"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(17) O QUE O DESEJO NÃO CABE EM DIZER

 


Ensaio Teológico IX(17) O QUE O DESEJO NÃO CABE EM DIZER

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Quando tinha dezesseis anos, ouvi de um pregador que o corpo era um território inimigo e que a pureza dependia de vigiá-lo. Concordei com a cabeça, mas voltei para casa carregando uma culpa que só muitos anos depois aprendi a questionar. Hoje percebo que me ensinaram a temer o que sentia antes mesmo de me ensinar a compreender meus sentimentos. Afinal, a sexualidade não deve ser tratada como inimiga, tampouco como um território sem limites. Reconheço o valor da fidelidade, da castidade e do compromisso, porque os vínculos afetivos exigem cuidado e responsabilidade; quando rompidos, também deixam suas feridas. O que questiono, portanto, não é a preocupação moral, mas o uso do medo e da vergonha como instrumentos de educação. Uma coisa é ensinar limites; outra, bem diferente, é transformar o corpo numa fonte permanente de culpa.

Essa compreensão ganha outras dimensões quando recorro a Esther Perel, em Inteligência erótica, e a Lisa Diamond, em Sexual Fluidity, que ajudam a compreender a complexidade e os movimentos do desejo humano. David Eagleman, em Incógnito, mostra que nem tudo o que sentimos passa primeiro pelo crivo da consciência. Já Jack Brehm (1966), ao estudar a reatância psicológica, explica como a proibição pode intensificar justamente aquilo que se pretende evitar. Foucault, em História da sexualidade I, também me provoca a pensar em como o discurso sobre o sexo pode se transformar numa ferramenta de poder e controle. Não interpreto essas contribuições como uma defesa de que tudo é permitido ou de que todo desejo seja inofensivo. Pelo contrário, entendo que precisamos distinguir aquilo que sentimos daquilo que escolhemos fazer. É justamente aí que começa a responsabilidade moral.

Entre tantas questões, há um princípio do qual não abro mão: o consentimento. Reconhecer o outro como sujeito, e não como instrumento de satisfação, é condição básica de qualquer relação verdadeiramente humana. Mesmo admitindo, com Judith Butler e Yuval Noah Harari, que nossos valores sofrem a influência das construções sociais e culturais, não vejo nisso motivo para relativizar a dignidade humana. Pelo contrário, encontro respaldo nos estudos de John Gottman, que apontam a amizade, o respeito e a comunicação como fundamentos dos relacionamentos duradouros, em vez da vigilância e do controle. Por isso, defendo uma educação sexual abrangente, fundamentada em evidências, que ensine sobre o corpo, o desejo, a fidelidade, os limites e o compromisso. Quero uma educação que ensine a pensar, não apenas a obedecer; que fale de liberdade sem esconder suas responsabilidades e de moralidade sem fazer da vergonha uma ferramenta pedagógica.

Quando penso naquele rapaz de dezesseis anos, voltando para casa de cabeça baixa, percebo que ele não precisava de uma sentença, mas de orientação, acolhimento e alguém disposto a ouvi-lo. Precisava compreender que sentir é humano, mas que nossas escolhas também alcançam a vida do outro e, por isso mesmo, exigem responsabilidade. Hoje, não defendo uma liberdade sem cuidado, muito menos uma moralidade sustentada pelo medo. Entre o desejo sem limites e a culpa sem compreensão, existe um caminho mais humano: o da consciência, do respeito e da autonomia responsável. É nessa direção que caminho. Afinal, a sabedoria em que acredito não pretende apagar o desejo, mas ensinar a compreendê-lo; não quer aprisionar o corpo, mas lembrar que a liberdade de cada um precisa reconhecer a dignidade de quem caminha ao seu lado.

Ensaio Teológico IX(16) DA JANELA DA CASA À PORTA DO OUTRO

 


Ensaio Teológico IX(16) DA JANELA DA CASA À PORTA DO OUTRO

Por Claudeci Ferreira de Andrade


No capítulo sete de Provérbios, encontro um sábio que, da janela de sua casa, observa um jovem atravessando a rua ao entardecer. Essa cena sempre me faz pensar em quantos julgamentos morais nascem da segurança de quem olha a vida de longe, protegido pelas próprias grades. Reconheço a força pedagógica da oposição entre a Senhora Sabedoria e a mulher estranha, apresentada em Provérbios 9. Afinal, ensinar pelo contraste é um recurso legítimo da literatura sapiencial. O problema começa quando transformamos uma alegoria numa classificação de mulheres reais, como se a vida coubesse em duas portas. A própria Bíblia, aliás, contraria essa simplificação ao apresentar Tamar, considerada mais justa do que Judá (Gênesis 38), e Raabe, acolhida tanto na genealogia de Jesus (Mateus 1) quanto entre os exemplos de fé (Hebreus 11).

