"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(34) A SABEDORIA: DOM DIVINO OU CONSTRUÇÃO HUMANA?

 


Ensaio Teológico VIII(34) A SABEDORIA: DOM DIVINO OU CONSTRUÇÃO HUMANA?

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Houve um tempo em que eu repetia, sem pestanejar, que a sabedoria vinha de cima. Aprendi isso cedo, entre cantos, cadeiras de plástico e aquele cheiro de café requentado dos domingos. Na época, eu confundia a segurança de repetir com a certeza de compreender. Depois vieram uma decepção, uma pergunta sem resposta e uma noite comprida, daquelas em que o silêncio faz mais perguntas do que a gente consegue responder. Foi então que percebi: repetir uma verdade recebida não significa, necessariamente, ter compreendido o que ela quer dizer. Dessa inquietação nasceu a questão que conduz esta reflexão: a sabedoria é algo que se recebe ou algo que se constrói? Não trago um veredicto debaixo do braço, muito menos uma resposta definitiva. Tenho apenas uma inquietação que, desconfio, merece mais respeito do que qualquer sentença apressada.

Começo pelo que a tradição afirma. Muitos cristãos, entre eles os evangélicos, compreendem a sabedoria como dom divino e caminho a ser percorrido. O livro de Provérbios recomenda buscá-la "como prata" (Pv 2.4) e declara que "o Senhor dá a sabedoria" (Pv 2.6). Tiago, por sua vez, aconselha aquele que carece dela a pedi-la a Deus (Tg 1.5). Não se trata de ingenuidade, mas de uma convicção antiga, presente também no pensamento de Agostinho e Tomás de Aquino, para quem fé e razão não precisam viver de costas uma para a outra. Por isso, procuro não combater um espantalho, daqueles que a gente mesmo fabrica para derrubar com facilidade. Afinal, existe fé que pensa, questiona e busca compreender, assim como existe fé que apenas repete o que ouviu. A questão, portanto, é outra: o que significa, de fato, "receber" sabedoria? Se a ideia for a de uma espécie de transmissão sobrenatural que dispensa estudo, reflexão e esforço, a própria experiência humana nos obriga a desconfiar, pois ninguém acorda sábio de uma hora para outra. Mas, se entendermos esse dom como uma graça que acompanha a disposição de estudar, escutar, refletir e aprender com os próprios erros, a distância entre a tradição religiosa e a razão diminui consideravelmente. Por outro lado, afirmar que a sabedoria nasce exclusivamente da razão humana também exige argumentos. E, para ser sincero, não encontrei uma resposta pronta que encerre essa discussão.

Há outra questão que me incomoda: quando buscamos a sabedoria apenas para conquistar o favor divino, corremos o risco de transformar o conhecimento numa espécie de moeda de troca. Aprender para receber uma recompensa é diferente de aprender porque reconhecemos o valor do próprio saber. Sócrates defendia a importância de uma vida examinada, uma existência submetida à reflexão, e não simplesmente organizada em função de vantagens. Aristóteles, por sua vez, abre a Metafísica afirmando que todos os seres humanos desejam naturalmente conhecer. E o próprio livro de Provérbios apresenta a sabedoria como caminho de vida, não como mercadoria a ser negociada com Deus. Talvez a motivação mais genuína seja amar o conhecimento pelo que ele é, sem transformá-lo num instrumento de barganha. Digo talvez porque isso, para mim, ainda é uma hipótese a ser examinada, não uma verdade que pretendo impor. Também percebo um perigo dos dois lados: dividir as pessoas entre "bons ouvintes" e "preguiçosos teimosos" é simplificar demais a complexidade humana. Ora, cada pessoa chega ao conhecimento por estradas diferentes, carregando pesos que nem sempre aparecem aos olhos dos outros. Pensemos na criança que não teve acesso à escola, no trabalhador que chega em casa exausto ou naquele homem que, depois de tantas decepções, já não consegue confiar facilmente na palavra de ninguém. Será justo medir todos pela mesma régua? Eu mesmo, que critico esse tipo de divisão, quase caí na armadilha ao imaginar o crente como adversário da razão. Felizmente, questionar também é reconhecer quando nosso próprio pensamento precisa de correção.

