só se move para bater metas numéricas, ela deixa de produzir o que a sociedade realmente precisa: profissionais humanos e preparados para o mundo real.

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domingo, 28 de dezembro de 2025

A Quietude dos Que Não Controlam o Amanhã ("Não depende de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus, que usa de misericórdia." — Apóstolo Paulo (Romanos 9:16))

 




A Quietude dos Que Não Controlam o Amanhã ("Não depende de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus, que usa de misericórdia." — Apóstolo Paulo (Romanos 9:16))

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há uma angústia moderna que se disfarça de virtude: a obsessão por escolher tudo. Escolher o futuro, o sentido, o destino, a própria salvação. Como se o simples ato de decidir bastasse para dobrar o tempo, domesticar o acaso e obrigar o amanhã a cumprir nossos planos. No entanto, basta um tropeço da história — uma doença, uma perda, um evento imprevisto — para revelar o constrangimento dessa pretensa autonomia. Se fôssemos, de fato, autores soberanos de nós mesmos, o mundo não seria esse acúmulo de intenções frustradas e colheitas incoerentes.

Chamam isso de livre-arbítrio, mas o nome elegante não disfarça a fragilidade do conceito. A vontade humana opera cercada por forças que não escolheu: impulsos, medos, heranças invisíveis, condicionamentos sociais e limites biológicos. Decide, sim — mas decide dentro de um labirinto cujas paredes não construiu. Planeja o amanhã sem jamais enxergá-lo. A liberdade, assim entendida, mais se parece com um consolo psicológico do que com um poder real.

É curioso notar que os mais aflitos costumam ser justamente os que insistem em carregar o mundo nas próprias costas. A crença na autossuficiência cobra juros altos: ansiedade crônica, culpa excessiva, desespero diante do fracasso. Em contraste, há os que descansam. Não porque sejam passivos ou moralmente indiferentes, mas porque compreenderam algo incômodo ao ego moderno: nem o querer nem o realizar nascem inteiramente de nós. Há um governo silencioso operando por trás das intenções humanas, uma ordem que antecede e excede o indivíduo.

Isso não elimina a responsabilidade moral — ao contrário, redefine-a. Agir deixa de ser um gesto de soberania e passa a ser um ato de alinhamento. O erro não está em agir, mas em agir como se fôssemos deuses improvisados. A verdadeira rebeldia não é pecar, mas recusar-se a reconhecer limites. Foi essa ilusão que inaugurou a primeira dissidência cósmica: a ideia de que a criatura poderia bastar-se a si mesma. Desde então, a independência virou virtude e a submissão, insulto.

No entanto, há uma diferença essencial entre submissão e servidão cega. Submeter-se à ordem não é abdicar da ética, mas abandonar a fantasia de controle absoluto. O mal não nasce porque foi programado, mas porque insiste em resistir àquilo que o ultrapassa. Quando a Escritura afirma que tudo tem um propósito, inclusive a existência do ímpio, não descreve um sadismo divino, mas uma realidade incômoda: até a recusa humana acaba servindo a uma justiça maior que ela mesma não compreende.

Talvez o maior erro do homem contemporâneo seja confundir liberdade com isolamento. A crença de que criar o próprio destino é sinal de maturidade espiritual produz, paradoxalmente, sujeitos cada vez mais perdidos. Abrir mão da soberania pessoal não é um retrocesso moral, mas um alívio ontológico. É reconhecer que a vida não é um experimento individual, e sim uma participação — limitada, responsável e situada — numa ordem que não nos pede genialidade, apenas fidelidade.


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Como seu professor de Sociologia, hoje vamos explorar um texto que desafia um dos pilares do mundo moderno: a ideia de que somos "donos do nosso próprio nariz" e que nossa vontade é soberana. O autor nos propõe uma reflexão sobre os limites da liberdade individual frente às estruturas que nos cercam.


