"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(8) A PERGUNTA COMO REVERÊNCIA

 



Ensaio Teológico X(8) A PERGUNTA COMO REVERÊNCIA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

No fundo da sala havia um menino que nunca levantava a mão. Sabia algumas respostas, ou pelo menos desconfiava delas, mas a pergunta que lhe queimava a garganta — "E se não for assim?" — parecia-lhe uma espécie de ofensa. Talvez tivesse medo de contrariar a professora, decepcionar os colegas ou simplesmente ser confundido com alguém que não respeitava a autoridade. Até que, certo dia, em vez de repreendê-lo, a professora escreveu a frase no quadro e disse: "Hoje vamos começar por aqui". Naquele instante, o menino aprendeu uma lição que talvez levasse anos para compreender por inteiro: há silêncios que nascem do respeito e outros que são filhos do medo. E só os primeiros merecem ser preservados. Lembro-me dele quando releio o velho provérbio segundo o qual o sábio ama ser ensinado, enquanto o tolo prefere ouvir a própria voz. Não pretendo desmentir essa sabedoria, afinal, quem se considera completo já fechou as portas para o aprendizado. Mas, fica uma inquietação: escutar bem significa deixar de perguntar ou será que uma atitude amadurece justamente com a outra?

A própria tradição sapiencial nunca confundiu humildade com obediência cega. No livro de Jó, encontramos um homem que interroga o Céu, expõe suas angústias e questiona a justiça divina. Curiosamente, é ele quem recebe reconhecimento, enquanto seus amigos, tão seguros de suas fórmulas e explicações prontas, acabam repreendidos. Os Salmos também estão cheios de clamores, perguntas e pedidos de explicação, mostrando que a inquietação pode ser uma forma legítima de oração. Em Atos 17, os judeus de Bereia são elogiados justamente porque recebiam a mensagem com entusiasmo, mas examinavam diariamente as Escrituras para verificar se aquilo correspondia à verdade. Ora, que bela demonstração de equilíbrio! Eles ouviam sem fechar os olhos e examinavam sem desprezar o que ouviam. Vejo nisso uma sabedoria que não coloca a escuta e a crítica em lados opostos: perguntar não é necessariamente desconfiar de quem ensina, mas levar a sério aquilo que foi ensinado.

Nosso tempo, aliás, torna essa lição ainda mais necessária. Yuval Noah Harari, historiador e autor de Sapiens e 21 Lições para o Século XXI, chama a atenção para um problema da sociedade contemporânea: a abundância de informações não significa, necessariamente, maior compreensão. Em meio a tantas notícias, opiniões e versões, o desafio é separar o que realmente importa do barulho que nos cerca. Daniel Kahneman, psicólogo e Nobel de Economia, demonstrou como o pensamento rápido pode nos conduzir a julgamentos equivocados, razão pela qual decidir bem exige, muitas vezes, desconfiar das próprias certezas. Carol Dweck, também psicóloga, acrescenta que a inteligência e a aprendizagem se desenvolvem quando estamos dispostos a errar, rever caminhos e tentar novamente. Paulo Freire, por sua vez, criticava a chamada "educação bancária", na qual o aluno é tratado como um cofre no qual o professor deposita conhecimentos, e defendia uma educação fundamentada no diálogo, em que ensinar e aprender são movimentos de mão dupla. Hannah Arendt, ao refletir sobre os perigos da ausência de pensamento crítico e sobre a responsabilidade individual diante do autoritarismo, também nos ajuda a compreender o risco de simplesmente aceitar o que nos dizem. Hoje, em meio à desinformação, às notícias fabricadas e às opiniões que circulam como verdades absolutas, quem não pergunta acaba ficando à mercê de quem fala mais alto. Até o progresso, penso eu, nasce muitas vezes da inquietação de alguém que resolve examinar aquilo que todos consideram indiscutível. A campanha "Think Different", da Apple, criada por uma agência de publicidade, e não uma declaração pessoal de seu fundador, sintetizou essa intuição: ideias novas costumam parecer insolentes antes de serem reconhecidas como necessárias. Afinal, quase toda mudança começa com alguém que tem coragem de perguntar: por que precisa continuar sendo assim?

