Ensaio I(12) A Graça Redentora de Deus: Transformando Corações e Resgatando Pecadores.
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há um verbo em Ezequiel 18:23 que me fez parar quando o li com verdadeira atenção. Não é um verbo de decreto, tampouco de julgamento. É um verbo de espera. "Deus não se deleita na morte do ímpio, mas anseia por sua conversão e vida abundante." Anseia. Não apenas tolera, não simplesmente permite, não aceita com resignação: anseia. Como um pai que permanece à janela, olhando a estrada, esperando o filho que ainda não voltou. Esse único verbo muda toda a perspectiva. O Deus que muitos imaginam apenas como juiz revela-se também como Pai que espera; e o pecador deixa de ser apenas um réu para se tornar alguém cuja volta ainda é desejada.
É justamente desse anseio que nasce este ensaio. Provérbios 1:10-19 descreve, com impressionante realismo, a sedução do caminho destrutivo. A gangue alicia o jovem inexperiente, promete ganhos fáceis e o convence de que a violência compensa. O alerta é contundente, e o perigo, infelizmente, continua atual. No entanto, reduzir essa passagem a uma sentença definitiva sobre o destino dos pecadores arrogantes é amputar a mensagem das Escrituras. O mesmo Deus que adverte em Provérbios declara, em Ezequiel, o seu anseio pela conversão do ímpio e, em 2 Pedro 3:9, revela sua paciência, afirmando que não deseja que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento. Qualquer teologia que trate o pecador como um caso encerrado entra em choque, palavra por palavra, com o Deus que a própria Bíblia apresenta.
O evangelho — e Paulo não escolheu essa palavra por acaso — é poder (Rm 1:16). Não é mero conselho, nem orientação, muito menos uma simples exortação moral. É poder. Poder para regenerar quem estava morto, justificar quem estava condenado e santificar quem havia sido corrompido pelo pecado. "Deus enviou seu Filho ao mundo para salvar os pecadores" — e Paulo acrescenta, com uma sinceridade que ainda hoje nos desconcerta: "dos quais eu sou o principal" (1Tm 1:15). O homem que escreveu boa parte do Novo Testamento jamais romantizou seu passado. Ao contrário, reconhecia ser, aos próprios olhos, o exemplo mais improvável da graça de Deus.
Ainda assim, poucas histórias me comovem tanto quanto a de João Newton. Em 1748, ele comandava um navio negreiro. Era um homem que transportava seres humanos acorrentados no porão de embarcações, convivia diariamente com o sofrimento e o cheiro da morte, e havia se acostumado tanto ao horror que já não conseguia enxergá-lo como crime. Então veio a tempestade no Atlântico. Enquanto o navio lutava para não afundar e Newton acreditava que seus últimos momentos haviam chegado, alguma coisa começou a se romper dentro dele.
A transformação, porém, não aconteceu de uma vez. A graça, na vida real, quase nunca opera na velocidade dos relatos resumidos que costumamos ouvir. Ela trabalha em silêncio, amadurece, insiste. Aquela noite foi apenas o começo. Com o passar dos anos, Newton tornou-se pastor anglicano, defensor da causa abolicionista e autor de um dos hinos mais conhecidos da história cristã: Amazing Grace. "I once was lost, but now am found / Was blind, but now I see." Essas palavras carregam autoridade porque nasceram da experiência. Ele sabia exatamente o que estava dizendo. Tinha sido o perdido. Tinha sido o cego. E, justamente por isso, encontrou palavras capazes de alcançar quem ainda caminha na escuridão.
Newton não é uma exceção que confirma a regra. Na verdade, ele torna a regra visível. O mesmo acontece com Davi, que enviou Urias à morte e depois derramou sua alma no Salmo 51 (2Sm 11–12). Com Manassés, o rei mais perverso de Judá, que se humilhou diante de Deus e foi restaurado (2Cr 33). Com Zaqueu, que subiu numa árvore movido pela curiosidade e desceu dela com a vida completamente reorganizada (Lc 19:1-10). Em todos esses relatos encontramos a mesma lógica: a graça não veio porque eles já eram bons. Ela veio porque Deus ansiava por eles enquanto ainda eram exatamente o que eram.
Pensar que existem pecadores fora do alcance da graça não é apenas um equívoco teológico; no fundo, é uma forma de desumanização. Essa ideia reduz pessoas a categorias, transforma histórias em sentenças e decreta que certas vidas já não têm mais esperança. O evangelho faz precisamente o contrário. Ele pega o caso que todos consideravam encerrado e o reabre. Não porque minimize a gravidade do pecado, mas porque o anseio de Deus é mais profundo e mais persistente do que qualquer abismo em que o pecado possa lançar alguém.
Essa é a graça que atravessa toda a história da redenção. É a graça que as Escrituras proclamam, que a experiência confirma e que Newton eternizou em forma de canção. Não é a graça que espera o merecedor chegar até ela, mas a que toma a iniciativa de ir ao encontro do perdido — sobretudo daquele que já havia desistido de acreditar que ainda poderia ser encontrado.






