"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

Pesquisar neste blog ou na Web

MINHAS PÉROLAS

domingo, 1 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(5) A Complexidade das Oportunidades na Sociedade Moderna [As cotas estão certas]

 



Ensaio Teológico X(5) A Complexidade das Oportunidades na Sociedade Moderna [As cotas estão certas]

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Imagino um rapaz, a quem chamo de Mateus, atravessando a cidade em dois ônibus para chegar a uma escola pública que passou meses sem professor de Física. À noite, estuda na mesa da cozinha, entre as contas da casa e o cansaço de quem já enfrentou um longo dia, sem nunca ter colocado os pés num cursinho preparatório. Na mesma lista do Enem aparece outro rapaz, igualmente dedicado, mas que teve simulados, aulas de reforço e até intercâmbio. Então, alguém dirá, com a tranquilidade de quem consulta uma tabela, que cada um chegou aonde merecia. É justamente dessa tranquilidade que desconfio. Afinal, oportunidade não é uma bênção que simplesmente desce do céu, tampouco um prêmio que se conquista apenas com esforço individual. É uma construção social, feita de escolas, bairros, heranças e relações que abrem ou fecham caminhos. E, se foi construída, também pode ser reconstruída com mais justiça. É nesse horizonte que se inserem as políticas de cotas.

Para sustentar essa reflexão, recorro primeiro a Michael Young, que, em 1958, cunhou o termo meritocracia como uma sátira e, mais tarde, lamentou vê-lo transformado em elogio. Michael Sandel, por sua vez, adverte que a crença no mérito absoluto costuma produzir soberba entre os vencedores e humilhação entre os derrotados. Com Ann Swidler, compreendo a cultura como uma espécie de caixa de ferramentas, cujos recursos não são distribuídos igualmente entre as pessoas. Simone de Beauvoir também ajuda a perceber como a sociedade participa da construção dos lugares que cada indivíduo ocupa e das possibilidades que encontra pelo caminho. Reconheço, entretanto, o contraponto de Carol Dweck: a mentalidade e a disposição para aprender fazem diferença. Mas há um detalhe que não podemos ignorar: motor sem estrada não vai longe. Acreditar que se pode aprender Física ajuda, sim, desde que exista um professor de Física para ensinar.

No campo jurídico, a Lei de Cotas, aprovada em 2012, estabeleceu a reserva de, no mínimo, 50% das vagas nas instituições federais de ensino para estudantes que cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas. No mesmo ano, o Supremo Tribunal Federal reconheceu sua constitucionalidade por unanimidade. Inicialmente concebida como uma política sujeita à revisão após dez anos, a legislação foi atualizada em 2023, ampliando seu alcance para incluir também os quilombolas. E aqui é preciso olhar os resultados sem paixão partidária nem torcida organizada. Quero ser honesto com os números: na UFPE, os cotistas apresentaram resultados melhores nos indicadores de evasão, trancamento e atraso, enquanto os não cotistas se destacaram no coeficiente de rendimento e nos índices de reprovação. Na UFV, quase não houve diferença de desempenho, e a evasão entre os cotistas foi menor. Já na UFBA, os não cotistas ficaram cerca de 6,8% à frente. O quadro, portanto, é misto, e seria desonesto selecionar apenas os dados que confirmam nossas convicções. Mas há algo importante nessa discussão: os estudantes que ingressaram permaneceram, e, quando aparecem diferenças de desempenho, a resposta não deve ser fechar as portas, mas fortalecer as políticas de permanência, com bolsas, tutoria e moradia. Também considero as objeções. A isonomia material exige que se observe o ponto de partida de cada pessoa, embora alguns juristas apontem lacunas no acórdão do STF. A renda, sozinha, não explica todas as desigualdades, razão pela qual a legislação combina diferentes critérios. É verdade, ainda, que o problema de fundo está na precariedade da educação básica, mas uma geração inteira não pode ficar esperando que a reforma chegue. O próprio ministro Marco Aurélio ressalvou que o sistema deve terminar quando cumprir sua função. Ou seja, cotas não precisam ser eternas; precisam ser necessárias pelo tempo em que a desigualdade persistir.