Volto, então, ao menino do fundo da sala. O que a professora lhe ofereceu não foi uma licença para a rebeldia, muito menos um convite à contestação gratuita. Foi algo mais importante: a segurança de saber que sua pergunta seria recebida como contribuição, não como desacato. É esse equilíbrio que procuro defender, tanto na escola quanto na vida. A sabedoria não mora na submissão de quem aceita tudo, tampouco na soberba de quem rejeita qualquer ideia que venha do outro. Mora na atenção humilde de quem escuta até o fim, pensa, pondera e só então pergunta, mesmo que sua pergunta provoque algum desconforto. Afinal, não precisamos escolher entre ouvir e pensar, entre respeitar e questionar. Uma coisa não anula a outra; pelo contrário, completa-a. Escutar dá à dúvida o direito de existir; perguntar dá à escuta o seu verdadeiro sentido. Num mundo que muda depressa e onde tantas certezas envelhecem antes mesmo de serem compreendidas, precisamos de pessoas capazes de aprender sem se ajoelhar diante de qualquer discurso e de questionar sem perder a humildade. Gente que saiba ser, ao mesmo tempo, discípula e interlocutora. Porque, no fim das contas, perguntar também é uma forma de reverência: é reconhecer que o conhecimento merece respeito, mas nenhuma resposta humana deve ser confundida com a verdade absoluta.

Ensaio Teológico X(7) O NOME NA LÁPIDE: Para o dia de finados

 


Ensaio Teológico X(7) O NOME NA LÁPIDE: Para o dia de finados

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Na gaveta de minha avó havia uma fotografia sem legenda: quatro pessoas diante de uma casa de pau a pique. Ninguém sorria; todos apertavam os olhos contra o sol, como quem tentava enxergar além daquele instante. Quando perguntei quem eram, ela olhou demoradamente para a fotografia e respondeu: "Já soube". Foi, talvez, a resposta mais sincera que já ouvi sobre a morte. Afinal, aqueles rostos haviam desaparecido da memória dos vivos sem, contudo, jamais terem deixado de existir. Anos depois, aquela fotografia me devolveu uma pergunta inevitável: quando eu partir, o que restará de mim? Meu nome sobreviverá ao tempo ou acabará perdido em alguma gaveta, entre papéis antigos e lembranças sem identificação?

Essa inquietação é tão antiga quanto a própria escrita. O autor de Eclesiastes a formulou com uma serenidade desconcertante: não há lembrança dos antigos, nem haverá dos que vierem depois. Entretanto, em vez de nos entregar ao desespero, o livro nos convida a voltar os olhos para o presente: comer o pão com alegria, desfrutar a vida e compartilhar os dias com quem amamos. Outras passagens bíblicas oferecem uma resposta diferente, falando de um "livro da vida" e de um nome que Deus não esquece, como se a memória verdadeiramente importante não dependesse da lembrança humana. São perspectivas distintas, mas que se encontram numa mesma inquietação sobre a existência. Seja qual for a resposta que eu abrace, permanece a pergunta: "valeu a pena?". Curiosamente, costumo fazê-la olhando para o futuro, quando talvez devesse fazê-la examinando o presente. Afinal, de que adianta desejar um nome na lápide se, em vida, não conseguimos deixar marcas de humanidade no caminho?

