"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(14) A Sabedoria na Era da Informação: Entre o Silêncio que Guarda e a Palavra que Constrói

 


Ensaio Teológico X(14) A Sabedoria na Era da Informação: Entre o Silêncio que Guarda e a Palavra que Constrói

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Lembro-me de dois silêncios que me ensinaram coisas opostas. No primeiro, durante uma discussão que corroía as relações familiares, um tio de poucas palavras permaneceu calado. Quando finalmente falou, bastou-lhe uma frase para desfazer a tensão. Saí daquela experiência convencido de que sabedoria era justamente isso: calar, esperar e falar na hora certa. Anos depois, porém, presenciei uma situação bem diferente. Um colega percebeu que determinado projeto caminhava para o erro, mas preferiu não se manifestar, por prudência e por um respeito mal compreendido. O resultado? O projeto ruiu. Entre essas duas cenas nasceu a pergunta que move este ensaio: será o silêncio, por si só, sinal de sabedoria, e a abundância de palavras, sinal de tolice?

Antes de derrubar esse pilar que eu mesmo havia construído, resolvi examiná-lo de perto. Afinal, a tradição sapiencial bíblica realmente elogia a contenção. Provérbios afirma que até o insensato, quando permanece calado, pode ser tido por sábio (Pv 17:28), enquanto Tiago compara a língua ao freio e à centelha, advertindo-nos a ser prontos para ouvir e tardios para falar (Tg 1:19; 3:3-6). Entretanto, a Escritura não recomenda o mutismo, mas o domínio da língua. Eclesiastes ensina que há tempo de calar e tempo de falar (Ec 3:7); a própria Sabedoria "clama nas ruas" (Pv 1:20), e a palavra dita no momento oportuno é "maçã de ouro em salva de prata" (Pv 25:11). Portanto, essa oposição entre sábios silenciosos e tolos falantes está mais próxima de uma simplificação popular do que de uma verdadeira doutrina bíblica. Afinal, nem todo silêncio é prudência, assim como nem toda palavra é precipitação.

Essa simplificação precisa ser revista, sobretudo numa época em que o conhecimento deixou de ser escasso e o sábio-depósito vem cedendo lugar ao sábio-aprendiz. Harari aponta que, num mundo de mudanças aceleradas, saber reaprender vale mais do que carregar um repertório fixo de informações. Carol Dweck, com seu conceito de "mindset de crescimento", mostra que o desempenho extraordinário nasce da persistência diante das dificuldades e da capacidade de enxergar o erro não como sentença, mas como matéria-prima para aprender. Gladwell, em Blink, lembra que a intuição pode ser precisa quando alimentada por uma longa experiência, mas também pode falhar, contaminada por preconceitos e julgamentos precipitados. Daí a importância do pensamento crítico: decidir rapidamente só se torna uma virtude quando existe uma longa trajetória de reflexão por trás da decisão.

Mas, aprender é apenas metade do caminho. O conhecimento que não circula corre o risco de virar uma espécie de patrimônio trancado a sete chaves. Tyson defende que a ciência só cumpre plenamente seu papel quando alcança as pessoas, enquanto Freire vê no diálogo o encontro em que os homens, mediatizados pelo mundo, o pronunciam. É nesse ponto que a palavra recupera sua importância: não como instrumento de exibição intelectual, mas como possibilidade de compartilhar saberes, questionar certezas e transformar a realidade. Admito, contudo, a objeção de que as redes sociais demonstram diariamente os perigos do excesso de palavras e de que os defensores da prudência têm, em parte, razão. Afinal, vivemos cercados de opiniões instantâneas, julgamentos apressados e certezas fabricadas. Ainda assim, penso que o grande problema do nosso tempo não é falar demais, mas falar sem ter ouvido, sem ter verificado e, principalmente, sem ter considerado a humanidade de quem está do outro lado.

Resta, porém, o ponto mais delicado dessa reflexão: Mateus 12:36 afirma que daremos conta de toda palavra ociosa. Posso compreender, com Sam Harris, que a moralidade não precisa estar fundamentada no medo de um juízo divino. Confesso, entretanto, que esse texto bíblico me diz algo a mais: a palavra tem peso, é também uma forma de agir, e toda ação produz consequências — seja diante de um tribunal, da própria consciência ou da memória de alguém que ferimos. Orwell, por sua vez, lembra que a linguagem corrompida também corrompe o pensamento. E é justamente aí que volto às duas cenas do início. Por fora, os silêncios eram idênticos; por dentro, porém, havia um abismo entre eles. Um foi sábio; o outro, covarde. O que os distinguia não era a ausência de palavras, mas a intenção, a oportunidade e o cuidado com o outro.