Essa discussão também alcança a teologia, onde convém distinguir três palavras que frequentemente se misturam: destino, a ideia de que alguém decidiu lá em cima quem deve subir e quem ficará para trás; graça, o dom imerecido que, justamente por não depender do mérito, nos convida à partilha; e privilégio, a vantagem herdada que tantas vezes se disfarça de merecimento ou bênção divina. A teologia da prosperidade confunde essas três dimensões, atribuindo ao sucesso uma espécie de aprovação celestial e, por consequência, à pobreza uma culpa que nem sempre lhe pertence. A tradição bíblica, entretanto, aponta para outro caminho. Os profetas denunciam a exploração dos vulneráveis, o Jubileu de Levítico 25 questiona a concentração permanente da riqueza, e a destinação universal dos bens, reafirmada pela opção preferencial pelos pobres nas conferências de Medellín e Puebla, recorda que a dignidade humana não pode ficar subordinada aos privilégios de nascimento.

No fim das contas, Mateus não está pedindo esmola, nem uma vantagem indevida. Pede apenas que o relógio comece a contar no mesmo ponto para ele e para o outro rapaz. Se conseguir entrar na universidade, talvez seja o primeiro de sua família a ocupar uma sala universitária. E essa conquista não será apenas individual: poderá representar uma porta aberta para os que vierem depois dele, uma resposta para a família e uma prova, para a rua inteira, de que a conta não precisava fechar daquele jeito. A pergunta honesta nunca foi "quem mereceu mais?", mas "que escola havia, que professor, que rede, que herança, que sorte?". Afinal, não basta celebrar quem vence uma corrida; é preciso perguntar de onde cada corredor partiu, quais obstáculos encontrou e quem teve condições de lhe oferecer uma pista. Só é verdadeiramente justa a sociedade que tem coragem de fazer essas perguntas e, mais do que isso, disposição para agir sobre as respostas.

Ensaio Teológico X(4) A Complexidade do Sucesso: Além do Esforço Individual

 


Ensaio Teológico X(4) A Complexidade do Sucesso: Além do Esforço Individual

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Imagino duas crianças, Helena e Davi, nascidas no mesmo ano e na mesma cidade, com aquela teimosia luminosa de quem acorda cedo porque acredita que aprender pode mudar a vida. Helena cresce numa casa com estantes de livros, um adulto por perto para revisar a lição e uma escola a quinze minutos de caminhada. Davi, por sua vez, vive num bairro onde o ônibus demora, a escola perde professores no meio do ano e o caderno disputa espaço com as contas da semana. Ambos se esforçam, e muito. Mas, trinta anos depois, alguém dirá, com a tranquilidade de quem consulta um boletim, que cada um colheu o que plantou. É justamente dessa frase que desconfio. Não porque o esforço seja uma ilusão, longe disso, mas porque ela confunde o plantio com o solo. Afinal, quem trabalha merece respeito; o que precisa ser questionado é essa pretensão de que o trabalho, sozinho, explique o destino de cada pessoa.

Para compreender a qualidade desse solo, recorro primeiro a Bourdieu, que, em "As formas do capital" (1986), mostrou que as vantagens sociais circulam por três moedas: a econômica, a cultural e a social. São recursos que, muitas vezes, passam de uma geração para outra, reproduzindo posições privilegiadas sob a aparência de talento natural ou mérito individual. Sen, em Desenvolvimento como Liberdade (2000), amplia essa compreensão ao tratar a pobreza como privação de capacidades básicas. Davi, portanto, não carece apenas de dinheiro; carece de uma escola que funcione, de atendimento à saúde por perto e de caminhos concretos para transformar seus desejos em possibilidades. Nesse cenário, exigir dele o mesmo resultado é como cobrar que alguém reme com mais força num rio que corre contra a correnteza. E os dados ajudam a compreender essa desigualdade. Piketty (2014) observa que, em períodos prolongados, o rendimento do capital tende a superar o crescimento da economia. Já Chetty e seus colegas (2017) mostram que a probabilidade de uma pessoa ganhar mais do que seus pais caiu de aproximadamente 90%, entre os nascidos em 1940, para cerca de 50%, entre os nascidos nos anos 1980. O esforço dos filhos não desapareceu; o que encolheu foi o terreno onde esse esforço poderia florescer.

