Ensaio Teológico IX(5) AS DUAS MESAS DA CONSCIÊNCIA: SABEDORIA, EVIDÊNCIA E HUMILDADE
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Em Provérbios, a Sabedoria e a Tolice são duas mulheres que disputam a atenção de quem passa. Ambas têm casa, ambas preparam a mesa, ambas chamam da porta. A força dessa alegoria está justamente nisso: o viajante não encontra uma placa que lhe permita distinguir, de imediato, qual convite conduz à vida e qual pode levá-lo à ruína. Confesso que, ao ler essa cena, sempre acabo diante de uma pergunta incômoda: de qual dessas mesas tenho me alimentado sem perceber? Durante algum tempo, tentei interpretar essa disputa como duas maneiras de encarar a realidade: de um lado, a busca por evidências; do outro, a confiança em suposições. Uma mesa ofereceria o banquete dos fatos verificáveis; a outra, um cardápio de meias-verdades, servido com aparência de certeza. A comparação faz sentido, mas será que dá conta de toda a complexidade da sabedoria?
Essa leitura tem seu valor, e a tradição crítica nos ajuda a compreendê-la. Bertrand Russell é frequentemente associado à ideia de que os tolos têm certezas excessivas, enquanto os sábios vivem cheios de dúvidas. Como a formulação exata e sua fonte são incertas, prefiro não tratá-la como uma citação comprovadamente sua, mas como expressão de uma intuição importante: a sabedoria começa onde a certeza fácil termina. Entretanto, preciso reconhecer uma tensão que essa interpretação pode esconder. Em Provérbios 1.7, o temor do Senhor aparece como princípio da sabedoria. Não se trata simplesmente de reunir evidências ou acumular informações, mas de cultivar reverência, disposição para escutar e humildade para aceitar correções. Reduzir a sabedoria àquilo que pode ser demonstrado por evidências seria trocar uma raiz profunda por outra mais estreita. Afinal, conhecer os fatos é fundamental, mas saber o que fazer com eles exige também discernimento, responsabilidade e consciência dos próprios limites.
A própria Escritura adverte que a ilusão não mora apenas na cabeça de quem desconhece os fatos. Em Provérbios 14.12, lemos que há caminho que parece direito ao ser humano, mas cujo fim conduz à morte. Repare bem: o caminho parece correto. Quem o percorre pode estar sinceramente convencido de que fez a escolha certa, apoiado em argumentos que lhe parecem sólidos. É justamente aí que minha inquietação ganha força: e quando a própria evidência nos engana? Quando um dado verdadeiro é interpretado pelos olhos do desejo, ou quando o rigor intelectual se transforma numa forma elegante de vaidade? Sim, até a razão pode servir de escudo para o orgulho, e até os fatos podem ser convocados para defender aquilo em que já decidimos acreditar. Nesse ponto, a dúvida deixa de ser inimiga da sabedoria e passa a atuar como sua guardiã. Não aquela dúvida que nos paralisa ou nos faz negar tudo, mas a que nos obriga a examinar nossas convicções antes de transformá-las em verdades absolutas. Talvez a diferença entre as duas mesas esteja também no efeito que produzem em quem delas se alimenta: uma nos torna mais humildes e dispostos a aprender; a outra nos deixa cada vez mais convencidos de que não temos nada a aprender.
Chego, então, ao que considero o centro dessa reflexão: saber não basta. O conhecimento sem compaixão pode endurecer o coração, enquanto a curiosidade sem ética pode transformar o outro em objeto de investigação, julgamento ou ferida. Escolher entre sabedoria e tolice é também escolher entre cuidar e ignorar, entre manter a pergunta aberta e acomodar-se à própria opinião. É aqui que a mensagem de Tiago me oferece um horizonte de esperança. Em Tiago 1.5, quem reconhece a própria falta é convidado a pedir sabedoria a Deus, que a todos dá liberalmente e sem censura. Pedir, nesse contexto, não significa cruzar os braços e esperar que as respostas caiam do céu; significa reconhecer que a busca começa com a humildade de quem admite não saber tudo. Não vou fingir que já aprendi a distinguir perfeitamente as duas mesas, porque seria contradizer justamente aquilo que estou tentando compreender. Sei apenas que a pergunta continua comigo e que, talvez, a sabedoria não consista em nunca se enganar, mas em ter coragem para rever o caminho, escutar o outro e reconhecer os próprios erros. No fim das contas, o desafio não é apenas escolher onde sentar, mas descobrir no que estamos nos transformando enquanto comemos. E continuar perguntando, mesmo quando a resposta ameaça o conforto das nossas certezas, pode ser o primeiro sinal de que começamos, de fato, a aprender.