Por isso, hoje, já não acredito que a sabedoria caiba no cofre do silêncio ou no palanque da opinião. Ela exige algo bem mais difícil: ouvir com humildade, pensar com rigor e falar com responsabilidade. Afinal, o saber não é um estoque de informações prontas, muito menos um troféu para exibir diante dos outros. É um processo contínuo de questionamento, revisão e aprendizado. No fim das contas, não é a quantidade de palavras que revela a sabedoria de alguém, mas a consciência com que escolhe pronunciá-las — e a coragem de não se calar quando o silêncio também pode ferir.

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(13) A Língua do Sábio e a Gagueira do Justo: sobre a fala, a tolice e a vara que não ensina

 


Ensaio Teológico X(13) A Língua do Sábio e a Gagueira do Justo: sobre a fala, a tolice e a vara que não ensina

Por Claudeci Ferreira de Andrade
 

Penso num menino da terceira fila que sabe a resposta, levanta a mão, mas, na hora de falar, sente as palavras emperrarem na porta da boca: "o-o-o-o...". Alguém ri baixinho, o professor passa a vez para outro aluno, e o menino se senta novamente, levando consigo a resposta intacta e a vergonha inteira. De fora, alguém poderia dizer: eis um tolo; por dentro, porém, havia ali talvez o aluno mais atento da turma. É dessa cena tão simples, mas tão reveladora, que nasce uma antiga suspeita minha: confundimos o jeito de falar com a qualidade de quem fala. É verdade que a tradição bíblica frequentemente associa a palavra ao caráter, e seria desonesto fingir que não há razões para isso. Provérbios, sobretudo, é um livro que estabelece relações entre a boca, a conduta e a sabedoria (Pv 10:13; 17:28; 18:2). Seu autor parece conhecer bem a natureza humana e observa que nossas palavras frequentemente denunciam aquilo que carregamos por dentro. Negar essa possibilidade seria empobrecer a própria reflexão. Afinal, a fala pode revelar muita coisa, mas será que revela tudo?

É preciso, entretanto, ler as Escrituras com atenção, sem confundir as coisas. O "tolo" de Provérbios (kesil, ewil) não é o gago, o iletrado ou o tímido. Trata-se de uma categoria moral: aquele que despreza a correção, rejeita o conselho e se fecha à possibilidade de aprender. E, convenhamos, esse sujeito pode ser eloquentíssimo! O sábio bíblico não é necessariamente o bom orador, mas aquele que teme ao Senhor, reconhece seus limites e se dispõe a aprender. Basta lembrar de Moisés, que confessou ter a boca e a língua pesadas (Êx 4:10). Deus não o descartou por sua dificuldade de comunicação, tampouco exigiu que se transformasse num grande orador; deu-lhe um irmão para falar ao seu lado. Paulo também reconheceu que sua palavra em Corinto não tinha "excelência de linguagem" (1Co 2:1; 2Co 10:10). E os coríntios, que mediam a sabedoria pela capacidade retórica, estavam equivocados. Percebo, então, uma distinção fundamental: a fala pode revelar disposições interiores, mas não determina a capacidade intelectual nem o valor moral de alguém. A dificuldade de Moisés para falar não era tolice; já a soberba fluente de Faraó não era sinal de sabedoria. Uma coisa é o talento para falar; outra, bem diferente, é a disposição para ouvir e aprender.

É justamente aí que encontro um dos pontos mais delicados dessa reflexão. O mesmo livro de Provérbios afirma que "o que poupa a vara odeia o seu filho" (Pv 13:24), passagem que muitos leitores interpretaram como autorização para corrigir a criança pela força física, inclusive quando sua dificuldade está na fala. Quero, porém, ser honesto tanto com o texto bíblico quanto com sua história de interpretação. A "vara" também pode ser compreendida à luz da imagem do cajado do pastor, instrumento de condução e proteção (Sl 23:4), e as tradições judaica e cristã debateram, ao longo dos séculos, os limites e a natureza dessa disciplina. Hoje, entretanto, dispomos de conhecimentos que exigem uma reflexão ainda mais cuidadosa. A Organização Mundial da Saúde recomenda a eliminação dos castigos corporais e documenta seus efeitos prejudiciais ao desenvolvimento infantil. A psicóloga Joan Durrant, da Universidade de Manitoba, tornou-se referência nos estudos e programas de disciplina positiva, que valorizam o ensino, a explicação, o diálogo e a orientação em lugar da violência. Diante disso, pergunto: afinal, o que a vara deveria representar na educação? Se a entendermos como instrumento de orientação, proteção e condução, sua finalidade não pode ser confundida com a agressão. Guiar uma criança que tropeça nas palavras exige paciência, acolhimento e incentivo, não pancada. Ora, se ela já sofre por não conseguir expressar o que pensa, por que transformar a dificuldade em motivo de castigo?

