Ensaio Teológico X(15) A Ilusão da Suficiência Financeira Quando a igreja vira fábrica de dinheiro, e o que a Escritura tem a dizer sobre isso
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma frase que repito com certo ar de sabedoria popular: “o dinheiro responde a tudo”. Quase ninguém sabe que ela é bíblica. Está em Eclesiastes 10:19, registrada por alguém que conheceu a riqueza de sobra e, ao fazer o balanço da existência, resumiu muita coisa numa palavra: “vaidade”. O Pregador apresenta essa frase como uma observação da realidade, não como uma recomendação de vida. Afinal, o dinheiro responde a muita coisa, mas o livro inteiro parece existir justamente para nos mostrar aquilo a que ele não consegue responder.
Penso, então, em Ezequiel, um pastor fictício que começou sua igreja numa garagem, com doze cadeiras de plástico e uma fé que lhe queimava a garganta. Vinte anos depois, já prega num auditório climatizado e, antes da oferta, conduz uma verdadeira liturgia de pressão: escolhe cuidadosamente o versículo, promete que “semente não volta vazia” e prepara o terreno para a contribuição. Até que, numa sexta-feira, uma viúva o procura com o carnê de uma dívida contraída para fazer uma oferta “de fé”. Diante daquele papel, o dinheiro não lhe responde absolutamente nada. É nesse momento que a crença de que o dinheiro basta deixa de ser apenas uma falácia teológica e se transforma numa ferida humana.
A ciência confirma parte dessa intuição, embora também a torne mais complexa. Maslow sugeriu que os recursos materiais têm grande peso quando falta o básico, mas perdem importância relativa à medida que buscamos pertencimento, estima e sentido para a existência. É bom lembrar, entretanto, que essa interpretação, em termos estritamente monetários, é uma leitura feita por seus intérpretes. Em 2010, Kahneman e Deaton indicaram que o bem-estar emocional tendia a se estabilizar perto dos 75 mil dólares anuais. Em 2021, porém, Killingsworth apresentou resultados segundo os quais a felicidade continuava crescendo com a renda. Já em 2023, ele e Kahneman, com a participação de Barbara Mellers, conciliaram os dados: para a maioria das pessoas, o bem-estar aumenta com o dinheiro, mas, entre as mais infelizes, essa curva tende a se achatar. Ora, essa nuance fortalece minha tese: quem nega que o dinheiro alivia a vida perde credibilidade; quem afirma que ele basta acaba perdendo de vista a própria vida.
É justamente aí que surge uma pergunta da qual a ética não me permite fugir. Peter Singer, desde 1972, insiste que o excesso acumulado raramente é neutro, pois pode carregar um custo invisível pago por alguém. Essa reflexão ganha ainda mais peso quando envolve quem fala em nome de Deus. Não ignoro que a própria Escritura defende o sustento ministerial. Paulo afirma que o obreiro é digno do salário (1Timóteo 5:17-18; 1Coríntios 9), e negar esse direito seria cometer uma injustiça contra tantos pastores que exercem seu ministério com simplicidade e dignidade. Entretanto, o mesmo Paulo recordou aos presbíteros de Éfeso que nunca cobiçou prata nem ouro (Atos 20:33-35). Pedro, por sua vez, recomendou que o rebanho fosse cuidado “não por torpe ganância” (1Pedro 5:2), enquanto o profeta Ezequiel denunciou os pastores de Israel que se apascentavam a si mesmos (Ezequiel 34:2-3).
Portanto, a fronteira entre o sustento digno e o negócio religioso não se estabelece simplesmente pelo valor do salário, mas pela direção do fluxo financeiro e, sobretudo, pela finalidade do ministério. Uma coisa é viver do trabalho pastoral; outra, bem diferente, é transformar a fé alheia em instrumento de enriquecimento. Quando o rebanho passa a existir para alimentar o pastor, a lógica do Evangelho cede lugar à de Mamom, um senhor que não aceita sócios (Mateus 6:24).
Por fim, volto ao aviso de Lucas: a vida de um homem não consiste na abundância dos seus bens (Lucas 12:15). O agricultor da parábola não comete um erro escandaloso aos olhos do mundo; seu engano está em acreditar que o futuro está garantido simplesmente porque seus depósitos estão cheios. Por outro caminho, Seligman aponta cinco pilares do florescimento humano: emoções positivas, engajamento, relacionamentos, sentido e realização. Curiosamente, o saldo bancário não aparece entre eles. Paulo, mesmo preso e desprovido de recursos, aprendeu a viver contente. E isso, convenhamos, era liberdade, não resignação.
Volto, então, àquela viúva no corredor. Ela não precisava de uma teologia da prosperidade, muito menos de uma nova promessa de multiplicação. Precisava de alguém que lhe dissesse, sem alarde e sem explorar sua fragilidade, que Deus não cobra carnê. O dinheiro responde ao aluguel, ao remédio, à escola e ao pão. E ainda bem que responde! Mas, não responde ao luto, à culpa, à solidão nem ao medo da morte. Uma igreja que finge o contrário vende, no máximo, uma ilusão com ar-condicionado. E, cá entre nós, não há climatização que consiga refrescar uma consciência em chamas.