Reconheço, entretanto, o contraponto, e nem por isso o considero uma refutação. Duckworth, em Garra (2016), defende que a perseverança e a paixão contribuem para prever o êxito. Concordo que há verdade nisso, mas apenas numa parte da equação: a garra importa, sim, só que floresce melhor quando encontra condições favoráveis para se desenvolver. Afinal, de que adianta ensinar alguém a subir se lhe retiram os degraus? Pluchino, Biondo e Rapisarda (2018), por meio de uma simulação, sugerem que os maiores sucessos nem sempre são alcançados pelos mais talentosos, mas, muitas vezes, por pessoas moderadamente talentosas que tiveram a sorte de encontrar boas oportunidades. É um modelo matemático, não um retrato completo da vida, mas sua conclusão encontra eco em Eclesiastes 9:11, que chama a atenção para o peso do tempo e das circunstâncias na trajetória humana. Sandel (2020), por sua vez, aponta o custo moral dessa crença no mérito absoluto: quando o sucesso é atribuído inteiramente ao merecimento individual, os vencedores tendem à soberba, enquanto os que ficam para trás carregam o peso da humilhação. Anderson (1999) propõe outro horizonte: uma sociedade em que as pessoas possam se relacionar como iguais e tenham acesso efetivo às liberdades que realmente importam. Não se trata de negar as conquistas individuais, mas de questionar uma sociedade que transforma vantagens de nascimento em certificados de superioridade.

Essa discussão também tem raízes teológicas e merece ser examinada à luz da história religiosa. Weber (1905) mostrou como a noção de vocação transformou o trabalho em chamado e como, em determinadas vertentes do calvinismo, o êxito material passou a ser interpretado como possível sinal de eleição divina. Daí até a conclusão de que "quem fracassa, falhou" vai um passo curto, embora perigoso. A própria tradição bíblica, entretanto, oferece resistência a essa interpretação simplista. Provérbios louva a mão diligente, mas também reconhece que a injustiça pode varrer o campo do pobre. Já a parábola dos trabalhadores da vinha mostra que a graça não cabe numa planilha de merecimento, nem Deus distribui sua bondade segundo os critérios de produtividade humana. Por isso, não proponho desprezar o esforço, muito menos desvalorizar a disciplina e a perseverança. Proponho apenas que o mérito deixe de funcionar como sentença sobre a vida alheia. Posso admirar a dedicação de Helena sem fingir que ela partiu do mesmo lugar que Davi; da mesma forma, posso honrar a tenacidade de Davi sem exigir que ela, sozinha, compense todas as portas que lhe foram fechadas.

No fim das contas, a pergunta que proponho não é apenas quanto cada um se esforçou, mas "que escola havia, que saúde, que rede, que herança, que sorte?". Antes de distribuir medalhas aos vencedores e culpas aos que ficaram pelo caminho, precisamos olhar para as condições em que cada um começou a corrida. Afinal, não se pode confundir vantagem com virtude, nem dificuldade com incapacidade. O mérito tem seu valor, sim, mas perde a dignidade quando serve de álibi para os que chegaram e de acusação contra os que ainda caminham. Seu verdadeiro sentido só se realiza quando o esforço individual encontra oportunidades reais, e não quando a sociedade fecha as portas e depois responsabiliza quem não conseguiu atravessá-las.

