Ensaio Teológico X(12) A Paz que Cala e a Paz que Cura: sobre o perdão, a justiça e o preço de manter a casa em silêncio
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Penso numa mesa de domingo em que todos sabem o que o tio fez à sobrinha, mas ninguém tem coragem de tocar no assunto. A avó serve o café, ajeita as xícaras e pede: "Vamos manter a paz, minha filha". A moça sorri, passa o açúcar e engole, junto com o café, aquilo que gostaria de dizer. Mas será que existe paz naquela sala? Não. Existe silêncio, que muitas vezes veste as roupas da paz justamente para não ser reconhecido. É contra esse disfarce que me levanto. Não contra a paz, que é uma bênção, mas contra essa ideia de que ela só pode ser alcançada pelo apagamento da verdade: perdoar sempre, calar sempre, "cobrir" tudo. Como se a harmonia familiar e a sabedoria divina exigissem uma mansidão sem rosto, uma espécie de submissão disfarçada de virtude.
Antes de avançar, quero fazer justiça ao argumento contrário. Quem defende a paz a qualquer custo nem sempre é covarde; muitas vezes, é alguém que já viu de perto o estrago provocado pela discórdia e deseja proteger aquilo que ainda permanece de pé. E não lhe faltam referências bíblicas: "o amor cobre multidão de pecados" (1Pe 4:8; Pv 10:12) e "quanto depender de vós, tenhais paz com todos" (Rm 12:18). Entretanto, é preciso ler esses ensinamentos com discernimento. Cobrir, nesse contexto, não significa esconder a violência, proteger o agressor ou impedir que a verdade venha à tona. Significa não transformar o erro alheio em arma, espetáculo ou instrumento de vingança. Além disso, Paulo reconhece que a paz depende também da disposição do outro, não apenas da nossa. É justamente aí que aparece uma distinção que aquela mesa de domingo parece ter esquecido: o perdão é pessoal, uma decisão de quem foi ferido, que ninguém tem o direito de exigir ou extorquir; a justiça, por sua vez, tem uma dimensão pública e existe também para proteger aqueles que ainda podem ser vítimas. Posso perdoar alguém de todo o coração e, ainda assim, exigir que essa pessoa não tenha acesso aos meus filhos. Uma coisa não anula a outra. Confundir perdão com impunidade é pedir à vítima que pague, com o próprio silêncio, uma dívida que nunca contraiu.
Os profetas já conheciam muito bem essa diferença. Amós exige que "corra o juízo como as águas" (Am 5:24), enquanto Jeremias denuncia aqueles que tratam superficialmente as feridas do povo, proclamando "Paz, paz; quando não há paz" (Jr 6:14). É como colocar uma gaze sobre uma ferida infeccionada e anunciar que o paciente está curado. Ora, a aparência de saúde não elimina a infecção! Até Jesus, que ensinou a oferecer a outra face, derrubou as mesas dos cambistas com um chicote de cordas (Jo 2:15). O mesmo Cristo que acolhia os pequenos e ensinava o amor também se indignava diante da exploração e da injustiça. Sua mansidão nunca foi sinônimo de passividade. A reflexão moderna, por outros caminhos, também nos ajuda a compreender essa questão. Martin Luther King Jr., na Carta da Prisão de Birmingham (1963), distingue a paz negativa, entendida como ausência de tensão, da paz positiva, que pressupõe a presença da justiça. Hannah Arendt, em Eichmann em Jerusalém (1963), mostra como o mal em larga escala pode se alimentar da irreflexão e da obediência burocrática, embora sua reflexão não trate especificamente do perdão. Foucault, por sua vez, ensina-me a desconfiar de práticas aparentemente inocentes que acabam sustentando relações de poder e desigualdades. Numa família, por exemplo, a velha sentença "assunto encerrado" pode funcionar como uma dessas práticas: encerra-se a conversa, mas a injustiça continua respirando debaixo do tapete. Esther Perel também me ajuda a compreender que relações vivas não são necessariamente relações sem atritos. O conflito, quando enfrentado com maturidade, pode revelar problemas que a aparente tranquilidade apenas escondia.
Mas não quero, evidentemente, trocar um equívoco por outro. O conflito não é uma virtude em si mesmo, e há quem confunda agressividade com coragem, gritaria com sinceridade e desejo de vingança com justiça. Nem toda discussão esclarece; algumas apenas machucam. A questão, portanto, é mais profunda: o que estou realmente curando e o que estou escondendo quando pronuncio a palavra "paz"? Discernir essa diferença é uma virtude que não nasce da pressa, muito menos da imposição. Aprende-se ouvindo, observando e, sobretudo, tendo coragem de encarar aquilo que preferíamos deixar quieto. Volto, então, àquela mesa de domingo. Imagino a moça respirando fundo, levantando os olhos e dizendo, com a voz trêmula, mas firme: "Eu quero conversar sobre o que aconteceu." O silêncio que vem depois não representa o fim da paz. Talvez seja, finalmente, o primeiro som dela. Afinal, perdoar sem justiça pode se transformar em anestesia; justiça sem amor pode se tornar amputação. A sabedoria está justamente em discernir quando cobrir e quando descobrir, quando acolher e quando confrontar. E, acima de tudo, em ter coragem de pronunciar a palavra que interrompe o silêncio confortável da mesa para devolver àquela casa a paz que, até então, nunca existiu.