Resta-me, então, a sabedoria, justamente aquilo que a pressa dos rótulos costuma esquecer. Daniel Dennett, em Intuition Pumps (2013), recomenda uma humildade disciplinada: reconhecer a possibilidade do próprio erro e procurar compreender o argumento do outro em sua melhor versão. Não deixa de ser uma postura muito próxima do ensinamento bíblico de que "o que ouve a repreensão adquire entendimento" (Pv 15:32). Deborah Tannen (1990), por sua vez, lembra que os estilos de conversação variam conforme a cultura e o gênero, enquanto Brené Brown (2012) sustenta que expor-se diante dos outros, mesmo com medo e vulnerabilidade, é também uma expressão de coragem. São três vozes que, por caminhos diferentes, parecem apontar para o mesmo ensinamento: antes de sentenciar alguém pelo som de sua voz, é preciso aprender a escutar. Volto, então, àquela terceira fila e imagino o professor esperando, sem pressa e sem risos. O menino respira fundo, tropeça, recomeça. Dessa vez, ninguém o interrompe. Aos poucos, a resposta sai inteira, com o custo de cada sílaba. E talvez ele descubra, naquele instante, que sua voz também merece ser ouvida. Afinal, a sabedoria não está na rapidez com que alguém fala, mas na disposição com que escuta. O tolo não é aquele que gagueja, hesita ou demora a encontrar as palavras; é aquele que não quer ouvir, não aceita aprender e se julga pronto. Sábio, por sua vez, é aquele que, mesmo tropeçando nas sílabas, continua disposto a aprender.

Ensaio Teológico X(12) A Paz que Cala e a Paz que Cura: sobre o perdão, a justiça e o preço de manter a casa em silêncio

 


Ensaio Teológico X(12) A Paz que Cala e a Paz que Cura: sobre o perdão, a justiça e o preço de manter a casa em silêncio

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Penso numa mesa de domingo em que todos sabem o que o tio fez à sobrinha, mas ninguém tem coragem de tocar no assunto. A avó serve o café, ajeita as xícaras e pede: "Vamos manter a paz, minha filha". A moça sorri, passa o açúcar e engole, junto com o café, aquilo que gostaria de dizer. Mas será que existe paz naquela sala? Não. Existe silêncio, que muitas vezes veste as roupas da paz justamente para não ser reconhecido. É contra esse disfarce que me levanto. Não contra a paz, que é uma bênção, mas contra essa ideia de que ela só pode ser alcançada pelo apagamento da verdade: perdoar sempre, calar sempre, "cobrir" tudo. Como se a harmonia familiar e a sabedoria divina exigissem uma mansidão sem rosto, uma espécie de submissão disfarçada de virtude.

Antes de avançar, quero fazer justiça ao argumento contrário. Quem defende a paz a qualquer custo nem sempre é covarde; muitas vezes, é alguém que já viu de perto o estrago provocado pela discórdia e deseja proteger aquilo que ainda permanece de pé. E não lhe faltam referências bíblicas: "o amor cobre multidão de pecados" (1Pe 4:8; Pv 10:12) e "quanto depender de vós, tenhais paz com todos" (Rm 12:18). Entretanto, é preciso ler esses ensinamentos com discernimento. Cobrir, nesse contexto, não significa esconder a violência, proteger o agressor ou impedir que a verdade venha à tona. Significa não transformar o erro alheio em arma, espetáculo ou instrumento de vingança. Além disso, Paulo reconhece que a paz depende também da disposição do outro, não apenas da nossa. É justamente aí que aparece uma distinção que aquela mesa de domingo parece ter esquecido: o perdão é pessoal, uma decisão de quem foi ferido, que ninguém tem o direito de exigir ou extorquir; a justiça, por sua vez, tem uma dimensão pública e existe também para proteger aqueles que ainda podem ser vítimas. Posso perdoar alguém de todo o coração e, ainda assim, exigir que essa pessoa não tenha acesso aos meus filhos. Uma coisa não anula a outra. Confundir perdão com impunidade é pedir à vítima que pague, com o próprio silêncio, uma dívida que nunca contraiu.

