"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sábado, 31 de outubro de 2026

Ensaio Teológico X(2) AS DUAS PORTAS: ÉTICA, JUSTIÇA E O PREÇO DO ATALHO

 


Ensaio Teológico X(2) AS DUAS PORTAS: ÉTICA, JUSTIÇA E O PREÇO DO ATALHO

Por Claludeci Ferreira de Andrade

Ao refletir sobre as duas portas que se abrem diante de um jovem de dezessete anos numa viela da periferia, percebo que a escolha entre o tráfico e um caminho honesto está longe de acontecer em condições iguais para todos. De um lado, há a promessa de dinheiro fácil, respeito e conquistas imediatas; do outro, um caminho estreito, feito de estudo, trabalho e incertezas. Não desprezo a sabedoria popular de que “o crime não compensa”, mas também não quero transformar essa frase numa venda que esconda as desigualdades sociais. Afinal, compreender as circunstâncias não significa justificar o delito, muito menos esquecer quem sofre suas consequências. É preciso separar uma coisa da outra: explicar não é absolver.

Com Peter Singer, compreendo que a ética precisa considerar todos os envolvidos, tanto quem pratica a violência quanto quem carrega suas consequências. Philip Zimbardo me faz pensar no peso que o ambiente exerce sobre o comportamento humano, embora isso não apague a responsabilidade individual. Afinal, conheço a realidade de tantas pessoas pobres que, mesmo enfrentando dificuldades de toda sorte, escolheram o caminho da honestidade. E isso também precisa entrar nessa conversa! Com John Rawls e Ruth Wilson Gilmore, percebo que a justiça não se resume a punir quem atravessa a porta errada; exige também instituições capazes de oferecer oportunidades concretas, como educação, saneamento, emprego e segurança. Thomas Piketty, por sua vez, leva-me a questionar as desigualdades que não encontram justificativa, sobretudo aquelas construídas à custa da violência, da fraude e da exploração do próximo.

Na perspectiva da fé, encontro duas responsabilidades que não podem ser colocadas em lados opostos: o mandamento de não roubar (Êxodo 20:15) e a denúncia das estruturas que alimentam a injustiça (Isaías 5:8; Amós 5:24). Ao recordar o jovem rico (Marcos 10:17-22) e Zaqueu (Lucas 19:8-9), compreendo que a riqueza conquistada injustamente compromete a consciência e que a verdadeira conversão não se resolve com palavras bonitas: exige reparação. Também vejo em Nelson Mandela uma distinção que merece atenção. Sua desobediência enfrentou um regime opressor, não buscou enriquecimento pessoal e tinha como horizonte o bem coletivo. Depois de vinte e sete anos de prisão, escolheu a reconciliação em vez da vingança. Por isso, não aceito que sua história seja usada como desculpa para legitimar o atalho do ganho fácil. Uma coisa é resistir à opressão; outra, bem diferente, é explorar a fragilidade alheia para benefício próprio.

Volto, então, àquela viela e ao rapaz diante das duas portas. Concluo que uma sociedade verdadeiramente justa precisa sustentar duas verdades ao mesmo tempo: cada indivíduo responde por suas escolhas, mas todos temos responsabilidade na construção de oportunidades dignas. Não defendo uma justiça que apenas castiga, tampouco uma compreensão social que transforme a pobreza em salvo-conduto para qualquer violência. O caminho precisa reunir prevenção e responsabilização, justiça e misericórdia, proteção às vítimas e possibilidade de recomeço para quem errou. Afinal, não basta apontar a porta errada e condenar quem entrou por ela; é preciso também trabalhar para que a porta da honestidade esteja aberta, iluminada e ao alcance de todos. Para mim, a verdadeira retidão começa justamente aí: em não condenar sem compreender, nem absolver sem critérios, mas lutar por uma sociedade na qual a dignidade humana não seja privilégio de poucos.