Ensaio Teológico X(3) A Complexidade da Prosperidade: Além da Interpretação Religiosa

 


Ensaio Teológico X(3) A Complexidade da Prosperidade: Além da Interpretação Religiosa

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Conheço essa cena, ou melhor, conheço mil versões dela: um homem perde o emprego aos cinquenta anos, a fábrica fecha e as contas começam a se amontoar sobre a mesa da cozinha. No domingo, procura consolo na igreja e ouve, de alguém que o ama, que talvez lhe falte fé. Não sai dali apenas desempregado; sai também culpado. É por causa dessa culpa que escrevo, talvez a face mais cruel da ideia de que a prosperidade seja o selo da devoção e a pobreza, o sinal de alguma falha íntima. Não desprezo quem acredita nisso, pois, muitas vezes, trata-se de gente sincera, que precisa confiar na força do espírito para vencer as dificuldades da vida. Essa esperança merece respeito; já o diagnóstico que a acompanha merece ser examinado com cuidado.

Os números, porém, não confirmam essa equação. Em O Capital no Século XXI (2014), Piketty mostra como a riqueza se concentra por mecanismos ligados à herança, à tributação e ao acesso à educação, e não por uma suposta superioridade moral de quem acumula bens. Stiglitz, em O Preço da Desigualdade (2013), chega a uma conclusão semelhante ao apontar o peso das decisões governamentais e das regras de mercado na distribuição das oportunidades. Sendo assim, o homem da fábrica não foi reprovado numa prova de santidade; foi atingido por um vento econômico e social que sopra muito acima de sua cabeça. Sen, em Desenvolvimento como Liberdade (2000), lembra que prosperar significa ampliar as liberdades reais, como o acesso à saúde e à educação. Sachs (2015), por sua vez, reforça que nenhum país se desenvolve sem articular fatores econômicos, sociais, políticos e ambientais. Afinal, uma criança sem escola não carece de oração; carece de oportunidades. E não há milagre que justifique a omissão de quem deveria garantir esse direito.

Reconheço, entretanto, que a geografia da fé exige cautela. Seria fácil apontar os países nórdicos, seculares e prósperos, como prova de que religião e riqueza não caminham necessariamente juntas. Mas os Estados Unidos são ricos e comparativamente devotos, enquanto o Brasil, profundamente religioso, continua marcado pela desigualdade. Norris e Inglehart, em Sacred and Secular (2004), apresentam uma interpretação mais sutil: a religiosidade tende a diminuir onde existe maior segurança material e permanece mais forte onde a vida é marcada pela vulnerabilidade. A fé, nesse cenário, aparece menos como causa da riqueza e mais como abrigo diante das incertezas. Isso não a diminui; apenas ajuda a compreender por que floresce com tanta força onde o chão parece prestes a ceder. Por isso, insisto: criticar a teologia da prosperidade não significa atacar a fé. Pelo contrário, é uma crítica que também nasce de dentro dela. Stott e Padilla defenderam uma missão integral, que não separa a salvação da alma da luta por justiça; o livro de Jó questiona a tese de que o sofrimento seja prova de culpa, e Lucas dirige suas bem-aventuranças justamente aos pobres.

Mas, há também um estrago concreto nessa maneira de pensar. Quando a pobreza é tratada como castigo, o pobre passa a ser visto com desconfiança, como se carregasse alguma culpa escondida, e a solidariedade, pouco a pouco, esfria. Singer, em A Vida que Podemos Salvar (2009), defende justamente o contrário: quem tem condições de aliviar um sofrimento significativo sem precisar fazer um grande sacrifício tem o dever de agir. Não proponho abandonar a fé, muito menos desprezar o consolo que ela oferece. Proponho apenas que não lhe cobremos aquilo que nunca prometeu, pois a fé pode consolar, fortalecer e sustentar, mas não é um contrato com cláusulas de rendimento, muito menos uma apólice contra o desemprego, a doença ou a pobreza.