É por isso que proponho uma humildade de duas mãos. Ao fiel, faço um convite: reconheça que perguntar não é pecado e que a dúvida, quando nasce de uma busca sincera, pode ser também uma forma de reverência. Questionar não significa, necessariamente, abandonar a fé; às vezes, significa apenas recusar uma fé que não nos permite compreender aquilo em que acreditamos. Ao cético, dirijo outro convite: reconheça que a razão também pode construir seus dogmas e que nem tudo o que importa na existência humana cabe, sem perdas, dentro de um experimento. Isso não significa abandonar o pensamento crítico, mas admitir que a realidade é maior do que nossas explicações sobre ela. Nesse encontro entre fé e razão, a sabedoria deixa de ser troféu para se tornar caminhada. Há espaço tanto para quem acredita tê-la recebido de Deus quanto para quem continua procurando compreendê-la por meio da experiência, do estudo e da reflexão. Quanto a mim, sigo no meio do caminho, sem a pretensão de ter chegado ao fim da estrada. Já não repito com a mesma facilidade aquilo que não compreendo e aprendi a escutar melhor quem pensa diferente. Se a sabedoria é um dom, que me alcance enquanto caminho, estudo e aprendo a reconhecer meus limites. Se é uma construção humana, que eu tenha coragem, paciência e humildade para continuar edificando. Em qualquer dos casos, há algo que não quero perder: a capacidade de me espantar diante da vida, de rever minhas certezas e de continuar perguntando. Afinal, talvez a sabedoria comece justamente quando a gente deixa de se preocupar tanto em ter a última palavra e passa a levar a sério a pergunta que ainda não conseguiu responder.

Ensaio Teológico VIII(33) A SABEDORIA ENTRE A OBEDIÊNCIA E A EXPERIÊNCIA

 


Ensaio Teológico VIII(33) A SABEDORIA ENTRE A OBEDIÊNCIA E A EXPERIÊNCIA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Aos dezenove anos, ouvi de um velho pastor um conselho que, na minha teimosia juvenil, não quis escutar: eu não devia assumir sozinho um compromisso para o qual ainda não tinha ombros. Sorri, fiz pouco caso e segui pelo caminho contrário. Seis meses depois, lá estava eu, sentado numa calçada, com um café frio no copo de papel e a vergonha inteira pesando no peito. Foi naquele instante que compreendi o que aquele homem já tinha enxergado muito antes de mim. Quando finalmente o procurei, ele não me disse "eu avisei". Simplesmente me serviu água e ficou em silêncio. Curiosamente, aquele silêncio foi o conselho mais eloquente que já recebi.

Costuma-se dizer que a sabedoria nasce da disposição de ouvir quem já caminhou antes de nós. A tradição bíblica confirma essa verdade: o sábio ouve conselhos (Pv 12.15), enquanto o rei velho que já não aceita advertências vale menos que o jovem sábio (Ec 4.13). Entretanto, a mesma Bíblia que recomenda a obediência não esconde as quedas de quem aprende pelo caminho. Afinal, o justo cai sete vezes e se levanta (Pv 24.16); o salmista reconhece que lhe fez bem ter sido afligido (Sl 119.71); e o próprio Cristo aprendeu a obediência pelo que sofreu (Hb 5.8). Ora, se até a dor pode se tornar mestra, por que desprezar as lições que nascem dos nossos tropeços? Para mim, obediência e experiência nunca foram rivais, mas as duas mãos de um mesmo gesto: uma nos ajuda a evitar certas quedas; a outra nos ensina a levantar quando não conseguimos evitá-las. O filho pródigo e Pedro ilustram bem essa realidade. O primeiro "caiu em si" no chiqueiro (Lc 15.17) e decidiu voltar para o pai. O segundo, mesmo advertido de antemão, precisou conhecer a dor da própria negação para experimentar o arrependimento e, depois de restaurado, fortalecer os irmãos (Lc 22.32; Jo 21).