Ensaio Teológico X(1) A MESA E A TELA: A EVOLUÇÃO DAS RELAÇÕES FAMILIARES À LUZ DA RAZÃO E DA FÉ

 


Ensaio Teológico X(1) A MESA E A TELA: A EVOLUÇÃO DAS RELAÇÕES FAMILIARES À LUZ DA RAZÃO E DA FÉ

Por Claudeci Ferreira de Andrade


Ao observar uma família reunida à mesa, percebo que a distância entre pais e filhos nem sempre se mede em metros. Às vezes, cabe entre um prato de comida e uma tela de celular. O pai pensa que a filha não o escuta; ela, por sua vez, sente que ele não a compreende. E os dois, cada qual do seu jeito, têm lá suas razões. O fato é que as relações familiares mudaram. A autoridade já não se sustenta apenas na idade, na tradição ou no velho argumento de que os mais velhos sabem mais. Hoje, precisa ser conquistada também pelo diálogo, pela escuta e, sobretudo, pelo exemplo. Por isso, procuro compreender essas transformações sem jogar fora a sabedoria do passado nem condenar a juventude, aproximando duas fontes de reflexão que nem sempre caminham juntas: a ciência e a fé.

Com Jean Piaget, compreendo que o jovem não é um recipiente vazio à espera dos ensinamentos dos adultos, mas alguém que constrói o próprio conhecimento, confrontando o que já sabe com as experiências que a vida lhe apresenta. Carl Rogers, por outro caminho, também me ajuda a perceber que ninguém floresce sob a pressão constante: o desenvolvimento humano precisa de acolhimento, autenticidade e liberdade. Já Michel Serres, em Polegarzinha, retrata uma geração que carrega o conhecimento no bolso e, não raro, ensina aos próprios pais a lidar com as novidades do mundo. Mas, cá entre nós, informação não é sinônimo de sabedoria. A tela responde a quase tudo, mas nem sempre ensina a fazer as perguntas certas; oferece caminhos, mas não escolhe por nós a direção. É justamente aí que encontro uma reflexão interessante nas Escrituras: Jó 12:12 associa a sabedoria à experiência dos mais velhos, enquanto Jó 32:9 lembra que a idade, por si só, não garante discernimento. Portanto, não vejo a sabedoria como propriedade de uma geração, mas como conquista de quem conserva a humildade de aprender.

Na perspectiva bíblica, encontro uma responsabilidade que não pode ficar nas costas de apenas um dos lados. O quinto mandamento orienta os filhos a honrar pai e mãe (Êxodo 20:12), mas o apóstolo Paulo também adverte os pais a não irritarem os filhos, recomendando que os eduquem com disciplina e orientação (Efésios 6:4). Ou seja, a Bíblia não entrega aos adultos um cheque em branco para exercer autoridade sem limites. Em Lucas 2:46-51, vejo Jesus ainda adolescente no Templo, ouvindo, perguntando e demonstrando autonomia, sem que isso o impedisse de retornar a Nazaré e permanecer submisso aos pais. Mais adiante, em Lucas 15, encontro a figura daquele pai que permite ao filho partir, não o acorrenta à própria vontade, mas também não fecha a porta quando ele vai embora. Permanece à espera. Eis uma lição que considero preciosa: educar não é aprisionar, assim como respeitar não significa obedecer cegamente. Entre a liberdade e a responsabilidade existe um caminho que precisa ser construído a muitas mãos.

