"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

domingo, 18 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(30) A Sabedoria Divina e a Evolução da Nossa Compreensão

 


Ensaio Teológico VIII(30) A Sabedoria Divina e a Evolução da Nossa Compreensão

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Houve um tempo em que eu acreditava que duvidar era uma espécie de traição. Aprendi cedo que a fé devia ser guardada inteira, como uma herança sagrada, e que fazer perguntas demais era mexer onde não se devia. Mas, a vida, ah, a vida nem sempre respeita as cercas que levantamos ao redor das nossas certezas! Quando as perguntas chegaram, não pediram licença nem bateram à porta. Vieram, remexeram o que parecia intocável e me obrigaram a rever muita coisa. No caminho, perdi o conforto de algumas respostas prontas e até a companhia de quem não suportava me ver questionando aquilo que, para essa gente, não admitia discussão. Foi nessa travessia que comecei a desconfiar do próprio título deste ensaio: falar em "sabedoria divina em evolução" pode dar a entender que Deus aprende, muda de opinião ou aperfeiçoa aquilo que antes não sabia. Não é isso que defendo. A tradição cristã afirma a constância divina, a ideia de um Deus que não muda como as sombras. O que evolui, na verdade, é a minha compreensão a respeito dele. A sabedoria divina é o horizonte; meu entendimento, a caminhada. E, convenhamos, confundir uma coisa com a outra é como imaginar que o horizonte se desloca porque nossos pés continuam andando.

Poucos expressaram os limites do conhecimento humano com tanta franqueza quanto Paulo: "agora vemos por espelho, em enigma [...] agora conheço em parte" (1 Coríntios 13:12). Repare bem: não estamos diante de um cético de gabinete, mas de um apóstolo cuja formação intelectual e religiosa marcou profundamente o cristianismo. Naquele tempo, os espelhos de metal polido não ofereciam a nitidez dos que conhecemos hoje; devolviam imagens imperfeitas, por vezes difíceis de distinguir. Paulo reconhecia que seu conhecimento era parcial e, ainda assim, não desistia de buscar. Eis uma lição que merece ser levada a sério: reconhecer os limites da própria compreensão não significa abandonar a fé, mas admitir que ainda há muito a aprender. A história da interpretação bíblica também nos oferece exemplos dessa realidade. Durante séculos, passagens como o Salmo 104:5, que fala da terra firmada em seus fundamentos, foram interpretadas por alguns como evidência de que nosso planeta permaneceria imóvel. Com o desenvolvimento da astronomia, porém, tornou-se necessário rever determinadas leituras. O texto bíblico permaneceu; o entendimento humano é que precisou mudar. Lembro, nesse contexto, de uma sentença atribuída a Gregório Magno, segundo a qual a Escritura cresce com quem a lê. Não tomo essa ideia como licença para fazer o texto dizer qualquer coisa, conforme a conveniência de cada época, mas como um convite a reconhecer que a compreensão amadurece, que o contexto importa e que cada geração pode descobrir aspectos antes despercebidos. Afinal, uma coisa é respeitar as Escrituras; outra, bem diferente, é imaginar que nossa interpretação delas já nasceu pronta, acabada e imune a qualquer revisão.

Resta, contudo, uma tensão que não quero esconder debaixo do tapete. Hebreus 4:12 afirma que a palavra de Deus é "viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes". Ora, se essa palavra possui tamanha força, que lugar haveria para a dúvida? Acredito que uma pista esteja na própria continuação do texto, que afirma que ela discerne "os pensamentos e intenções do coração". A imagem da espada, portanto, não precisa ser entendida como uma arma destinada a impedir perguntas, mas como uma lâmina que alcança o íntimo de quem se coloca diante dela. Em vez de cortar a investigação, a palavra pode cortar minhas ilusões, minhas justificativas convenientes e aquela mania tão humana de confundir convicção pessoal com verdade absoluta. Nesse sentido, uma palavra viva não é apenas aquela que eu leio; é também aquela que me interroga, me confronta e não me deixa sair da leitura exatamente como entrei. Não pretendo, com isso, dissolver todas as tensões entre fé e dúvida. Respeito quem teme que questionamentos sucessivos acabem enfraquecendo suas convicções, pois esse receio pode nascer de um desejo sincero de preservar aquilo que considera sagrado. Mas, há uma diferença importante entre duvidar para fugir e duvidar para compreender. A primeira usa a pergunta como desculpa para abandonar a busca; a segunda permanece diante dela, mesmo quando a resposta demora a chegar. E é nessa permanência, nesse desconforto de quem não se satisfaz com qualquer explicação, que encontro uma possibilidade de amadurecimento espiritual.