1. A Ilusão da Escolha no Mundo Moderno. O texto menciona que vivemos uma "obsessão por escolher tudo" e que isso gera uma falsa sensação de controle sobre o tempo e o futuro. Questão: Como a sociedade de consumo e o estilo de vida atual reforçam a ideia de que o indivíduo é o único responsável pelo seu sucesso, ignorando o que o texto chama de "heranças invisíveis" e "condicionamentos sociais"?

2. O Indivíduo e o Labirinto Social. O autor afirma que o homem decide "dentro de um labirinto cujas paredes não construiu". Questão: Utilizando o conceito de Fato Social de Émile Durkheim, explique como as leis, os costumes e a moral funcionam como essas "paredes do labirinto" que exercem coerção sobre nossas escolhas individuais.

3. As Consequências da Autossuficiência. O texto associa a crença na autossuficiência a "juros altos", como a ansiedade crônica e o desespero diante do fracasso. Questão: De que maneira a cobrança social para sermos "autores soberanos de nós mesmos" pode ser relacionada ao aumento de transtornos psicológicos na modernidade, uma vez que o indivíduo passa a carregar sozinho a culpa por seus insucessos?

4. Liberdade vs. Isolamento. O parágrafo final sugere que o homem contemporâneo confunde liberdade com isolamento. Questão: Sociologicamente, por que a ideia de "criar o próprio destino" de forma isolada pode enfraquecer os laços de solidariedade e o sentimento de pertencimento a uma comunidade ou ordem maior?

5. Responsabilidade como Alinhamento. O autor redefine a responsabilidade moral não como "soberania", mas como "alinhamento" a uma ordem que excede o indivíduo. Questão: Como essa visão de que somos "participantes de uma ordem" (e não criadores absolutos dela) altera a forma como entendemos nosso papel na sociedade e nossas obrigações para com os outros?


Dica do Prof: Lembrem-se de que, na Sociologia, raramente olhamos para o indivíduo sozinho. Sempre buscamos entender as "paredes invisíveis" que moldam o comportamento humano.

domingo, 21 de dezembro de 2025

A retrospectiva que nenhum professor quis fazer


 




Por Valter Mattos da Costa*


É chegado o fim do ano letivo, tempo oficial das retrospectivas. A diferença é que, na docência brasileira, retrospectiva não é aquele clipe com trilha emocionante, imagens em câmera lenta e gente agradecendo.

A Retrospectiva docente é planilha, ata, relatório, plataforma fora do ar e uma pilha de pendências com prazo “pra ontem”.

A docência fez – ou foi obrigada a fazer – seus acalorados COCs finais. Rola aquela pressão, em toneladas, para se aprovar em massa, independentemente do desempenho acadêmico. Aprovar virou verbo administrativo; reprovar, quase crime moral.

Sempre foi salutar tentar enxergar o aluno como sujeito e pessoa social para além do muro da escola. Retenção como vingança institucional nunca foi pedagogia; é sadismo mal disfarçado de critério. Progressão, inclusive com dependências, pode funcionar como parte de um processo contínuo de ensino-aprendizagem.

Quase nunca reprovei. Só que existe um abismo entre progressão pedagógica e aprovação fabricada para governo sair bem na foto do IDEB.

Quando o destino escolar de alguém vira peça publicitária de “melhoria de desempenho”, o debate deixa de ser educacional e vira ética de fachada: pergunta-se menos “o que o estudante aprendeu?” e mais “o que o sistema precisa mostrar?”. E o professor, que deveria ser o artesão do aprendizado, vira operador de resultado.

Fim de ano chega e o professor olha para trás não para contar conquistas, mas comprimidos (foram quantos Lexotan?).

O balanço de 2025 ficou mais explícito: o país registrou aumento expressivo de afastamentos do trabalho por transtornos mentais, segundo dados divulgados pela Agência Brasil em dezembro. E quando se abre o capô do motor, não aparece poesia: aparecem códigos de CID, laudos, licenças, perícias, carimbos.