Por tudo isso, defendo uma parceria familiar, não um tribunal no qual pais e filhos disputam quem tem razão. Os adultos precisam aprender a escutar antes de julgar, reconhecer que também desconhecem muita coisa e, por que não, aceitar que os filhos podem ensiná-los a lidar com um mundo que já não é o mesmo de sua juventude. Isso não significa abrir mão da autoridade, mas compreender que ela ganha força quando nasce do exemplo, e não da imposição. Aos jovens, por sua vez, cabe entender que liberdade não é fazer tudo o que dá na telha: também exige responsabilidade, gratidão e reconhecimento daqueles que vieram antes e ajudaram a abrir os caminhos. Volto, então, àquela cozinha do começo. Não acredito que a solução esteja em arrancar o celular das mãos da filha, muito menos em o pai cruzar os braços e desistir da conversa. Talvez tudo comece com um gesto simples, mas danado de difícil: baixar a guarda e perguntar ao outro o que está vendo naquela tela. Afinal, entre a mesa e o celular, entre a experiência dos mais velhos e a curiosidade dos mais novos, ainda há espaço para o encontro. E é nesse espaço, feito de escuta, respeito e afeto, que uma família pode se reinventar sem precisar apagar sua própria história.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(18) O QUE CABE NO CORAÇÃO

 


Ensaio Teológico IX(18) O QUE CABE NO CORAÇÃO

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Conheci um casal que, depois de trinta anos de casamento, já não sabia viver o desejo sem culpa. Ele aprendera a temer o próprio corpo; ela, a desconfiar dos próprios sentimentos. Os dois haviam sido fiéis, mas estavam exaustos de carregar uma culpa que parecia não ter fim. Essa história me fez perceber que a sexualidade não deve ser tratada como inimiga da alma. Reconheço o valor da fidelidade, da castidade e do compromisso, pois os vínculos afetivos exigem cuidado e, quando rompidos, deixam feridas. Também levo a sério os ensinamentos de Paulo, que apresenta o amor como “elo perfeito” (Colossenses 3:14), mas nos lembra que “tudo é permitido, mas nem tudo convém” (1 Coríntios 10:23). Entendo, porém, que os limites precisam nascer do amor, não do medo, sem esquecer o chamado à prudência, ao acolhimento e à paciência (Mateus 7:1; Efésios 4:2).

Para compreender melhor essa complexidade, busco diálogo entre a ciência, a filosofia e a Escritura. Esther Perel, em Mating in Captivity (2006), mostra que o desejo vive entre a segurança e o mistério, enquanto Helen Fisher, em Why We Love (2004), ajuda a compreender a profundidade do amor romântico. Já Zygmunt Bauman, em Amor líquido (2003), chama a atenção para a fragilidade dos vínculos numa sociedade marcada pelo consumo e pela pressa. Também me inquieta a reflexão de Michel Foucault, em História da sexualidade I (1976), sobre o discurso sexual como instrumento de poder e controle. Essas contribuições não me levam a justificar qualquer comportamento, mas a reconhecer que o desejo é complexo e que ninguém escolhe simplesmente tudo o que sente. A responsabilidade começa justamente quando decidimos o que fazer com nossos sentimentos.

Há, entretanto, um princípio do qual não abro mão: o consentimento. Reconhecer o outro como sujeito, e não como instrumento de satisfação, é condição indispensável para qualquer relação humana. Mesmo admitindo que muitas normas morais são construídas socialmente, entendo que retirar do outro o direito de consentir não é uma simples diferença cultural: é violência. Nessa direção, encontro respaldo em John Gottman, cujos estudos destacam a amizade, o respeito e a comunicação como fundamentos dos relacionamentos duradouros, em vez da vigilância e do controle. Também valorizo a contribuição de Carol Gilligan, que amplia a compreensão da ética ao destacar o cuidado e a atenção às circunstâncias. Por isso, defendo uma educação sexual abrangente, fundamentada em evidências, que ensine sobre o corpo, o desejo, a fidelidade, os limites e o compromisso. Não quero uma educação que apenas mande obedecer, mas que ensine a pensar, escolher e respeitar.

Volto, então, àquele casal que, depois de três décadas de casamento, já não sabia desejar sem sentir culpa. Não precisava de uma sentença condenatória, tampouco de uma autorização para viver sem limites. Precisava compreender que o desejo é humano e que o amor exige cuidado, respeito e responsabilidade. É essa dimensão mais humana da tradição que desejo preservar: aquela que encontra no mandamento “amai-vos” não uma licença para tudo, mas um convite a cuidar uns dos outros. Não defendo liberdade sem compromisso, nem fidelidade sustentada pela vigilância. Defendo limites sem humilhação, moralidade sem medo e amor sem a obrigação de esconder o próprio corpo. Afinal, de que adianta preservar as regras de um relacionamento e perder a ternura de quem deveria vivê-lo? A sabedoria que busco começa quando conseguimos acolher o desejo sem abandonar a responsabilidade e compreender que, no coração, também cabe o cuidado com o outro.