A psicologia contemporânea também me ajuda a compreender esse mistério, desde que eu a tome como lente, e não como fundamento absoluto. Daniel Goleman, em Inteligência Emocional (1995), destaca a importância de reconhecer as próprias emoções e compreender as alheias. De certo modo, foi isso que o filho pródigo começou a fazer quando, no fundo do poço, percebeu a distância entre a vida que levava e aquela que poderia reconstruir. Carol Dweck, em Mindset (2006), distingue a mentalidade de quem enxerga as próprias capacidades como algo fixo daquela que as considera passíveis de desenvolvimento. Nessa perspectiva, o erro pode ser fonte de informação, não uma sentença definitiva, embora o crescimento também exija estratégia, persistência e ajuda. Brené Brown, em A Coragem de Ser Imperfeito (2012), chama a atenção para a coragem de se expor à possibilidade do fracasso e para o peso da vergonha quando nos isolamos. Afinal, quem cai e se esconde tende a carregar sozinho o peso da própria queda; quem encontra coragem para reconhecer o erro e aceitar ajuda pode transformar a ferida em aprendizado. Até Nietzsche, com a conhecida frase "o que não me mata me fortalece", em Crepúsculo dos Ídolos (1888), merece uma leitura cautelosa: nem toda dor fortalece, nem todo sofrimento produz sabedoria. Às vezes, o que nos salva não é a queda em si, mas a presença de alguém que nos oferece água, respeita nosso silêncio e mantém uma porta aberta para o recomeço. Foi assim que a minha queda deixou de ser apenas vergonha e se tornou lição.

Chego, então, ao ponto central desta reflexão: a sabedoria não consiste em obedecer cegamente, tampouco em acreditar que precisamos experimentar tudo na própria pele. Ela está na arte de ouvir antes de cair e, quando a queda for inevitável ou acontecer por nossa teimosia, ter humildade para aprender com ela. Quem apenas obedece, sem compreender, corre o risco de viver uma fé emprestada, sustentada pelas certezas dos outros. Quem insiste em aprender somente pela própria experiência, por sua vez, pode pagar caro por lições que já estavam disponíveis nos conselhos de quem veio antes. Hoje, quando um jovem me procura com aquele brilho teimoso nos olhos — um brilho que conheço bem, porque já foi meu —, procuro compartilhar o que aprendi, mas também me preparo para servir água. Não posso escolher por ele, muito menos impedir todas as suas quedas. Posso, contudo, oferecer uma palavra, estender a mão e deixar a porta aberta. Se não me ouvir, que encontre dignidade para reconhecer o erro e humildade para recomeçar. Porque, no fim das contas, quem um dia foi acolhido aprende a acolher; quem recebeu ajuda descobre o valor de ajudar. E é nesse movimento, entre conselhos ouvidos, erros reconhecidos e mãos estendidas, que nos tornamos não apenas mais sábios, mas também mais humanos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(32) A FÉ, A DÚVIDA E A CORAGEM DE PENSAR

 


Ensaio Teológico VIII(32) A FÉ, A DÚVIDA E A CORAGEM DE PENSAR

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Conheci cedo o peso de uma pergunta sem licença. Na igreja da minha infância, quem ousava duvidar em voz alta era olhado como quem deixava a porta aberta num dia de vento: alguém que ameaçava a ordem e podia trazer problemas para dentro de casa. Aprendi, então, a calar. Só mais tarde compreendi que aquele silêncio nem sempre era humildade; às vezes, era medo vestido de reverência, com roupa de domingo e aparência de virtude. É dessa experiência que nasce minha inquietação. Escrevo para quem já sentiu o desconforto de perguntar e para quem nunca passou por isso, porque a conversa que proponho precisa dos dois lados da mesa. Afinal, se queremos compreender a fé e a razão, não adianta reunir apenas quem concorda conosco.

Antes de avançar, porém, quero fazer justiça ao assunto. Pintar a religião inteira como um exercício de obediência cega seria uma caricatura, e caricatura, convenhamos, não é argumento. A própria história do cristianismo apresenta pensadores que fizeram da reflexão uma parte importante da experiência religiosa. Agostinho colocou a razão em diálogo com a fé; Tomás de Aquino construiu uma obra monumental de argumentação filosófica e teológica; Karl Barth e Dietrich Bonhoeffer, cada qual à sua maneira, questionaram as próprias igrejas em nome do Evangelho. Além disso, para muitos cristãos, a palavra grega pistis, presente no Novo Testamento, envolve confiança e fidelidade, não simplesmente aceitar qualquer afirmação sem examiná-la. Minha crítica, portanto, não se dirige a toda forma de fé, mas aos ambientes em que a pergunta vira ameaça e a obediência é tratada como a maior das virtudes. Uma coisa é confiar depois de refletir; outra, bem diferente, é calar a boca por medo de ser excluído. E entre essas duas atitudes existe um abismo que não devemos fingir que não enxergamos.