Essa inquietação também encontra respaldo em diferentes pensadores. Esther Perel, em Inteligência erótica (2006), revela os paradoxos do desejo; Lawrence Kohlberg (1981) compreende a maturidade ética como uma construção gradual; e Erik Erikson reconhece na juventude um período de experimentação e descoberta da própria identidade. Recorro ainda a Yuval Noah Harari, em Sapiens (2011), e a Judith Butler (1990), para refletir sobre como as narrativas sociais e as normas de gênero influenciam nossos julgamentos. Não podemos esquecer que Provérbios 1–9 nasceu numa sociedade patriarcal, na qual um pai aconselhava o filho. Por isso, considero indispensável olhar para o contexto histórico e perguntar: por que a mulher aparece tantas vezes como tentação, enquanto o homem parece escapar da responsabilidade pelo próprio desejo? Ora, se o desejo é humano, a responsabilidade também precisa ser.

Para aproximar essa discussão da vida real, imagino Marta, uma mulher de 34 anos que, ainda adolescente, ouviu num púlpito que certas moças eram “a mulher da Provérbios 7”. Ninguém quis saber de sua história, de onde vinha ou o que a levara àquela situação. A sentença, porém, ficou; duas décadas depois, ainda pesava sobre seus passos. É por isso que me identifico com Martha Nussbaum, em Love’s Knowledge (1990), ao defender que as narrativas nos ensinam a enxergar pessoas onde os julgamentos apressados só encontram rótulos. Essa compreensão também dialoga com os estudos de John Gottman, que destacam a amizade, o respeito e a comunicação como fundamentos dos relacionamentos duradouros. Afinal, consentimento, cuidado e diálogo não são meros caprichos modernos, mas condições indispensáveis para reconhecer o outro como sujeito, e não como objeto de condenação.

Não quero, com isso, abolir o juízo moral, mas questionar o moralismo que condena antes mesmo de ouvir. Reconheço que os antigos sábios temiam males concretos, como a exploração, a traição e a destruição dos lares; esse cuidado merece respeito. Entretanto, acredito na dignidade humana e na autonomia responsável. Criticar o moralismo também é assumir uma posição moral, e não fujo dessa responsabilidade. Prefiro uma sabedoria que não se contente em classificar pessoas entre duas portas, mas tenha coragem de atravessar a rua e conhecer quem está do outro lado. Quero descer da janela, abandonar a comodidade de quem apenas observa e me aproximar de quem carrega uma história que desconheço. Afinal, antes de perguntar quem é a mulher da narrativa, preciso perguntar quem ela é, o que viveu e o que farei com o poder que tenho de olhar e julgar. Porque, convenhamos, há uma distância enorme entre enxergar alguém pela janela e reconhecê-lo quando estamos frente a frente.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(15) A Culpa que Aprendemos a Carregar: Virtude, Tentação e a Necessidade de uma Ética Adulta

 


Ensaio Teológico IX(15) A Culpa que Aprendemos a Carregar: Virtude, Tentação e a Necessidade de uma Ética Adulta

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Aos dezesseis anos, numa tarde de sábado, ouvi de um líder de jovens que as moças da igreja deviam cobrir os ombros “para não fazer o irmão tropeçar”. Lembro-me até hoje da vergonha estampada no rosto de uma colega, que ajeitou a blusa como quem acabava de descobrir que seu próprio corpo era um perigo. E eu? Também fui vítima daquela lição torta, ensinado a me enxergar como um sujeito incapaz de controlar os próprios desejos. Naquela tarde, ela virou tentação, e eu, uma presa indefesa. Ninguém pareceu se lembrar de que, antes de sermos homens e mulheres, éramos duas pessoas aprendendo a viver. É por isso que volto àquela cena: quero entender como uma moral que se apresenta como virtuosa pode fabricar culpados em vez de formar consciências responsáveis.

