"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(20) A Sabedoria de Reconhecer que Ainda Não Sei Tudo

 



Ensaio Teológico VIII(20) A Sabedoria de Reconhecer que Ainda Não Sei Tudo

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Procuro respostas desde cedo, quase sempre prontas, herdadas de outras pessoas, da família, da religião e das certezas que me ensinaram a carregar. Até que chega um dia em que elas já não bastam, e a gente precisa reaprender a perguntar. Paulo conhecia esse momento: deixou para trás as coisas de criança (1 Co 13:11), mas fez essa afirmação justamente num capítulo dedicado ao amor, no qual reconhece conhecer "em parte" (13:9) e ver "por espelho, em enigma" (13:12). Ora, se até Paulo reconhecia os limites do próprio conhecimento, quem sou eu para me imaginar dono da verdade? Hoje entendo que amadurecer não é chegar a todas as respostas, mas aprender a conviver com as perguntas que permanecem abertas e com aquilo que ainda não consigo enxergar por inteiro.

Em Provérbios, a sabedoria clama nas praças (1:20), aparece como companheira da criação (capítulo 8) e, no capítulo 9, põe a mesa e convida os que desejam aprender, em contraste com a Dona Loucura. Durante muito tempo, confesso, li essa representação com certa impaciência. Hoje, porém, percebo que hokmah, sophia e sabedoria são substantivos femininos e que essa personificação constitui um recurso poético, não uma tese sobre gênero. A linguagem dá rosto, voz e gestos àquilo que, de outro modo, talvez permanecesse abstrato demais para nossa compreensão. E há algo bonito nisso: a sabedoria pode ser representada como mulher que convida, mãe que aconselha ou mestra que questiona, sem se deixar aprisionar por nenhuma dessas imagens. No fim das contas, ela transborda qualquer figura que eu tente lhe dar.

Por isso, não abandono os antigos; prefiro trazê-los para a mesa e conversar com eles, sem lhes conceder a última palavra. Eclesiastes, Jó e Provérbios nasceram de experiências humanas profundas demais para fingir que a vida cabe em respostas simples. Neles encontro perguntas que atravessam gerações, inquietações que continuam batendo à nossa porta e verdades que, às vezes, precisam ser revisitadas à luz de novas experiências. Ao mesmo tempo, valorizo o método de investigação que os últimos séculos nos legaram. Karl Popper, em A Lógica da Pesquisa Científica, defende a importância de um conhecimento que possa ser submetido à crítica e corrigido diante de evidências contrárias. Vejo nessa postura uma humildade que também pode habitar uma tradição religiosa fiel à própria busca pela verdade. Afinal, investigar não precisa significar desprezar a fé, assim como crer não deveria exigir o abandono da razão. Para mim, investigação e reverência se encontram nessa disposição de admitir: "ainda não sei tudo".

Acredito, sobretudo, que ninguém se torna sábio sozinho. O ferro afia o ferro (Pv 27:17), os muitos conselheiros favorecem o êxito (15:22), Paulo Freire nos ensina que as pessoas se educam em comunhão, e Sócrates, na Apologia, associa a sabedoria ao reconhecimento dos próprios limites. Cada um, a seu modo, aponta para uma verdade que a vida confirma: precisamos do outro para enxergar aquilo que nossos olhos, sozinhos, não alcançam. Penso numa avó que discutia tudo com a neta à mesa da cozinha. Ela não lhe deixou respostas para todas as perguntas, mas algo talvez mais valioso: a coragem de perguntar, a disposição de escutar e a liberdade de pensar por conta própria. É essa herança que considero preciosa. Abraçar a complexidade, para mim, é aprender a questionar minhas crenças sem desprezá-las, rever minhas convicções sem sentir que perdi a identidade e escutar quem pensa diferente sem transformar a conversa numa disputa para ver quem vence. Afinal, reconhecer que não sabemos tudo não nos diminui; pelo contrário, abre espaço para aprender. E, mesmo quando a verdade se apresenta como enigma, quem caminha acompanhado pode enxergar mais longe, desde que não faça do outro um eco de si mesmo. No fim dessa jornada, continuo encontrando no amor — aquilo que Paulo chama de o maior de todos — não uma resposta para cada mistério, mas a disposição de seguir buscando sem perder a humanidade.

