"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sábado, 23 de maio de 2026

A Conta que Não Fecha: Fazer 11 PEI até sexta-feira ("Há homens que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam muitos dias e são melhores. Mas, há os que lutam toda a vida: esses são imprescindíveis." — Bertolt Brecht)

 



A Conta que Não Fecha: Fazer 11 PEI até sexta-feira ("Há homens que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam muitos dias e são melhores. Mas, há os que lutam toda a vida: esses são imprescindíveis." — Bertolt Brecht)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Hoje foi uma daquelas manhãs em que o café esfria antes mesmo de encontrar a boca. A fumaça sobe devagar, faz uma última dança no ar e desaparece — talvez cansada também. E foi justamente numa manhã dessas, meio cinzentas por dentro, que recebi mais uma lista. Não era lista de compras, não era lista de desejos, muito menos daquelas coisas que a gente empurra com a barriga prometendo resolver "na semana que vem". Não. Era uma lista de obrigações.

— Professor, você sabe fazer PEI? A pergunta veio leve, quase inocente, dessas que chegam sem bater à porta. Veio com a naturalidade de quem pergunta se sei ligar um computador ou amarrar os próprios sapatos. Fiquei parado por alguns segundos. Plano Educacional Individualizado. Protocolo de Conduta. Relatório de comorbidades. Mapeamento de ansiedade. Identificação de depressão. Trilhas formativas. Itinerários.

Siglas. Siglas e mais siglas. Elas brotam como cogumelos depois da chuva, silenciosas, insistentes, ocupando espaço sobre a mesa, dentro das mochilas e, vez ou outra, dentro da cabeça da gente também. Parece até que descobriram um jeito de transformar papel em organismo vivo: crescem, se multiplicam e, quando a gente percebe, já tomaram conta da paisagem.

Sem aviso, me peguei pensando nos meus antigos professores. Lembro dos rostos sérios, das mãos manchadas de giz, daquele cheiro característico de sala úmida nas manhãs frias. Seriam eles incompetentes? Hoje desconfio que não. Pelo contrário. Talvez carregassem, em silêncio, o mesmo peso que agora se acomoda sobre meus ombros. A diferença é que ninguém lhes perguntava se sabiam elaborar PEI, preencher formulários ou atravessar uma floresta de protocolos. O mundo ainda não tinha inventado tantos nomes sofisticados para dores tão antigas.

Lembro também de quando eu ainda era aluno. Ah, a juventude... especialista em certezas precipitadas. Eu dizia aos meus professores — com aquela arrogância suave de quem acredita ter entendido a vida cedo demais — que a educação era a profissão mais mal paga do país. Eles sorriam. Só sorriam.

Hoje compreendo aquele sorriso. Era o sorriso de quem conhece o fim da história enquanto você ainda está folheando as primeiras páginas. Cheguei até a cogitar medicina um dia. Parecia difícil demais, distante demais, quase outro planeta. Hoje rio disso sozinho, mas é uma risada meio torta, dessas que escapam mais do desgaste do que da graça. Porque o médico diagnostica. O professor diagnostica, acolhe, documenta, planeja, executa, avalia, reporta, orienta, media conflitos, administra crises e — se os deuses da burocracia resolverem demonstrar alguma misericórdia — ainda ensina.

E a remuneração? Ah... A remuneração continua parada no acostamento, vendo passar de longe o desfile interminável de exigências que cresce a cada nova portaria. As tarefas se acumulam. Os papéis se empilham. As responsabilidades se multiplicam. A conta simplesmente não fecha. Na verdade, sendo sincero, nunca fechou.

Mas, não escrevo isso para me lamentar. Reclamar por reclamar é como enxugar gelo: a gente se cansa e o chão continua molhado. Escrevo porque algumas palavras precisam sair da garganta antes que enferrujem por dentro. O silêncio, às vezes, conserva certas coisas podres como quem esquece restos no fundo da geladeira e finge que o cheiro não existe.

E, na verdade, escrevo pensando no PHillip. Ele tem dezenove anos e faz estágio na nossa escola. Carrega nos olhos aquela luz que só os sonhadores ainda conseguem sustentar. Ontem mesmo segurava um livro de Paulo Freire contra o peito como quem abraça uma bússola, e me perguntou — com um sorriso limpo, quase desarmado — qual era o segredo para não perder o encantamento pela sala de aula. Olhei para ele e, por alguns segundos, enxerguei a mim mesmo muitos anos atrás, antes das siglas, dos relatórios e das listas que parecem nunca terminar.

O PHillip merece saber que a missão continua sendo bonita. Talvez bonita justamente porque é difícil. Mas, merece a verdade inteira: precisa saber que ela também é pesada, exigente e extraordinariamente sub-reconhecida. Escrevo para que ele se prepare, não para que desista.

Termino o café. Já frio. Abro o computador. Tenho 11 PEIs para entregar até sexta-feira. E amanhã, ainda assim, estarei lá. Porque é isso que os professores fazem: ficam.