Tenho boas razões para desconfiar da posteridade como tribunal. Yuval Noah Harari, historiador e autor de Sapiens, lembra que a história preservou apenas uma pequena parcela da experiência humana. A imensa maioria das pessoas desapareceu sem deixar registros, independentemente de suas virtudes, maldades ou realizações. Já Daniel Schacter, psicólogo da memória, mostrou que recordar não é simplesmente abrir um arquivo e reproduzir o passado: é reconstruí-lo com as tintas do presente. Quem se lembra de nós também projeta sobre nossas histórias suas próprias experiências, sentimentos e interpretações. Zygmunt Bauman, ao analisar a modernidade "líquida", chamou a atenção para a fragilidade dos vínculos e a velocidade com que as relações se desfazem. O ambiente digital, por sua vez, acelerou esse paradoxo: armazenamos fotografias, mensagens e documentos aos milhares, mas nem por isso garantimos que alguém, um dia, se lembrará de nós. Guardamos quase tudo e, contraditoriamente, parecemos esquecer cada vez mais depressa. Diante dessa fragilidade, Viktor Frankl me ensina que o sentido da existência não deve ser perseguido como um troféu, mas encontrado na dedicação a algo maior que nós mesmos. Sartre, por sua vez, lembra que, condenado à liberdade, sou responsável por minhas escolhas e pelos meus atos, sem poder recorrer ao julgamento de um futuro desconhecido para me absolver ou condenar. No fim das contas, viver não é preparar um monumento para a posteridade, mas assumir a responsabilidade pelo que fazemos enquanto ainda estamos aqui.

Essa reflexão também me ensina a fazer justiça aos outros. Se a memória é reconstrução e o contexto exerce tamanha influência sobre o comportamento humano, como sugerem os experimentos de Philip Zimbardo, então condenar ou canonizar os mortos com veredictos definitivos pode ser um grave erro de perspectiva. A história está cheia de personagens que, conforme a época e os interesses de quem os interpreta, passaram de heróis a vilões e de vilões a heróis. A memória coletiva, afinal, nem sempre é justa; às vezes, apenas muda de opinião. Peter Singer me oferece um critério mais humano para avaliar a existência: perguntar quanto sofrimento conseguimos evitar e quanto bem-estar fomos capazes de produzir. É uma medida que dispensa monumentos, sobrenomes importantes e discursos depois da morte. Por isso, volto àquela fotografia esquecida na gaveta de minha avó. Não sei o nome das quatro pessoas, tampouco conheço suas histórias, seus sonhos ou as dificuldades que enfrentaram. Mas, sei que alguém as amou o bastante para guardar aquela imagem. E talvez o legado seja justamente isso: não a eternidade de um nome gravado na pedra, mas o cuidado que, enquanto estivemos vivos, tornou a caminhada de alguém um pouco menos pesada. Se um dia encontrarem uma fotografia minha numa gaveta, sem legenda, não faço questão de que saibam meu nome ou enumerem minhas realizações. Gostaria apenas que, ao segurá-la, alguém pudesse sentir que vivi com dignidade, tratei os outros com humanidade e, apesar das minhas contradições, fui capaz de fazer algum bem. Porque, no apagar das luzes, talvez não seja o nome na lápide que melhor conte quem fomos, mas a saudade silenciosa de quem teve a vida um pouco mais leve por nossa causa.

Ensaio Teológico X(6) A BALANÇA QUE NÃO PESA

 


Ensaio Teológico X(6) A BALANÇA QUE NÃO PESA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Lembro-me de uma senhora de mãos calejadas que, num hospital público, perguntou à enfermeira, sem rancor: "O que foi que eu fiz para merecer isto?". Eram sessenta anos de trabalho, nenhuma dívida e missa aos domingos. Sua pergunta, aparentemente simples, carregava séculos de teologia: aquela velha convicção de que a dor é sentença e a prosperidade, recibo. Compreendo essa crença, afinal, ela nasce do desejo legítimo de acreditar que o mundo tenha alguma lógica e que a virtude não seja em vão. O que me preocupa, porém, é a seriedade com que essa ideia costuma ser defendida, pois, quando transformada em regra, acaba culpando quem sofre e fazendo a compaixão hesitar à porta. E, convenhamos, não há crueldade maior do que acrescentar culpa à dor de quem já carrega tanto peso.