Ensaio Teológico VIII(19) A Sabedoria Vale Mais do que o Dinheiro?

 



Ensaio Teológico VIII(19) A Sabedoria Vale Mais do que o Dinheiro?

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Pergunto-me, numa sociedade que vive de olho no dinheiro, se existe algo que realmente valha mais do que ele. Para refletir sobre essa questão, volto a Provérbios 16:16, que prefere a sabedoria ao ouro. Mas, faço isso sem pressa e sem medo de questionar as interpretações que, de tão repetidas, acabam virando verdades incontestáveis. Afinal, o livro de Provérbios não despreza a riqueza: afirma que a bênção do Senhor enriquece (10:22), reconhece que os bens do rico são sua cidade forte (10:15) e apresenta a oração de Agur, que pede apenas o pão necessário para viver (30:8-9). Até Eclesiastes reconhece que a sabedoria e o dinheiro são "uma defesa" (7:12). Ora, diante disso, parece-me ingênuo transformar o versículo numa espécie de slogan, como se a questão fosse simplesmente escolher entre ser sábio ou ser rico. A vida, convenhamos, é bem mais complicada do que essa conta.

Desconfio, porém, que a própria sabedoria também tem seu preço, embora ele não venha estampado numa etiqueta. Em Os Herdeiros, Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron mostram como o capital cultural é transmitido no ambiente familiar, à mesa, nas conversas e até no vocabulário. Assim, aquilo que a escola muitas vezes consagra como mérito individual também carrega as marcas da origem social. Já Amartya Sen, em Desenvolvimento como Liberdade, compreende a pobreza como privação de capacidades e oportunidades concretas. Essas reflexões me levam a uma conclusão incômoda: pregar sabedoria a quem mal consegue sobreviver, sem lhe oferecer condições para estudar, refletir e ampliar seus horizontes, é uma forma elegante de crueldade. Afinal, como exigir que alguém cultive a mente quando a fome lhe ocupa os pensamentos? Não basta apontar o caminho; é preciso garantir que todos tenham condições de percorrê-lo.

Volto-me, então, a Eclesiastes, que declara tudo vaidade (1:2) e compara o esforço humano a correr atrás do vento (2:11), mas também recomenda desfrutar os frutos do próprio trabalho (2:24; 3:22). Vejo nisso uma contradição profundamente humana: trabalhamos para construir alguma coisa, deixar nossa marca no mundo e reconhecer algum sentido naquilo que fazemos, embora saibamos que nada disso dura para sempre. O problema, a meu ver, começa quando o trabalho deixa de ser parte da vida e passa a ocupar o lugar da própria vida. É por isso que rejeito a teologia da prosperidade, que transforma a riqueza em selo de aprovação divina e, não raro, faz da pobreza uma suspeita de fracasso espiritual. O livro de Jó já põe essa lógica em xeque, enquanto Jesus é direto ao afirmar que não se pode servir a Deus e a Mamom (Mt 6:24). E aqui cabe uma reflexão: quando tudo é medido pelo ganho, até os afetos passam a ser contabilizados. Os laços deixam de ser encontros entre pessoas e viram investimentos dos quais esperamos algum retorno.