A ciência moderna, por sua vez, construiu parte importante de sua força sobre a disposição de questionar hipóteses, examinar evidências e corrigir os próprios erros. Albert Einstein é frequentemente lembrado por defender a importância de não abandonar o questionamento, enquanto Carl Sagan, em O Mundo Assombrado pelos Demônios, apresenta a ciência como "uma vela no escuro". Gosto dessa imagem porque ela nos devolve à medida das nossas limitações. Quem investiga o cosmos e quem se recolhe em oração diante do mistério podem estar em caminhos diferentes, com métodos e objetivos distintos, mas ambos se deparam com algo que ultrapassa suas certezas imediatas. É como segurar uma pequena chama diante de uma noite imensa: a luz revela alguma coisa, permite enxergar alguns passos, mas não elimina a vastidão do que permanece oculto. A humildade começa, talvez, quando reconheço que minha chama ilumina apenas uma parte do caminho e que, além dela, ainda existe muito a descobrir. Não preciso apagar a luz para admitir a escuridão, nem fingir que iluminei tudo só porque consegui enxergar alguns metros à frente.

Concluo, então, não com uma exigência, mas com um convite à reflexão. Se minha compreensão é parcial, como reconheceu Paulo, talvez o gesto mais fiel não seja agarrar-me desesperadamente às respostas que recebi na infância, mas continuar olhando, examinando e aprendendo. Isso não significa transformar a dúvida em dona da verdade, assim como não significa fazer da fé uma licença para ignorar perguntas legítimas. Significa aceitar que posso rever minhas interpretações sem, necessariamente, abandonar aquilo que considero essencial. Hoje compreendo que a expressão "sabedoria divina em evolução" só faz sentido, para mim, quando se refere ao amadurecimento da compreensão humana diante do divino, e não a uma suposta transformação do próprio Deus. Afinal, o horizonte não precisa mudar para que eu enxergue mais longe; sou eu que preciso caminhar, abrir os olhos e reconhecer os limites da minha visão. E, se há algo que essa jornada me ensinou, é que Deus não se assusta com perguntas. Quem se assusta, muitas vezes, sou eu, temendo perder as certezas que me deram abrigo durante tanto tempo. Ainda assim, prefiro continuar a caminhada: com a fé que me inspira, a dúvida que me examina e a humildade de quem sabe que a própria vela, por mais necessária que seja, jamais iluminará a noite inteira.

Ensaio Teológico VIII(29) O Mar, a Ciência e o Assombro: Dois Caminhos em Busca da Verdade

 


Ensaio Teológico VIII(29) O Mar, a Ciência e o Assombro: Dois Caminhos em Busca da Verdade

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Lembro-me de uma tarde à beira-mar, quando fiquei observando a maré recuar e deixar para trás uma pequena concha, vazia e ainda molhada. Peguei-a sem saber bem por quê. Era leve demais para o peso do sentimento que despertou em mim: a sensação de estar diante de algo imenso, antigo, que existia muito antes de mim e continuaria existindo sem se importar com a minha pressa de compreender o mundo. Desde então, carrego comigo duas perguntas que, durante muito tempo, julguei inimigas: de onde vem tudo isto? e por que isto me comove? O salmista expressou seu assombro ao exclamar: "Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras!" (Salmo 104:24). Já o geólogo, diante do mesmo mar, talvez faça outra pergunta: como tudo isso se formou? Ora, por que não ouvir as duas vozes? Convido o leitor a caminhar comigo por essas duas trilhas, sem exigir que uma silencie a outra.