Um estudo recente do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar, publicado em dezembro de 2025, aponta a predominância de quadros de ansiedade/estresse entre professores afastados por causas ocupacionais, revelando o desenho de um adoecimento que já não é “pontual”, mas estrutural.

A sala de aula virou uma espécie de laboratório de resistência emocional. Ensinar exige desejo – e desejo não é “motivação de palestra”; desejo é aquela força interna que sustenta o sujeito quando o mundo cobra demais e devolve de menos.

Só que, em 2025, o desejo docente foi sugado, reprocessado e devolvido como culpa.

Quando a turma explode, quando o conflito escala, quando o aprendizado não acontece como previsto, a explicação pronta aparece: “faltou manejo”, “faltou jogo de cintura”, “faltou preparo emocional”. Traduzindo para a língua do cotidiano: o sistema falha, mas quem paga o preço é a cabeça do professor.

Aí entra o humor involuntário – aquele que dá vontade de rir para não xingar. Em janeiro, o governo federal anunciou a mixaria do piso nacional do magistério com reajuste de 6,27% e valor de R$ 4.867,77 para 40 horas. É o momento em que o país finge que resolveu a valorização docente com uma portaria.

Uma parte do Brasil aplaude o número como se fosse medalha; outra parte descobre, na prática, que piso é uma espécie de “realidade virtual”: existe no papel, mas não necessariamente chega inteiro no bolso. E quando não chega, não é “violação”, é “dificuldade fiscal”, “arranjo federativo”, “interpretação jurídica”, “limite prudencial”. A miséria semântica tem uma elegância: muda-se o nome do buraco e a gente finge que não caiu.

Enquanto isso, as condições de trabalho seguem como estavam – ou piores. A escola pública vive um paradoxo cômico: exigem inovação, metodologia ativa, tecnologia, indicadores, acolhimento, resultados e paz. Oferecem sala lotada, estrutura precária, falta de pessoal, burocracia crescente e um tipo de controle que só aumenta.

O professor passa a trabalhar sob múltiplos olhares: o do sistema, o da família, o das redes, o do celular filmando, o do algoritmo julgando. Ensina-se como quem pisa em terreno minado: qualquer frase pode virar denúncia, qualquer aula pode virar recorte, qualquer conflito pode virar espetáculo.

E 2025 trouxe um dado que não dá para varrer para debaixo do tapete: violência e censura. Uma reportagem da Agência Brasil (6 de dezembro de 2025) repercutiu resultados de pesquisa do Observatório Nacional da Violência contra Educadores (UFF), indicando que nove em cada dez professores já sofreram ou presenciaram violência e censura relacionadas ao exercício profissional.

O número é tão absurdo que chega a parecer piada (de mal gosto) – mas é estatística. A escola, que deveria ser o lugar do pensamento, vai se convertendo, em muitas regiões, no lugar do cuidado com as palavras, não por refinamento intelectual, mas por medo.

Falar do medo não é metáfora. Violência escolar não é só “briga de aluno”. É ambiente social atravessado por desigualdade, circulação de armas, conflitos comunitários, intolerância, discursos de ódio e colapso de mediações.

Em abril de 2025, a CNN Brasil noticiou estudo indicando que a violência escolar provocou pelo menos 47 mortes desde 2001 e trouxe dados do Ministério de Direitos Humanos e Cidadania: vítimas de violência interpessoal em escolas passaram de 3,7 mil (2013) para 13,1 mil (2023), abrangendo estudantes, professores e outros membros da comunidade escolar.

No mesmo sentido, a Agência Brasil também reportou, em abril de 2025, o crescimento de 2,5 vezes no número de vítimas nesse período. Não é “sensação”: é curva ascendente.

E quando o país discute violência escolar como tema de Estado, não é por gosto acadêmico.

O próprio Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil (MDHC) registrou, em setembro de 2025, que o Disque 100 recebeu mais de 1,2 mil denúncias de agressões a professores em 2023, no contexto de um debate sobre aumento da violência nas escolas.