Não penso, entretanto, que apenas a razão secular desconfie dessa balança. A própria fé já a questionou por dentro. No livro de Jó, os três amigos defendem, com eloquência, que o justo prospera e o ímpio padece. Curiosamente, é a eles, e não ao homem que sofre, que o texto reserva a reprovação final. Em João 9, Jesus também recusa a lógica que procura um culpado para explicar a cegueira de nascença. Já a teologia da graça, de Paulo a Agostinho e aos reformadores, reafirma que a salvação é dom, não salário. Portanto, questionar a ideia de que a conduta determina o destino não significa atacar a fé. Pelo contrário, é reencontrar uma de suas vozes mais lúcidas e reconhecer que a existência humana não funciona como um livro-caixa moral, no qual cada sofrimento seria uma dívida e cada conquista, um pagamento.

Se essa balança não pesa, então o que sustenta a moralidade? A filosofia contemporânea oferece algumas respostas que dialogam com essa antiga inquietação. Peter Singer compreende a ética como um esforço de dar sentido à vida compartilhada, defendendo a ampliação do nosso círculo de preocupação moral. Sam Harris, em The Moral Landscape, sustenta que as questões morais giram em torno do bem-estar e do sofrimento humano, embora sua tese seja objeto de controvérsias. Steven Pinker, em Os Anjos Bons da Nossa Natureza, argumenta que a violência declinou ao longo da história, ainda que suas interpretações e seus números também sejam contestados. Reconheço essas divergências, mas me interessa, sobretudo, uma ideia que atravessa essas reflexões: a moralidade não é uma virtude pronta, muito menos uma herança automática. Ela pode amadurecer, como se educa uma criança, por meio da instrução, das instituições e, principalmente, do cuidado com o outro.

Essa discussão ganha contornos ainda mais concretos quando penso na pobreza. Amartya Sen mostrou que ela não se resume à falta de renda, mas representa também a privação de capacidades e oportunidades. Afinal, o chamado "fracasso" não acontece no vazio: tem endereço, rua, CEP e calendário. Isso não significa ignorar as escolhas individuais, mas compreender que ninguém escolhe a vida a partir das mesmas condições. A virtude não garante o êxito, assim como o êxito não comprova a virtude. Sem essa balança moral, resta-me uma lição que encontro em Jó: aprender a silenciar diante da dor alheia antes de tentar explicá-la e, sobretudo, agir antes de julgar. Carl Sagan preferia compreender a realidade a persistir em ilusões, e vejo nessa postura uma forma de respeito à inteligência e à dignidade humana. Que crentes e descrentes consigam se encontrar nesse ponto, não para apagar suas diferenças, mas para reconhecer uma responsabilidade comum: construir uma sociedade em que ninguém precise perguntar o que fez para merecer a própria dor, porque, antes mesmo de qualquer explicação, alguém já terá estendido a mão.

domingo, 1 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(5) A Complexidade das Oportunidades na Sociedade Moderna [As cotas estão certas]

 



Ensaio Teológico X(5) A Complexidade das Oportunidades na Sociedade Moderna [As cotas estão certas]

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Imagino um rapaz, a quem chamo de Mateus, atravessando a cidade em dois ônibus para chegar a uma escola pública que passou meses sem professor de Física. À noite, estuda na mesa da cozinha, entre as contas da casa e o cansaço de quem já enfrentou um longo dia, sem nunca ter colocado os pés num cursinho preparatório. Na mesma lista do Enem aparece outro rapaz, igualmente dedicado, mas que teve simulados, aulas de reforço e até intercâmbio. Então, alguém dirá, com a tranquilidade de quem consulta uma tabela, que cada um chegou aonde merecia. É justamente dessa tranquilidade que desconfio. Afinal, oportunidade não é uma bênção que simplesmente desce do céu, tampouco um prêmio que se conquista apenas com esforço individual. É uma construção social, feita de escolas, bairros, heranças e relações que abrem ou fecham caminhos. E, se foi construída, também pode ser reconstruída com mais justiça. É nesse horizonte que se inserem as políticas de cotas.