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Que excelente texto! Como professor de Sociologia, fico entusiasmado quando a literatura consegue traduzir de forma tão humana os conceitos abstratos que estudamos em sala de aula. Esse texto é um prato cheio para discutirmos a realidade do mundo do trabalho contemporâneo, a burocratização das instituições e o papel social da educação. Aqui estão 5 questões discursivas e simples, pensadas especificamente para o nível de Ensino Médio, com o objetivo de aprofundar o debate sociológico a partir da crônica:


1. O narrador descreve uma rotina onde o professor precisa diagnosticar, documentar, relatar, mediar conflitos e, por fim, tentar ensinar, enquanto as siglas e exigências "brotam como cogumelos". Utilizando o conceito sociológico de "burocracia" (ou a organização do trabalho moderno), explique como o excesso de funções administrativas pode afastar um profissional da sua atividade-fim.

2. A crônica afirma que a remuneração dos professores "continua parada no acostamento", enquanto a lista de exigências não para de crescer. Pensando nas transformações do mundo do trabalho que estudamos em Sociologia, de que forma o descompasso entre o aumento de responsabilidades e a falta de valorização financeira afeta o prestígio social de uma profissão?

3. No texto, o autor compara o silêncio a "restos esquecidos no fundo da geladeira" e diz que escreve para que as palavras não "enferrujem por dentro". Pensando nos movimentos sociais e na cidadania, qual é a importância sociológica de romper o silêncio e denunciar as condições precárias de trabalho em uma sociedade?

4. O jovem estagiário PHillip aparece segurando um livro de Paulo Freire "como quem abraça uma bússola" e mantendo o encantamento pela educação, apesar das dificuldades relatadas. Qual é a importância social da escola e da formação de novos professores (como o PHillip) para a continuidade e a transformação de uma sociedade?

5. O texto termina com a marcante frase: "Porque é isso que os professores fazem: ficam." A Sociologia estuda como as instituições (como a família, a igreja e a escola) moldam nossas ações. O ato de "ficar" e continuar lecionando, mesmo diante de tantos problemas, reflete apenas uma escolha individual ou demonstra o senso de responsabilidade social ligado à função de educador? Justifique.

💡 Dica de Ouro para a Aula:

Peça para os alunos identificarem no próprio cotidiano escolar se eles percebem os professores sobrecarregados com essas "siglas" e papéis mencionados no texto. Isso conecta a teoria sociológica diretamente com a vivência deles!

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A Melhor Sanduicheira Elétrica e o Pior Consenso: O Cheiro do Recreio Prolongado ("Educar é introduzir o sujeito na ordem do mundo, e a ordem do mundo inclui o impossível, o limite e a perda." — Contardo Calligaris)

 



A Melhor Sanduicheira Elétrica e o Pior Consenso: O Cheiro do Recreio Prolongado ("Educar é introduzir o sujeito na ordem do mundo, e a ordem do mundo inclui o impossível, o limite e a perda." — Contardo Calligaris)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Entrei na sala do terceiro ano, no primeiro horário daquela manhã, carregando a pasta pesada, os planos de aula e aquela esperança teimosa que, vá lá, insiste em sobreviver a cada começo de bimestre, embora o corpo já conheça o preço dos anos de magistério. Era minha quinta vez diante daquela turma naquele segundo bimestre. Mal me aproximei do quadro branco, com o pincel suspenso no ar, fui interrompido por um cheiro — denso, quente, absurdamente doméstico.

Cheiro de churrasco. Virei-me devagar, sentindo um nó subir pela garganta. Lá no fundo da sala, dois ou três alunos trabalhavam com a desenvoltura de quem está na própria cozinha de casa: uma sanduicheira elétrica ligada na tomada da parede, um saco de pão de forma espalhado sobre a carteira, carne fatiada e aquela soberana tranquilidade de quem não enxerga problema nenhum no próprio absurdo.

Fiquei parado por alguns segundos, observando a fumaça fina subindo em direção ao teto da sala. Olhei para minhas mãos. Depois para o pincel. E, por um instante quase constrangedor, uma dúvida infantil atravessou minha cabeça: será que o errado sou eu?

Porque o problema nunca foi a fome. A fome é humana. É legítima. É urgente. O problema era outra coisa. Era a algazarra mansa que pairava no ambiente, aquela sensação estranha de que a aula tinha virado paisagem, mero ruído de fundo. A sanduicheira, essa sim, assumira o papel principal.

Comer virou isca. E a frequência, o peixe fisgado. Semanas depois, a engrenagem silenciosa da escola começou a cobrar seu preço. Mas, não de mim.

Foi um colega, professor do mesmo período, quem entrou na mira. O pedido de destituição não chegou embrulhado em sinceridade; veio revestido daquela linguagem corporativa elegante que parece sair pronta de cursos motivacionais e manuais de gestão. Aluno que decide derrubar um adulto aprende rápido a falar a língua das instituições.

Disseram que ele era rígido. Que sua linguagem era inadequada. Que o clima da sala estava pesado. Que ele não criava vínculo. A coordenação ouviu tudo. Fez anotações em planilhas coloridas. Assumiu aquela expressão solene, quase ensaiada, de quem parece considerar os dois lados com absoluta imparcialidade — essa neutralidade de vitrine que certas instituições vestem quando não querem enfrentar o desconforto do conflito.