No fim das contas, a pergunta honesta não é “quanto ele orou?”, mas “que escola havia, que hospital, que emprego, que herança?”. Aquele homem não precisa de um sermão sobre o que lhe faltou na vida espiritual. Precisa de oportunidades, de um sistema que não o deixe cair sozinho e de uma comunidade disposta a lhe estender a mão antes de procurar culpados. Afinal, entre oferecer uma explicação religiosa para a miséria e fazer alguma coisa para combatê-la, há uma distância enorme. E é justamente nessa distância que a fé, quando acompanhada de consciência e responsabilidade, tem a oportunidade de mostrar seu verdadeiro valor.

sábado, 31 de outubro de 2026

Ensaio Teológico X(2) AS DUAS PORTAS: ÉTICA, JUSTIÇA E O PREÇO DO ATALHO

 


Ensaio Teológico X(2) AS DUAS PORTAS: ÉTICA, JUSTIÇA E O PREÇO DO ATALHO

Por Claludeci Ferreira de Andrade

Ao refletir sobre as duas portas que se abrem diante de um jovem de dezessete anos numa viela da periferia, percebo que a escolha entre o tráfico e um caminho honesto está longe de acontecer em condições iguais para todos. De um lado, há a promessa de dinheiro fácil, respeito e conquistas imediatas; do outro, um caminho estreito, feito de estudo, trabalho e incertezas. Não desprezo a sabedoria popular de que “o crime não compensa”, mas também não quero transformar essa frase numa venda que esconda as desigualdades sociais. Afinal, compreender as circunstâncias não significa justificar o delito, muito menos esquecer quem sofre suas consequências. É preciso separar uma coisa da outra: explicar não é absolver.

Com Peter Singer, compreendo que a ética precisa considerar todos os envolvidos, tanto quem pratica a violência quanto quem carrega suas consequências. Philip Zimbardo me faz pensar no peso que o ambiente exerce sobre o comportamento humano, embora isso não apague a responsabilidade individual. Afinal, conheço a realidade de tantas pessoas pobres que, mesmo enfrentando dificuldades de toda sorte, escolheram o caminho da honestidade. E isso também precisa entrar nessa conversa! Com John Rawls e Ruth Wilson Gilmore, percebo que a justiça não se resume a punir quem atravessa a porta errada; exige também instituições capazes de oferecer oportunidades concretas, como educação, saneamento, emprego e segurança. Thomas Piketty, por sua vez, leva-me a questionar as desigualdades que não encontram justificativa, sobretudo aquelas construídas à custa da violência, da fraude e da exploração do próximo.

Na perspectiva da fé, encontro duas responsabilidades que não podem ser colocadas em lados opostos: o mandamento de não roubar (Êxodo 20:15) e a denúncia das estruturas que alimentam a injustiça (Isaías 5:8; Amós 5:24). Ao recordar o jovem rico (Marcos 10:17-22) e Zaqueu (Lucas 19:8-9), compreendo que a riqueza conquistada injustamente compromete a consciência e que a verdadeira conversão não se resolve com palavras bonitas: exige reparação. Também vejo em Nelson Mandela uma distinção que merece atenção. Sua desobediência enfrentou um regime opressor, não buscou enriquecimento pessoal e tinha como horizonte o bem coletivo. Depois de vinte e sete anos de prisão, escolheu a reconciliação em vez da vingança. Por isso, não aceito que sua história seja usada como desculpa para legitimar o atalho do ganho fácil. Uma coisa é resistir à opressão; outra, bem diferente, é explorar a fragilidade alheia para benefício próprio.

Volto, então, àquela viela e ao rapaz diante das duas portas. Concluo que uma sociedade verdadeiramente justa precisa sustentar duas verdades ao mesmo tempo: cada indivíduo responde por suas escolhas, mas todos temos responsabilidade na construção de oportunidades dignas. Não defendo uma justiça que apenas castiga, tampouco uma compreensão social que transforme a pobreza em salvo-conduto para qualquer violência. O caminho precisa reunir prevenção e responsabilização, justiça e misericórdia, proteção às vítimas e possibilidade de recomeço para quem errou. Afinal, não basta apontar a porta errada e condenar quem entrou por ela; é preciso também trabalhar para que a porta da honestidade esteja aberta, iluminada e ao alcance de todos. Para mim, a verdadeira retidão começa justamente aí: em não condenar sem compreender, nem absolver sem critérios, mas lutar por uma sociedade na qual a dignidade humana não seja privilégio de poucos.