Os profetas já conheciam muito bem essa diferença. Amós exige que "corra o juízo como as águas" (Am 5:24), enquanto Jeremias denuncia aqueles que tratam superficialmente as feridas do povo, proclamando "Paz, paz; quando não há paz" (Jr 6:14). É como colocar uma gaze sobre uma ferida infeccionada e anunciar que o paciente está curado. Ora, a aparência de saúde não elimina a infecção! Até Jesus, que ensinou a oferecer a outra face, derrubou as mesas dos cambistas com um chicote de cordas (Jo 2:15). O mesmo Cristo que acolhia os pequenos e ensinava o amor também se indignava diante da exploração e da injustiça. Sua mansidão nunca foi sinônimo de passividade. A reflexão moderna, por outros caminhos, também nos ajuda a compreender essa questão. Martin Luther King Jr., na Carta da Prisão de Birmingham (1963), distingue a paz negativa, entendida como ausência de tensão, da paz positiva, que pressupõe a presença da justiça. Hannah Arendt, em Eichmann em Jerusalém (1963), mostra como o mal em larga escala pode se alimentar da irreflexão e da obediência burocrática, embora sua reflexão não trate especificamente do perdão. Foucault, por sua vez, ensina-me a desconfiar de práticas aparentemente inocentes que acabam sustentando relações de poder e desigualdades. Numa família, por exemplo, a velha sentença "assunto encerrado" pode funcionar como uma dessas práticas: encerra-se a conversa, mas a injustiça continua respirando debaixo do tapete. Esther Perel também me ajuda a compreender que relações vivas não são necessariamente relações sem atritos. O conflito, quando enfrentado com maturidade, pode revelar problemas que a aparente tranquilidade apenas escondia.

Mas não quero, evidentemente, trocar um equívoco por outro. O conflito não é uma virtude em si mesmo, e há quem confunda agressividade com coragem, gritaria com sinceridade e desejo de vingança com justiça. Nem toda discussão esclarece; algumas apenas machucam. A questão, portanto, é mais profunda: o que estou realmente curando e o que estou escondendo quando pronuncio a palavra "paz"? Discernir essa diferença é uma virtude que não nasce da pressa, muito menos da imposição. Aprende-se ouvindo, observando e, sobretudo, tendo coragem de encarar aquilo que preferíamos deixar quieto. Volto, então, àquela mesa de domingo. Imagino a moça respirando fundo, levantando os olhos e dizendo, com a voz trêmula, mas firme: "Eu quero conversar sobre o que aconteceu." O silêncio que vem depois não representa o fim da paz. Talvez seja, finalmente, o primeiro som dela. Afinal, perdoar sem justiça pode se transformar em anestesia; justiça sem amor pode se tornar amputação. A sabedoria está justamente em discernir quando cobrir e quando descobrir, quando acolher e quando confrontar. E, acima de tudo, em ter coragem de pronunciar a palavra que interrompe o silêncio confortável da mesa para devolver àquela casa a paz que, até então, nunca existiu.

Ensaio Teológico X(11) O Coração Não Cabe na Boca: sobre os limites da palavra como retrato do caráter

 


Ensaio Teológico X(11) O Coração Não Cabe na Boca: sobre os limites da palavra como retrato do caráter

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Todos nós já dissemos, no calor de uma discussão, algo que não éramos — ou fomos exatamente aquilo que dissemos e só descobrimos tarde demais. É nessa fresta entre o que se diz e o que se sente que me instalo para perguntar: será que a palavra revela o coração por inteiro ou apenas um recorte dele, às vezes disfarce, às vezes, confissão involuntária? Penso numa cozinha, onze da noite. Uma mulher exausta, depois de um dia daqueles, diz ao marido: "Faça o que quiser. Eu não me importo." À primeira vista, suas palavras expressam uma indiferença glacial; entretanto, quem conhece aquela mulher talvez escute nelas um pedido de socorro. A frase é a mesma, mas os sentidos são opostos. Quem julga apenas pelo som corre o risco de condenar sem compreender.