O dado é de 2023, mas a agenda pública é de 2025 – porque o problema escalou ao ponto de virar pauta institucional. E onde entra o professor nisso? Entra como alvo e como amortecedor: espera-se que a docência absorva o impacto social e devolva “cultura de paz” com giz e boa vontade.

Só que 2025 também produziu cenas que resumem o ano como de brutal clareza. Em outubro, um pai agrediu um professor em uma escola do Distrito Federal após repreensão a uma aluna por uso de celular; o caso foi registrado por câmeras e noticiado por veículos como CNN Brasil e CartaCapital.

É o retrato do colapso da autoridade pedagógica: o professor vira o inimigo conveniente, a figura que pode apanhar porque, aparentemente, ninguém apanha por ele. A escola vira palco de ajuste de contas e o docente vira personagem sem proteção (e isso foi um “presente” que a extrema-direita nos legou: o virulento anti-intelectualismo).

Nesse caldo, a docência vai sendo empurrada para uma posição impossível, e insuportável : precisa “garantir aprendizagem” e, ao mesmo tempo, “não gerar conflito”; precisa “formar senso crítico” e, ao mesmo tempo, “evitar polêmica”; precisa “acolher” e, ao mesmo tempo, “manter disciplina”; precisa “incluir” e, ao mesmo tempo, “não ter recursos”.

O sujeito professor é convocado a ser tudo – menos sujeito. Vira função. Vira peça. Vira suporte do impossível. E quando a mente colapsa, chamam de fragilidade individual – foi a isso que o professor foi sujeitado em 2025.

A crise de saúde mental entre educadores foi estampada por veículos de imprensa ao longo de 2025.

A Você S/A (Abril), por exemplo, publicou em julho de 2025 que depressão e burnout estão entre as principais causas de afastamento de professores, citando levantamento da CNTE com base em dados do INSS.

Mesmo quando a reportagem usa recortes de anos anteriores para demonstrar tendência, o que aparece, em 2025, é a consolidação de uma normalidade adoecida: trabalhar até quebrar, adoecer com culpa, voltar por necessidade, repetir o ciclo.

No fim do ano, a cereja amarga da retrospectiva: o professor não apenas trabalha muito e mal pago; trabalha sob coerção simbólica e instabilidade.

Relatos e análises públicas sobre precarização via contratos temporários e uso de punições administrativas aparecem em estudos e repercussões de 2025, inclusive destacando mecanismos que geram instabilidade psicológica e fragmentam o coletivo docente.

Quando o vínculo é frágil, a palavra também fica frágil: cala-se por autopreservação. O professor aprende, na marra, que a sobrevivência é uma forma de disciplina.

O resultado é uma escola que vai se transformando num teatro estranho: de um lado, o discurso da excelência, do acolhimento e da inovação; de outro, o cotidiano de medo, sobrecarga e adoecimento.
O sujeito docente termina 2025 como quem fecha um livro que não leu, mas carregou: carregou estatística, carregou expectativa, carregou conflito, carregou cobrança, carregou trabalho invisível, carregou o mal-estar do mundo. E quando chega dezembro, ainda se espera aquele sorriso de “missão cumprida”. Missão cumprida para quem? Talvez para quem nos oprimiu…

A retrospectiva do professor, em 2025, é isso: o ano em que o país seguiu exigindo tudo da docência – e oferecendo quase nada em troca. Um piso anunciado como troféu, enquanto o cotidiano o desmente como tal.

Uma sala de aula (meio estressor docente) convertida em zona de tensão, onde a violência tem números, as denúncias têm canal e a censura tem percentuais aterradores.

Uma saúde mental corroída, com afastamentos crescendo no país e ansiedade/estresse predominando entre docentes afastados por causas ocupacionais.

E uma pedagogia cada vez mais obrigada a dançar conforme a música do indicador e da imagem pública (a Pedagogia da Métrica).