A ciência nos conta uma história que, por si só, tem algo de épico. Nos primórdios da Terra, quando o planeta ainda era extremamente quente e parte de sua superfície permanecia fundida, a atividade vulcânica liberava vapor de água. À medida que a superfície esfriou, esse vapor pôde se condensar, dando origem a chuvas que, ao longo de períodos imensos, contribuíram para a formação dos primeiros reservatórios de água líquida. Os antigos zircões encontrados em Jack Hills, na Austrália, fornecem indícios de que já havia água líquida na superfície terrestre há cerca de 4,4 bilhões de anos. Mas a história não termina aí. Parte da água também pode ter chegado por meio de materiais vindos do espaço. Meteoritos ricos em minerais hidratados, especialmente os condritos carbonáceos, apresentam características isotópicas do hidrogênio semelhantes às encontradas nos oceanos, sugerindo que asteroides contribuíram para abastecê-los. Quanto aos cometas, seu papel continua sendo investigado e debatido. E, veja só, há beleza nisso: a ciência não perde sua grandeza por ainda ter perguntas sem respostas; pelo contrário, é justamente essa disposição para investigar que a mantém viva. Mais tarde, a dinâmica das placas tectônicas passou a desempenhar um papel fundamental na configuração dos continentes e oceanos. A fragmentação da Pangeia, iniciada há cerca de 200 milhões de anos, contribuiu para a abertura do Atlântico, enquanto a formação de crosta nas dorsais oceânicas e seu afundamento nas zonas de subducção continuam remodelando o planeta. Os oceanos, portanto, não são apenas heranças de um passado remoto: são parte de uma história geológica que continua acontecendo debaixo dos nossos pés — e, sobretudo, debaixo das águas.

Se a geologia procura explicar como os oceanos se formaram, a teologia se aventura por outra pergunta: o que significa existirem oceanos e existirmos nós, seres humanos, capazes de contemplá-los e nos maravilhar com sua grandeza? O paleontólogo e historiador da ciência Stephen Jay Gould propôs a ideia de que ciência e religião pertencem a "magistérios" distintos, cada qual com seu campo de atuação. Essa proposta é debatida, naturalmente, mas oferece uma reflexão interessante sobre os limites e as possibilidades do diálogo entre essas duas formas de compreender a realidade. Em 1615, Galileu Galilei recorreu a uma fórmula tradicionalmente atribuída ao cardeal Cesare Baronio: a Bíblia ensina como se vai para o céu, não como o céu vai. Isso não significa, porém, que as Escrituras deixem de falar sobre a natureza. Basta lembrar Jó 38, quando Deus pergunta quem encerrou o mar com portas e estabeleceu limites para suas ondas. Não leio essa passagem como um tratado de geologia, mas como uma linguagem poética que expressa espanto diante de uma realidade que ultrapassa o domínio humano. Para mim, não é necessário transformar a Bíblia num manual científico, nem exigir que a ciência responda a todas as perguntas sobre o sentido da existência. São maneiras distintas de olhar para o mundo. Enquanto a geologia explica a transformação das costas por meio de processos como erosão e sedimentação, a poesia bíblica dá voz ao sentimento de quem contempla o limite das águas e reconhece que não é o autor de tudo aquilo que existe. Uma perspectiva investiga os mecanismos; a outra convida à reflexão sobre o significado. E o diálogo entre ambas pode ser mais fecundo quando nenhuma pretende ocupar, à força, o lugar da outra.

Mas, a admiração, por mais bonita que seja, precisa produzir consequências. De que adianta contemplar a imensidão do mar, falar de sua beleza e reconhecer sua importância se, na prática, não nos preocupamos com sua preservação? Os oceanos participam da produção de grande parte do oxigênio gerado pela atividade fotossintética na Terra, ajudam a regular o clima e abrigam uma biodiversidade cuja complexidade ainda estamos longe de conhecer por completo. Diante disso, a pesquisa oceanográfica e a conservação marinha tornam-se, a meu ver, pontos de encontro entre o conhecimento científico, a responsabilidade ética e a fé daqueles que reconhecem valor na criação. Cuidar dos oceanos não é apenas uma questão de interesse ambiental; é também um compromisso com a vida e com as gerações que virão. Volto, então, àquela pequena concha que recolhi na areia. Hoje compreendo que posso investigar sua composição, conhecer os processos que lhe deram forma e estudar os caminhos pelos quais o mar a trouxe até meus pés e, ainda assim, continuar maravilhado. Saber como algo acontece não elimina o encanto de sua existência. Pelo contrário, às vezes, o conhecimento amplia o assombro, como quem abre uma janela e descobre que o horizonte é ainda maior do que imaginava. Encerro com as palavras do Salmo 111:2, segundo as quais as obras do Senhor são "procuradas por todos os que nelas se comprazem". Repare bem: são procuradas, não apenas aceitas sem reflexão. Que eu continue, portanto, a procurá-las com o rigor da ciência e a sensibilidade da oração, sem abandonar a humildade de quem sabe que ainda há muito a aprender. E que, nessa caminhada, eu nunca me esqueça de cuidar do mar — essa imensidão de águas que, mesmo sem pronunciar palavra alguma, continua me ensinando a perguntar.