Mas, curiosamente, só um lado saiu daquela sala menor do que entrou. O professor ainda tentou argumentar. Os ombros, porém, já denunciavam um cansaço antigo. Disse que talvez o problema não estivesse na metodologia; que exigência e silêncio produtivo não eram formas de crueldade, mas condições mínimas para o pensamento respirar.

Não caiu bem. Descobri ali que falar em limites virou uma das grandes heresias pedagógicas dos tempos atuais. Afinal, é muito mais simples — e infinitamente mais barato — substituir o professor. E foi exatamente isso que fizeram. A turma respirou aliviada. A vitória tinha cheiro de recreio prolongado.

O substituto apareceu na semana seguinte: jovem, educado, com slides impecavelmente montados e aquela luz nos olhos de quem ainda acredita que basta transbordar afeto para ser recebido de braços abertos. Eu o observava pelos corredores e sentia uma mistura estranha de inveja com uma pena sincera.

Eu já tinha sido aquela luz. Na primeira semana, o pacto da mediocridade funcionou. Na segunda, surgiram os primeiros sussurros. Na terceira, veio a sentença — quase palavra por palavra: Ele também era conteudista. Também era inadequado. Também não criava vínculo.

Foi vendo o segundo colega juntar seus papéis em silêncio que o diagnóstico terminou de se desenhar diante de mim. A reclamação não mudara, apesar da troca do homem. O que aquela turma rejeitava não era a didática. Era a própria alteridade. Era qualquer adulto disposto a interromper o banquete da indiferença.

Qualquer um que ousasse dizer "não". Qualquer um que lembrasse que limites existem. Qualquer um que exigisse alguma coisa além da simples presença física dentro da sala. Quando toda queixa discente passa a ser automaticamente convertida em verdade institucional, quem acaba sacrificado é justamente aquele que se recusou a ser peça decorativa. E não digo isso para absolver maus profissionais — arrogância acadêmica e incompetência existem, e não são raras.

Mas, há algo de profundamente perverso em assistir professores vocacionados sendo lentamente triturados pela máquina do consenso a qualquer custo. No fim das contas, a cadeira mudou. O barulho ficou. E talvez essa tenha sido a única lição que ninguém quis apagar do quadro.


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Como professor de Sociologia, vejo nesse texto uma oportunidade riquíssima para analisarmos conceitos fundamentais da nossa disciplina, como as relações de poder, as instituições sociais, a burocratização e o conceito de alteridade. Abaixo, apresento 5 questões discursivas e simples, elaboradas para conectar a narrativa da crônica com o pensamento sociológico de forma reflexiva:

1. Instituições Sociais e Anomia (Émile Durkheim)

No texto, o autor menciona que a coordenação escolar adotou uma "neutralidade de vitrine" e preferiu trocar o professor a enfrentar o conflito, resultando na manutenção do barulho. A partir da perspectiva de Émile Durkheim sobre as instituições sociais, como a falta de normas claras e o enfraquecimento da autoridade pedagógica podem sinalizar um estado de anomia dentro do ambiente escolar?

2. Relações de Poder e Linguagem (Michel Foucault)

O cronista afirma que "aluno que decide derrubar um adulto aprende rápido a falar a língua das instituições", utilizando termos como "falta de vínculo" e "clima pesado" para justificar a destituição do professor. Como essa passagem ilustra a ideia de Michel Foucault de que a linguagem e o discurso são instrumentos de poder e controle social?

3. O Conceito de Alteridade

No desfecho da crônica, o narrador conclui que o que a turma rejeitava não era a didática dos professores, mas "a própria alteridade". Explique o conceito sociológico/antropológico de alteridade e disserte sobre como a recusa em aceitar o "não" e o limite do outro se relaciona com esse conceito no contexto da sala de aula.

4. Racionalidade Instrumental e Burocracia (Max Weber)

A coordenação da escola resolve o problema de forma rápida e técnica: "Fez anotações em planilhas coloridas (...). É muito mais simples — e infinitamente mais barato — substituir o professor". Utilizando o pensamento de Max Weber sobre a burocracia e a racionalidade instrumental, analise como a lógica de mercado e a eficiência burocrática podem esvaziar a dimensão humana e pedagógica da educação.

5. Socialização e o "Pacto da Mediocridade"

O texto menciona um "pacto da mediocridade" que funciona temporariamente quando o novo professor chega. Pensando na escola como um espaço de socialização secundária, qual é o perigo social de uma instituição de ensino validar esse pacto, onde a presença física (frequência) é mantida apenas pela "isca" do entretenimento ou do conforto, sem o esforço produtivo?

quinta-feira, 14 de maio de 2026

O Abismo Entre a Lei e o "Giz": O Silêncio das Sílabas e o Peso do "Giz" (“A leitura do mundo precede a leitura da palavra.” — Paulo Freire)

 




O Abismo Entre a Lei e o "Giz": O Silêncio das Sílabas e o Peso do "Giz" (“A leitura do mundo precede a leitura da palavra.” — Paulo Freire)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Deixa eu lhe fazer uma pergunta, assim, sem rodeio: você já viu alguém ler uma frase inteira em voz alta, sem tropeçar numa única sílaba, e ainda assim não entender absolutamente nada do que acabou de ler?