Não ignoro a sabedoria presente na tradição cristã. De José, em Gênesis 39, às advertências de Provérbios 7, reconheço que o desejo exige discernimento e que ninguém se torna virtuoso vivendo numa bolha. Mas também encontro em Tomás de Aquino, Agostinho e no Sermão da Montanha uma compreensão mais profunda da moral, voltada para o caráter, a liberdade e a responsabilidade interior. Minha crítica, portanto, não é à fé, mas à sua versão empobrecida, que troca o exame da própria consciência pela fiscalização do corpo alheio. Com Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), compreendo como a cultura ensina às mulheres o lugar que devem ocupar; com Jonathan Haidt, em The Righteous Mind (2012), percebo como a moral pode unir um grupo e, ao mesmo tempo, cegá-lo para as consequências de suas regras. Afinal, de que adianta preservar a imagem de pureza de uma comunidade se, nessa tentativa, a dignidade de seus próprios membros fica pelo caminho?

Para mim, o caminho não está em trocar a repressão pela permissividade, mas em substituir o medo pela responsabilidade compartilhada. Inspirado no princípio apresentado por Peter Singer em “Famine, Affluence, and Morality” (1972), entendo que devemos agir para evitar o mal quando isso não exige sacrificar algo de importância moral comparável. Essa reflexão me leva a mudar a pergunta: em vez de pensar apenas em como me proteger da tentação, preciso considerar o que posso fazer pelo outro e com o outro. É aí que entra uma educação afetiva e sexual honesta, sem terrorismo moral nem vergonha do próprio corpo, capaz de ensinar rapazes e moças a reconhecer o desejo, respeitar os limites, compreender o consentimento e praticar o cuidado. Desejo não é sentença, corpo não é armadilha e ninguém deve carregar sozinho uma culpa que precisa ser examinada à luz da própria conduta.

Não quero jogar a virtude pela janela; quero devolvê-la ao lugar de onde nunca deveria ter saído: o caráter. Uma pessoa virtuosa não é aquela que vive fugindo de todas as ocasiões de falhar, mas aquela que aprende, pela escolha e pela prática, a agir de modo que os outros possam confiar nela. Volto, então, àquela sala de sábado e imagino como tudo poderia ter sido diferente se alguém tivesse ensinado àqueles dois adolescentes que cada um era responsável pelas próprias escolhas e pelo respeito devido ao outro. Minha colega teria ajeitado a blusa por conforto, não por vergonha, e eu teria saído dali sabendo que meus desejos não anulavam minha capacidade de decidir. Parece pouca coisa, véi, mas é justamente aí que mora a diferença entre uma moral que aprisiona e uma ética que amadurece. A fé não precisa de mulheres envergonhadas nem de homens tratados como reféns dos próprios impulsos. Precisa de gente capaz de pensar, escolher e responder pelo que faz. Uma moral assim não enfraquece a fé; tira-lhe as muletas do medo e a ajuda a caminhar com as próprias pernas.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(14) Entre a Senhora Sabedoria e a Dona Loucura: Quem Escolhe, Afinal?

 


Ensaio Teológico IX(14) Entre a Senhora Sabedoria e a Dona Loucura: Quem Escolhe, Afinal?

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Quando reflito sobre a diferença entre sabedoria e loucura, percebo que, na vida real, a fronteira entre as duas nem sempre é tão nítida quanto parece. Em Provérbios 9:1-6, a Senhora Sabedoria prepara sua casa e convida para o banquete, enquanto a Dona Loucura, descrita em Provérbios 9:13, também chama quem passa. Ora, se ambas fazem seus convites, cabe a nós discernir o que cada uma tem a oferecer. O problema é que, durante séculos, interpretações religiosas e literárias transformaram essas figuras em modelos para julgar mulheres, como se a virtude tivesse rosto feminino e a insensatez também. A meu ver, essa leitura desvia o sentido da alegoria: sabedoria e loucura não são questões de gênero, mas escolhas humanas.