Lembro-me, enfim, de um comerciante bem-sucedido que, diante de uma notícia ruim, não sabia para quem telefonar. Tinha dinheiro, negócios e, talvez, tudo aquilo que muita gente chama de sucesso, mas lhe faltava alguém com quem dividir o peso daquele momento. Penso também numa vizinha sem estudo formal que era a primeira a bater à porta quando o luto chegava a uma casa da rua. Não precisava de diploma nem de conta bancária recheada para oferecer presença, escuta e um ombro amigo. Diante dessas duas vidas, sei qual delas me parece mais rica, embora reconheça que essa comparação, por si só, não resolve todas as questões. Concluo, portanto, que a supremacia da sabedoria sobre o dinheiro continua merecendo discussão: ela não é neutra, não está igualmente ao alcance de todos e tampouco garante uma vida sem tropeços. Prefiro enxergá-la como um dos caminhos para uma existência plena, desde que esse caminho esteja aberto a todos, e não reservado a quem já nasceu com privilégios. No fim das contas, busco a verdadeira riqueza nos vínculos que não se negociam e na difícil arte de equilibrar aquilo que preciso ter com aquilo que desejo ser. Porque dinheiro pode comprar conforto, mas não necessariamente companhia; pode abrir portas, mas não ensina, sozinho, a acolher quem chega. E, nessa conta da vida, há valores que não cabem no bolso nem se medem pelo saldo bancário.

Ensaio Teológico VIII(18) A Sabedoria Garante o Sucesso?

 


Ensaio Teológico VIII(18) A Sabedoria Garante o Sucesso?

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Pergunto-me se a sabedoria garante o sucesso, já que Provérbios 4:7 a chama de "a coisa principal" e, há séculos, essa promessa vem sendo interpretada como uma espécie de contrato de honra e prosperidade. Antes de responder, porém, preciso definir de que sabedoria estou falando. Provérbios 9:10 enraíza-a no temor do Senhor, enquanto a tradição filosófica, desde a phronesis de Aristóteles, entende-a como a capacidade de julgar com lucidez, adaptar-se ao imprevisto e preservar os vínculos humanos. Ora, reduzi-la a um conjunto de "habilidades" até pode torná-la mais precisa, mas também lhe rouba um pouco da alma. Prefiro, portanto, deixar essas duas perspectivas conversarem, sem varrer para debaixo do tapete as diferenças que existem entre elas.

Na prática, entretanto, a promessa nem sempre se cumpre. Conheço gente de juízo admirável que passou a vida contando moedas, como aquela professora de aldeia que ensinou meia cidade a ler e, no fim da carreira, aposentou-se com quase nada. A própria Bíblia não esconde essa contradição. Eclesiastes 9:11 lembra que o pão não pertence necessariamente aos sábios, nem as riquezas aos prudentes. Paulo, em Filipenses 4:12, afirma estar "instruído" tanto para a fartura quanto para a fome. E aqui está o ponto: a sabedoria não o poupou das tempestades da vida, mas o ensinou a atravessá-las sem perder a si mesmo. Afinal, uma coisa é ter o controle das circunstâncias; outra, bem diferente, é aprender a não ser inteiramente dominado por elas.

O mesmo raciocínio vale para as nações. É tentador olhar para a riqueza de um povo e enxergá-la como um selo de aprovação do Céu, como se a prosperidade material fosse um certificado divino de virtude. Mas a realidade é mais complicada. Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Max Weber examina as relações entre crenças religiosas e comportamento econômico. Acemoglu e Robinson destacam o papel das instituições inclusivas; Diamond chama a atenção para a geografia e os recursos naturais; e Amartya Sen enfatiza a educação, a saúde e as liberdades concretas. Nenhum desses olhares elimina o valor da sabedoria, mas todos nos ajudam a perceber que ela atua num tabuleiro cujas regras nem sempre escolhemos. Por isso, atribuir tudo à fé ou tudo à razão é, no mínimo, uma forma preguiçosa de interpretar o mundo. Entre a bênção que se espera e a realidade que se enfrenta, há estruturas sociais, oportunidades desiguais e circunstâncias que não se resolvem apenas com boas intenções.