Eu já. Com nome, rosto, mochila nas costas e carteira numerada. Era o Benício Norval. Dezessete anos. Terceiro ano do Ensino Médio. Tinha aquele sorriso leve de quem aprendeu cedo que, muitas vezes, sorrir é mais seguro do que admitir que não entendeu. Numa tarde abafada de setembro, pedi que ele lesse um trecho simples em voz alta. E ele leu. Leu bem, aliás. Sem hesitar, sem engolir palavra, com uma fluência capaz de enganar qualquer avaliador distraído. Quando terminou, fiz a pergunta mais básica do mundo: — "O que o autor quis dizer com isso?"

Ele me olhou em silêncio. Não com deboche, nem com preguiça. Era pior. Havia naquele olhar uma mistura dolorosa de boa vontade e vazio. Depois de alguns segundos, respondeu baixinho: — "Não sei, professor."

E pronto. Ali estava o retrato inteiro de uma tragédia que o país aprendeu a maquiar com estatística. Porque não era desinteresse. Não era falta de inteligência. Era ausência de sentido. As palavras tinham atravessado o menino como água atravessa peneira: passaram todas, mas nenhuma ficou.

Isso tem nome — analfabetismo funcional. E não, não é exagero de professor cansado nem nostalgia barata de quem vive dizendo que “na minha época era melhor”. O SAEB e o PISA mostram, com a frieza cruel dos números, aquilo que a escola já sente há anos na pele: estamos formando jovens que decodificam palavras, mas não alcançam significado. Estamos formando Benício Norval. Aos montes. Isso não é opinião. É diagnóstico.

Só que aí vem a parte que muita gente prefere empurrar para debaixo do tapete: a culpa não é do professor. Eu sei que isso incomoda. Afinal, culpar quem tá na linha de frente é sempre mais fácil. Mais rápido. Mais conveniente. O professor virou uma espécie de para-raio social: recebe sozinho a descarga de um sistema inteiro que falhou muito antes de a aula começar. É ele quem chega cedo, improvisa material, enfrenta sala lotada, tenta ensinar enquanto aparta conflito, escuta desabafo, preenche relatório e ainda leva pilha de prova para corrigir em casa. Culpar esse profissional resolve discurso político. Só não resolve o problema.

Porque o professor não decide quantos alunos cabem numa sala abafada. Não escolhe material engessado. Não controla diretrizes pedagógicas que mudam a cada troca de governo como se educação fosse slogan eleitoral e não projeto de país. A verdade é que a conta nunca fechou. Nunca. E, no meio desse abismo entre o que se cobra e o que se oferece, milhares de crianças seguem avançando de ano sem dominar o básico da leitura. Não porque ninguém tentou ensinar, mas porque o sistema descobriu que aprovar dá menos trabalho do que alfabetizar de verdade.

A Lei de Diretrizes e Bases garante o direito à aprendizagem. E garante bonito. No papel, a educação brasileira parece quase poesia jurídica. Mas, entre a letra da lei e o chão quente de uma escola pública existe um abismo que só entende quem já sentiu o ventilador velho empurrando ar quente numa tarde de agosto enquanto tenta convencer uma turma cansada de que aprender ainda vale a pena. Falta formação continuada que dialogue com a realidade. Falta estabilidade. Falta estrutura. E sobra pressão. Sobra meta. Sobra cobrança por resultado imediato, como se educação pudesse ser produzida na velocidade de uma planilha.

Então, vamos dizer as coisas pelo nome que elas têm. Sim, estamos entregando analfabetos funcionais ao mercado, à vida e ao futuro. Mas, isso não é a confissão de fracasso de professores que desistiram de ensinar. É o retrato de um sistema fragilizado, rachado por dentro, que prefere maquiar números a enfrentar suas próprias ruínas.

E, mesmo assim, o professor continua ali. De pé. Com o giz embranquecendo as mãos cansadas e uma teimosia silenciosa no olhar. Talvez porque, no fundo, ensinar seja isso: continuar remando mesmo quando a correnteza parece ter decidido afundar o barco. O que esse professor precisa não é de mais tribunal. É de escuta. É de estrutura. É de dignidade.