Reconheço, porém, que o próprio Cristo ensinou que a boca fala do que o coração está cheio (Lc 6:45; Mt 12:34). Seria desonesto, portanto, negar que nossas palavras frequentemente denunciam aquilo que carregamos por dentro. Ainda assim, a Escritura nos oferece um contraponto fundamental: o homem vê o exterior, mas o Senhor vê o coração (1Sm 16:7). Só Deus lê a alma sem intermediários; a nós cabe interpretar aquilo que escapa pelos lábios, sabendo que se trata de vestígios, não de veredictos. Basta lembrar os amigos de Jó: falaram com piedade aparentemente impecável, mas erraram profundamente em seus julgamentos. Pedro, por sua vez, negou o Mestre três vezes e, depois, chorou amargamente. Suas palavras diziam uma coisa; suas lágrimas, outra. A ciência moderna chega a conclusões semelhantes por caminhos diferentes. Com Goffman (1959), compreendo que ajustamos nossos papéis conforme o público, e quem conhece apenas a ribalta conhece a personagem, não necessariamente a pessoa. Com Pinker (2007), entendo que a fala indireta muitas vezes serve para administrar relações, e não simplesmente para expressar sentimentos. Tannen (1990), por sua vez, mostra que interromper alguém pode representar entusiasmo em determinada cultura e grosseria em outra. Já Damasio (1994) me recorda que somos organismos em movimento, atravessados por emoções e circunstâncias, não estátuas morais condenadas a permanecer iguais para sempre.

Isso, entretanto, não me autoriza a concluir que a palavra não importa. Afinal, se a fala nunca revela nada sobre o caráter, a calúnia seria inocente e a humilhação, mero acidente? Ora, não é por aí! É preciso distinguir a palavra como janela, nem sempre transparente, da palavra como ato, cujas consequências são bem reais. Austin (1962) ensinou que dizer também é fazer, enquanto o antigo provérbio bíblico já advertia que a morte e a vida estão no poder da língua (Pv 18:21). A palavra importa, sobretudo, pela responsabilidade que temos sobre aquilo que provocamos com ela, e não por funcionar como um diagnóstico infalível de quem somos. Posso, sim, ser cobrado pelo golpe que desferi com minhas palavras, sem que isso autorize alguém a decretar, de uma vez por todas, quem sou. Com Habermas (1984), prefiro trocar a pergunta "que tipo de pessoa fala assim?" por outra, muito mais produtiva: "que tipo de diálogo estamos construindo?" Desse modo, saímos do tribunal e nos sentamos à mesa, onde ainda é possível ouvir, ponderar e reconstruir pontes. Isso não significa adotar um relativismo preguiçoso, como se tudo pudesse ser desculpado em nome das circunstâncias. Afinal, uma crítica franca e até uma palavra profética podem nascer de um amor profundo, enquanto uma doçura excessiva, dessas que escorrem mel pelos lábios, pode muito bem esconder veneno.

Resta-me, então, a lição mais antiga, deixada pelo apóstolo Tiago: quem não tropeça no falar é homem perfeito (Tg 3:2). Como perfeitos não somos, convém ser lentos para sentenciar e rápidos para ouvir. Julgar o coração alheio a partir de uma frase solta é usurpar um ofício que não me foi confiado (Mt 7:1). Chomsky (2006) nos lembra da assombrosa criatividade da linguagem, e um ser capaz de tamanha infinitude não cabe nos limites de uma única frase. Cada fala é apenas um instante de um rio; ninguém conhece o rio inteiro contemplando a fotografia de uma onda. Que eu aprenda, portanto, a escutar com a paciência de quem reconhece que a pessoa diante de mim é sempre maior que suas palavras. E que também aprenda a falar com o temor de quem sabe que as próprias palavras, mesmo quando não revelam inteiramente quem sou, carregam minha responsabilidade e me comprometem. Afinal, entre aquilo que sentimos, aquilo que dizemos e aquilo que fazemos existe uma distância que exige menos julgamento e mais consciência.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(10) A Máscara e o Rosto: Ensaio sobre Vulnerabilidade, Vergonha e Graça

 


Ensaio Teológico X(10) A Máscara e o Rosto: Ensaio sobre Vulnerabilidade, Vergonha e Graça

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Aprendi cedo a arte de parecer: inteligente na escola, seguro de mim mais tarde, incansável no trabalho. Ninguém ensina isso formalmente numa sala de aula, mas, de um jeito ou de outro, todos aprendemos que existe uma versão de nós mesmos feita para agradar aos outros e outra, mais lenta, frágil e cheia de dúvidas, que escondemos quando há alguém por perto. É assim que a máscara nasce: dessa espécie de contabilidade entre o que mostramos e o que somos. No começo, parece escudo e até cumpre bem esse papel. O problema é que, com o passar do tempo, ela cobra seu preço. Afinal, ninguém consegue amar um rosto que nunca viu, e nós mesmos acabamos impedidos de receber amor quando não permitimos que alguém nos conheça de verdade.

