A cola e o escândalo ("A esperança tem duas filhas lindas: a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las." - Santo Agostinho)
Era uma manhã comum de outono, com folhas dançando no chão e um certo cansaço pairando no ar. Entrei na sala de aula como quem entra num campo de batalha, mas ainda com o desejo tolo – ou teimoso – de encontrar ali um pouco de dignidade. Mal sabia eu que, naquela semana, a bomba viria do lugar mais improvável: das redes sociais.
Um aluno, com mais coragem do que juízo, decidiu registrar o momento em que colava descaradamente na prova. Não satisfeito com a façanha, publicou a imagem em seu perfil, rindo como quem tira sarro da própria sorte, como quem desafia o mundo e espera aplausos. O gesto viralizou entre os colegas, ganhou curtidas, risadas, comentários... e, claro, chegou aos ouvidos da direção. Chegou aos meus também, como uma bofetada.
O mais espantoso não foi o ato em si – afinal, "colar não é novidade para ninguém". O que me deixou perplexo foi o julgamento que veio depois. E não falo do julgamento do aluno, mas do que recaiu sobre mim, o professor. Como se a responsabilidade da trapaça fosse minha, como se eu tivesse, de alguma forma, falhado em ensinar que a honestidade vale mais do que um dez no boletim.
Senti o chão se mover sob meus pés. Alguns colegas cochichavam nos corredores, outros se perguntavam se eu teria sido “distraído demais”. Mas o que ninguém pareceu considerar foi que ensinar é uma arte com limites bem definidos: podemos guiar, mas não podemos controlar; podemos inspirar, mas não podemos impedir. Não sou carcereiro, sou educador.
Aquela publicação na internet não revelou apenas um aluno tentando enganar o sistema, mas também uma geração que, por vezes, confunde visibilidade com vitória e que troca princípios por curtidas. É duro dizer, mas não basta ensinar ética se ela não for desejada; não basta mostrar o caminho se o aluno escolhe o atalho – e ainda se gaba por isso.
Dias depois, veio a punição. A escola agiu, como devia, e o aluno, enfim, colheu o que plantou. Contudo, algo em mim já havia murchado. Não pela cola, não pela imagem exposta, mas por perceber que, mais uma vez, a sociedade preferia apontar o dedo para o educador, e não para quem erra por vontade própria.
Não, "nenhum professor em sã consciência incentiva a transgressão". Nenhum professor acorda pensando em como seus alunos podem burlar regras. Nossa missão, ingrata às vezes, é formar gente de valor. E para isso, não basta explicar fórmulas ou cobrar redações: é preciso resistir, dia após dia, à ideia de que somos culpados pelo que o mundo se recusa a ensinar em casa.
Hoje, quando entro em sala, carrego mais do que livros. Carrego dúvidas, esperanças e um cansaço que só os que lutam pelo futuro dos outros conseguem entender. E mesmo assim, continuo, porque ainda acredito que vale a pena. Acredito que um único aluno que escolhe o certo por convicção compensa todos os que se perdem pelo caminho.
E é por isso que sigo. Porque educar é plantar, e plantar, como todos sabem, é um ato de fé.
Como seu professor de sociologia, preparei 5 questões discursivas e simples, baseando-me nas ideias principais do texto apresentado:
1. O texto descreve um ato de "cola" que é registrado e compartilhado nas redes sociais, gerando diversas reações. Como essa situação ilustra a influência das redes sociais na exposição e na percepção de comportamentos desviantes no contexto escolar?
2. A narrativa expressa a perplexidade do professor diante do julgamento que recai sobre ele após o ocorrido. Sob uma perspectiva sociológica, por que a figura do professor muitas vezes é responsabilizada por atos de indisciplina ou desonestidade dos alunos?
3. O autor menciona que a publicação online revelou uma geração que "confunde visibilidade com vitória e que troca princípios por curtidas". De que maneira essa afirmação se conecta com conceitos sociológicos como cultura do consumo, individualismo e a busca por validação social?
4. A escola aplica uma punição ao aluno que colou. Qual a função sociológica da punição em instituições como a escola? Como essa punição pode ser interpretada à luz das teorias sociológicas sobre controle social e socialização?
5. Na conclusão, o professor reflete sobre a dificuldade de formar "gente de valor" e a necessidade de resistir à ideia de que são culpados pelo que a sociedade não ensina em casa. Como a sociologia aborda a relação entre a escola, a família e a sociedade na formação de valores e na prevenção de comportamentos como a desonestidade acadêmica?