Ensaio Teológico X(18) A Palavra a Tempo: Sobre Dizer a Verdade sem Ferir
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Confesso que toda família tem uma frase que nunca deveria ter sido dita. Ela fica ali, atravessada na memória, sobrevivendo ao tempo, seja num jantar, num corredor de hospital ou numa simples conversa ao telefone. Às vezes, dura mais que qualquer promessa. Mas, toda família também guarda seus silêncios cúmplices: aqueles que, em vez de resolverem os conflitos, deixam apodrecer justamente o que precisava ser nomeado. Entre a palavra que fere e o silêncio que omite, mora a questão deste ensaio. Minha tese é simples, embora talvez incômoda: o problema da linguagem nunca esteve na quantidade de palavras, mas na falta de amor e discernimento tanto naquilo que dizemos quanto naquilo que escolhemos calar.
Começo, então, pela própria tradição sapiencial. Reconheço que Provérbios conhece muito bem o poder da língua sobre a vida e a morte (18:21), assim como adverte que quem multiplica palavras não escapa da transgressão (10:19). Seria um equívoco, entretanto, interpretar essas advertências como uma condenação da fala. Afinal, o mesmo livro elogia a palavra dita a seu tempo, comparando-a a maçãs de ouro em salvas de prata (25:11). O problema, portanto, não está em conversar, aconselhar ou corrigir, mas em fazê-lo sem prudência. Vejo nesse ensinamento a figura de um sábio que não é mudo nem se esconde atrás de silêncios convenientes: ele simplesmente sabe quando falar, o que dizer e como fazê-lo. Assim, a Escritura não é uma adversária que preciso derrotar, mas uma aliada que me oferece o critério para compreender o valor da palavra.
Esse critério ganha uma formulação especialmente significativa no Novo Testamento: falar a verdade em amor (Efésios 4:15). Entendo que essa orientação resolve uma tensão antiga ao rejeitar dois extremos igualmente perigosos. Quem diz a verdade sem amor transforma a sinceridade em arma e ainda chama de franqueza a própria crueldade. Por outro lado, quem preserva o amor sem compromisso com a verdade acaba confundindo diplomacia com covardia. Convenhamos: nem toda cortesia é virtude, assim como nem todo silêncio é sinal de sabedoria. Há silêncios que protegem, mas também há aqueles que traem, omitem e alimentam injustiças. Por isso, diante de uma conversa difícil, prefiro trocar a pergunta "devo falar?" por outra, muito mais exigente: "o que esta pessoa precisa ouvir, e como posso dizê-lo de modo que ela consiga escutar?". A filosofia contemporânea também oferece contribuições importantes para essa reflexão. Byung-Chul Han, em A Sociedade da Transparência, analisa como a exigência de expor tudo pode produzir vigilância e controle, esvaziando a intimidade necessária para que as relações humanas respirem. Marshall Rosenberg, por sua vez, em Comunicação Não-Violenta, propõe uma disciplina prática para expressar sentimentos, necessidades e verdades sem transformar a conversa num campo de batalha. São abordagens distintas, mas que ajudam a compreender a importância de preservar, ao mesmo tempo, a honestidade e o vínculo humano. Faço questão de esclarecer que apresento aqui sínteses das ideias desses autores, não citações literais.
Concluo, então, que ninguém aprende a falar bem apenas estudando teorias ou decorando regras de comunicação. Aprende-se na vida, errando, pedindo perdão e voltando para consertar aquilo que nossas palavras quebraram. Percebo que uma verdade dita sem cuidado pode esconder uma dose de vaidade, assim como um silêncio prolongado pode disfarçar o medo de enfrentar o necessário. No fundo, a boa comunicação não é apenas uma técnica: é o caráter colocado à prova no encontro com o outro. Por isso, em vez de condenar a linguagem ou absolvê-la indiscriminadamente, proponho a mim mesmo um ofício mais difícil: pesar as palavras antes de soltá-las e, depois de pronunciadas, assumir a responsabilidade por elas. Afinal, palavra lançada não volta intacta, e há feridas que nem o pedido de desculpas consegue fechar por completo. Posso ainda errar, claro, mas quero errar como erra quem ama: reconhecendo o dano, buscando repará-lo e tentando, mais uma vez, dizer a verdade de um jeito que o outro consiga receber. Porque, no fim das contas, não basta ter razão; é preciso também saber o que fazer com ela.