Ensaio Teológico IX(17) O QUE O DESEJO NÃO CABE EM DIZER

 


Ensaio Teológico IX(17) O QUE O DESEJO NÃO CABE EM DIZER

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Quando tinha dezesseis anos, ouvi de um pregador que o corpo era um território inimigo e que a pureza dependia de vigiá-lo. Concordei com a cabeça, mas voltei para casa carregando uma culpa que só muitos anos depois aprendi a questionar. Hoje percebo que me ensinaram a temer o que sentia antes mesmo de me ensinar a compreender meus sentimentos. Afinal, a sexualidade não deve ser tratada como inimiga, tampouco como um território sem limites. Reconheço o valor da fidelidade, da castidade e do compromisso, porque os vínculos afetivos exigem cuidado e responsabilidade; quando rompidos, também deixam suas feridas. O que questiono, portanto, não é a preocupação moral, mas o uso do medo e da vergonha como instrumentos de educação. Uma coisa é ensinar limites; outra, bem diferente, é transformar o corpo numa fonte permanente de culpa.

Essa compreensão ganha outras dimensões quando recorro a Esther Perel, em Inteligência erótica, e a Lisa Diamond, em Sexual Fluidity, que ajudam a compreender a complexidade e os movimentos do desejo humano. David Eagleman, em Incógnito, mostra que nem tudo o que sentimos passa primeiro pelo crivo da consciência. Já Jack Brehm (1966), ao estudar a reatância psicológica, explica como a proibição pode intensificar justamente aquilo que se pretende evitar. Foucault, em História da sexualidade I, também me provoca a pensar em como o discurso sobre o sexo pode se transformar numa ferramenta de poder e controle. Não interpreto essas contribuições como uma defesa de que tudo é permitido ou de que todo desejo seja inofensivo. Pelo contrário, entendo que precisamos distinguir aquilo que sentimos daquilo que escolhemos fazer. É justamente aí que começa a responsabilidade moral.

Entre tantas questões, há um princípio do qual não abro mão: o consentimento. Reconhecer o outro como sujeito, e não como instrumento de satisfação, é condição básica de qualquer relação verdadeiramente humana. Mesmo admitindo, com Judith Butler e Yuval Noah Harari, que nossos valores sofrem a influência das construções sociais e culturais, não vejo nisso motivo para relativizar a dignidade humana. Pelo contrário, encontro respaldo nos estudos de John Gottman, que apontam a amizade, o respeito e a comunicação como fundamentos dos relacionamentos duradouros, em vez da vigilância e do controle. Por isso, defendo uma educação sexual abrangente, fundamentada em evidências, que ensine sobre o corpo, o desejo, a fidelidade, os limites e o compromisso. Quero uma educação que ensine a pensar, não apenas a obedecer; que fale de liberdade sem esconder suas responsabilidades e de moralidade sem fazer da vergonha uma ferramenta pedagógica.

Quando penso naquele rapaz de dezesseis anos, voltando para casa de cabeça baixa, percebo que ele não precisava de uma sentença, mas de orientação, acolhimento e alguém disposto a ouvi-lo. Precisava compreender que sentir é humano, mas que nossas escolhas também alcançam a vida do outro e, por isso mesmo, exigem responsabilidade. Hoje, não defendo uma liberdade sem cuidado, muito menos uma moralidade sustentada pelo medo. Entre o desejo sem limites e a culpa sem compreensão, existe um caminho mais humano: o da consciência, do respeito e da autonomia responsável. É nessa direção que caminho. Afinal, a sabedoria em que acredito não pretende apagar o desejo, mas ensinar a compreendê-lo; não quer aprisionar o corpo, mas lembrar que a liberdade de cada um precisa reconhecer a dignidade de quem caminha ao seu lado.