Também não espero que o sábio seja, necessariamente, feliz. A realização pessoal e espiritual é uma jornada intransferível, cheia de escolhas, renúncias e contradições. Até Salomão, que pediu sabedoria e recebeu riqueza e glória, terminou com o coração dividido. Eis uma ironia que merece nossa atenção: ter discernimento não significa estar livre dos próprios conflitos, assim como conhecer o caminho não garante que jamais nos percamos. Concluo, então, que a sabedoria não é moeda de troca, muito menos garantia de sucesso financeiro ou de felicidade permanente. Seu valor está na lucidez com que enfrentamos a fartura e a fome, nos vínculos que conseguimos preservar e na dignidade com que seguimos vivendo, mesmo quando a vida não nos devolve na mesma medida aquilo que oferecemos. Continuo a chamá-la de "a coisa principal", mas já não lhe cobro lucros como se ela fosse um investimento. Porque, pensando bem, talvez o gesto mais sábio seja justamente este: amá-la sem ficar esperando o troco.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(17) A DÚVIDA, A FÉ E A SABEDORIA: A CORAGEM DE PERGUNTAR

 


Ensaio Teológico VIII(17) A DÚVIDA, A FÉ E A SABEDORIA: A CORAGEM DE PERGUNTAR

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Tinha uns dez anos quando perguntei à professora da escola dominical como podíamos saber se aquilo que ela acabara de afirmar era mesmo verdade. Não era desafio, muito menos rebeldia; era curiosidade pura, dessas que brotam na cabeça da criança antes que alguém lhe ensine a ter medo de perguntar. A resposta, porém, não esclareceu minha dúvida: "Isso a gente não pergunta, a gente crê." Guardei aquela pergunta como quem guarda uma pedra no bolso: pequena, incômoda, mas impossível de ignorar. Agora, tantos anos depois, este ensaio é o momento de tirá-la dali e examiná-la à luz do dia. Desconfio de quem trata a dúvida como inimiga da fé, como se pensar fosse uma espécie de pecado e perguntar, uma afronta a Deus. Ora, Provérbios, livro que tantas vezes usamos como cartilha de obediência, também é um convite à busca. Diz que o Senhor dá a sabedoria (Pv 2:6), mas manda quem a recebe ir atrás dela (Pv 4:7). E vai além: afirma que a glória de Deus é encobrir as coisas, enquanto a dos reis é esquadrinhá-las (Pv 25:2). Veja só que ironia bonita! Se há um Deus que esconde, há também um ser humano chamado a procurar. Talvez a fé não comece quando todas as perguntas se calam, mas quando encontramos coragem para fazê-las.

Preciso, contudo, corrigir minha própria desconfiança. Seria preguiça intelectual colocar "dogma", "credo" e "tradição" no mesmo saco, jogar tudo fora e declarar que nada disso tem valor. Afinal, a preguiça de pensar também pode se disfarçar de liberdade, assim como o dogmatismo pode vestir tanto a roupa da religião quanto a da razão. Entendo o dogma como uma doutrina que determinada comunidade considera fundamental, depois de um longo percurso de reflexão e debate. Já o dogmatismo é outra conversa: é a recusa de olhar novamente, a certeza que se fecha numa redoma e se protege de qualquer evidência capaz de abalá-la. Um pode resultar de séculos de pensamento; o outro pode nascer numa sala de aula, num laboratório ou num púlpito. Ninguém está livre dessa armadilha, nem mesmo quem se orgulha de não acreditar em nada sem provas. Por isso, minha pergunta nunca foi simplesmente "fé ou razão?", como se uma precisasse expulsar a outra de casa. O que realmente me inquieta é outra coisa: o que acontece quando uma certeza se recusa a ser examinada? É nesse ponto que a convicção deixa de ser caminho e se transforma em prisão.