Ao aprofundar essa reflexão, encontro em Daniel Kahneman, na obra Rápido e devagar (2011), um alerta sobre nossa confiança excessiva nos próprios julgamentos. Afinal, quem nunca tomou uma decisão acreditando estar com a razão e, mais tarde, percebeu que se enganara? Alain de Botton também me leva a pensar que, às vezes, aquilo que chamamos de prudência não passa de medo bem-vestido, uma cautela que nos impede de viver. Lembro-me de Abraão, que partiu sem saber aonde chegaria, da parábola dos talentos, em Mateus 25, e da “loucura da cruz”, mencionada por Paulo em 1 Coríntios 1. Essas passagens me fazem desconfiar das respostas fáceis: nem toda ousadia é insensatez, assim como nem toda cautela é sabedoria. Isso não significa, porém, que devamos agir sem pensar; significa apenas que precisamos olhar além das aparências e avaliar o preço de nossas escolhas.

Mas há outra questão que não dá pra deixar de lado: será que todos escolhem com a mesma liberdade? Ao ler Pierre Bourdieu, em A Distinção (1979) e A Dominação Masculina (1998), compreendo melhor como nossas decisões são influenciadas pela classe social, pelos hábitos e pelas estruturas em que vivemos. Convenhamos, quem encontra a mesa posta tem mais possibilidades do que quem luta diariamente para conseguir o alimento. Por isso, considero injusto atribuir todo fracasso à falta de juízo ou de esforço individual, como se as condições de partida fossem iguais para todos. Nesse ponto, encontro em Paulo Freire uma contribuição fundamental: a educação crítica nos ajuda a ler o mundo, questionar aquilo que parece natural e reconhecer que podemos transformá-lo. É no diálogo, na convivência e até nos tropeços que aprendemos a escolher melhor, sem imaginar que alguém se torna sábio sozinho.

Chego, assim, a uma conclusão que me provoca mais perguntas do que certezas. Hoje, já não me basta saber quem é sábio ou louco; quero compreender quem nos ensinou a escolher, quais condições tivemos para aprender e quem caminha conosco nessas decisões. A Senhora Sabedoria constrói sua casa e prepara a mesa, mas, para mim, não basta admirar o banquete: é preciso abrir a porta e garantir que pessoas de diferentes gêneros e condições sociais também possam se sentar, participar e dizer o que pensam. Afinal, discernir não é apenas escolher um caminho e seguir adiante; é reconhecer os próprios limites, assumir as consequências dos atos e considerar a realidade de quem caminha ao nosso lado. No fim das contas, talvez a verdadeira sabedoria comece quando deixamos de apontar o dedo para os supostos loucos e temos a coragem de examinar nossas próprias escolhas.

Ensaio Teológico IX(13) A Sabedoria Não Pede Licença

 


Ensaio Teológico IX(13) A Sabedoria Não Pede Licença

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Minha reflexão sobre a sabedoria começa pela minha avó. Ela estudou só até a quarta série, mas lia a Bíblia com o dedo deslizando sob cada linha, como quem confere uma conta. Questionava o pastor sem alarde e, quando a conversa não a convencia, voltava às Escrituras para rever as próprias ideias. Foi com ela que aprendi, e confesso que tarde demais, que sabedoria não depende de diploma, nem de gênero. O que me intriga, e até hoje não me desce, é que a história tenha separado duas coisas que sempre deveriam andar de mãos dadas: ser mulher e ser reconhecida como alguém capaz de pensar.

Quando examino a tradição religiosa, esbarro em contradições. A Sabedoria aparece como figura feminina em Provérbios 8, Débora julga Israel e Abigail dá mostras de fino discernimento. Mesmo assim, muitas interpretações bíblicas reservaram às mulheres o silêncio e a obediência. Na prática, o texto abria a porta e a leitura a fechava. Sei que há quem defenda diferenças entre homens e mulheres e que o argumento merece ouvido atento. Carol Gilligan, por exemplo, observou o peso do cuidado e das relações na formação moral de muitas mulheres. Mas, descrever um modo de pensar não é decretar uma natureza, e nenhuma característica, por mais bonita que seja, deveria virar grade de prisão. Elogio que aprisiona continua sendo prisão. É nesse ponto que Lisa Feldman Barrett e Sheryl Sandberg me ajudam, cada uma a seu modo: pensar criticamente exige aprender a questionar, interpretar e agir, e isso nunca foi privilégio de um gênero só.