Curiosamente, a própria Bíblia, tantas vezes usada para encerrar discussões, também oferece motivos para abri-las. Provérbios 4:7 recomenda adquirir sabedoria; Provérbios 2:3-5 compara a busca pelo conhecimento à procura da prata e de tesouros escondidos; João 8:32 associa a verdade à liberdade; e Tiago 1:5 afirma que Deus concede sabedoria "e não censura". Ora, se a sabedoria precisa ser buscada, por que transformar a pergunta em pecado? Se há tesouros escondidos, como encontrá-los sem procurar, investigar e, às vezes, rever aquilo em que acreditamos? Reconheço, entretanto, uma tensão no meu próprio argumento: critico a aceitação de autoridades sem exame e, ao mesmo tempo, recorro à Bíblia. Não ignoro essa contradição aparente. Leio as Escrituras de duas maneiras: como interlocutor interno, conversando com quem fundamenta sua fé nelas, e como patrimônio literário e moral, submetido à leitura crítica, assim como faço com Platão, Montaigne e outros pensadores. Não recorro à Bíblia para ganhar uma discussão por decreto, muito menos para me dispensar de pensar. Recorro a ela porque também podemos dialogar com seus textos, questioná-los e encontrar neles motivos para aprofundar a reflexão.

Defendo a importância das evidências, e vejo na ciência moderna uma das maiores conquistas humanas justamente porque ela institucionalizou a dúvida, o exame e a possibilidade de corrigir erros. Uma hipótese não se torna verdadeira só porque alguém importante a defendeu; precisa enfrentar as evidências e resistir, tanto quanto possível, ao teste dos fatos. Mas também reconheço que a ciência, por si só, não responde a todas as perguntas da existência. Ela pode nos ajudar a compreender o mundo, sem determinar sozinha o que devemos amar, perdoar, respeitar ou preservar. É aí que desconfio de dois dogmatismos: o de quem declara a dúvida um pecado e o de quem considera real apenas aquilo que pode ser medido. Embora partam de posições diferentes, ambos podem cair na mesma armadilha: a soberba de imaginar que já encontraram todas as respostas. Foi justamente esse tipo de presunção que Sócrates, em sua caminhada pelas ruas de Atenas, ajudou a desmontar. Por isso, não quero uma fé que tenha medo da razão, nem uma razão que se considere dispensada da humildade. Quero uma mente disposta a examinar e um coração capaz de acolher, porque amar o próximo, como ensina Mateus 22:39, também exige escutar quem pensa diferente de nós.

Deixo, então, algumas perguntas que não pretendo resolver com uma frase bonita, dessas que encerram o assunto antes mesmo de a conversa começar: pode a fé sobreviver ao exame? Creio que sim. Em muitos casos, aliás, pode sair dele mais consciente, honesta e madura, livre de certezas que nunca tiveram coragem de enfrentar uma pergunta. Pode a razão dispensar a humildade? Creio que não, pois até o conhecimento mais sólido tem limites, e reconhecer esses limites não diminui ninguém; pelo contrário, abre espaço para aprender. Talvez seja esse o verdadeiro desafio: ter coragem de perguntar sem transformar a dúvida em arrogância e saber ouvir sem fazer da obediência uma prisão. No fim das contas, prosperar intelectualmente e amadurecer espiritualmente talvez tenham algo em comum: a disposição de continuar buscando, mesmo quando a resposta incomoda. Porque a sabedoria não começa quando deixamos de perguntar, mas quando perdemos o medo de fazê-lo e aprendemos a ouvir, com respeito e discernimento, a resposta que vem de onde menos esperamos.

Ensaio Teológico VIII(31) A SABEDORIA ENTRE O DIVINO E O HUMANO

 


Ensaio Teológico VIII(31) A SABEDORIA ENTRE O DIVINO E O HUMANO

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Minha avó nunca leu Sócrates, mas lia o Salmo 23 em voz alta e sabia, pelo cheiro do vento, a hora de recolher a roupa do varal e a hora de calar. Quando penso em sabedoria, é a cozinha dela que me vem primeiro à memória, não os livros. Ali, entre o cheiro do café, o barulho das panelas e as pequenas lições da vida, aprendi que nem todo saber precisa de diploma, muito menos de palavras difíceis. E é justamente aí que nasce meu impasse: chamar aquilo de sabedoria divina ou humana? Qualquer uma das respostas faria justiça à minha avó, mas a pergunta, tão antiga quanto a própria busca pelo conhecimento, não se resolve assim, de uma hora pra outra.