Porque a educação de verdade não nasce nos discursos prontos. Ela nasce lá embaixo, no chão áspero da sala de aula, onde o giz range, o ventilador geme e um aluno encara um texto sem conseguir enxergá-lo por inteiro. E, ainda assim, apesar de tudo, alguém continua tentando ensinar. Todo santo dia. -*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/

Olá, turma! Como seu professor de Sociologia, fico muito tocado por esse texto. Ele nos apresenta o "Benício Norval", um personagem que poderia estar em qualquer uma de nossas salas, e nos convida a usar a imaginação sociológica para entender que a dificuldade dele não é apenas um "problema individual", mas o resultado de uma estrutura social e política complexa. O texto aborda temas fundamentais da nossa disciplina, como a precarização do trabalho, o papel das instituições e a distância entre a norma (a lei) e a realidade social. Aqui estão 5 questões discursivas, simples e diretas, para refletirmos sobre essa realidade:

1. O Personagem "Benício Norval" e a Desigualdade de Oportunidades

O texto apresenta o Benício Norval, um jovem de 17 anos que lê, mas não compreende o sentido do que lê. Do ponto de vista sociológico, como o "analfabetismo funcional" pode limitar a capacidade de um jovem de ascender socialmente e de competir de forma justa no mercado de trabalho?

2. A Escola como Instituição Social e a "Maquiagem de Números"

O autor afirma que o sistema prefere "maquiar números a enfrentar suas próprias ruínas". Por que, para o Estado e para as instituições, muitas vezes é mais importante apresentar estatísticas positivas de aprovação do que garantir a qualidade real do aprendizado? Quais são as consequências sociais disso?

3. O Professor como "Para-raio Social"

A crônica descreve o professor como alguém que recebe a "descarga de um sistema inteiro que falhou". Explique, com base na sua percepção da sociedade, por que é mais comum a opinião pública culpar o indivíduo (o professor) do que analisar as falhas na estrutura (investimento, políticas públicas, gestão)?

4. A Distância entre a Poesia Jurídica e o Chão da Sala

O texto menciona que a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) é uma "poesia jurídica", mas que não chega ao "chão quente" da escola pública. Como essa contradição entre o que a lei garante e o que a sociedade oferece reflete a dificuldade de se consolidar a cidadania plena no Brasil?

5. Educação e Participação Democrática

Para a Sociologia, a educação é essencial para a democracia. Se estamos formando cidadãos que "decodificam palavras, mas não alcançam significado", como isso afeta a capacidade dessa população de interpretar notícias, entender propostas políticas e participar ativamente das decisões da sua comunidade?

Dica do Professor:

Pessoal, pensem no Benício Norval como um símbolo de um sistema que precisa de mudanças. Ao responderem, não pensem apenas na escola como um prédio com carteiras, mas como o lugar onde o futuro da nossa sociedade é decidido. A Sociologia nos ajuda a ver que o "não sei" do Benício Norval é, na verdade, um grito de alerta sobre a nossa estrutura social.

Bom trabalho! Vamos usar o pensamento crítico para analisar esse "abismo".

terça-feira, 12 de maio de 2026

O "Giz", o Ventre e a Herança Invisível (... porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem — Êxodo 20:5 ARA)

 



O "Giz", o Ventre e a Herança Invisível (... porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem — Êxodo 20:5 ARA)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Trinta e três anos dentro de uma sala de aula ensinam coisas que diploma nenhum ousa escrever. Com o tempo, aprendi a reconhecer o som de uma crise antes mesmo de ela estourar. O ranger da cadeira arrastada com raiva, o lápis arremessado ao chão como se fosse uma afronta pessoal, o olhar incendiado de quem não suporta ouvir um “não” sem sentir o mundo desabar. Há tempestades, afinal, que começam muito antes do trovão.

Foi numa terça-feira abafada — dessas em que o ventilador gira só para espalhar o calor — que vi o pequeno Enzo perder a batalha contra si mesmo. Bastou um lápis cair no chão. Só isso. O menino explodiu. Chutou a carteira, gritou palavrões ainda grandes demais para boca de uma criança e virou o rosto como quem desafia o mundo inteiro. A sala congelou. Uns riram de nervoso. Outros baixaram a cabeça, já acostumados ao teatro diário da desordem.

Eu fiquei imóvel. Não porque aquilo fosse normal — longe disso —, mas porque, depois de décadas segurando giz entre os dedos, a gente aprende uma verdade amarga: nenhuma explosão nasce no instante em que acontece. Todo comportamento é fumaça denunciando incêndios muito mais antigos.

Nas reuniões pedagógicas, os diagnósticos quase sempre chegam prontos, como receita velha passada de mão em mão: excesso de telas, ausência dos pais, famílias desestruturadas, falta de limites. E talvez haja verdade em tudo isso. Mas, sentado diante daquele menino arfando de raiva, senti outra vez a impressão que me acompanha há anos: o problema começa muito antes da matrícula. Muito antes do primeiro caderno comprado. Muito antes de a criança aprender a escrever o próprio nome.

Às vezes, a escola é só o palco onde aparecem feridas nascidas no invisível. Foi então que me vieram à memória certos relatos bíblicos que muita gente lê apenas como símbolo religioso, mas que talvez escondam algo mais profundo sobre a formação humana. Quando o anjo apareceu à mãe de Sansão, por exemplo, não entregou técnicas pedagógicas nem falou sobre disciplina na adolescência. A ordem foi simples, direta, quase cortante: “Guarda-te”. Antes mesmo do menino nascer, o cuidado já começava com a mulher que o carregava.