A história, aliás, confirma que o reconhecimento da inteligência feminina andou a passos de tartaruga. Sor Juana Inés de la Cruz, Nísia Floresta, Lélia Gonzalez, Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo me ensinam que o saber também nasce da resistência, da memória, da cozinha, do terreiro e da roça, e não apenas dos corredores acadêmicos. Com Steven Pinker, entendo que as mudanças vêm aos poucos, quase invisíveis para quem está no meio delas. Com Malala Yousafzai, reafirmo o valor da educação e do acesso aos livros. Nenhuma dessas mulheres foi sábia por ser mulher, nem apesar de sê-lo. Foram sábias porque aprenderam, questionaram e resistiram, mesmo quando o mundo lhes negou o direito de começar.

Chego, então, a uma conclusão que é também uma tarefa: a sabedoria não tem sexo, mas tem história, experiência e acesso ao conhecimento. Para mim, pensar com lucidez é reconhecer os próprios limites, rever convicções e seguir aprendendo, sem medo de mudar de ideia. Uma teologia comprometida com a Sabedoria que clama nas praças não pode calar quem responde ao chamado. Minha avó partiu sem conhecer as pensadoras que hoje estudo, mas nem precisou. A voz dela, pausada e teimosa, já carregava a lição: a verdadeira sabedoria não exige licença para perguntar; exige coragem para buscar a verdade e humildade para reconhecê-la.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(12) A SABEDORIA, A LIBERDADE E O DESTINO: ENTRE A ESCOLHA E O IMPREVISÍVEL

 


Ensaio Teológico IX(12) A SABEDORIA, A LIBERDADE E O DESTINO: ENTRE A ESCOLHA E O IMPREVISÍVEL

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Aos vinte e poucos anos, recusei um emprego seguro para seguir um caminho incerto. Na véspera, quase não preguei os olhos. Fiquei pesando salários, medos, conselhos da família e o olhar preocupado de minha mãe. Era como se cada possibilidade puxasse meu braço para um lado, enquanto eu tentava descobrir qual caminho fazia mais sentido. Na manhã seguinte, disse "não" e saí com a impressão de que havia decidido tudo sozinho. Hoje, porém, desconfio dessa certeza. Afinal, será que decidi sozinho mesmo? Ou pesaram na minha escolha a criação que recebi, o temperamento herdado, as circunstâncias daquele momento e até uma conversa casual que já nem me lembro de ter ouvido? Fui eu quem escolheu, sim, mas não escolhi do nada. É justamente aí que começa a inquietação deste ensaio: será que a sabedoria, uma vez escolhida, determina nosso destino de maneira inexorável? Quero examinar essa ideia com respeito, sem transformá-la num espantalho fácil de derrubar.

Começo pela tradição bíblica, porque seria muito cômodo atribuir às Escrituras uma matemática simplória, dessas em que quem obedece prospera e quem erra paga a conta. Ora, a própria literatura sapiencial nos convida a desconfiar dessa leitura. Provérbios apresenta orientações para uma vida bem conduzida e associa a sabedoria a caminhos de prudência e bem-estar (Pv 3:1-2). Eclesiastes, por sua vez, reconhece que há justo que perece na sua justiça (Ec 7:15) e lembra que "o tempo e o acaso" alcançam a todos (Ec 9:11). Já o livro de Jó, do começo ao fim, é um grande protesto contra a ideia de que a virtude sempre recebe recompensa e o sofrimento é necessariamente castigo. Veja só: os próprios sábios de Israel reconheceram que a vida não cabe numa fórmula pronta. Quem transforma Provérbios numa lei de ferro acaba exigindo do texto bíblico uma certeza que nem os demais livros das Escrituras confirmam. A sabedoria oferece caminhos, mas não nos entrega o controle absoluto sobre os resultados.

A ciência chega a esse mesmo território por outra estrada, embora também nos convide à humildade. Daniel Kahneman mostrou como boa parte dos nossos julgamentos acontece por meio de atalhos mentais rápidos e automáticos, revelando que somos menos senhores das próprias decisões do que gostamos de imaginar (KAHNEMAN, 2011). E não para por aí: entram nessa conta a genética, o ambiente, a família, a educação e a época em que vivemos. Afinal, ninguém escolhe o berço em que nasce, a língua que aprende primeiro ou o século em que vem ao mundo. Isso significa que não somos livres? Não necessariamente. Reconhecer os limites da liberdade não é eliminá-la, mas compreendê-la com mais honestidade. Somos como o marinheiro que não comanda o vento, mas pode ajustar as velas e escolher, dentro das possibilidades, como navegar. A sabedoria, portanto, não é uma relíquia guardada numa prateleira, muito menos um conjunto de respostas que serve para todas as épocas. É a arte de reler o mundo quando ele muda, aprender com a experiência e rever as próprias certezas sem jogar fora tudo o que veio antes. A tradição, nesse sentido, deve funcionar menos como âncora, que nos mantém presos ao mesmo lugar, e mais como bússola, que ajuda a encontrar direção sem prometer um percurso livre de tempestades.