Começo pela humildade, porque talvez seja por aí que a sabedoria dê seus primeiros passos. Na Apologia, Platão apresenta Sócrates como alguém que se julgava mais sábio que seus concidadãos justamente por não imaginar saber aquilo que ignorava. A tradição resumiu essa ideia na expressão "só sei que nada sei", uma paráfrase, e não uma citação literal. Gosto dessa lição porque ela cutuca uma ferida antiga do ser humano: a presunção de achar que sabe tudo. Quem transforma a sabedoria em propriedade particular, como se pudesse guardá-la no bolso ou pendurá-la na parede, já começou a perdê-la. Afinal, nenhuma instituição, seja religiosa ou acadêmica, pode bater no peito e se declarar dona exclusiva do conhecimento. A sabedoria não cabe numa prateleira, nem se curva diante de títulos.

Seria cômodo, confesso, trazer Paulo para o meu lado e encerrar a discussão com uma passagem bíblica. Mas o apóstolo escreve, em 1 Coríntios 3:19, que a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus. Não quero fugir dessa afirmação, muito menos fingir que ela não apresenta um desafio à minha maneira de pensar. Prefiro encará-la de frente: entendo que Paulo condena a vaidade de quem transforma o saber em troféu, instrumento de orgulho e superioridade, e não necessariamente o exercício do pensamento. Afinal, o próprio apóstolo cita poetas pagãos no Areópago (Atos 17:28) e reconhece a lei inscrita no coração dos gentios (Romanos 2:14-15). Há, portanto, espaço para reconhecer que a verdade também pode ser percebida fora das fronteiras religiosas. Sei que a tradição cristã sustenta que toda sabedoria verdadeira vem de Deus, como afirma Provérbios 1:7. Respeito essa convicção, mas divirjo quanto ao método: uma tese protegida de qualquer possibilidade de contestação corre o risco de deixar de ser uma busca e virar apenas uma certeza fechada sobre si mesma. Por isso, prefiro reconhecer a sabedoria onde ela aparece, sem exigir que todos concordem sobre sua origem. Cada tradição que explique de onde acredita que ela vem; eu quero, antes de tudo, aprender a reconhecê-la.

E essa sabedoria, vejam só, tem endereço, rosto e mãos calejadas. Está nos Kayapó, que há gerações cultivam os apêtê, ilhas de floresta no cerrado, por meio de práticas de manejo documentadas durante décadas pelo etnobiólogo Darrell Posey. Está também na parteira que conhece os sinais do corpo, no pescador que lê o movimento das águas e em tantas pessoas que aprenderam com a experiência aquilo que nenhum livro, sozinho, conseguiria ensinar. E chega até as fronteiras da genética, onde o avanço científico nos permite fazer coisas antes inimagináveis, mas também nos obriga a enfrentar uma pergunta que não pode ser respondida apenas com conhecimento técnico: "devemos?", e não simplesmente "podemos?". Eis a questão! Saber fazer alguma coisa não significa, necessariamente, saber se devemos fazê-la. É nesse ponto que conhecimento e responsabilidade precisam caminhar juntos, porque nem toda porta que a ciência consegue abrir deve ser atravessada sem reflexão.

Jó pergunta onde a sabedoria pode ser encontrada (Jó 28:12), e gosto de pensar que essa inquietação atravessa os séculos sem perder a força. O crente pode enxergar na pergunta um chamado à transcendência; quem não professa uma religião pode encontrar nela o reconhecimento dos limites humanos. São caminhos diferentes, mas ambos podem nos conduzir à humildade de admitir que ainda temos muito a aprender. Se a sabedoria é "a coisa principal" (Provérbios 4:7) e nenhum de nós consegue possuí-la por inteiro, não seria mais sensato ouvir uns aos outros, em vez de disputar quem tem a última palavra? Talvez a grandeza do saber esteja justamente em reconhecer aquilo que nos falta. No fim das contas, volto à cozinha da minha avó: ela nunca precisou ler Sócrates para me ensinar que a vida exige atenção, prudência e respeito. Talvez ser sábio seja isso mesmo: manter a porta aberta, o ouvido atento e a mão estendida a quem chega por outro caminho. Afinal, se o conhecimento pode nos mostrar o que existe, é a sabedoria que nos ajuda a decidir como viver diante disso.

domingo, 18 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(30) A Sabedoria Divina e a Evolução da Nossa Compreensão

 