Ensaio Teológico IX(16) DA JANELA DA CASA À PORTA DO OUTRO

 


Ensaio Teológico IX(16) DA JANELA DA CASA À PORTA DO OUTRO

Por Claudeci Ferreira de Andrade


No capítulo sete de Provérbios, encontro um sábio que, da janela de sua casa, observa um jovem atravessando a rua ao entardecer. Essa cena sempre me faz pensar em quantos julgamentos morais nascem da segurança de quem olha a vida de longe, protegido pelas próprias grades. Reconheço a força pedagógica da oposição entre a Senhora Sabedoria e a mulher estranha, apresentada em Provérbios 9. Afinal, ensinar pelo contraste é um recurso legítimo da literatura sapiencial. O problema começa quando transformamos uma alegoria numa classificação de mulheres reais, como se a vida coubesse em duas portas. A própria Bíblia, aliás, contraria essa simplificação ao apresentar Tamar, considerada mais justa do que Judá (Gênesis 38), e Raabe, acolhida tanto na genealogia de Jesus (Mateus 1) quanto entre os exemplos de fé (Hebreus 11).

Essa inquietação também encontra respaldo em diferentes pensadores. Esther Perel, em Inteligência erótica (2006), revela os paradoxos do desejo; Lawrence Kohlberg (1981) compreende a maturidade ética como uma construção gradual; e Erik Erikson reconhece na juventude um período de experimentação e descoberta da própria identidade. Recorro ainda a Yuval Noah Harari, em Sapiens (2011), e a Judith Butler (1990), para refletir sobre como as narrativas sociais e as normas de gênero influenciam nossos julgamentos. Não podemos esquecer que Provérbios 1–9 nasceu numa sociedade patriarcal, na qual um pai aconselhava o filho. Por isso, considero indispensável olhar para o contexto histórico e perguntar: por que a mulher aparece tantas vezes como tentação, enquanto o homem parece escapar da responsabilidade pelo próprio desejo? Ora, se o desejo é humano, a responsabilidade também precisa ser.

Para aproximar essa discussão da vida real, imagino Marta, uma mulher de 34 anos que, ainda adolescente, ouviu num púlpito que certas moças eram “a mulher da Provérbios 7”. Ninguém quis saber de sua história, de onde vinha ou o que a levara àquela situação. A sentença, porém, ficou; duas décadas depois, ainda pesava sobre seus passos. É por isso que me identifico com Martha Nussbaum, em Love’s Knowledge (1990), ao defender que as narrativas nos ensinam a enxergar pessoas onde os julgamentos apressados só encontram rótulos. Essa compreensão também dialoga com os estudos de John Gottman, que destacam a amizade, o respeito e a comunicação como fundamentos dos relacionamentos duradouros. Afinal, consentimento, cuidado e diálogo não são meros caprichos modernos, mas condições indispensáveis para reconhecer o outro como sujeito, e não como objeto de condenação.

Não quero, com isso, abolir o juízo moral, mas questionar o moralismo que condena antes mesmo de ouvir. Reconheço que os antigos sábios temiam males concretos, como a exploração, a traição e a destruição dos lares; esse cuidado merece respeito. Entretanto, acredito na dignidade humana e na autonomia responsável. Criticar o moralismo também é assumir uma posição moral, e não fujo dessa responsabilidade. Prefiro uma sabedoria que não se contente em classificar pessoas entre duas portas, mas tenha coragem de atravessar a rua e conhecer quem está do outro lado. Quero descer da janela, abandonar a comodidade de quem apenas observa e me aproximar de quem carrega uma história que desconheço. Afinal, antes de perguntar quem é a mulher da narrativa, preciso perguntar quem ela é, o que viveu e o que farei com o poder que tenho de olhar e julgar. Porque, convenhamos, há uma distância enorme entre enxergar alguém pela janela e reconhecê-lo quando estamos frente a frente.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(15) A Culpa que Aprendemos a Carregar: Virtude, Tentação e a Necessidade de uma Ética Adulta