A tradição bíblica conhece muito bem esse mecanismo. No Gênesis, homem e mulher estavam nus e não sentiam vergonha (Gn 2,25). A máscara aparece depois, quando entram em cena a folha de figueira, o esconderijo entre as árvores e a pergunta "Onde estás?" (Gn 3,9). Deus não pergunta por desconhecer o paradeiro humano, mas para provocar um encontro, chamar à consciência quem já havia começado a se esconder. Mais adiante, na parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14), encontramos outra face dessa mesma questão: volta justificado para casa aquele que, sem ostentar méritos, bate no peito e pede misericórdia. O fariseu não era propriamente um vilão; seu equívoco estava em confundir currículo religioso com identidade, aparência de virtude com transformação interior. A psicologia também nos oferece boas pistas para compreender esse comportamento. Brené Brown, em A Coragem de Ser Imperfeito (2012), sustenta que a vulnerabilidade é o berço da criatividade, do pertencimento e do amor. Jürgen Habermas, por sua vez, na Teoria da Ação Comunicativa (1981), distingue o agir estratégico do agir comunicativo. Essa diferença me ajuda a compreender a máscara como uma espécie de administração silenciosa das impressões: mostramos o que convém, escondemos o que incomoda e, quase sem perceber, passamos a viver em busca de aprovação.

Seria ingenuidade, entretanto, defender uma transparência absoluta, como se devêssemos abrir a alma para qualquer pessoa ou transformar a intimidade num espetáculo público. Erving Goffman, em A Representação do Eu na Vida Cotidiana (1956), mostrou que a vida social é constituída por papéis e representações, e que desempenhá-los não significa, necessariamente, viver na hipocrisia. O médico que procura tranquilizar o paciente, o professor que mantém a compostura diante da turma e o pai que sorri para não transmitir suas preocupações ao filho também usam máscaras. Só que, nesses casos, elas podem expressar cuidado, responsabilidade e até amor. Portanto, a questão decisiva não é simplesmente saber se usamos máscaras, mas se ainda somos capazes de tirá-las quando encontramos alguém diante de quem podemos ser nós mesmos. Há, contudo, um detalhe que não podemos ignorar: nem todo ambiente acolhe a vulnerabilidade. Revelar nossas fragilidades a quem pode transformá-las em armas contra nós não é coragem, é imprudência. A autenticidade também exige sabedoria para discernir a quem, quando e até que ponto devemos nos revelar.

Lembro-me de uma conversa em que, depois de anos sustentando a imagem de quem tinha tudo sob controle, finalmente admiti a um amigo que estava exausto. Confesso que esperava algum julgamento, talvez um conselho pronto ou aquela velha tentativa de me convencer a ser forte. Mas, ele simplesmente respondeu: "Eu também." Foi só isso. Nenhuma grande explicação, nenhum discurso motivacional. Por fora, nada mudou; por dentro, porém, alguma coisa se desatou. Era como perceber que eu carregava um peso que ninguém havia me pedido para carregar sozinho. Talvez seja essa uma das grandes lições da convivência humana: não precisamos arrancar todas as máscaras de uma vez, mas reconhecer que existe um rosto debaixo delas, com suas contradições, seus medos e suas cicatrizes. E que esse rosto pode ser visto sem que o mundo desabe. A tradição religiosa chama essa experiência de graça; a psicologia, de pertencimento. Eu diria que ambas apontam para uma necessidade profundamente humana: ser reconhecido por inteiro, sem precisar representar o tempo todo, e descobrir que, mesmo depois de vistos nossos defeitos e fragilidades, ainda podemos ser acolhidos. Afinal, que sentido tem passar a vida inteira construindo uma imagem para os outros, se, no fim das contas, nem nós mesmos conseguimos reconhecer quem está por trás dela?