Se isso é “fim de ano letivo”, é também fim da linha de montagem docente para muita gente – não em sentido trágico, mas no sentido social: fim de linha da paciência, fim de linha do corpo, fim de linha do desejo, fim de linha da ideia de que dá para sustentar escola pública com romantização da vocação.

A tradição da imprensa gosta de retrospectiva porque retrospectiva permite escolher o que comemorar. Na docência, a retrospectiva de 2025 é o que sobra quando tiram a maquiagem do discurso e deixam só o osso do real.

E vamos às confraternizações docente de fim de ano, como se nada tivesse acontecido…


*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora.


https://iclnoticias.com.br/a-retrospectiva-que-nenhum-professor-quis-fazer/

sábado, 20 de dezembro de 2025

A Janela de Overton e a Construção do Discurso: O Horizonte Atrás do Vidro: Uma Meditação sobre a Janela e o Real ("Ver o que está diante do próprio nariz exige uma luta constante." — George Orwell)

 



A Janela de Overton e a Construção do Discurso: O Horizonte Atrás do Vidro: Uma Meditação sobre a Janela e o Real ("Ver o que está diante do próprio nariz exige uma luta constante." — George Orwell)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Ver nem sempre é um ato espontâneo; muitas vezes, resulta de uma calibração prévia. A Janela de Overton opera como o diafragma de uma lente social: um mecanismo invisível que decide quais ideias podem banhar-se na luz do dia e quais permanecem nas sombras do indizível. Ouvi falar dela como quem recebe o aviso de uma tempestade remota — a percepção de que o pensamento coletivo oscila, por ação de mãos ocultas, entre o "impensável" e o "obrigatório". O inquietante não é a moldura em si, mas o ruído de sua reforma: enquanto dormimos na suposta segurança das certezas, a casa do discurso é redesenhada sem nosso consentimento.

Esse deslocamento é quase coreográfico. O que ontem causava escândalo hoje se apresenta como conceito radical e, amanhã, sob o peso de notas de rodapé e jargões técnicos, converte-se em norma jurídica inquestionável. Vi essa arquitetura erguer-se com vigor no debate sobre identidade de gênero. Onde antes reinava o silêncio do óbvio biológico, levanta-se agora uma catedral de novas terminologias. Argumenta-se que o binarismo sexual é um resquício colonial e que variações cromossômicas diluem a fronteira dos sexos em um espectro infinito. São objeções que exigem o peso da razão: a biologia, de fato, não é um monólito de simplicidade; possui dobras, exceções e uma diversidade tão real quanto fascinante.

Contudo, reconhecer a complexidade do relevo não equivale a rasgar o mapa. A existência de variações médicas e cromossômicas não dissolve o dimorfismo reprodutivo da espécie, assim como o crepúsculo, com toda a sua riqueza de matizes, não anula a distinção fundamental entre dia e noite. O que testemunhamos não é a revelação de um "novo corpo" pela ciência, mas uma engenharia da linguagem empenhada em afastar a janela do chão da realidade material. Quando o dissenso é rotulado como violência e a dúvida sentenciada como ódio, a janela deixa de ser um portal para o mundo e torna-se um espelho que reflete apenas a ideologia de quem a sustenta.

Sob as vigas dessa catedral linguística, o feminismo crítico de gênero emerge como um esforço solitário de ancorar a moldura novamente na matéria bruta. Não se trata de negar a subjetividade humana, mas de afirmar uma exigência vital: o corpo sexuado permanece como âncora necessária para a garantia de direitos e proteções concretas. É um movimento que abdica do aplauso institucional em favor da coragem incômoda de descrever aquilo que os olhos veem.

É inegável que a conformidade oferece um abrigo térmico: o consenso é econômico, e o silêncio evita o conflito. Já a lucidez de sustentar o contraditório exige um fôlego que poucos estão dispostos a gastar. Não é a verdade que empurra a moldura para o abismo, mas a gestão calculada da culpa e uma empatia que, sequestrada, converte-se em coerção moral.