Ensaio Teológico VIII(28) A Sabedoria que Nasce entre a Fé e a Dúvida

 


Ensaio Teológico VIII(28) A Sabedoria que Nasce entre a Fé e a Dúvida

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Lembro-me de uma pergunta que fiz ainda menino, durante um velório, e que ninguém soube responder. Não era rebeldia, muito menos provocação; era apenas uma pergunta sincera, dessas que nascem quando a gente se depara com os mistérios da vida e da morte: por quê? O silêncio que veio depois me ensinou mais do que muitas respostas prontas. Desde então, desconfio das certezas que nunca passaram pelo fogo da dúvida. Penso naquela máxima atribuída a Leonardo da Vinci, segundo a qual a sabedoria é filha da experiência. Afinal, não a recebo como herança, tampouco a decoro como uma lição escolar. Ela vai nascendo no contato demorado com a vida, no tropeço, no erro, nas perdas e, sobretudo, no tempo, esse professor que não costuma antecipar suas lições. Isso não significa excluir o divino dessa caminhada, mas reconhecer que até mesmo aquilo que consideramos revelação precisa ser vivido, refletido e compreendido.

É justamente aí que encontro uma tensão que um ensaio honesto não pode varrer para debaixo do tapete. Provérbios 1:7 afirma que "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria", enquanto 1 Tessalonicenses 5:21 nos orienta: "Examinai tudo. Retende o bem." À primeira vista, alguém poderia enxergar contradição entre reverenciar e questionar. Mas, será que existe mesmo? Para mim, a chave está na palavra princípio, entendida como começo e fundamento: o temor do Senhor representa o ponto de partida, não necessariamente a linha de chegada. Reverenciar, portanto, não é desligar a consciência nem entregar o pensamento de porteira fechada; é reconhecer que estamos diante de algo maior do que a nossa capacidade de compreender. Não por acaso, os cristãos de Bereia foram elogiados por examinar diariamente as Escrituras (Atos 17:11), e Provérbios 25:2 destaca a glória de esquadrinhar as coisas. Ora, se a própria tradição bíblica valoriza a investigação, por que transformar a dúvida em inimiga da fé? Reconheço que essa tensão não desaparece por completo — e talvez nem deva. Afinal, uma fé que nunca foi questionada pode até parecer firme, mas será que sabe, de fato, do que é feita?

Dessa fricção entre fé e questionamento, passo à ciência, que vem desvendando mecanismos antes atribuídos exclusivamente ao mistério e, de quebra, ensinando-nos uma boa dose de humildade. Carl Sagan nos lembra da importância de exigir evidências proporcionais à grandeza de uma afirmação, enquanto Richard Feynman adverte que o primeiro princípio é não enganar a si mesmo, sendo nós mesmos as pessoas mais fáceis de enganar. Eis uma lição que serve tanto para o laboratório quanto para o púlpito, para a sala de aula e para a mesa de casa. Por isso, procuro verificar aquilo que cito antes de transformar uma frase bonita em argumento. A conhecida afirmação sobre a ilusão de conhecimento, frequentemente atribuída a Stephen Hawking, parece ter origem em Daniel Boorstin, historiador que merece ser lembrado pela autoria que lhe cabe. Afinal, citar sem conferir, num ensaio que defende o questionamento, seria tropeçar na própria contradição. Pelo mesmo cuidado, leio Romanos 1:20 como uma convicção teológica sobre a possibilidade de reconhecer o divino na criação, e não como uma demonstração experimental nos moldes científicos. Uma coisa não precisa vestir a roupa da outra para ter significado. A ciência não precisa provar Deus para cumprir seu papel, assim como a teologia não precisa se disfarçar de laboratório para refletir sobre a fé. Talvez parte da sabedoria consista justamente em discernir qual pergunta pertence a cada campo, sem confundir os métodos nem fechar as portas ao diálogo.