Ensaio Teológico X(9) O Corpo, a Lei e a Vida Boa: Ensaio sobre Liberdade Sexual e Caráter Humano

 


Ensaio Teológico X(9) O Corpo, a Lei e a Vida Boa: Ensaio sobre Liberdade Sexual e Caráter Humano

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Carrego, desde a infância, perguntas que nem sei de onde vieram: o que faz de alguém uma pessoa boa? O que separa uma vida bem vivida de outra apenas bem comportada? Durante séculos, os códigos religiosos responderam a essas questões por nós. E não me parece justo desprezá-los, afinal, sustentaram comunidades, consolaram os enlutados e deram forma aos desejos humanos. Por isso, prefiro começar pela tradição, não contra ela. Tomás de Aquino compreendia a moral como a razão aplicada à busca do bem, enquanto João Paulo II defendia que a sexualidade é uma linguagem de entrega, traída quando o outro se transforma em instrumento. Reconheço nessas perspectivas uma intuição que não posso simplesmente descartar: o desejo sem cuidado fere. O desacordo, a meu ver, não está entre quem leva a moral a sério e quem não leva, mas entre diferentes maneiras de compreender como o respeito deve se manifestar.

É justamente aí que a pergunta ganha outros contornos. Martha Nussbaum sustenta que uma vida digna se mede pelas capacidades reais de pensar, amar, associar-se e escolher, sem que uma doutrina imponha um único modelo de existência a quem pensa diferente. Isso não significa que tudo seja permitido, mas que a dignidade humana exige espaço para que cada pessoa encontre e construa aquilo que a faz florescer. Com a devida cautela, recorro também a Angela Duckworth. Sei que ela trata de perseverança, não de moral sexual, mas suas reflexões me lembram que a constância e a capacidade de recomeçar são virtudes cultivadas por pessoas de crenças muito diferentes. Já Peter Singer descreve a história moral como um processo de ampliação do círculo daqueles que merecem consideração. É nessa perspectiva que compreendo o consentimento como núcleo da ética sexual: ninguém deve ser reduzido a instrumento do prazer alheio. Afinal, o outro não é objeto, é sujeito.

Mas, é preciso caminhar com cuidado quando o assunto envolve cultura e natureza. Gayle Rubin demonstrou como as sociedades hierarquizam as práticas sexuais com uma severidade que, muitas vezes, nasce de pânicos morais próprios de determinadas épocas. Eva Illouz, por sua vez, adverte que a liberdade prometida também pode produzir novas angústias: afinal, multiplicar as opções não significa, necessariamente, diminuir a solidão. Bruce Bagemihl documenta a diversidade dos comportamentos sexuais em centenas de espécies, mas convém não confundir as coisas: aquilo que acontece entre os animais não determina o que é moralmente bom para os seres humanos. Debra Soh, por outro lado, tem suas posições contestadas por parte da comunidade científica, e faço referência a seu trabalho com a modéstia de quem reconhece estar diante de um campo de investigação vivo, sujeito a revisões e controvérsias. Também há vozes importantes que enfrentam essas questões de dentro da própria fé. Margaret Farley fundamenta a ética sexual na justiça, enquanto Rowan Williams compreende o desejo como dom. Ambos mostram que é possível dialogar criticamente com a tradição religiosa sem precisar negá-la por inteiro.

Ainda assim, seria desonesto encerrar esta reflexão sem reconhecer aquilo que minha própria tese não consegue resolver. O consentimento, embora necessário, também é suficiente? Onde termina a autonomia e começa o dano, inclusive aquele que não deixa marcas visíveis? Imagino uma mulher ensinada, desde cedo, a enxergar o próprio desejo como motivo de vergonha e um homem educado a tratá-lo como troféu. Ambos, por caminhos opostos, aprenderam a não olhar o outro verdadeiramente de frente. E talvez seja justamente aí que esteja o problema: não basta ensinar o que se pode ou não fazer; é preciso aprender a reconhecer a humanidade de quem está diante de nós. O que poderia libertá-los não seria simplesmente acrescentar ou retirar um código de conduta, mas promover uma verdadeira educação do olhar. Talvez a sabedoria esteja nesse equilíbrio: não abolir a lei, tampouco transformá-la em objeto de adoração. Afinal, nenhuma lei deveria ser maior do que a dignidade humana, pois toda norma, religiosa ou não, só encontra sua razão de existir quando está a serviço do florescimento da vida.