Para sustentar essa reflexão, recorro primeiro a Michael Young, que, em 1958, cunhou o termo meritocracia como uma sátira e, mais tarde, lamentou vê-lo transformado em elogio. Michael Sandel, por sua vez, adverte que a crença no mérito absoluto costuma produzir soberba entre os vencedores e humilhação entre os derrotados. Com Ann Swidler, compreendo a cultura como uma espécie de caixa de ferramentas, cujos recursos não são distribuídos igualmente entre as pessoas. Simone de Beauvoir também ajuda a perceber como a sociedade participa da construção dos lugares que cada indivíduo ocupa e das possibilidades que encontra pelo caminho. Reconheço, entretanto, o contraponto de Carol Dweck: a mentalidade e a disposição para aprender fazem diferença. Mas há um detalhe que não podemos ignorar: motor sem estrada não vai longe. Acreditar que se pode aprender Física ajuda, sim, desde que exista um professor de Física para ensinar.

No campo jurídico, a Lei de Cotas, aprovada em 2012, estabeleceu a reserva de, no mínimo, 50% das vagas nas instituições federais de ensino para estudantes que cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas. No mesmo ano, o Supremo Tribunal Federal reconheceu sua constitucionalidade por unanimidade. Inicialmente concebida como uma política sujeita à revisão após dez anos, a legislação foi atualizada em 2023, ampliando seu alcance para incluir também os quilombolas. E aqui é preciso olhar os resultados sem paixão partidária nem torcida organizada. Quero ser honesto com os números: na UFPE, os cotistas apresentaram resultados melhores nos indicadores de evasão, trancamento e atraso, enquanto os não cotistas se destacaram no coeficiente de rendimento e nos índices de reprovação. Na UFV, quase não houve diferença de desempenho, e a evasão entre os cotistas foi menor. Já na UFBA, os não cotistas ficaram cerca de 6,8% à frente. O quadro, portanto, é misto, e seria desonesto selecionar apenas os dados que confirmam nossas convicções. Mas há algo importante nessa discussão: os estudantes que ingressaram permaneceram, e, quando aparecem diferenças de desempenho, a resposta não deve ser fechar as portas, mas fortalecer as políticas de permanência, com bolsas, tutoria e moradia. Também considero as objeções. A isonomia material exige que se observe o ponto de partida de cada pessoa, embora alguns juristas apontem lacunas no acórdão do STF. A renda, sozinha, não explica todas as desigualdades, razão pela qual a legislação combina diferentes critérios. É verdade, ainda, que o problema de fundo está na precariedade da educação básica, mas uma geração inteira não pode ficar esperando que a reforma chegue. O próprio ministro Marco Aurélio ressalvou que o sistema deve terminar quando cumprir sua função. Ou seja, cotas não precisam ser eternas; precisam ser necessárias pelo tempo em que a desigualdade persistir.

Essa discussão também alcança a teologia, onde convém distinguir três palavras que frequentemente se misturam: destino, a ideia de que alguém decidiu lá em cima quem deve subir e quem ficará para trás; graça, o dom imerecido que, justamente por não depender do mérito, nos convida à partilha; e privilégio, a vantagem herdada que tantas vezes se disfarça de merecimento ou bênção divina. A teologia da prosperidade confunde essas três dimensões, atribuindo ao sucesso uma espécie de aprovação celestial e, por consequência, à pobreza uma culpa que nem sempre lhe pertence. A tradição bíblica, entretanto, aponta para outro caminho. Os profetas denunciam a exploração dos vulneráveis, o Jubileu de Levítico 25 questiona a concentração permanente da riqueza, e a destinação universal dos bens, reafirmada pela opção preferencial pelos pobres nas conferências de Medellín e Puebla, recorda que a dignidade humana não pode ficar subordinada aos privilégios de nascimento.