Concluo, portanto, que a sabedoria não brota exclusivamente dos textos sagrados, das pregações ou da erudição acumulada nos livros. Ela amadurece no encontro entre escuta e dúvida, instrução e experiência, reverência e autocrítica. Provérbios 18:15 fala de um coração que busca conhecimento, e quem busca, convenhamos, ainda não chegou ao fim da estrada. Talvez seja essa a beleza da sabedoria: menos uma medalha que se pendura no peito e mais uma caminhada que exige disposição para rever os próprios passos. Aquele menino do velório não encontrou resposta naquele dia, mas aprendeu algo que o tempo só fez aprofundar: não precisava ter medo da própria pergunta. Hoje, depois de tantas leituras, experiências e mudanças de perspectiva, continuo desconfiando das certezas que exigem silêncio e das respostas que proíbem a investigação. Se há uma lição que posso deixar, é esta: que minha fé tenha coragem de ser interrogada e que minha dúvida tenha a decência de reconhecer seus limites. Porque, entre uma e outra, sem a arrogância de quem acredita saber tudo nem o orgulho de quem duvida de tudo, talvez seja justamente aí que a sabedoria encontre morada.

sábado, 17 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(26) Os Dois Livros e o Mesmo Autor

 


Ensaio Teológico VIII(26) Os Dois Livros e o Mesmo Autor

Por Claudeci Ferreira de Andrade

“O Senhor com sabedoria fundou a terra; preparou os céus com inteligência” (Pv 3,19). Quem já ergueu os olhos para um céu escuro, longe das luzes da cidade, sabe que esse versículo não é apenas doutrina: é o espanto humano diante da imensidão transformado em palavras. Os antigos, ao afirmarem que a criação nasceu da sabedoria, não pretendiam fazer física; expressavam reverência diante de algo que os ultrapassava. Antes de qualquer explicação, havia o assombro. E foi justamente esse sentimento, mais do que qualquer teoria, que atravessou os séculos e alimentou a busca humana pelo sentido da existência.

Entretanto, quando o assunto é fé e ciência, parece que muita gente insiste em colocar uma contra a outra. Há quem enxergue na tradição religiosa um obstáculo ao conhecimento, assim como há quem veja nas descobertas científicas uma ameaça à fé. Confesso que já me irritei com os dois lados. Com o tempo, porém, fui percebendo que a irritação é péssima conselheira: em vez de esclarecer, levanta muros; em vez de aproximar, afasta. E tem mais: quando critico aqueles que defendem a fé com rigidez, corro o risco de repetir o mesmo comportamento que condeno, julgando antes de escutar. Ora, se a verdade merece ser procurada, não seria mais sensato começar pelas perguntas, em vez de erguer trincheiras? Prefiro, portanto, investigar como a própria tradição cristã, ao longo de sua história, interpretou as Escrituras e lidou com o conhecimento da natureza.

A resposta pode surpreender quem imagina que o literalismo estrito sempre foi a única maneira cristã de ler a Bíblia. Agostinho de Hipona, em De Genesi ad litteram, advertiu que seria vergonhoso um cristão falar de fenômenos naturais de maneira tão absurda que os não cristãos, ao ouvi-lo, não conseguissem conter o riso. Basílio de Cesareia, em suas homilias sobre o Hexaêmeron, também refletiu sobre a criação à luz dos conhecimentos disponíveis em seu tempo. Essa postura revela algo importante: a tradição cristã não foi, em toda a sua história, uniforme na interpretação dos textos bíblicos. Nela também encontramos a imagem dos “dois livros”: o da Escritura e o da natureza, ambos compreendidos como obras do mesmo Criador. Galileu Galilei retomou essa perspectiva ao defender a distinção entre a finalidade espiritual das Escrituras e a investigação dos fenômenos naturais, sintetizada na conhecida ideia de que a Bíblia ensina como se vai ao céu, não como vai o céu. Não se trata, portanto, de inventar uma conciliação moderna para acomodar a religião à ciência, mas de reconhecer uma vertente antiga do próprio pensamento cristão: a busca pela verdade não precisa transformar o conhecimento em inimigo da fé.