Se permitirmos que a Janela de Overton se feche sobre o reflexo das nossas próprias conveniências, perderemos de vista o horizonte. Talvez o maior desafio da nossa era não seja inventar novos e complexos vocabulários, mas preservar a humildade de enxergar aquilo que as palavras tentam ocultar. Afinal, a liberdade é uma planta frágil que só subsiste onde o diálogo honesto sobre o real ainda encontra permissão para respirar.


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Como seu professor de Sociologia, trago hoje um texto denso e muito atual para nossa reflexão. Ele nos convida a pensar sobre como a sociedade decide o que pode ou não ser dito, e como a nossa percepção da realidade é moldada pela cultura e pela linguagem. Vamos exercitar nossa capacidade analítica com estas cinco questões baseadas na crônica:


1. O Conceito de "Janela de Overton" O texto descreve a Janela de Overton como um mecanismo que define quais ideias podem ser discutidas publicamente sem escândalo. Questão: Explique, com base no primeiro parágrafo, como essa "moldura" influencia o que o autor chama de "pensamento coletivo". Como a sociedade determina o que é considerado "civilizado" ou "tabu" em um determinado momento histórico?

2. A Evolução Social das Ideias O autor afirma que o deslocamento das ideias na sociedade é "quase coreográfico", passando do escândalo à norma jurídica. Questão: Segundo o texto, quais são as etapas que uma ideia percorre até se transformar em lei ou política pública? Qual o papel do "verniz acadêmico" e dos "jargões técnicos" nesse processo de legitimação social?

3. Natureza vs. Construção Social O texto faz uma distinção entre a "complexidade biológica" e a "realidade material", usando a metáfora do mapa e do relevo. Questão: Como o autor utiliza a metáfora do "crepúsculo" para argumentar que a existência de exceções (como variações cromossômicas) não anula a regra geral da biologia (dimorfismo reprodutivo)? De que forma ele diferencia a ciência da "engenharia da linguagem"?

4. Linguagem como Instrumento de Controle O autor menciona que, atualmente, o dissenso é muitas vezes rotulado como "violência" e a dúvida como "ódio". Questão: Do ponto de vista sociológico, como o uso de rótulos morais pode funcionar como uma forma de silenciamento ou censura simbólica? Como isso afeta o que o autor chama de "diálogo honesto sobre o real"?

5. Conformismo e Liberdade Individual No final, o texto afirma que a "conformidade oferece um abrigo térmico" e que o "silêncio evita o conflito". Questão: Por que, para muitos indivíduos, é mais fácil aderir ao consenso social do que sustentar uma posição contraditória? Relacione essa ideia ao risco que a liberdade corre quando a "Janela de Overton" se fecha sobre as conveniências de um grupo.

Dica do Prof: Para responder a essas perguntas, não busquem apenas decorar definições. Pensem em como as palavras que usamos hoje mudaram de sentido nos últimos dez anos e como isso afeta a nossa convivência em sociedade!

Gostaria que eu preparasse um resumo dos principais conceitos teóricos (como o de Janela de Overton e Controle Social) para ajudar a turma a fundamentar as respostas?

domingo, 16 de novembro de 2025

Coleção 80

 



Coleção 80

Por Claudeci Andrade

1 A centralização burocrática, ao reduzir o professor a executor de regras, dissolve sua autoridade e desvia a educação de seu propósito, substituindo a pedagogia pela administração do conflito.

2 Quando a escola maquía o próprio fracasso, transforma o mérito em ilusão e perpetua a desigualdade que finge combater.

3 Quando a educação vira marketing estatal, o aprendizado real cede lugar a índices fictícios que legitimam o poder, mas empobrecem o aluno.

4 Quando a burocracia reescreve as notas do professor, esvazia seu ofício e transforma a autonomia docente em mera engrenagem de interesses alheios.

5 Só quando a indignação se transforma em solidariedade organizada é que o professor converte o sofrimento isolado em força capaz de enfrentar as estruturas que o oprimem.