É por isso que me incomoda reduzir a existência a um tribunal de causa e efeito, como se cada sofrimento fosse consequência de um erro e cada conquista, prova de virtude. Há dores que não escolhemos, perdas que não prevemos e circunstâncias que escapam ao nosso alcance. Nem tudo o que acontece é castigo, assim como nem tudo o que dá certo é recompensa pela nossa sabedoria. A vida tem contingências, contradições e mistérios que nenhuma explicação consegue eliminar por completo. E há um perigo nessa mania de querer explicar tudo: quando alguém acredita já possuir todas as respostas, deixa de fazer perguntas; quando deixa de perguntar, fecha as portas para o aprendizado. A sabedoria começa, muitas vezes, justamente quando temos coragem de admitir: ainda não sei. Isso não é fraqueza, véi; é reconhecer que o mundo é maior do que nossas certezas e que sempre há alguma coisa a aprender.

Mas, minhas escolhas não terminam em mim. Aquela decisão de juventude, por exemplo, não afetou apenas meu caminho profissional; também mexeu com minha mãe, com as relações que construí e, de algum modo, com aqueles que vieram depois de mim. É que ninguém vive numa ilha, tomando decisões sem tocar a vida alheia. Yuval Noah Harari destaca a importância da cooperação em larga escala para a trajetória da espécie humana, sustentada por histórias e formas de confiança compartilhadas (HARARI, 2015). Isso me leva a pensar que a sabedoria não deve ser medida apenas pelo sucesso individual, pelo dinheiro acumulado ou pela posição alcançada, mas também pelas consequências de nossas escolhas na vida dos outros. De que adianta acertar o próprio caminho e deixar um rastro de sofrimento por onde passamos? Uma decisão pode ser vantajosa para quem a toma e, ainda assim, injusta com quem precisa conviver com seus efeitos. Por isso, escolher bem exige mais do que inteligência: exige responsabilidade, empatia e consciência de que fazemos parte de uma história coletiva.

É nesse ponto que encontro uma aproximação possível entre ciência e fé. Einstein, em reflexões sobre a relação entre religião e ciência, defendeu que essas dimensões não precisam ser inimigas, embora trabalhem com questões e perspectivas distintas (EINSTEIN, 1941). Vejo nessa aproximação uma oportunidade de diálogo, não uma licença para confundir os campos de conhecimento. A ciência investiga os fenômenos, examina evidências e procura compreender como as coisas acontecem; a fé, para quem a vive, também pode abrir espaço para perguntas sobre valores, responsabilidade e o sentido que damos à existência. Uma não precisa ocupar o lugar da outra. Quando a ciência é usada para justificar a indiferença, perde-se de vista a dimensão humana do conhecimento; quando a fé é usada para proibir perguntas, corre-se o risco de transformar a busca espiritual em obediência cega. O desafio é aprender com ambas sem exigir que respondam, da mesma maneira, a todas as perguntas da vida.

Volto, então, àquela noite de insônia, aos cálculos que fiz, ao medo de errar e ao olhar preocupado de minha mãe. Na juventude, eu queria saber qual decisão me garantiria um futuro melhor. Hoje percebo que talvez essa fosse a pergunta errada. O futuro nunca esteve inteiramente nas minhas mãos, e a sabedoria não me daria poderes para controlar o que estava por vir. A pergunta mais honesta seria outra: "que tipo de pessoa quero ser diante de um futuro que não controlo?" Essa mudança de perspectiva faz toda a diferença. Em vez de procurar uma garantia impossível, passo a buscar critérios para escolher com responsabilidade, reconhecer os erros, reparar o que for possível e continuar aprendendo com as consequências dos meus atos.