Ensaio Teológico X(1) A MESA E A TELA: A EVOLUÇÃO DAS RELAÇÕES FAMILIARES À LUZ DA RAZÃO E DA FÉ

 


Ensaio Teológico X(1) A MESA E A TELA: A EVOLUÇÃO DAS RELAÇÕES FAMILIARES À LUZ DA RAZÃO E DA FÉ

Por Claudeci Ferreira de Andrade


Ao observar uma família reunida à mesa, percebo que a distância entre pais e filhos nem sempre se mede em metros. Às vezes, cabe entre um prato de comida e uma tela de celular. O pai pensa que a filha não o escuta; ela, por sua vez, sente que ele não a compreende. E os dois, cada qual do seu jeito, têm lá suas razões. O fato é que as relações familiares mudaram. A autoridade já não se sustenta apenas na idade, na tradição ou no velho argumento de que os mais velhos sabem mais. Hoje, precisa ser conquistada também pelo diálogo, pela escuta e, sobretudo, pelo exemplo. Por isso, procuro compreender essas transformações sem jogar fora a sabedoria do passado nem condenar a juventude, aproximando duas fontes de reflexão que nem sempre caminham juntas: a ciência e a fé.

Com Jean Piaget, compreendo que o jovem não é um recipiente vazio à espera dos ensinamentos dos adultos, mas alguém que constrói o próprio conhecimento, confrontando o que já sabe com as experiências que a vida lhe apresenta. Carl Rogers, por outro caminho, também me ajuda a perceber que ninguém floresce sob a pressão constante: o desenvolvimento humano precisa de acolhimento, autenticidade e liberdade. Já Michel Serres, em Polegarzinha, retrata uma geração que carrega o conhecimento no bolso e, não raro, ensina aos próprios pais a lidar com as novidades do mundo. Mas, cá entre nós, informação não é sinônimo de sabedoria. A tela responde a quase tudo, mas nem sempre ensina a fazer as perguntas certas; oferece caminhos, mas não escolhe por nós a direção. É justamente aí que encontro uma reflexão interessante nas Escrituras: Jó 12:12 associa a sabedoria à experiência dos mais velhos, enquanto Jó 32:9 lembra que a idade, por si só, não garante discernimento. Portanto, não vejo a sabedoria como propriedade de uma geração, mas como conquista de quem conserva a humildade de aprender.

Na perspectiva bíblica, encontro uma responsabilidade que não pode ficar nas costas de apenas um dos lados. O quinto mandamento orienta os filhos a honrar pai e mãe (Êxodo 20:12), mas o apóstolo Paulo também adverte os pais a não irritarem os filhos, recomendando que os eduquem com disciplina e orientação (Efésios 6:4). Ou seja, a Bíblia não entrega aos adultos um cheque em branco para exercer autoridade sem limites. Em Lucas 2:46-51, vejo Jesus ainda adolescente no Templo, ouvindo, perguntando e demonstrando autonomia, sem que isso o impedisse de retornar a Nazaré e permanecer submisso aos pais. Mais adiante, em Lucas 15, encontro a figura daquele pai que permite ao filho partir, não o acorrenta à própria vontade, mas também não fecha a porta quando ele vai embora. Permanece à espera. Eis uma lição que considero preciosa: educar não é aprisionar, assim como respeitar não significa obedecer cegamente. Entre a liberdade e a responsabilidade existe um caminho que precisa ser construído a muitas mãos.

Por tudo isso, defendo uma parceria familiar, não um tribunal no qual pais e filhos disputam quem tem razão. Os adultos precisam aprender a escutar antes de julgar, reconhecer que também desconhecem muita coisa e, por que não, aceitar que os filhos podem ensiná-los a lidar com um mundo que já não é o mesmo de sua juventude. Isso não significa abrir mão da autoridade, mas compreender que ela ganha força quando nasce do exemplo, e não da imposição. Aos jovens, por sua vez, cabe entender que liberdade não é fazer tudo o que dá na telha: também exige responsabilidade, gratidão e reconhecimento daqueles que vieram antes e ajudaram a abrir os caminhos. Volto, então, àquela cozinha do começo. Não acredito que a solução esteja em arrancar o celular das mãos da filha, muito menos em o pai cruzar os braços e desistir da conversa. Talvez tudo comece com um gesto simples, mas danado de difícil: baixar a guarda e perguntar ao outro o que está vendo naquela tela. Afinal, entre a mesa e o celular, entre a experiência dos mais velhos e a curiosidade dos mais novos, ainda há espaço para o encontro. E é nesse espaço, feito de escuta, respeito e afeto, que uma família pode se reinventar sem precisar apagar sua própria história.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(18) O QUE CABE NO CORAÇÃO