6 Quando a instituição renuncia a responsabilizar, transforma a infância em salvo-conduto e a violência em hábito social.

7 Quando a violência cala a escola, rompe-se não só o aprendizado, mas a rede de proteção que sustenta famílias, comunidades e infâncias inteiras.

8 Vandalizar a escola é ferir o próprio elo que une a comunidade, destruindo o refúgio que sustenta o encontro e a esperança coletiva.

9 "A escola só se preserva como bem comum quando a comunidade converte a indiferença em vigilância solidária e assume, coletivamente, o dever contínuo de proteger o lugar onde o futuro se constrói."

10 "Quando a escola é reduzida a palanque ideológico, ela abandona sua vocação formativa e converte o professor de intelectual autônomo em simples executor de agendas alheias, revelando a perda silenciosa de sua própria autoridade pedagógica."

11 "Ao submeter-se à lógica do prazer imediato, a escola converte-se em parque de diversões pedagógico e, ao tentar agradar em vez de educar, apenas legitima a aversão juvenil ao esforço que o verdadeiro conhecimento exige."

12 "Quando a escola troca o rigor que educa pela diversão que agrada, sacrifica sua missão de ensinar e converte o saber em mero espetáculo."

13 "Recuperar a escola como espaço de saber exige resgatar o óbvio: a autoridade do professor, a centralidade do conteúdo e o dever de aprender, para que a educação reencontre sua missão sem distrações nem concessões."

14 "Quando denunciar o fracasso educacional vira motivo de estigma, o sistema expõe sua falência moral: prefere preservar a própria fachada a confrontar a verdade que exige reforma."

15 "Entre a lei que promete inclusão e a escola que não a realiza, revela-se a distância entre o ideal jurídico e a cultura que o sustenta: sem recursos, formação e compromisso social, o direito torna-se rito vazio e a inclusão, apenas aparência."

16 "Quando a inclusão falha, professor e aluno tornam-se vítimas da mesma negligência: um não aprende como precisa, o outro é cobrado sem ter os meios para ensinar; ambos expostos ao vazio de um sistema que promete apoio, mas não o oferece."

17 "O PEI converte-se em elefante branco quando sua nobre teoria sobrevive apenas no papel, tornando-se um ritual burocrático que oculta a ausência de condições reais para uma inclusão efetiva."

18 "A inclusão só se concretiza quando escola, família e gestão formam um diálogo transparente e corresponsável, capaz de transformar a obrigação burocrática em um projeto comum de desenvolvimento."

19 "A inclusão só floresce quando escola, família e gestão convertem o diálogo transparente em corresponsabilidade, fazendo do PEI não um encargo burocrático, mas um projeto coletivo de desenvolvimento."

20 "Quando a burocracia eclipsa o ensino, escola, aluno e professor tornam-se vítimas de um sistema que sacrifica a aprendizagem para preservar a própria aparência."

Escola e Família - Foco no Ensino (“O professor é o artífice do ensino; a escola, o guardião do processo.” — Anísio Teixeira)

 



Escola e Família - Foco no Ensino (“O professor é o artífice do ensino; a escola, o guardião do processo.” — Anísio Teixeira)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

A relação entre escola e família não deve se estruturar na premissa de que o professor está sempre disponível para atender a qualquer demanda imediata dos pais. O docente é, na verdade, a última figura a ser acionada, e não a primeira, justamente porque sua função se concentra no ensino, e não na administração de conflitos externos ou interpessoais. Por essa razão, é despropositado que um pai decida, por vontade própria, “falar com o professor de história” a qualquer momento, como se esse profissional fosse uma autoridade subordinada a um desejo individual.

Em modelos educacionais mais organizados, como o da Finlândia, a participação dos pais é estruturada: eles comparecem apenas no início do ano letivo para compreender as regras da escola e no final para avaliar o percurso do aluno. Esse modelo demonstra um profundo respeito pelo fato de que, dentro da sala de aula, a palavra final é do professor.