 


Ensaio Teológico IX(15) A Culpa que Aprendemos a Carregar: Virtude, Tentação e a Necessidade de uma Ética Adulta

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Aos dezesseis anos, numa tarde de sábado, ouvi de um líder de jovens que as moças da igreja deviam cobrir os ombros “para não fazer o irmão tropeçar”. Lembro-me até hoje da vergonha estampada no rosto de uma colega, que ajeitou a blusa como quem acabava de descobrir que seu próprio corpo era um perigo. E eu? Também fui vítima daquela lição torta, ensinado a me enxergar como um sujeito incapaz de controlar os próprios desejos. Naquela tarde, ela virou tentação, e eu, uma presa indefesa. Ninguém pareceu se lembrar de que, antes de sermos homens e mulheres, éramos duas pessoas aprendendo a viver. É por isso que volto àquela cena: quero entender como uma moral que se apresenta como virtuosa pode fabricar culpados em vez de formar consciências responsáveis.

Não ignoro a sabedoria presente na tradição cristã. De José, em Gênesis 39, às advertências de Provérbios 7, reconheço que o desejo exige discernimento e que ninguém se torna virtuoso vivendo numa bolha. Mas também encontro em Tomás de Aquino, Agostinho e no Sermão da Montanha uma compreensão mais profunda da moral, voltada para o caráter, a liberdade e a responsabilidade interior. Minha crítica, portanto, não é à fé, mas à sua versão empobrecida, que troca o exame da própria consciência pela fiscalização do corpo alheio. Com Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), compreendo como a cultura ensina às mulheres o lugar que devem ocupar; com Jonathan Haidt, em The Righteous Mind (2012), percebo como a moral pode unir um grupo e, ao mesmo tempo, cegá-lo para as consequências de suas regras. Afinal, de que adianta preservar a imagem de pureza de uma comunidade se, nessa tentativa, a dignidade de seus próprios membros fica pelo caminho?

Para mim, o caminho não está em trocar a repressão pela permissividade, mas em substituir o medo pela responsabilidade compartilhada. Inspirado no princípio apresentado por Peter Singer em “Famine, Affluence, and Morality” (1972), entendo que devemos agir para evitar o mal quando isso não exige sacrificar algo de importância moral comparável. Essa reflexão me leva a mudar a pergunta: em vez de pensar apenas em como me proteger da tentação, preciso considerar o que posso fazer pelo outro e com o outro. É aí que entra uma educação afetiva e sexual honesta, sem terrorismo moral nem vergonha do próprio corpo, capaz de ensinar rapazes e moças a reconhecer o desejo, respeitar os limites, compreender o consentimento e praticar o cuidado. Desejo não é sentença, corpo não é armadilha e ninguém deve carregar sozinho uma culpa que precisa ser examinada à luz da própria conduta.

Não quero jogar a virtude pela janela; quero devolvê-la ao lugar de onde nunca deveria ter saído: o caráter. Uma pessoa virtuosa não é aquela que vive fugindo de todas as ocasiões de falhar, mas aquela que aprende, pela escolha e pela prática, a agir de modo que os outros possam confiar nela. Volto, então, àquela sala de sábado e imagino como tudo poderia ter sido diferente se alguém tivesse ensinado àqueles dois adolescentes que cada um era responsável pelas próprias escolhas e pelo respeito devido ao outro. Minha colega teria ajeitado a blusa por conforto, não por vergonha, e eu teria saído dali sabendo que meus desejos não anulavam minha capacidade de decidir. Parece pouca coisa, véi, mas é justamente aí que mora a diferença entre uma moral que aprisiona e uma ética que amadurece. A fé não precisa de mulheres envergonhadas nem de homens tratados como reféns dos próprios impulsos. Precisa de gente capaz de pensar, escolher e responder pelo que faz. Uma moral assim não enfraquece a fé; tira-lhe as muletas do medo e a ajuda a caminhar com as próprias pernas.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(14) Entre a Senhora Sabedoria e a Dona Loucura: Quem Escolhe, Afinal?