Também Isabel ouviu que João Batista seria cheio do Espírito Santo ainda no ventre. Maria, por sua vez, recebeu o peso — e a honra — de carregar Jesus como quem transporta esperança dentro do próprio corpo. E há algo em comum nesses relatos: o ventre nunca aparece como mero abrigo biológico. Não. Ele surge como oficina silenciosa da alma.

E, sinceramente, depois de tantos anos observando gente, comecei a olhar para isso com outros olhos. Não digo isso para condenar mães, como tantos fazem do alto de certezas frias e cruéis. Ser mãe hoje já é uma travessia pesada demais. Há mulheres carregando filhos enquanto suportam abandono, medo, violência, solidão e um cansaço que ninguém vê. Muitas delas, inclusive, também foram feridas por heranças emocionais que nunca conseguiram quebrar.

Mas fechar os olhos para influência desse período é ignorar algo que a própria vida insiste em mostrar. Existem gestantes que atravessam os nove meses mergulhadas numa ansiedade sem freio, em explosões constantes, em impulsos alimentados sem qualquer vigilância emocional. E o bebê, ali dentro, não recebe apenas nutrientes. Recebe atmosferas. Recebe silêncios pesados, medos acumulados, tensões diárias. O corpo aprende antes da fala. A alma, talvez, aprenda antes mesmo da consciência.

Talvez seja por isso que algumas crianças já chegam ao mundo como quem trava batalhas internas que ninguém consegue explicar. Não acredito em determinismo cruel. O ser humano não nasce condenado. Sempre existe a possibilidade de reconstrução. Sempre. Mas, acredito, sim, em heranças invisíveis — tendências emocionais que atravessam gerações como rios subterrâneos correndo debaixo da terra.

Quando Enzo gritava naquela sala abafada, eu já não enxergava apenas um menino indisciplinado. Via ecos. Via ausências. Via cansaços antigos. Via impulsos que talvez tivessem sido alimentados antes mesmo de ele abrir os olhos para o mundo. E foi aí que compreendi, mais uma vez, algo doloroso: muitos professores tentam corrigir, nos corredores da escola, aquilo que começou a ser moldado no silêncio de um ventre.

O mundo moderno transformou a gravidez numa vitrine de caprichos. “A gestante pode tudo”, repetem por aí. E talvez possa mesmo. Mas, há uma diferença enorme entre acolher desejos e transformar cada impulso em lei absoluta. A criança aprende cedo — cedo demais — a lógica perigosa do “eu quero agora”.

Por isso, o velho conselho bíblico ainda ecoa como advertência esquecida: “Guarda-te”. Guarda-te da raiva que explode sem freio. Guarda-te das palavras amargas lançadas como faca. Guarda-te da ansiedade que transforma o lar num campo de batalha. Guarda-te porque alguém, em silêncio, está absorvendo tudo isso antes mesmo de nascer.

Naquela tarde, depois que a aula terminou, vi Enzo sair pelo portão chutando pedrinhas pelo caminho. O sol descia devagar sobre a quadra da escola, tingindo tudo com aquele dourado triste de fim de dia. E eu fiquei sozinho na sala, recolhendo papéis espalhados pelo chão. Passei a mão sobre a velha mesa de madeira marcada por gerações de alunos e senti, mais uma vez, o peso silencioso do tempo.

Depois de trinta e três anos de magistério, descobri que educar nunca foi só ensinar matemática, gramática ou ciências. Educar é tentar interromper heranças invisíveis antes que elas virem destino. E talvez essa seja a tarefa mais difícil de todas. Porque salvar uma criança começa muito antes do primeiro caderno aberto sobre a carteira. Começa no ventre. Começa na serenidade que uma mãe consegue preservar em meio ao caos. Começa na rara capacidade humana de ensinar, pelo exemplo, que nem todo desejo precisa virar ordem e que nem toda vontade merece ser obedecida.

No fim das contas, talvez o caráter de uma geração seja escrito primeiro não no giz dos professores, mas no silêncio das mães que aprendem, dia após dia, a guardar a si mesmas para proteger aquilo que ainda pulsa, invisível, dentro delas.

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Olá, turma! Como professor de Sociologia de vocês, fico muito tocado quando encontramos um texto que não apenas descreve a sala de aula, mas investiga as estruturas invisíveis que moldam quem somos. Este texto nos permite aplicar o que o sociólogo C. Wright Mills chamava de Imaginação Sociológica: a capacidade de conectar a biografia individual (a raiva do Enzo) com a história e a estrutura da sociedade (as heranças familiares e geracionais). Vamos analisar como a nossa identidade é construída muito antes de termos consciência disso, através da Socialização Primária. Aqui estão 5 questões discursivas para pensarmos juntos:

1. A Construção do "Eu" e a Socialização Primária

O texto sugere que "nenhuma explosão nasce no instante em que acontece". De acordo com o conceito de Socialização Primária (o primeiro contato da criança com o mundo através da família), como o ambiente emocional e as atitudes dos cuidadores moldam a maneira como uma criança reagirá a frustrações e regras no futuro?