 


Ensaio Teológico IX(18) O QUE CABE NO CORAÇÃO

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Conheci um casal que, depois de trinta anos de casamento, já não sabia viver o desejo sem culpa. Ele aprendera a temer o próprio corpo; ela, a desconfiar dos próprios sentimentos. Os dois haviam sido fiéis, mas estavam exaustos de carregar uma culpa que parecia não ter fim. Essa história me fez perceber que a sexualidade não deve ser tratada como inimiga da alma. Reconheço o valor da fidelidade, da castidade e do compromisso, pois os vínculos afetivos exigem cuidado e, quando rompidos, deixam feridas. Também levo a sério os ensinamentos de Paulo, que apresenta o amor como “elo perfeito” (Colossenses 3:14), mas nos lembra que “tudo é permitido, mas nem tudo convém” (1 Coríntios 10:23). Entendo, porém, que os limites precisam nascer do amor, não do medo, sem esquecer o chamado à prudência, ao acolhimento e à paciência (Mateus 7:1; Efésios 4:2).

Para compreender melhor essa complexidade, busco diálogo entre a ciência, a filosofia e a Escritura. Esther Perel, em Mating in Captivity (2006), mostra que o desejo vive entre a segurança e o mistério, enquanto Helen Fisher, em Why We Love (2004), ajuda a compreender a profundidade do amor romântico. Já Zygmunt Bauman, em Amor líquido (2003), chama a atenção para a fragilidade dos vínculos numa sociedade marcada pelo consumo e pela pressa. Também me inquieta a reflexão de Michel Foucault, em História da sexualidade I (1976), sobre o discurso sexual como instrumento de poder e controle. Essas contribuições não me levam a justificar qualquer comportamento, mas a reconhecer que o desejo é complexo e que ninguém escolhe simplesmente tudo o que sente. A responsabilidade começa justamente quando decidimos o que fazer com nossos sentimentos.

Há, entretanto, um princípio do qual não abro mão: o consentimento. Reconhecer o outro como sujeito, e não como instrumento de satisfação, é condição indispensável para qualquer relação humana. Mesmo admitindo que muitas normas morais são construídas socialmente, entendo que retirar do outro o direito de consentir não é uma simples diferença cultural: é violência. Nessa direção, encontro respaldo em John Gottman, cujos estudos destacam a amizade, o respeito e a comunicação como fundamentos dos relacionamentos duradouros, em vez da vigilância e do controle. Também valorizo a contribuição de Carol Gilligan, que amplia a compreensão da ética ao destacar o cuidado e a atenção às circunstâncias. Por isso, defendo uma educação sexual abrangente, fundamentada em evidências, que ensine sobre o corpo, o desejo, a fidelidade, os limites e o compromisso. Não quero uma educação que apenas mande obedecer, mas que ensine a pensar, escolher e respeitar.

Volto, então, àquele casal que, depois de três décadas de casamento, já não sabia desejar sem sentir culpa. Não precisava de uma sentença condenatória, tampouco de uma autorização para viver sem limites. Precisava compreender que o desejo é humano e que o amor exige cuidado, respeito e responsabilidade. É essa dimensão mais humana da tradição que desejo preservar: aquela que encontra no mandamento “amai-vos” não uma licença para tudo, mas um convite a cuidar uns dos outros. Não defendo liberdade sem compromisso, nem fidelidade sustentada pela vigilância. Defendo limites sem humilhação, moralidade sem medo e amor sem a obrigação de esconder o próprio corpo. Afinal, de que adianta preservar as regras de um relacionamento e perder a ternura de quem deveria vivê-lo? A sabedoria que busco começa quando conseguimos acolher o desejo sem abandonar a responsabilidade e compreender que, no coração, também cabe o cuidado com o outro.