Ensaio Teológico VIII(30) A Sabedoria Divina e a Evolução da Nossa Compreensão

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Houve um tempo em que eu acreditava que duvidar era uma espécie de traição. Aprendi cedo que a fé devia ser guardada inteira, como uma herança sagrada, e que fazer perguntas demais era mexer onde não se devia. Mas, a vida, ah, a vida nem sempre respeita as cercas que levantamos ao redor das nossas certezas! Quando as perguntas chegaram, não pediram licença nem bateram à porta. Vieram, remexeram o que parecia intocável e me obrigaram a rever muita coisa. No caminho, perdi o conforto de algumas respostas prontas e até a companhia de quem não suportava me ver questionando aquilo que, para essa gente, não admitia discussão. Foi nessa travessia que comecei a desconfiar do próprio título deste ensaio: falar em "sabedoria divina em evolução" pode dar a entender que Deus aprende, muda de opinião ou aperfeiçoa aquilo que antes não sabia. Não é isso que defendo. A tradição cristã afirma a constância divina, a ideia de um Deus que não muda como as sombras. O que evolui, na verdade, é a minha compreensão a respeito dele. A sabedoria divina é o horizonte; meu entendimento, a caminhada. E, convenhamos, confundir uma coisa com a outra é como imaginar que o horizonte se desloca porque nossos pés continuam andando.

Poucos expressaram os limites do conhecimento humano com tanta franqueza quanto Paulo: "agora vemos por espelho, em enigma [...] agora conheço em parte" (1 Coríntios 13:12). Repare bem: não estamos diante de um cético de gabinete, mas de um apóstolo cuja formação intelectual e religiosa marcou profundamente o cristianismo. Naquele tempo, os espelhos de metal polido não ofereciam a nitidez dos que conhecemos hoje; devolviam imagens imperfeitas, por vezes difíceis de distinguir. Paulo reconhecia que seu conhecimento era parcial e, ainda assim, não desistia de buscar. Eis uma lição que merece ser levada a sério: reconhecer os limites da própria compreensão não significa abandonar a fé, mas admitir que ainda há muito a aprender. A história da interpretação bíblica também nos oferece exemplos dessa realidade. Durante séculos, passagens como o Salmo 104:5, que fala da terra firmada em seus fundamentos, foram interpretadas por alguns como evidência de que nosso planeta permaneceria imóvel. Com o desenvolvimento da astronomia, porém, tornou-se necessário rever determinadas leituras. O texto bíblico permaneceu; o entendimento humano é que precisou mudar. Lembro, nesse contexto, de uma sentença atribuída a Gregório Magno, segundo a qual a Escritura cresce com quem a lê. Não tomo essa ideia como licença para fazer o texto dizer qualquer coisa, conforme a conveniência de cada época, mas como um convite a reconhecer que a compreensão amadurece, que o contexto importa e que cada geração pode descobrir aspectos antes despercebidos. Afinal, uma coisa é respeitar as Escrituras; outra, bem diferente, é imaginar que nossa interpretação delas já nasceu pronta, acabada e imune a qualquer revisão.

Resta, contudo, uma tensão que não quero esconder debaixo do tapete. Hebreus 4:12 afirma que a palavra de Deus é "viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes". Ora, se essa palavra possui tamanha força, que lugar haveria para a dúvida? Acredito que uma pista esteja na própria continuação do texto, que afirma que ela discerne "os pensamentos e intenções do coração". A imagem da espada, portanto, não precisa ser entendida como uma arma destinada a impedir perguntas, mas como uma lâmina que alcança o íntimo de quem se coloca diante dela. Em vez de cortar a investigação, a palavra pode cortar minhas ilusões, minhas justificativas convenientes e aquela mania tão humana de confundir convicção pessoal com verdade absoluta. Nesse sentido, uma palavra viva não é apenas aquela que eu leio; é também aquela que me interroga, me confronta e não me deixa sair da leitura exatamente como entrei. Não pretendo, com isso, dissolver todas as tensões entre fé e dúvida. Respeito quem teme que questionamentos sucessivos acabem enfraquecendo suas convicções, pois esse receio pode nascer de um desejo sincero de preservar aquilo que considera sagrado. Mas, há uma diferença importante entre duvidar para fugir e duvidar para compreender. A primeira usa a pergunta como desculpa para abandonar a busca; a segunda permanece diante dela, mesmo quando a resposta demora a chegar. E é nessa permanência, nesse desconforto de quem não se satisfaz com qualquer explicação, que encontro uma possibilidade de amadurecimento espiritual.