2. A Escola como Instituição de Socialização Secundária

O autor afirma que professores tentam corrigir na escola aquilo que foi moldado no "silêncio de um ventre". Explique a diferença entre o papel da família (socialização primária) e o papel da escola (socialização secundária) na formação do indivíduo. É possível para a escola "consertar" sozinha as feridas emocionais trazidas de casa? Justifique.

3. Determinismo Social vs. Agência Individual

Embora o texto fale em "heranças invisíveis", ele ressalta que "o ser humano não nasce condenado". Na sociologia, debatemos muito entre o determinismo (a ideia de que somos escravos do nosso meio) e a liberdade. Como podemos entender a importância da herança familiar sem tirar da pessoa a capacidade de mudar sua própria história?

4. O Contexto Social da Maternidade e as Estruturas de Apoio

O autor tem o cuidado de não condenar as mães, citando que muitas carregam filhos sob "abandono, medo e violência". Do ponto de vista sociológico, como a falta de políticas públicas e de uma rede de apoio (comunidade, estado, parceiros) pode afetar a saúde emocional da gestante e, consequentemente, a formação do novo indivíduo?

5. A Cultura do Imediatismo e a Lógica do "Eu quero agora"

A crônica critica a ideia moderna de que "a gestante pode tudo", relacionando isso à dificuldade das crianças em aceitarem o "não". Como os valores da nossa sociedade de consumo, que privilegia a satisfação imediata de todos os desejos, influenciam a educação das novas gerações e a crescente indisciplina escolar?

Dica do Professor:

Pessoal, ao responderem, lembrem-se de que a Sociologia não busca culpados, mas busca entender as causas. Olhem para o Enzo não apenas como um aluno "complicado", mas como o ponto de chegada de uma longa linhagem de sentimentos e pressões sociais. Mãos à obra e bons pensamentos!

domingo, 10 de maio de 2026

É na Sua Sombra que Mora Minha Luz? O Diabo criou a competição! (“Ninguém pode construir sua própria segurança sobre a infelicidade dos outros.” — Mahatma Gandhi)

 





É na Sua Sombra que Mora Minha Luz? O Diabo criou a competição! (“Ninguém pode construir sua própria segurança sobre a infelicidade dos outros.” — Mahatma Gandhi)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Tinha um jogo decisivo naquela noite. Diante da TV, Sentei na minha poltrona de sempre — aquela que já conhece minhas superstições, meus palavrões abafados e minhas esperanças inúteis — com o coração apertado do jeito que só o futebol consegue fazer. Porque o futebol, convenhamos, é uma espécie de religião emocional: faz adulto rezar, faz incrédulo prometer mudança de vida e transforma noventa minutos em eternidade.

Quando o juiz apitou o fim da partida, o estádio explodiu. Meu time ganhou, e eu aqui também com os braços erguidos para o céu; lá, gente chorando, desconhecidos se abraçando como irmãos sobreviventes de uma guerra. Do outro, silêncio, cabeça baixa, mãos no rosto e aquele olhar perdido de quem acabou de assistir ao próprio sonho escapar pelo ralo. Era o mesmo gramado, o mesmo suor, o mesmo barulho ensurdecedor — mas sentimentos separados por um abismo sentimental.

E foi ali, observando aquela catarse coletiva, que uma pergunta me atravessou como faca fria: Será que é na sua incapacidade que mora a minha luz? A frase ficou dias martelando dentro de mim. Dessas ideias inconvenientes que não batem na porta — arrombam. Primeiro queimam no peito, depois começam a bagunçar os móveis da consciência.

Porque, olhando bem, existe mesmo uma lógica cruel sustentando boa parte do mundo. No esporte, um time só levanta a taça porque outro desabou de joelhos no campo. No trabalho, quantas promoções não nascem justamente do erro do colega? O sujeito vacila numa entrega, você resolve o problema, e pronto: segunda-feira aparece sorridente na reunião enquanto ele evita contato visual perto da máquina de café. No mercado, na política, nas relações pessoais… quase sempre há alguém brilhando exatamente no espaço onde outro fracassou.

É duro admitir isso. Mas fingir que essa engrenagem não existe também é uma forma elegante de ingenuidade. Só que existe uma armadilha silenciosa nesse pensamento — e ela não faz barulho quando chega. Ela corrói aos poucos.

Lembro de dois homens numa empresa onde trabalhei anos atrás. O primeiro era estrategista da própria ambição. Não precisava derrubar ninguém explicitamente; bastava esperar. Tinha a paciência fria dos que observam o tropeço alheio como pescador esperando o peixe fisgar o anzol. Quando alguém errava, lá estava ele: impecável, eficiente, pronto para ocupar o espaço vazio. Cresceu rápido. Ganhou sala maior, bônus gordo e aqueles elogios corporativos que parecem abraço, mas têm cheiro de cálculo.

O segundo era o oposto. Perdia tempo — segundo a lógica da empresa — ensinando novato, compartilhando atalhos, dividindo experiência e ajudando o time inteiro a funcionar melhor. Enquanto um subia sozinho, o outro fazia questão de puxar gente junto. Demorou mais para ser reconhecido, é verdade. O mundo quase nunca recompensa imediatamente quem constrói pontes em vez de escadas.