No fim das contas, a sabedoria não é uma promessa de que tudo dará certo, nem uma força misteriosa que determina nosso destino sem deixar espaço para a liberdade. É a disposição de caminhar com humildade, considerar as circunstâncias, ouvir a tradição sem ficar prisioneiro dela e aprender com a ciência sem abrir mão da sensibilidade humana. Não escolhemos todas as condições da nossa caminhada, mas podemos refletir sobre a maneira como respondemos a elas. E, mesmo quando nossas escolhas parecem individuais, seus efeitos se espalham, alcançando pessoas, famílias e gerações. Talvez seja essa a lição que levo comigo: viver sabiamente não é ter o destino nas mãos, mas assumir a responsabilidade pelo caminho possível. Porque, no fim, o que construímos nunca é obra de uma pessoa só; é parte de uma história que construímos juntos.

Ensaio Teológico IX(11) A SABEDORIA, A FÉ E A CIÊNCIA DIANTE DO MISTÉRIO DA LONGEVIDADE

 



Ensaio Teológico IX(11) A SABEDORIA, A FÉ E A CIÊNCIA DIANTE DO MISTÉRIO DA LONGEVIDADE


Por Claudeci Ferreira de Andrade

Quando meu avô completou oitenta anos, alguém lhe perguntou, entre uma fatia de bolo e outra de prosa, qual era o segredo da longevidade. Ele pensou um instante e respondeu, com a franqueza de quem já viu muita coisa, que não sabia, e que tinha enterrado amigos bem mais cuidadosos do que ele. A mesa riu, mas a pergunta ficou comigo, velha como o medo da morte e teimosa como toda pergunta sem resposta fácil. Hoje acredito que ela merece ser tratada sem caricaturas: nem a que reduz a fé a uma fórmula, nem a que reduz a ciência a uma frieza.

Por isso, não vou brigar com uma tese que a melhor tradição bíblica nunca sustentou. Provérbios, é verdade, associa a sabedoria a “dias longos” (Pv 3:1-2; 10:27), mas basta ler a literatura sapiencial até o fim para ver que ela se corrige sozinha. O Eclesiastes reconhece, com uma lucidez quase dolorosa, que há justo que perece na sua justiça (Ec 7:15). Jó, de ponta a ponta, é um protesto contra a conta simples que iguala piedade e recompensa. E o Salmo 90 admite, sem rodeios, que os anos de uma vida são poucos e carregados de fadiga. Entendo, então, os provérbios como promessas de sentido, não como leis biológicas. Lê-los como determinismo é empobrecer a fé e, pior, tornar cruel o consolo de quem perde alguém cedo, porque a dor ganha, nas entrelinhas, o peso de uma acusação.

Do outro lado da mesa, a ciência tem o que dizer, e diz muito. Foram a medicina, a nutrição e a saúde pública que mudaram a duração da vida: a expectativa global, que rondava os trinta e poucos anos no início do século XX, ultrapassa hoje os setenta (RILEY, 2005; ROSER; ORTIZ-OSPINA; RITCHIE, 2013). O envelhecimento deixou de ser mistério para virar campo de estudo, com seus marcos, como a instabilidade genômica, o encurtamento dos telômeros e a senescência celular (LÓPEZ-OTÍN et al., 2013). Blackburn e Epel mostram que o estresse crônico deixa marcas mensuráveis nesse relógio celular. Sinclair defende que o envelhecimento é passível de intervenção, tese debatida entre seus pares, mas que aponta uma direção. E Marmot revela algo que tira o sono de qualquer um: a posição social prediz saúde e morte, o que faz da longevidade, antes de tudo, uma questão de justiça. Ainda assim, não dá para falar em holismo e deixar o espírito na porta. Uma meta-análise (McCULLOUGH et al., 2000) e um estudo com enfermeiras (LI et al., 2016) associam o envolvimento religioso a menor mortalidade. Com a ressalva de que associação não é causalidade, leio nisso um sinal de que comunidade, hábitos e esperança protegem. A fé, ao que parece, age menos como contrato e mais como laço.

Concluo, então, que a sabedoria não causa a longevidade, mas pode ser a arte de lidar com ela, como sugere Carstensen ao notar que o tempo vivido nos ensina a investir nos vínculos que importam (CARSTENSEN, 2011). Quem reduz a longevidade ao pecado erra por simplificação; quem a reduz à bioquímica erra pelo mesmo motivo, só que pelo outro lado. Penso de novo em meu avô e acho que ele tinha razão em não saber. A ciência nos entrega probabilidades e a chance de cuidar uns dos outros; a fé, no seu melhor, nos lembra por que vale a pena durar: para amar, para servir e para partir sem ter vivido em vão.