A ciência moderna, por sua vez, construiu parte importante de sua força sobre a disposição de questionar hipóteses, examinar evidências e corrigir os próprios erros. Albert Einstein é frequentemente lembrado por defender a importância de não abandonar o questionamento, enquanto Carl Sagan, em O Mundo Assombrado pelos Demônios, apresenta a ciência como "uma vela no escuro". Gosto dessa imagem porque ela nos devolve à medida das nossas limitações. Quem investiga o cosmos e quem se recolhe em oração diante do mistério podem estar em caminhos diferentes, com métodos e objetivos distintos, mas ambos se deparam com algo que ultrapassa suas certezas imediatas. É como segurar uma pequena chama diante de uma noite imensa: a luz revela alguma coisa, permite enxergar alguns passos, mas não elimina a vastidão do que permanece oculto. A humildade começa, talvez, quando reconheço que minha chama ilumina apenas uma parte do caminho e que, além dela, ainda existe muito a descobrir. Não preciso apagar a luz para admitir a escuridão, nem fingir que iluminei tudo só porque consegui enxergar alguns metros à frente.

Concluo, então, não com uma exigência, mas com um convite à reflexão. Se minha compreensão é parcial, como reconheceu Paulo, talvez o gesto mais fiel não seja agarrar-me desesperadamente às respostas que recebi na infância, mas continuar olhando, examinando e aprendendo. Isso não significa transformar a dúvida em dona da verdade, assim como não significa fazer da fé uma licença para ignorar perguntas legítimas. Significa aceitar que posso rever minhas interpretações sem, necessariamente, abandonar aquilo que considero essencial. Hoje compreendo que a expressão "sabedoria divina em evolução" só faz sentido, para mim, quando se refere ao amadurecimento da compreensão humana diante do divino, e não a uma suposta transformação do próprio Deus. Afinal, o horizonte não precisa mudar para que eu enxergue mais longe; sou eu que preciso caminhar, abrir os olhos e reconhecer os limites da minha visão. E, se há algo que essa jornada me ensinou, é que Deus não se assusta com perguntas. Quem se assusta, muitas vezes, sou eu, temendo perder as certezas que me deram abrigo durante tanto tempo. Ainda assim, prefiro continuar a caminhada: com a fé que me inspira, a dúvida que me examina e a humildade de quem sabe que a própria vela, por mais necessária que seja, jamais iluminará a noite inteira.

Ensaio Teológico VIII(29) O Mar, a Ciência e o Assombro: Dois Caminhos em Busca da Verdade

 


Ensaio Teológico VIII(29) O Mar, a Ciência e o Assombro: Dois Caminhos em Busca da Verdade

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Lembro-me de uma tarde à beira-mar, quando fiquei observando a maré recuar e deixar para trás uma pequena concha, vazia e ainda molhada. Peguei-a sem saber bem por quê. Era leve demais para o peso do sentimento que despertou em mim: a sensação de estar diante de algo imenso, antigo, que existia muito antes de mim e continuaria existindo sem se importar com a minha pressa de compreender o mundo. Desde então, carrego comigo duas perguntas que, durante muito tempo, julguei inimigas: de onde vem tudo isto? e por que isto me comove? O salmista expressou seu assombro ao exclamar: "Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras!" (Salmo 104:24). Já o geólogo, diante do mesmo mar, talvez faça outra pergunta: como tudo isso se formou? Ora, por que não ouvir as duas vozes? Convido o leitor a caminhar comigo por essas duas trilhas, sem exigir que uma silencie a outra.