O caso de Galileu Galilei nos ajuda a compreender o tamanho desse perigo. Em 1633, ele foi condenado pela Inquisição romana por defender o heliocentrismo, segundo o qual a Terra gira em torno do Sol. O episódio expôs o conflito entre as observações astronômicas, as interpretações então predominantes de determinadas passagens bíblicas e a autoridade filosófica herdada da Antiguidade. A rigidez com que se sustentou a interpretação contrária acabou revelando a fragilidade de uma postura que não admitia rever suas certezas. Séculos depois, em 1992, o papa João Paulo II reconheceu os erros cometidos no tratamento dado a Galileu. Eis uma lição que não convém esquecer: quando a fé se agarra a uma interpretação humana como se ela fosse a própria revelação divina, corre o risco de ferir justamente aquilo que pretende defender. Mas, calma lá! A história não cabe numa fábula de heróis e vilões, como se a religião estivesse sempre de um lado e a ciência, invariavelmente do outro. Foi o padre Georges Lemaître quem formulou a hipótese do universo em expansão, e foi o frade Gregor Mendel quem estabeleceu bases fundamentais da genética por meio de seus experimentos com ervilhas. Portanto, a fronteira entre a abertura e o fechamento não passa simplesmente entre o templo e a universidade. Passa, sobretudo, por dentro de cada um de nós.

E o ceticismo? Ora, se queremos levar a sério o pensamento crítico, precisamos permitir que ele examine também as nossas próprias certezas. Carl Sagan, em O Mundo Assombrado pelos Demônios (1995), apresentou um "kit de detecção de falsidades", um conjunto de ferramentas para avaliar afirmações e reconhecer falhas de raciocínio. O princípio é simples, embora nem sempre fácil de praticar: submeter ao exame não apenas aquilo de que discordamos, mas também o que gostaríamos muito que fosse verdade. Karl Popper, por sua vez, desenvolveu a ideia de falseabilidade como critério para distinguir teorias científicas: uma teoria precisa admitir, ao menos em princípio, a possibilidade de ser contrariada por evidências. Isso não significa que toda afirmação não falseável seja automaticamente inútil em qualquer campo do conhecimento, mas que não podemos apresentar como científica uma explicação que não se dispõe a correr o risco de ser refutada. Curiosamente, encontro nas próprias Escrituras uma orientação que conversa com essa disposição crítica. Paulo aconselha: "examinai tudo, retende o bem" (1Ts 5:21). E os bereanos são elogiados por verificarem diariamente as Escrituras para conferir se o que ouviam correspondia à verdade (At 17:11). Perceba: não se trata de engolir tudo sem mastigar, mas de examinar antes de acolher. A própria tradição bíblica oferece, assim, elementos para questionarmos uma fé que exige obediência sem reflexão.

Volto, então, à professora da minha infância, mas já não volto com raiva. Talvez ela estivesse apenas protegendo aquilo que aprendera a considerar sagrado, repetindo uma resposta que também lhe haviam ensinado. Quem sabe eu mesmo, hoje, não faça algo parecido em algum canto da vida em que ainda não aprendi a duvidar? A gente costuma enxergar com facilidade as certezas alheias, mas, quando chega a hora de examinar as próprias, o negócio muda de figura. Não proponho trocar a Bíblia pelos cientistas, nem o laboratório pelo templo, muito menos transformar a dúvida em religião e o ceticismo em dogma. Proponho algo mais simples — e, justamente por isso, mais exigente: examinar tudo, inclusive aquilo que usamos para examinar o mundo. Ter fé não precisa significar fechar os olhos; pensar criticamente não exige fechar o coração. O problema não está em acreditar, mas em acreditar que já sabemos o suficiente para nunca mais precisar perguntar. Afinal, a sabedoria não exige que tenhamos todas as respostas. Exige disposição para procurar, humildade para reconhecer os próprios limites e coragem para rever o que julgávamos definitivo. Aquela criança de dez anos continua aqui, com a pergunta guardada no bolso. E talvez seja justamente por ainda não ter desistido dela que continuo aprendendo. Porque, no fim das contas, a sabedoria começa quando a certeza deixa de ter medo da pergunta.