Mas o tempo… ah, o tempo tem uma ironia fina. Décadas depois, o primeiro ainda era lembrado pelo cargo. O segundo, pela humanidade. E existe uma diferença brutal entre as duas coisas. Cargo tem prazo de validade. Respeito não. O crachá acaba esquecido numa gaveta qualquer. Já a memória que alguém deixa nos outros continua circulando por aí, silenciosa, mesmo depois que as luzes da sala se apagam.

Desde então, essa pergunta me acompanha como sombra comprida no fim da tarde: será que a vida é mesmo um jogo de soma zero, em que meu brilho depende necessariamente da escuridão alheia? Será que só existimos plenamente quando alguém perde espaço para nós? Ou será que inventaram essa lógica porque ela justifica melhor nossa fome de vencer? Não tenho resposta pronta. Desconfio, inclusive, de quem tem.

Mas aprendi uma coisa assistindo àquele jogo. O time campeão merecia comemorar. Vitória também é suor, disciplina e coragem. Só que, passado o barulho, os nomes que permaneceram vivos na memória da torcida — dos dois lados — não foram apenas os vencedores. Foram os que jogaram com alma. Os que honraram a camisa até o último minuto, mesmo quando a derrota já rondava o campo como urubu em céu de seca. Porque existe uma dignidade rara em não abandonar a própria essência nem quando o placar desaba.

A competição tem seu valor satânico, claro. É ela que nos arranca da acomodação, como vento forte empurrando moinho velho. O problema se agrava quando a gente passa a viver esperando o tropeço do outro para se sentir inteiro. Isso amarga. A pessoa já não celebra conquistas; celebra quedas. Já não admira talentos; torce por fracassos. E, sem perceber, transforma a própria felicidade numa dependência triste da ruína alheia.

Talvez, no fim das contas, a luz mais bonita não seja aquela que nasce quando o rival apaga.

Talvez seja aquela que continua brilhando mesmo quando o outro também acende a própria chama.


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Olá, pessoal! Como professor de Sociologia, fico muito entusiasmado com textos que nos fazem olhar para além do óbvio. Esta crônica é um "prato cheio" para discutirmos como a nossa sociedade se organiza e como nós, indivíduos, nos relacionamos uns com os outros em um sistema que muitas vezes parece priorizar o conflito e a competição sobre a cooperação. Na Sociologia, analisamos fenômenos como a meritocracia, a competição social e a solidariedade. O texto nos convida a pensar se o sucesso é algo individual ou se ele sempre depende do fracasso de alguém — o que chamamos de "jogo de soma zero". Aqui estão 5 questões discursivas pensadas para o nosso nível de Ensino Médio, para ajudar vocês a conectarem esse texto com os conceitos da nossa disciplina:


1. A Sociedade da Competição e o "Jogo de Soma Zero"

O autor questiona se a vida é um "jogo de soma zero", onde para alguém ganhar, outro obrigatoriamente tem que perder. Relacione essa ideia com o conceito de Capitalismo e Competição Social. Como a estrutura do nosso mercado de trabalho incentiva a ideia de que "o brilho de um depende da escuridão do outro"?

2. Solidariedade Mecânica e Orgânica

Émile Durkheim, um dos pais da Sociologia, falava sobre como a sociedade se mantém unida através da solidariedade. No texto, vemos dois tipos de profissionais: um que sobe sozinho e outro que "puxa gente junto". De que maneira a atitude do segundo profissional fortalece a coesão social e os laços de cooperação dentro de um grupo ou empresa?

3. Meritocracia e Desigualdade

O texto menciona que "o mundo quase nunca recompensa imediatamente quem constrói pontes em vez de escadas". Reflita sobre o conceito de Meritocracia: em uma sociedade que valoriza apenas o vencedor final (o placar do jogo), o que acontece com os valores humanos e éticos daqueles que não "chegam ao topo", mas que jogaram com alma e honraram sua essência?

4. A Espetacularização da Vitória e o Consumo

O futebol é descrito como uma "religião emocional" e uma "catarse coletiva". Como a indústria cultural e os meios de comunicação transformam a vitória e a derrota em mercadorias emocionais? Por que a nossa sociedade parece ter tanta "fome de vencer" a qualquer custo, como sugere o autor?

5. Ética e Reconhecimento Social

O cronista diferencia o "cargo" do "respeito", afirmando que o cargo tem prazo de validade, mas o respeito não. Do ponto de vista sociológico, como o reconhecimento social (a forma como somos lembrados pela comunidade) constrói a nossa identidade de forma mais profunda do que os títulos hierárquicos ou o poder econômico?

Dica do Prof:

Ao responder, não fiquem apenas no "eu acho". Tentem observar como essas situações aparecem na escola, nos esportes que vocês praticam ou até no que vocês veem nas redes sociais. A Sociologia é o exercício de olhar para o que todo mundo vê, mas pensar o que ninguém pensou!

Bom trabalho!