No Brasil, contudo, persiste uma cultura da “carteirada”, na qual indivíduos tentam impor sua vontade como se ocupassem uma posição hierárquica superior. Essa lógica, que atravessa desde o trânsito até a relação com a escola, manifesta-se no excesso de exigência por acesso irrestrito ao professor. Muitos pais, ao agir assim, acabam reforçando um comportamento autoritário e socialmente enraizado, ignorando que o ambiente escolar exige ordem e critérios claros de comunicação. A mudança desse cenário exige uma reorganização institucional que limite interferências impulsivas e estabeleça canais de diálogo adequados.

É papel do diretor assumir a linha de frente nessas questões, protegendo o professor de desgastes desnecessários. Quando um pai chega exaltado, ressentido ou projetando frustrações pessoais, não pode recorrer automaticamente ao docente, como se este fosse um serviçal obrigado a absorver tensões familiares não resolvidas. Permitir esse acesso indiscriminado é transformar o professor em alguém de “segunda categoria”, fragilizando sua autoridade e, consequentemente, comprometendo sua saúde mental. Desse modo, proteger o professor é proteger o núcleo da experiência educativa.

Por isso, o atendimento às famílias deve seguir uma hierarquia responsável e bem definida:

Diretor (primeiro contato).

Psicólogo ou Orientador Educacional.

Quando necessário, um comitê de educação familiar que avalie a real pertinência de envolver o professor.

Esse modelo não só organiza o fluxo de comunicação e fortalece o ambiente escolar, mas também garante que o docente possa se dedicar ao que é essencial: ensinar. A escola, enquanto instituição, assume assim seu papel fundamental de mediar conflitos, orientar famílias e preservar a integridade pedagógica e física do professor.


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Eu sou o professor de Sociologia e, com base no texto que acabamos de analisar sobre a relação entre escola e família, preparei algumas questões discursivas simples. O objetivo é que vocês reflitam criticamente sobre a estrutura social e as relações de poder dentro do ambiente escolar.

Questão 1: O Foco da Função Docente

O texto afirma que a função do professor "se concentra no ensino, e não na administração de conflitos externos ou interpessoais". Explique por que, do ponto de vista sociológico da organização do trabalho e da especialização de funções, é problemático exigir que o professor seja a primeira figura a ser acionada para resolver qualquer demanda familiar.

Questão 2: A Cultura da "Carteirada"

O texto menciona a persistência de uma "cultura da 'carteirada'" na sociedade brasileira, que se manifesta na exigência de "acesso irrestrito ao professor". Defina o conceito de "carteirada" no contexto social e explique como esse comportamento autoritário e socialmente enraizado impacta a hierarquia e a ordem dentro da instituição escolar.

Questão 3: Autoridade e Respeito

O modelo educacional da Finlândia é citado como exemplo de organização, no qual há respeito pelo fato de que "dentro da sala de aula, a palavra final é do professor". Discorra sobre a importância da autoridade docente para a manutenção da ordem pedagógica e para a eficácia do processo de ensino-aprendizagem, conforme sugerido no texto.

Questão 4: O Papel da Instituição Escolar

O texto defende que permitir o acesso indiscriminado dos pais ao professor fragiliza sua autoridade, comprometendo sua saúde mental, e conclui que "proteger o professor é proteger o núcleo da experiência educativa". Descreva qual é o papel institucional da escola (direção e coordenação) na mediação de conflitos e na proteção da integridade pedagógica e física do professor, conforme o modelo hierárquico proposto.

Questão 5: Hierarquia e Fluxo de Comunicação

O texto sugere uma hierarquia responsável para o atendimento às famílias: Diretor → Psicólogo/Orientador → Comitê → Professor (se necessário). Analise de que maneira essa estruturação hierárquica contribui para a organização do fluxo de comunicação e para o fortalecimento do ambiente escolar como um todo.