Ensaio Teológico VIII(16) A SENHORA SABEDORIA E O PODER: QUANDO A JUSTIÇA FALA MAIS ALTO QUE O CREDO

 


Ensaio Teológico VIII(16) A SENHORA SABEDORIA E O PODER: QUANDO A JUSTIÇA FALA MAIS ALTO QUE O CREDO


Por Claudeci Ferreira de Andrade


Ouvi, num culto qualquer, um pregador dizer que só governa bem quem governa com a Bíblia na mão. A afirmação foi recebida com um "amém" convicto, mas, cá comigo, fiquei calado, remoendo uma pergunta que não cabia naquele coro: e Ciro? Foi dessa inquietação que nasceu este ensaio, da vontade de interrogar a própria tradição que aprendi a respeitar. Afinal, amar uma tradição não significa concordar com tudo o que dizem em nome dela; significa, também, ter coragem de fazer perguntas. Começo, então, desfazendo um equívoco: a "Senhora Sabedoria" não é um verniz moderno aplicado à palavra seca das Escrituras. Ela está lá, em Provérbios 8, clamando nas encruzilhadas e às portas da cidade, afirmando que, por meio dela, reinam os reis e os príncipes decretam justiça (Pv 8:15). O problema, portanto, não está na figura, mas no uso que fazemos dela. Quando a transformamos em slogan ou selo eclesiástico, esvaziamos justamente o que há de mais radical nessa imagem: a Sabedoria não se limita aos templos; ela ganha as ruas, ocupa as esquinas e interpela quem exerce o poder.

É aí que a conversa fica mais delicada. A ideia de que somente governantes cristãos podem ser grandes e nobres esbarra em exemplos que a própria Bíblia apresenta. José ajudou a salvar multidões da fome sob o governo de um faraó que não adorava o Deus de Israel. Daniel serviu com honra a impérios pagãos. E Isaías chamou Ciro, rei da Pérsia, de "ungido" (Is 45:1), um título associado aos reis de Israel e, na tradição bíblica, também à figura do Messias, mas atribuído, nesse caso, a um estrangeiro que nem sequer conhecia a Deus. Ora, se a própria narrativa bíblica admite que alguém de fora da tradição israelita possa cumprir uma missão importante, com que autoridade podemos afirmar que somente os nossos são capazes de governar com justiça? Isso não significa dispensar critérios, muito menos fechar os olhos para os erros de quem governa. Com Agostinho, na Cidade de Deus, retomo uma pergunta incômoda: o que seriam os reinos, sem justiça, senão grandes bandos de ladrões? No fim das contas, a medida de um governo não pode ser apenas o credo de quem o exerce, mas a justiça que pratica. Reconhecer isso não é relativismo; é levar a sério as próprias Escrituras.

Seria desonesto, porém, fingir que não existem argumentos do outro lado. Se a Bíblia é a Palavra de Deus, perguntam muitos cristãos, por que ela não deveria ser o manual supremo da política? Nem todos os que defendem essa posição estão em busca de poder ou de privilégios. Muitos querem apenas coerência entre aquilo em que acreditam e a maneira como vivem. Para essas pessoas, separar a fé do governo pode parecer uma tentativa de partir a vida ao meio, como se fosse possível deixar as convicções religiosas do lado de fora quando se entra na vida pública. A questão merece mais do que uma resposta apressada. Por interpretação literal como guia absoluto, entendo a leitura que retira uma lei do contexto histórico em que foi dada a uma antiga nação e a transplanta, sem mediações, para uma sociedade completamente diferente. Já por abordagem secular, entendo algo bem mais modesto do que muita gente imagina: justificar as decisões públicas com razões que até o vizinho que não professa a mesma fé possa examinar, questionar e compreender. No Brasil, a Constituição assegura a liberdade de crença e estabelece a separação entre o Estado e os cultos religiosos. Essa proteção não serve para expulsar a fé da vida pública, mas para impedir que o poder estatal se confunda com uma religião e constranja quem pensa diferente. O cristão, portanto, continua livre para levar suas convicções ao debate; o desafio é apresentá-las também por meio de argumentos que todos possam ouvir e discutir. É nesse horizonte que se situa a reflexão de Habermas, em seu diálogo com o então cardeal Ratzinger, sobre o aprendizado mútuo entre a razão secular e as tradições religiosas.

