Ensaio Teológico VIII(13) O Medo que Me Afastou de Deus e o Amor que Me Trouxe de Volta
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Ainda guardo na memória um domingo da infância em que o pregador falava do inferno com tanta precisão que até o banco de madeira parecia esquentar debaixo de mim. Eu tinha nove anos e saí dali sem vontade de amar a Deus; queria apenas escapar de sua punição. Demorei muito para desaprender aquela fé construída sobre o susto, como quem precisa abrir as janelas de uma casa fechada há anos para deixar o ar circular novamente. Não escrevo para acusar ninguém. Muitos dos que pregavam o medo acreditavam estar protegendo suas ovelhas, e eu mesmo, em outros tempos, repeti palavras duras cujo verdadeiro alcance nem sequer compreendia. Escrevo, antes, para perguntar, com a humildade de quem também errou, se a religião precisa mesmo do medo e do ódio para ser levada a sério. Creio que não. E, para minha surpresa, encontro nas próprias Escrituras razões para sustentar essa convicção.
O texto que mais me consola é o de João: "o perfeito amor lança fora o medo, porque o medo supõe castigo" (1 João 4:18). O medo expulso pelo amor é justamente o medo da punição, aquele que me acompanhava no banco de madeira e me fazia imaginar Deus como um juiz sempre pronto a condenar. João não elimina a reverência; denuncia a angústia de quem não consegue enxergar no divino nada além da ameaça. Essa compreensão, porém, exige que eu também encare Provérbios 8:13, que define o temor do Senhor como odiar o mal. A palavra hebraica yirah abrange sentidos como reverência, espanto e admiração, embora também possa expressar temor. Nesse contexto, o alvo do repúdio são o orgulho, a arrogância e os caminhos tortuosos, não a dignidade de uma pessoa. Afinal, odiar o mal e amar quem o pratica não são atitudes incompatíveis. Pense na mãe que combate o vício do filho sem deixar de amá-lo: ela rejeita aquilo que o destrói, mas não desiste daquele que ama. O Salmo 130:4 aprofunda essa reflexão ao mostrar que o perdão também pode despertar o temor reverente.
Quando perdi o medo, descobri o que ele havia me roubado: o direito de perguntar. Durante muito tempo, confundi fé com silêncio e reverência com a obrigação de não questionar. Anos depois, li uma reflexão atribuída a Albert Einstein, publicada na revista Life em 1955, sobre a importância de continuar questionando e de reconhecer na curiosidade uma razão própria para existir. Senti, então, como se alguém abrisse uma janela num quarto abafado. Passei a ler Provérbios 9:10 como um convite à reverência que amplia a compreensão, não como um instrumento de pânico que aprisiona a consciência. Aprendi também, à custa dos meus próprios erros, que o ódio ao pecado pode facilmente escorregar para o ódio ao pecador. Por isso, carrego como lanterna a conhecida reflexão de Martin Luther King Jr., em Strength to Love: só a luz expulsa a escuridão, e só o amor expulsa o ódio. A fronteira moral precisa ser traçada entre o bem e o mal, entre atitudes que constroem e comportamentos que destroem, sem que isso nos autorize a negar a dignidade de quem erra. Prefiro, portanto, a tarefa mais difícil — e mais honesta — de compreender as raízes do mal, inclusive aquelas que podem crescer dentro de mim antes que eu as reconheça nos outros.
Mas, não foi um argumento filosófico, uma explicação teológica ou um sermão eloquente que começou a desfazer meu medo. Foi uma senhora da congregação, de mãos grossas e voz mansa, que me encontrou chorando no fundo do templo. Em vez de me repreender ou tentar corrigir meus sentimentos, sentou-se ao meu lado e permaneceu em silêncio. Naquele instante, sem discursos nem ameaças, compreendi mais sobre Deus do que em dezenas de pregações. O amor de que João falava havia deixado de ser uma frase bíblica para ganhar rosto, mãos e presença. A teologia desceu do púlpito e se sentou ao lado de um menino assustado. E, veja só, às vezes é justamente quando ninguém tenta nos convencer de nada que começamos a compreender aquilo em que podemos acreditar.
Hoje, volto àquele menino de nove anos, encolhido no banco de madeira, e gostaria de lhe dizer que o Deus de quem ele tinha medo não precisava ser o Deus que o acompanharia pelo resto da vida. Gostaria de lhe ensinar que a fé não precisa nascer do terror, que a consciência não deve ser sufocada e que o amor não se torna menos sério por ser compassivo. Ao contrário: amar sem humilhar, corrigir sem destruir e discordar sem odiar talvez sejam algumas das tarefas mais difíceis da experiência religiosa. Deixo, então, ao leitor uma pergunta que também dirijo a mim mesmo: que espécie de fé estamos oferecendo às crianças e às gerações que virão depois de nós — uma fé que as ensina a temer castigos ou uma fé que as ajuda a discernir, amar e assumir responsabilidades? Encerro com as palavras de Paulo, que continuam a iluminar minha caminhada: "permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor" (1 Coríntios 13:13).