No fim das contas, Mateus não está pedindo esmola, nem uma vantagem indevida. Pede apenas que o relógio comece a contar no mesmo ponto para ele e para o outro rapaz. Se conseguir entrar na universidade, talvez seja o primeiro de sua família a ocupar uma sala universitária. E essa conquista não será apenas individual: poderá representar uma porta aberta para os que vierem depois dele, uma resposta para a família e uma prova, para a rua inteira, de que a conta não precisava fechar daquele jeito. A pergunta honesta nunca foi "quem mereceu mais?", mas "que escola havia, que professor, que rede, que herança, que sorte?". Afinal, não basta celebrar quem vence uma corrida; é preciso perguntar de onde cada corredor partiu, quais obstáculos encontrou e quem teve condições de lhe oferecer uma pista. Só é verdadeiramente justa a sociedade que tem coragem de fazer essas perguntas e, mais do que isso, disposição para agir sobre as respostas.

Ensaio Teológico X(4) A Complexidade do Sucesso: Além do Esforço Individual

 


Ensaio Teológico X(4) A Complexidade do Sucesso: Além do Esforço Individual

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Imagino duas crianças, Helena e Davi, nascidas no mesmo ano e na mesma cidade, com aquela teimosia luminosa de quem acorda cedo porque acredita que aprender pode mudar a vida. Helena cresce numa casa com estantes de livros, um adulto por perto para revisar a lição e uma escola a quinze minutos de caminhada. Davi, por sua vez, vive num bairro onde o ônibus demora, a escola perde professores no meio do ano e o caderno disputa espaço com as contas da semana. Ambos se esforçam, e muito. Mas, trinta anos depois, alguém dirá, com a tranquilidade de quem consulta um boletim, que cada um colheu o que plantou. É justamente dessa frase que desconfio. Não porque o esforço seja uma ilusão, longe disso, mas porque ela confunde o plantio com o solo. Afinal, quem trabalha merece respeito; o que precisa ser questionado é essa pretensão de que o trabalho, sozinho, explique o destino de cada pessoa.

Para compreender a qualidade desse solo, recorro primeiro a Bourdieu, que, em "As formas do capital" (1986), mostrou que as vantagens sociais circulam por três moedas: a econômica, a cultural e a social. São recursos que, muitas vezes, passam de uma geração para outra, reproduzindo posições privilegiadas sob a aparência de talento natural ou mérito individual. Sen, em Desenvolvimento como Liberdade (2000), amplia essa compreensão ao tratar a pobreza como privação de capacidades básicas. Davi, portanto, não carece apenas de dinheiro; carece de uma escola que funcione, de atendimento à saúde por perto e de caminhos concretos para transformar seus desejos em possibilidades. Nesse cenário, exigir dele o mesmo resultado é como cobrar que alguém reme com mais força num rio que corre contra a correnteza. E os dados ajudam a compreender essa desigualdade. Piketty (2014) observa que, em períodos prolongados, o rendimento do capital tende a superar o crescimento da economia. Já Chetty e seus colegas (2017) mostram que a probabilidade de uma pessoa ganhar mais do que seus pais caiu de aproximadamente 90%, entre os nascidos em 1940, para cerca de 50%, entre os nascidos nos anos 1980. O esforço dos filhos não desapareceu; o que encolheu foi o terreno onde esse esforço poderia florescer.

Reconheço, entretanto, o contraponto, e nem por isso o considero uma refutação. Duckworth, em Garra (2016), defende que a perseverança e a paixão contribuem para prever o êxito. Concordo que há verdade nisso, mas apenas numa parte da equação: a garra importa, sim, só que floresce melhor quando encontra condições favoráveis para se desenvolver. Afinal, de que adianta ensinar alguém a subir se lhe retiram os degraus? Pluchino, Biondo e Rapisarda (2018), por meio de uma simulação, sugerem que os maiores sucessos nem sempre são alcançados pelos mais talentosos, mas, muitas vezes, por pessoas moderadamente talentosas que tiveram a sorte de encontrar boas oportunidades. É um modelo matemático, não um retrato completo da vida, mas sua conclusão encontra eco em Eclesiastes 9:11, que chama a atenção para o peso do tempo e das circunstâncias na trajetória humana. Sandel (2020), por sua vez, aponta o custo moral dessa crença no mérito absoluto: quando o sucesso é atribuído inteiramente ao merecimento individual, os vencedores tendem à soberba, enquanto os que ficam para trás carregam o peso da humilhação. Anderson (1999) propõe outro horizonte: uma sociedade em que as pessoas possam se relacionar como iguais e tenham acesso efetivo às liberdades que realmente importam. Não se trata de negar as conquistas individuais, mas de questionar uma sociedade que transforma vantagens de nascimento em certificados de superioridade.