Por fim, volto à passagem bíblica com que costumo concluir minhas reflexões. Quando Paulo afirma que se fez "tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns" (1Co 9:22), está falando de uma postura missionária: atravessar fronteiras culturais sem exigir que o outro se transforme numa cópia de nós mesmos. O versículo não é salvo-conduto para o vale-tudo político, nem autorização para abandonar princípios conforme a conveniência. Ainda assim, ensina uma lição que vai muito além da evangelização: quem deseja ser ouvido precisa aprender a falar também a língua de quem escuta. Por isso, acredito que a sabedoria necessária ao exercício do poder seja menos um título ou um atributo de quem se julga iluminado e mais uma disciplina cotidiana. É ouvir antes de decretar, desconfiar da própria certeza quando ela nos favorece demais e reconhecer a justiça mesmo quando ela chega por mãos que não são as nossas. Afinal, a Senhora Sabedoria continua na esquina, clamando a quem passa, sem pedir carteira de membro nem exigir profissão de fé. Resta saber se eu, se nós, temos humildade suficiente para interromper a caminhada, baixar o tom das próprias certezas e escutá-la — ainda que sua voz venha de onde jamais imaginamos encontrá-la.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(15) Liderança Eficaz: A Confluência de Experiência, Conhecimento e Abertura à Mudança

 


Ensaio Teológico VIII(15) Liderança Eficaz: A Confluência de Experiência, Conhecimento e Abertura à Mudança

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Lembro-me de uma assembleia numa cidade pequena, numa noite abafada, com o salão cheio de gente cansada, daquelas que chegam ao fim do dia carregando no corpo o peso do trabalho e, na alma, as preocupações de sempre. O prefeito havia decidido fechar o posto de saúde do bairro alto e concentrar os atendimentos no centro da cidade. No papel, os números fechavam direitinho: economia de recursos, reorganização dos serviços, eficiência administrativa. Tudo parecia fazer sentido, até que uma senhora se levantou e perguntou: “O senhor já tentou subir aquele morro com uma criança febril no colo?” De repente, o salão emudeceu. O prefeito olhou para os próprios papéis, depois para aquela mulher, e percebeu que havia algo que suas planilhas não conseguiam traduzir: a realidade de quem precisava do serviço público. Diante de todos, desfez a decisão. Para alguns, talvez tenha saído menor, por voltar atrás; para outros, saiu maior, justamente por ter reconhecido o próprio equívoco. Foi uma das lições mais claras que já recebi sobre o significado de governar com sabedoria: nem sempre a grandeza de um líder está em sustentar uma decisão, mas em ter coragem de revê-la quando a vida lhe mostra que o caminho escolhido não é o melhor.

A Escritura abre esse caminho com uma afirmação fundamental: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Provérbios 9:10). Mas, convenhamos, princípio não é ponto final. A reverência a Deus pode orientar o exercício do poder, mas a vida pública exige que outros elementos se juntem a ela: experiência, conhecimento, sensibilidade e, sobretudo, disposição para ouvir. Quem governa amparado apenas pela reverência religiosa, sem aprender com a realidade concreta das pessoas, corre o risco de transformar a fé em cegueira diante das necessidades humanas. Por outro lado, quem se agarra exclusivamente às planilhas, aos cálculos e às metas, sem qualquer compromisso ético, acaba reduzindo a população a números e esquecendo os rostos por trás das estatísticas. Ora, de que adianta uma administração aparentemente eficiente se o cidadão mais vulnerável não consegue chegar ao posto de saúde? Governar com sabedoria é justamente encontrar o equilíbrio entre os princípios que orientam a consciência e o conhecimento que permite compreender a vida como ela é. Afinal, a justiça não se realiza apenas nas intenções de quem governa; precisa chegar à porta de quem dela necessita.