A ciência nos conta uma história que, por si só, tem algo de épico. Nos primórdios da Terra, quando o planeta ainda era extremamente quente e parte de sua superfície permanecia fundida, a atividade vulcânica liberava vapor de água. À medida que a superfície esfriou, esse vapor pôde se condensar, dando origem a chuvas que, ao longo de períodos imensos, contribuíram para a formação dos primeiros reservatórios de água líquida. Os antigos zircões encontrados em Jack Hills, na Austrália, fornecem indícios de que já havia água líquida na superfície terrestre há cerca de 4,4 bilhões de anos. Mas a história não termina aí. Parte da água também pode ter chegado por meio de materiais vindos do espaço. Meteoritos ricos em minerais hidratados, especialmente os condritos carbonáceos, apresentam características isotópicas do hidrogênio semelhantes às encontradas nos oceanos, sugerindo que asteroides contribuíram para abastecê-los. Quanto aos cometas, seu papel continua sendo investigado e debatido. E, veja só, há beleza nisso: a ciência não perde sua grandeza por ainda ter perguntas sem respostas; pelo contrário, é justamente essa disposição para investigar que a mantém viva. Mais tarde, a dinâmica das placas tectônicas passou a desempenhar um papel fundamental na configuração dos continentes e oceanos. A fragmentação da Pangeia, iniciada há cerca de 200 milhões de anos, contribuiu para a abertura do Atlântico, enquanto a formação de crosta nas dorsais oceânicas e seu afundamento nas zonas de subducção continuam remodelando o planeta. Os oceanos, portanto, não são apenas heranças de um passado remoto: são parte de uma história geológica que continua acontecendo debaixo dos nossos pés — e, sobretudo, debaixo das águas.

Se a geologia procura explicar como os oceanos se formaram, a teologia se aventura por outra pergunta: o que significa existirem oceanos e existirmos nós, seres humanos, capazes de contemplá-los e nos maravilhar com sua grandeza? O paleontólogo e historiador da ciência Stephen Jay Gould propôs a ideia de que ciência e religião pertencem a "magistérios" distintos, cada qual com seu campo de atuação. Essa proposta é debatida, naturalmente, mas oferece uma reflexão interessante sobre os limites e as possibilidades do diálogo entre essas duas formas de compreender a realidade. Em 1615, Galileu Galilei recorreu a uma fórmula tradicionalmente atribuída ao cardeal Cesare Baronio: a Bíblia ensina como se vai para o céu, não como o céu vai. Isso não significa, porém, que as Escrituras deixem de falar sobre a natureza. Basta lembrar Jó 38, quando Deus pergunta quem encerrou o mar com portas e estabeleceu limites para suas ondas. Não leio essa passagem como um tratado de geologia, mas como uma linguagem poética que expressa espanto diante de uma realidade que ultrapassa o domínio humano. Para mim, não é necessário transformar a Bíblia num manual científico, nem exigir que a ciência responda a todas as perguntas sobre o sentido da existência. São maneiras distintas de olhar para o mundo. Enquanto a geologia explica a transformação das costas por meio de processos como erosão e sedimentação, a poesia bíblica dá voz ao sentimento de quem contempla o limite das águas e reconhece que não é o autor de tudo aquilo que existe. Uma perspectiva investiga os mecanismos; a outra convida à reflexão sobre o significado. E o diálogo entre ambas pode ser mais fecundo quando nenhuma pretende ocupar, à força, o lugar da outra.

Mas, a admiração, por mais bonita que seja, precisa produzir consequências. De que adianta contemplar a imensidão do mar, falar de sua beleza e reconhecer sua importância se, na prática, não nos preocupamos com sua preservação? Os oceanos participam da produção de grande parte do oxigênio gerado pela atividade fotossintética na Terra, ajudam a regular o clima e abrigam uma biodiversidade cuja complexidade ainda estamos longe de conhecer por completo. Diante disso, a pesquisa oceanográfica e a conservação marinha tornam-se, a meu ver, pontos de encontro entre o conhecimento científico, a responsabilidade ética e a fé daqueles que reconhecem valor na criação. Cuidar dos oceanos não é apenas uma questão de interesse ambiental; é também um compromisso com a vida e com as gerações que virão. Volto, então, àquela pequena concha que recolhi na areia. Hoje compreendo que posso investigar sua composição, conhecer os processos que lhe deram forma e estudar os caminhos pelos quais o mar a trouxe até meus pés e, ainda assim, continuar maravilhado. Saber como algo acontece não elimina o encanto de sua existência. Pelo contrário, às vezes, o conhecimento amplia o assombro, como quem abre uma janela e descobre que o horizonte é ainda maior do que imaginava. Encerro com as palavras do Salmo 111:2, segundo as quais as obras do Senhor são "procuradas por todos os que nelas se comprazem". Repare bem: são procuradas, não apenas aceitas sem reflexão. Que eu continue, portanto, a procurá-las com o rigor da ciência e a sensibilidade da oração, sem abandonar a humildade de quem sabe que ainda há muito a aprender. E que, nessa caminhada, eu nunca me esqueça de cuidar do mar — essa imensidão de águas que, mesmo sem pronunciar palavra alguma, continua me ensinando a perguntar.