Essa discussão também tem raízes teológicas e merece ser examinada à luz da história religiosa. Weber (1905) mostrou como a noção de vocação transformou o trabalho em chamado e como, em determinadas vertentes do calvinismo, o êxito material passou a ser interpretado como possível sinal de eleição divina. Daí até a conclusão de que "quem fracassa, falhou" vai um passo curto, embora perigoso. A própria tradição bíblica, entretanto, oferece resistência a essa interpretação simplista. Provérbios louva a mão diligente, mas também reconhece que a injustiça pode varrer o campo do pobre. Já a parábola dos trabalhadores da vinha mostra que a graça não cabe numa planilha de merecimento, nem Deus distribui sua bondade segundo os critérios de produtividade humana. Por isso, não proponho desprezar o esforço, muito menos desvalorizar a disciplina e a perseverança. Proponho apenas que o mérito deixe de funcionar como sentença sobre a vida alheia. Posso admirar a dedicação de Helena sem fingir que ela partiu do mesmo lugar que Davi; da mesma forma, posso honrar a tenacidade de Davi sem exigir que ela, sozinha, compense todas as portas que lhe foram fechadas.

No fim das contas, a pergunta que proponho não é apenas quanto cada um se esforçou, mas "que escola havia, que saúde, que rede, que herança, que sorte?". Antes de distribuir medalhas aos vencedores e culpas aos que ficaram pelo caminho, precisamos olhar para as condições em que cada um começou a corrida. Afinal, não se pode confundir vantagem com virtude, nem dificuldade com incapacidade. O mérito tem seu valor, sim, mas perde a dignidade quando serve de álibi para os que chegaram e de acusação contra os que ainda caminham. Seu verdadeiro sentido só se realiza quando o esforço individual encontra oportunidades reais, e não quando a sociedade fecha as portas e depois responsabiliza quem não conseguiu atravessá-las.

Ensaio Teológico X(3) A Complexidade da Prosperidade: Além da Interpretação Religiosa

 


Ensaio Teológico X(3) A Complexidade da Prosperidade: Além da Interpretação Religiosa

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Conheço essa cena, ou melhor, conheço mil versões dela: um homem perde o emprego aos cinquenta anos, a fábrica fecha e as contas começam a se amontoar sobre a mesa da cozinha. No domingo, procura consolo na igreja e ouve, de alguém que o ama, que talvez lhe falte fé. Não sai dali apenas desempregado; sai também culpado. É por causa dessa culpa que escrevo, talvez a face mais cruel da ideia de que a prosperidade seja o selo da devoção e a pobreza, o sinal de alguma falha íntima. Não desprezo quem acredita nisso, pois, muitas vezes, trata-se de gente sincera, que precisa confiar na força do espírito para vencer as dificuldades da vida. Essa esperança merece respeito; já o diagnóstico que a acompanha merece ser examinado com cuidado.

