Ensaio Teológico IV(21) — Os Olhos da Visão Clara e o Coração Singular: Uma Análise Crítica
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Conheço um homem — chamemo-lo apenas de amigo, para preservar aquilo que há de íntimo nessa história — que, aos trinta anos, decidiu "olhar só para a sabedoria". Vendeu o que considerava supérfluo, recusou convites, afastou distrações e passou a viver quase como um monge, determinado a cumprir ao pé da letra aquilo que entendia ser a orientação de Provérbios 4:25-27: manter os olhos fixos adiante, sem se desviar nem para a direita nem para a esquerda. No começo, parecia admirável. Havia propósito, disciplina e uma vontade quase obstinada de não perder tempo com aquilo que julgava secundário. O problema é que, em menos de dois anos, ele havia se afastado dos amigos, negligenciado as contas e transformado a própria busca pela sabedoria numa espécie de isolamento. E havia algo ainda mais paradoxal: a sabedoria que cultivava com tanto empenho já não tinha ninguém a quem ser oferecida. Foi essa história, muito mais do que qualquer teoria, que me fez desconfiar de uma leitura excessivamente literal daquele texto.
A experiência me ensinou que uma coisa é ter os olhos voltados para uma direção; outra, bem diferente, é deixar de enxergar tudo o que acontece ao redor. Salomão escrevia para um mundo muito mais estreito do que o nosso, em que as escolhas, embora difíceis, eram relativamente mais delimitadas. Hoje, o cenário mudou. Multiplicaram-se as possibilidades, as vozes, os caminhos, as necessidades e, sobretudo, as urgências simultâneas. Somos chamados a responder a tudo ao mesmo tempo e, não raro, acabamos não respondendo bem a coisa alguma. Talvez seja justamente por isso que Provérbios 14:15 — "o simples dá crédito a tudo, mas o prudente atenta para os seus passos" — me pareça tão atual. O texto não recomenda uma visão estreita, mas uma atenção desperta. Não basta olhar para frente; é preciso saber onde se está pisando.
Daniel Kahneman, ao estudar os mecanismos pelos quais nossa mente toma decisões e também se engana, chegaria a uma conclusão semelhante por outra porta. A visão verdadeiramente lúcida não é necessariamente aquela que elimina a emoção em nome da razão, nem aquela que abandona a razão para seguir apenas a intuição. O discernimento nasce, muitas vezes, justamente da capacidade de colocar essas dimensões em diálogo. Razão e emoção, experiência e reflexão, dados e intuição podem caminhar lado a lado. Afinal, de que adianta ter olhos fixos no horizonte se não somos capazes de perceber a pedra que está bem diante dos nossos pés?
Confesso que essa constatação me incomoda mais do que me consola. Porque, se os olhos precisam permanecer atentos a muitas dimensões da existência — dinheiro, relações, família, trabalho, vocação e fé —, onde termina o equilíbrio e começa a dispersão? Essa fronteira não é tão nítida quanto gostaríamos. Às vezes, aquilo que chamamos de equilíbrio não passa de uma desculpa para a falta de foco; outras vezes, aquilo que chamamos de foco é apenas uma forma elegante de esconder nossa incapacidade de lidar com as demais responsabilidades da vida. Não tenho uma resposta definitiva. Talvez nem exista uma fórmula pronta. O que existe é a necessidade de vigiar, avaliar e, de tempos em tempos, parar para perguntar a nós mesmos: estou concentrado no que realmente importa ou apenas ocupado demais para perceber que estou me perdendo?
Mateus 6:22-24 nos lembra que não se pode servir a dois senhores. A advertência é séria, sobretudo quando colocamos o coração a serviço do dinheiro, do poder ou da própria ambição. Mas administrar bem os recursos financeiros não significa necessariamente transformar o dinheiro em senhor. Há uma diferença enorme entre ser dominado pelo que se possui e aprender a administrar aquilo que se recebeu. O dinheiro pode ser instrumento ou ídolo; pode servir à vida ou escravizá-la. Quando bem administrado, pode garantir dignidade, cuidar da família, atender necessidades e, quem sabe, ainda sobrar para causas que ultrapassam os limites do nosso próprio interesse. O problema, portanto, não está apenas no que temos, mas naquilo que aquilo que temos passa a fazer conosco.
E o coração? Talvez seja aqui que a questão se torne ainda mais profunda. Será que um coração fiel precisa necessariamente ter uma única paixão? Aristóteles já afirmava que o homem é, por natureza, um ser social e que aquele que vive isolado, ou é deus, ou é fera. A frase atravessou os séculos porque toca numa verdade difícil de ignorar: fomos feitos para viver em relação. Temos família, amigos, trabalho, responsabilidades, afetos, sonhos, compromissos e, para quem crê, uma relação com Deus que pretende dar sentido a tudo isso. Ser inteiro não significa ser estreito. Pelo contrário, talvez a verdadeira inteireza esteja justamente na capacidade de abraçar muitas dimensões da vida sem permitir que nenhuma delas usurpe o lugar daquilo que consideramos essencial.
Por isso, começo a olhar de outra maneira para o chamado "coração indiviso" de Salomão. Talvez ele não represente um coração incapaz de amar muitas coisas, mas um coração que, mesmo envolvido com inúmeras responsabilidades e afetos, não perde de vista aquilo que lhe confere sentido último. Não se trata de viver com os olhos fechados para o mundo, mas de enxergar o mundo sem perder o eixo. Não é fugir das coisas para preservar a fé, mas aprender a lidar com as coisas sem transformar nenhuma delas em absoluto. Afinal, há uma diferença entre ter muitas responsabilidades e pertencer inteiramente a elas.
Ainda hesito diante dessa conclusão. E, pensando bem, talvez seja melhor assim. A sabedoria não parece nascer quando finalmente encontramos uma resposta que encerra todas as perguntas, mas quando aprendemos a fazer perguntas melhores e a suportar a inquietação que elas provocam. Aquele homem queria olhar somente para a sabedoria e acabou deixando de enxergar pessoas, contas e responsabilidades que também faziam parte da vida. Talvez essa seja a ironia de toda busca excessivamente estreita: podemos fixar tanto os olhos no horizonte que deixamos de perceber o caminho.
No fim, talvez a visão clara não seja aquela que olha apenas para frente, mas aquela que consegue enxergar o horizonte, o caminho e os próprios passos. E talvez o coração singular não seja aquele que ama uma única coisa, mas aquele que sabe qual delas deve ocupar o centro. Entre foco e abertura, entre devoção e responsabilidade, entre razão e emoção, caminhamos tentando não perder o rumo. Ainda hesito, sim. Mas talvez seja exatamente nessa hesitação — não na certeza absoluta — que a sabedoria começa, silenciosamente, a habitar em nós.








