Ensaio Teológico VIII(23) A sabedoria não é um porto: é uma estrada
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Durante muito tempo, imaginei a sabedoria como um porto: aquele lugar onde a gente chega, lança a âncora e, enfim, descansa. Fui educado numa tradição que me ensinou a reverenciá-la, e não me arrependo disso. Mas a vida, essa professora impaciente que não espera a gente terminar a lição, mostrou-me que o saber se parece muito mais com uma estrada do que com um destino. Por isso, quero fazer justiça à fé que me formou: ela me ensina que Deus é a fonte de toda sabedoria, mas também me lembra que é preciso buscá-la, pedi-la e cultivá-la ao longo da existência. Afinal, de que adianta acreditar na fonte se a gente não se dispõe a caminhar até ela?
O próprio texto bíblico insiste nessa busca. Em Provérbios 18:15, os ouvidos dos sábios buscam o conhecimento; já em Provérbios 2:1-5, o discípulo é convidado a inclinar o ouvido e procurar o entendimento como quem procura prata escondida. Em Jó 28, encontramos o ser humano capaz de abrir galerias na rocha e arrancar tesouros das profundezas da terra, mas incapaz de dominar, por suas próprias forças, o caminho da sabedoria. E Eclesiastes nos apresenta a confissão de quem percorreu os caminhos da existência e voltou com as mãos cheias de perguntas. Perceba: a tradição sapiencial não trata a sabedoria como um troféu conquistado de uma vez por todas, mas como um dom que se acolhe e um caminho que se percorre. Uma coisa não anula a outra; pelo contrário, caminham de mãos dadas.
Aprendi o valor desse caminho com um professor a quem chamo de Mestre Antônio. Certa manhã, ele explicou um fenômeno com enorme segurança, como quem tinha a resposta na ponta da língua. Na semana seguinte, porém, entrou na sala, olhou para a turma e disse: "Errei. Vamos refazer." Naquele instante, conquistou um respeito maior do que em todas as aulas anteriores. Foi ali que compreendi uma lição que carrego comigo: reconhecer um erro não é sinal de fraqueza, mas demonstração de coragem e método. A ciência moderna também avançou ao institucionalizar essa disposição para rever explicações diante de novas evidências. Em O Mundo Assombrado pelos Demônios, Carl Sagan destaca justamente a importância do pensamento crítico e da disposição de submeter as ideias à verificação, em vez de aceitá-las como dogmas intocáveis. Isso não significa que ciência e fé sejam a mesma coisa, nem que precisem viver em guerra permanente. Agostinho, Galileu e Georges Lemaître, padre e cosmólogo, ajudam-nos a perceber, cada qual em seu contexto, que a relação entre investigação, conhecimento e crença é mais complexa do que certas disputas fazem parecer. A mesma humildade intelectual aparece em Sócrates, retratado por Platão na Apologia, cuja vantagem consistia em não presumir saber aquilo que ignorava. Embora a conhecida fórmula "só sei que nada sei" não apareça literalmente dessa maneira nos diálogos, ela resume bem essa postura de quem prefere reconhecer os limites do próprio conhecimento a se esconder atrás de certezas vazias.
Se a sabedoria é dom e caminho, ninguém a possui sozinho, muito menos em caráter definitivo. O crente a recebe e continua a buscá-la; o cientista se surpreende com as descobertas, mas permanece disposto a revê-las; o filósofo persegue respostas sabendo que dificilmente encerrará toda a verdade dentro das próprias mãos. Por isso, recuso-me a escolher entre a fé que se curva diante do Mistério e a razão que se disciplina diante dos fatos, como se fosse necessário amputar uma parte de mim para preservar a outra. Ambas, cada qual à sua maneira, ensinaram-me que ser sábio não é chegar ao fim da estrada, mas conservar a disposição de caminhar, aprender e, quando necessário, mudar de rumo. E há algo mais: a empatia, esse esforço de enxergar o mundo também pelos olhos de quem pensa e vive diferente de nós, talvez seja o mapa mais honesto que temos. Afinal, de pouco vale acumular conhecimentos se eles não nos tornam mais humanos. A sabedoria não está apenas naquilo que sabemos, mas também na humildade com que reconhecemos o que ignoramos e no cuidado com que tratamos quem caminha ao nosso lado.
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