Ensaio Teológico IX(17) O QUE O DESEJO NÃO CABE EM DIZER

 


Ensaio Teológico IX(17) O QUE O DESEJO NÃO CABE EM DIZER

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Quando tinha dezesseis anos, ouvi de um pregador que o corpo era um território inimigo e que a pureza dependia de vigiá-lo. Concordei com a cabeça, mas voltei para casa carregando uma culpa que só muitos anos depois aprendi a questionar. Hoje percebo que me ensinaram a temer o que sentia antes mesmo de me ensinar a compreender meus sentimentos. Afinal, a sexualidade não deve ser tratada como inimiga, tampouco como um território sem limites. Reconheço o valor da fidelidade, da castidade e do compromisso, porque os vínculos afetivos exigem cuidado e responsabilidade; quando rompidos, também deixam suas feridas. O que questiono, portanto, não é a preocupação moral, mas o uso do medo e da vergonha como instrumentos de educação. Uma coisa é ensinar limites; outra, bem diferente, é transformar o corpo numa fonte permanente de culpa.

Essa compreensão ganha outras dimensões quando recorro a Esther Perel, em Inteligência erótica, e a Lisa Diamond, em Sexual Fluidity, que ajudam a compreender a complexidade e os movimentos do desejo humano. David Eagleman, em Incógnito, mostra que nem tudo o que sentimos passa primeiro pelo crivo da consciência. Já Jack Brehm (1966), ao estudar a reatância psicológica, explica como a proibição pode intensificar justamente aquilo que se pretende evitar. Foucault, em História da sexualidade I, também me provoca a pensar em como o discurso sobre o sexo pode se transformar numa ferramenta de poder e controle. Não interpreto essas contribuições como uma defesa de que tudo é permitido ou de que todo desejo seja inofensivo. Pelo contrário, entendo que precisamos distinguir aquilo que sentimos daquilo que escolhemos fazer. É justamente aí que começa a responsabilidade moral.

Entre tantas questões, há um princípio do qual não abro mão: o consentimento. Reconhecer o outro como sujeito, e não como instrumento de satisfação, é condição básica de qualquer relação verdadeiramente humana. Mesmo admitindo, com Judith Butler e Yuval Noah Harari, que nossos valores sofrem a influência das construções sociais e culturais, não vejo nisso motivo para relativizar a dignidade humana. Pelo contrário, encontro respaldo nos estudos de John Gottman, que apontam a amizade, o respeito e a comunicação como fundamentos dos relacionamentos duradouros, em vez da vigilância e do controle. Por isso, defendo uma educação sexual abrangente, fundamentada em evidências, que ensine sobre o corpo, o desejo, a fidelidade, os limites e o compromisso. Quero uma educação que ensine a pensar, não apenas a obedecer; que fale de liberdade sem esconder suas responsabilidades e de moralidade sem fazer da vergonha uma ferramenta pedagógica.

Quando penso naquele rapaz de dezesseis anos, voltando para casa de cabeça baixa, percebo que ele não precisava de uma sentença, mas de orientação, acolhimento e alguém disposto a ouvi-lo. Precisava compreender que sentir é humano, mas que nossas escolhas também alcançam a vida do outro e, por isso mesmo, exigem responsabilidade. Hoje, não defendo uma liberdade sem cuidado, muito menos uma moralidade sustentada pelo medo. Entre o desejo sem limites e a culpa sem compreensão, existe um caminho mais humano: o da consciência, do respeito e da autonomia responsável. É nessa direção que caminho. Afinal, a sabedoria em que acredito não pretende apagar o desejo, mas ensinar a compreendê-lo; não quer aprisionar o corpo, mas lembrar que a liberdade de cada um precisa reconhecer a dignidade de quem caminha ao seu lado.