É por isso que não vejo a ciência como rival da espiritualidade. O fato de a vida ter se diversificado ao longo de bilhões de anos, conforme explica a teoria da evolução, sustentada por um vasto conjunto de evidências científicas, não precisa diminuir o mistério da existência. Para mim, pode até aprofundá-lo. Basta pensar numa célula que se divide, numa semente que rompe a terra ou numa estrela cuja luz atravessa distâncias inimagináveis antes de alcançar nossos olhos. Há tanta complexidade nesses processos que a ignorância, quando reconhecida com honestidade, pode se transformar em convite à investigação. E é nesse ponto que me recordo das palavras de Paulo, ao afirmar que, desde a criação do mundo, os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, “têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas” (Rm 1,20). O apóstolo não estava falando de laboratórios, telescópios ou teorias científicas modernas. Ainda assim, suas palavras permitem uma reflexão pertinente: se a criação pode revelar algo sobre seu Criador, investigar a natureza também pode ser uma maneira de contemplar a grandeza daquilo que existe. Para quem crê, observar não precisa ser o contrário de reverenciar; pode ser outra forma de fazê-lo.

No fim das contas, tanto o crente quanto o cientista precisam de uma virtude que nem sempre recebe o devido valor: a humildade. O primeiro reconhece que o mistério o ultrapassa; o segundo compreende que cada descoberta abre caminho para novas perguntas. Evidentemente, fé e ciência não são a mesma coisa, nem respondem necessariamente às mesmas questões. A ciência investiga fenômenos naturais por meio de observações, evidências e métodos verificáveis; a fé procura, entre outras coisas, sentido, propósito e uma relação com o transcendente. Quando cada uma respeita seus limites, o diálogo se torna possível, sem que uma precise usurpar o lugar da outra. Afinal, ninguém segura a verdade inteira nas mãos, por mais que goste de falar como se fosse seu único proprietário. Talvez a síntese que procuro não esteja numa fórmula capaz de resolver todas as controvérsias, mas numa postura diante da vida: ler o livro da Escritura com reverência, o livro da natureza com os olhos bem abertos e a consciência disposta a aprender. E jamais esquecer que, para quem acredita, ambos remetem ao mesmo Autor. Porque, se a fé nos ensina a contemplar, a ciência nos convida a investigar; e, quando há humildade nas duas caminhadas, até as perguntas podem se tornar pontes entre aquilo em que acreditamos e aquilo que ainda precisamos compreender.

Ensaio Teológico VIII(25) A Sabedoria que Caminha Conosco

 


Ensaio Teológico VIII(25) A Sabedoria que Caminha Conosco

Por Claudeci Ferreira de Andrade

“Antes das colinas, eu nasci” (Pv 8,25). Poucas frases das Escrituras carregam tanta antiguidade em tão poucas palavras. Quem as lê tem a impressão de que o tempo recua até um ponto em que nem sequer a terra existia. Não é de admirar, portanto, que a tradição cristã tenha reconhecido nessas palavras um sinal da eternidade. Essa leitura não nasceu do nada: traz consigo séculos de oração, debates teológicos e até martírios. Por isso, antes de questioná-la, é preciso escutá-la com respeito e reconhecer o peso de sua história.

Escuto essa tradição, mas uma pergunta continua me cutucando por dentro: o que significa, para um poeta hebreu, dizer que a Sabedoria é mais antiga que as colinas? Talvez não se trate de estabelecer a idade de um ser, mas de afirmar que a ordem do mundo não é fruto do acaso. Para o povo bíblico, as colinas representavam permanência, algo que parecia resistir ao próprio tempo. Ao colocá-las diante de uma Sabedoria anterior a elas, o poeta nos convida a olhar além daquilo que os olhos alcançam. O versículo, portanto, não pede uma refutação apressada, mas uma interpretação cuidadosa. Afinal, hokmah, palavra hebraica para sabedoria, é um substantivo feminino. Na literatura sapiencial, ela ganha voz nas praças, oferece banquetes e aparece como uma criança que brinca diante do Criador. Eis a personificação, um recurso literário que dá vida a ideias abstratas e permite que o pensamento se transforme em imagem. Isso, por si só, não constitui uma biografia cósmica; é, antes, uma maneira poética de falar da presença da Sabedoria na criação e na experiência humana.