 


Ensaio Teológico IX(14) Entre a Senhora Sabedoria e a Dona Loucura: Quem Escolhe, Afinal?

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Quando reflito sobre a diferença entre sabedoria e loucura, percebo que, na vida real, a fronteira entre as duas nem sempre é tão nítida quanto parece. Em Provérbios 9:1-6, a Senhora Sabedoria prepara sua casa e convida para o banquete, enquanto a Dona Loucura, descrita em Provérbios 9:13, também chama quem passa. Ora, se ambas fazem seus convites, cabe a nós discernir o que cada uma tem a oferecer. O problema é que, durante séculos, interpretações religiosas e literárias transformaram essas figuras em modelos para julgar mulheres, como se a virtude tivesse rosto feminino e a insensatez também. A meu ver, essa leitura desvia o sentido da alegoria: sabedoria e loucura não são questões de gênero, mas escolhas humanas.

Ao aprofundar essa reflexão, encontro em Daniel Kahneman, na obra Rápido e devagar (2011), um alerta sobre nossa confiança excessiva nos próprios julgamentos. Afinal, quem nunca tomou uma decisão acreditando estar com a razão e, mais tarde, percebeu que se enganara? Alain de Botton também me leva a pensar que, às vezes, aquilo que chamamos de prudência não passa de medo bem-vestido, uma cautela que nos impede de viver. Lembro-me de Abraão, que partiu sem saber aonde chegaria, da parábola dos talentos, em Mateus 25, e da “loucura da cruz”, mencionada por Paulo em 1 Coríntios 1. Essas passagens me fazem desconfiar das respostas fáceis: nem toda ousadia é insensatez, assim como nem toda cautela é sabedoria. Isso não significa, porém, que devamos agir sem pensar; significa apenas que precisamos olhar além das aparências e avaliar o preço de nossas escolhas.

Mas há outra questão que não dá pra deixar de lado: será que todos escolhem com a mesma liberdade? Ao ler Pierre Bourdieu, em A Distinção (1979) e A Dominação Masculina (1998), compreendo melhor como nossas decisões são influenciadas pela classe social, pelos hábitos e pelas estruturas em que vivemos. Convenhamos, quem encontra a mesa posta tem mais possibilidades do que quem luta diariamente para conseguir o alimento. Por isso, considero injusto atribuir todo fracasso à falta de juízo ou de esforço individual, como se as condições de partida fossem iguais para todos. Nesse ponto, encontro em Paulo Freire uma contribuição fundamental: a educação crítica nos ajuda a ler o mundo, questionar aquilo que parece natural e reconhecer que podemos transformá-lo. É no diálogo, na convivência e até nos tropeços que aprendemos a escolher melhor, sem imaginar que alguém se torna sábio sozinho.

Chego, assim, a uma conclusão que me provoca mais perguntas do que certezas. Hoje, já não me basta saber quem é sábio ou louco; quero compreender quem nos ensinou a escolher, quais condições tivemos para aprender e quem caminha conosco nessas decisões. A Senhora Sabedoria constrói sua casa e prepara a mesa, mas, para mim, não basta admirar o banquete: é preciso abrir a porta e garantir que pessoas de diferentes gêneros e condições sociais também possam se sentar, participar e dizer o que pensam. Afinal, discernir não é apenas escolher um caminho e seguir adiante; é reconhecer os próprios limites, assumir as consequências dos atos e considerar a realidade de quem caminha ao nosso lado. No fim das contas, talvez a verdadeira sabedoria comece quando deixamos de apontar o dedo para os supostos loucos e temos a coragem de examinar nossas próprias escolhas.