É aqui que encontro uma tensão filosófica que não quero esconder. O ideal estoico, presente em diferentes tradições filosóficas e associado à busca de serenidade diante das adversidades, encontra ecos na literatura de Fernando Pessoa, embora sua obra seja muito mais ampla do que essa única perspectiva. Trata-se de cultivar firmeza interior para não ser derrubado a cada mudança dos acontecimentos. A cena do prefeito, entretanto, apresenta outra exigência: a capacidade de recuar, rever decisões e reconhecer que a realidade pode desmentir nossas certezas. À primeira vista, essas atitudes parecem contraditórias; olhando mais de perto, porém, percebemos que podem caminhar juntas. O líder sábio mantém a firmeza nos princípios, mas não transforma seus métodos em dogmas. A dignidade humana, o cuidado com os mais frágeis e o compromisso com a justiça não devem ser negociados. Já os meios de concretizar esses valores precisam ser avaliados continuamente. Se o posto de saúde no centro dificulta o atendimento de quem mora no alto do morro, cabe rever a decisão, e não exigir que a população se adapte cegamente à conveniência administrativa. Millôr Fernandes, mestre do humor e da ironia, ajuda-nos a desconfiar das certezas empedradas e das contradições humanas. Afinal, há quem confunda coerência com teimosia e firmeza com orgulho. Só que permanecer fiel a um erro não é sinal de caráter; muitas vezes, é apenas medo de admitir que se estava errado.

Mas, a sabedoria não se resume a refletir, ponderar ou reconhecer os próprios limites. Também é preciso agir. Cícero, em Dos Deveres, refletiu sobre a relação entre virtude, responsabilidade e vida pública, lembrando-nos, em essência, que o compromisso moral precisa se manifestar nas ações. De pouco vale um conhecimento guardado na estante se ele não ajuda a enfrentar os problemas da comunidade. Nesse sentido, a narrativa bíblica sobre Salomão oferece uma lição significativa. Quando Deus lhe permitiu fazer um pedido, o rei não escolheu riquezas ou vitórias sobre os inimigos; pediu discernimento para governar e julgar o povo (1 Reis 3). A sabedoria desejada não era um ornamento pessoal, mas uma capacidade a serviço de outros. Isso fica evidente no episódio das duas mulheres que disputavam a maternidade de uma criança. Salomão não se limitou a aplicar mecanicamente uma regra: diante de uma situação delicada, elaborou uma prova que revelou a disposição de cada mulher e permitiu identificar aquela que demonstrava verdadeiro amor materno. A narrativa apresenta a sabedoria como discernimento diante da complexidade humana, não como simples acúmulo de informações. Eis o ponto: liderar exige princípios, conhecimento da realidade e coragem para decidir, sem fugir à responsabilidade pelas consequências. Quem ocupa uma função pública não pode se esconder eternamente atrás de pareceres, relatórios ou discursos bem elaborados. Chega uma hora em que é preciso escolher — e responder pela escolha.

Por isso, volto àquela ladeira e à senhora que, com uma pergunta simples, desmontou a aparente perfeição de uma decisão administrativa. A sabedoria não é troféu para exibir, muito menos um título que alguém conquista e guarda para sempre. É ferramenta de trabalho, exercício cotidiano de consciência e disposição permanente para aprender. Seu valor está em servir à justiça, à equidade e ao bem-estar coletivo, alcançando também quem mora longe do centro, quem tem pouco dinheiro, quem enfrenta dificuldades para se locomover e quem quase nunca é ouvido nas reuniões onde seu destino é decidido. O sábio aconselha: “A sabedoria é a coisa principal; adquire, pois, a sabedoria”, e acrescenta: “emprega tudo o que possuis na aquisição de entendimento” (Provérbios 4:7). Esse entendimento, no entanto, não nasce apenas dos livros, das teorias ou dos gabinetes. Nasce também do contato com a vida, da escuta atenta e da humildade de reconhecer que uma pessoa simples pode enxergar aquilo que os especialistas deixaram passar. Governar bem, portanto, não significa jamais mudar de ideia, mas saber por que mantê-la ou por que abandoná-la. No fim das contas, a liderança eficaz começa quando a experiência ensina, o conhecimento ilumina, a consciência orienta e a realidade tem liberdade para contestar nossas certezas. Porque o verdadeiro líder não é aquele que nunca volta atrás: é aquele que não permite que o orgulho o impeça de seguir na direção certa.