Mas, a conversa não termina em Provérbios. Em Colossenses 2,3, Paulo afirma que em Cristo “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento”, enquanto o prólogo do Evangelho de João apresenta o Logos como agente da criação. Os Padres da Igreja aproximaram essas passagens e reconheceram na Sabedoria um prenúncio do Filho. Mais tarde, o Concílio de Niceia, em 325, deu forma doutrinal a uma convicção fundamental da fé cristã: o Filho é gerado, não criado. Confesso que é justamente nesse ponto que meu primeiro rascunho tropeçava. Reduzir Cristo a um “arquétipo de valores universais” pode até parecer uma saída elegante, mas é uma simplificação que deixa de lado aquilo que o cristianismo historicamente afirma sobre sua identidade. Ora, se quero dialogar honestamente com essa tradição, preciso encará-la de frente, sem contornar suas convicções para tornar mais confortável o meu próprio argumento. Para a fé cristã, a Sabedoria não é apenas um ideal a perseguir, uma virtude a cultivar ou um conceito a compreender: é Alguém que se encontra.

E, ainda assim, há uma verdade que me parece inegociável: a sabedoria, em nós, também cresce. Ninguém nasce sabendo viver, muito menos recebe pronta a capacidade de compreender os próprios erros. Lembro-me de uma falha minha, dessas que só mostram o tamanho do estrago depois que a poeira baixa. Insisti em ter certeza, quis sustentar minha razão e acabei perdendo alguém que era importante para mim. Doeu, claro! Mas foi justamente daquela experiência que tirei uma lição que muitos livros, sozinhos, não teriam conseguido me ensinar. A sabedoria que hoje reconheço em mim também nasceu do tombo, da escuta que chegou tarde e do arrependimento que me obrigou a olhar para dentro. Nesse sentido, Sócrates, ao reconhecer os limites do próprio saber — formulação que resume a tradição platônica, embora não seja uma citação literal —, toca numa verdade que o próprio livro de Provérbios anuncia: “o princípio da sabedoria é o temor do Senhor” (Pv 9,10). Não se trata de alimentar o medo, mas de reconhecer os limites humanos diante daquilo que nos ultrapassa. A sabedoria começa quando a arrogância perde a voz e a humildade finalmente encontra espaço para falar.

Por isso, já não vejo necessidade de escolher entre uma Sabedoria anterior às colinas e outra que caminha conosco. Posso reconhecer, de um lado, a interpretação teológica que contempla a Sabedoria como realidade eterna em Deus e, de outro, a experiência humana de quem aprende a viver entre acertos, tropeços e recomeços. Uma não precisa apagar a outra. Que a Sabedoria seja dom que vem do alto e, ao mesmo tempo, fruto que se colhe na terra, com suor, paciência e, não raro, algumas lágrimas. Talvez o mistério esteja justamente aí: aquilo que a fé contempla como eterno em Deus manifesta-se, em nossa existência, como caminho, aprendizado e transformação. Desconfio das respostas definitivas, sim, mas não desprezo as antigas. Quando ouvidas com atenção, elas ainda têm muito a nos ensinar — e, sobretudo, continuam capazes de nos fazer perguntas. Afinal, quem aprende a perguntar com humildade e reverência talvez já esteja, sem perceber, caminhando ao lado da Sabedoria.

Ensaio Teológico VIII(24) A Sabedoria que Brinca Diante do Mundo

 


Ensaio Teológico VIII(24) A Sabedoria que Brinca Diante do Mundo

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há textos que pedem para ser lidos de joelhos; outros, de olhos bem abertos. Provérbios 8 pede as duas coisas. Nesse capítulo, a Sabedoria toma a palavra e diz que o Senhor a possuiu “no princípio de seus caminhos”, antes das profundezas, antes das fontes carregadas de águas. Ela estava ao lado dele como mestre-de-obras, “brincando diante dele em todo tempo” (Pv 8,22-31). Convenhamos: quem passa os olhos por essa página sem sentir o chão se mover um pouquinho talvez ainda não tenha percebido a grandeza do que está lendo.

A tradição cristã, com razão, enxergou nesse texto algo que vai além da poesia. Os Padres da Igreja reconheceram na Sabedoria preexistente um prenúncio do Logos, e o prólogo do Evangelho de João, assim como o hino de Colossenses, parece ecoar essa mesma intuição: por meio dela, “todas as coisas foram feitas”. É uma leitura antiga, respeitável, sustentada por séculos de oração, reflexão e pensamento teológico. Não a desprezo; pelo contrário, aprendo com ela. Afinal, dialogar com a tradição não significa aceitar cada interpretação sem examiná-la, mas também não exige jogar fora o que gerações de pensadores construíram antes de nós.

Meu desconforto, porém, nasce de outro lugar. Quando lemos Provérbios como se o texto nos entregasse o registro de uma entidade separada, existente antes das águas, quase como quem consulta a certidão de nascimento de um ser cósmico, corremos o risco de exigir da poesia um serviço que ela nunca se propôs a prestar. O hebraico hokmah é um substantivo feminino, e o sábio de Israel transforma a Sabedoria numa voz que clama nas praças, convida para o banquete e brinca como uma criança. Estamos diante de uma personificação, recurso precioso da literatura sapiencial, que dá voz, rosto e movimento a uma realidade abstrata para torná-la compreensível à experiência humana. Agostinho, ao refletir sobre as Escrituras, chamava a atenção para a humildade de sua linguagem como expressão de misericórdia para com os pequenos. Por isso, convém citá-lo com o devido cuidado, indicando a obra e a passagem, em vez de me apoiar numa frase solta. A mesma prudência vale para a ideia de que a compreensão do mundo exige olhares diversos: Chomsky e tantos outros pensadores poderiam defendê-la à sua maneira, mas não seria honesto atribuir-lhes uma frase específica sem uma fonte que a confirme. A busca pela verdade também exige que saibamos distinguir aquilo em que acreditamos daquilo que podemos demonstrar.

E o que resta, então, da Sabedoria? Resta muito — talvez até mais do que imaginamos. Se não precisamos entendê-la como um ser solitário que existia antes do tempo, podemos reconhecê-la na própria marca de Deus impressa na textura do universo: na simetria de um floco de neve, na silenciosa precisão de uma célula que se divide, na gravidade que curva o espaço-tempo ao redor de uma estrela. Já me peguei diante de um céu aberto no interior, longe das luzes da cidade, contemplando aquela imensidão e sentindo que o universo não era apenas grande: era inteligível. Havia nele uma ordem que convidava à descoberta, como se cada estrela, cada silêncio e cada mistério me provocassem a olhar mais fundo. Foi nesse espanto que encontrei uma maneira de chamar essa experiência de Sabedoria. Não uma abstração suspensa acima do mundo, distante da vida e dos nossos sentidos, mas uma ordem generosa que se deixa investigar, embora nunca se entregue por inteiro.

É daí que nasce uma conclusão que me parece mais fiel tanto ao texto quanto à nossa condição humana. Não precisamos escolher entre a sabedoria que vem do alto e o conhecimento que se constrói aqui na terra. Quando o astrônomo mede a distância entre as estrelas, o biólogo observa a vida, o teólogo medita sobre o mistério e o poeta escuta aquilo que as palavras mal conseguem dizer, todos caminham, por trilhas diferentes, em busca de vestígios da mesma realidade. Isso não significa que ciência, teologia e poesia sejam a mesma coisa, nem que suas respostas possam ser avaliadas pelos mesmos critérios. Cada uma tem seus métodos, suas perguntas e seus limites. Ainda assim, todas podem nos ajudar a perceber que o mundo é maior do que aquilo que conseguimos apreender de imediato. O conhecimento humano, tecido de observação, reflexão e diálogo, não precisa ser inimigo da Sabedoria; pode ser um dos caminhos pelos quais nos aproximamos dela.

Se a Sabedoria brinca diante de Deus, como sugere a imagem poética de Provérbios, talvez também brinque, de certa forma, diante de nós. Está no enigma que desafia o cientista, na pergunta que inquieta o filósofo, na passagem bíblica que resiste às interpretações apressadas e no céu que nos devolve o silêncio quando pensamos ter encontrado todas as respostas. Ela nos convida a participar desse jogo sem transformar o mistério em superstição, mas também sem reduzir a existência àquilo que pode ser medido. Brincar de volta significa investigar com rigor, contemplar com reverência e reconhecer, com humildade, que aprender a medir o universo não é o mesmo que esgotar seu significado. Afinal, há uma sabedoria especial em descobrir cada vez mais sem perder a capacidade de se maravilhar.