Os números, porém, não confirmam essa equação. Em O Capital no Século XXI (2014), Piketty mostra como a riqueza se concentra por mecanismos ligados à herança, à tributação e ao acesso à educação, e não por uma suposta superioridade moral de quem acumula bens. Stiglitz, em O Preço da Desigualdade (2013), chega a uma conclusão semelhante ao apontar o peso das decisões governamentais e das regras de mercado na distribuição das oportunidades. Sendo assim, o homem da fábrica não foi reprovado numa prova de santidade; foi atingido por um vento econômico e social que sopra muito acima de sua cabeça. Sen, em Desenvolvimento como Liberdade (2000), lembra que prosperar significa ampliar as liberdades reais, como o acesso à saúde e à educação. Sachs (2015), por sua vez, reforça que nenhum país se desenvolve sem articular fatores econômicos, sociais, políticos e ambientais. Afinal, uma criança sem escola não carece de oração; carece de oportunidades. E não há milagre que justifique a omissão de quem deveria garantir esse direito.

Reconheço, entretanto, que a geografia da fé exige cautela. Seria fácil apontar os países nórdicos, seculares e prósperos, como prova de que religião e riqueza não caminham necessariamente juntas. Mas os Estados Unidos são ricos e comparativamente devotos, enquanto o Brasil, profundamente religioso, continua marcado pela desigualdade. Norris e Inglehart, em Sacred and Secular (2004), apresentam uma interpretação mais sutil: a religiosidade tende a diminuir onde existe maior segurança material e permanece mais forte onde a vida é marcada pela vulnerabilidade. A fé, nesse cenário, aparece menos como causa da riqueza e mais como abrigo diante das incertezas. Isso não a diminui; apenas ajuda a compreender por que floresce com tanta força onde o chão parece prestes a ceder. Por isso, insisto: criticar a teologia da prosperidade não significa atacar a fé. Pelo contrário, é uma crítica que também nasce de dentro dela. Stott e Padilla defenderam uma missão integral, que não separa a salvação da alma da luta por justiça; o livro de Jó questiona a tese de que o sofrimento seja prova de culpa, e Lucas dirige suas bem-aventuranças justamente aos pobres.

Mas, há também um estrago concreto nessa maneira de pensar. Quando a pobreza é tratada como castigo, o pobre passa a ser visto com desconfiança, como se carregasse alguma culpa escondida, e a solidariedade, pouco a pouco, esfria. Singer, em A Vida que Podemos Salvar (2009), defende justamente o contrário: quem tem condições de aliviar um sofrimento significativo sem precisar fazer um grande sacrifício tem o dever de agir. Não proponho abandonar a fé, muito menos desprezar o consolo que ela oferece. Proponho apenas que não lhe cobremos aquilo que nunca prometeu, pois a fé pode consolar, fortalecer e sustentar, mas não é um contrato com cláusulas de rendimento, muito menos uma apólice contra o desemprego, a doença ou a pobreza.

No fim das contas, a pergunta honesta não é “quanto ele orou?”, mas “que escola havia, que hospital, que emprego, que herança?”. Aquele homem não precisa de um sermão sobre o que lhe faltou na vida espiritual. Precisa de oportunidades, de um sistema que não o deixe cair sozinho e de uma comunidade disposta a lhe estender a mão antes de procurar culpados. Afinal, entre oferecer uma explicação religiosa para a miséria e fazer alguma coisa para combatê-la, há uma distância enorme. E é justamente nessa distância que a fé, quando acompanhada de consciência e responsabilidade, tem a oportunidade de mostrar seu verdadeiro valor.

sábado, 31 de outubro de 2026

Ensaio Teológico X(2) AS DUAS PORTAS: ÉTICA, JUSTIÇA E O PREÇO DO ATALHO

 


Ensaio Teológico X(2) AS DUAS PORTAS: ÉTICA, JUSTIÇA E O PREÇO DO ATALHO

Por Claludeci Ferreira de Andrade

Ao refletir sobre as duas portas que se abrem diante de um jovem de dezessete anos numa viela da periferia, percebo que a escolha entre o tráfico e um caminho honesto está longe de acontecer em condições iguais para todos. De um lado, há a promessa de dinheiro fácil, respeito e conquistas imediatas; do outro, um caminho estreito, feito de estudo, trabalho e incertezas. Não desprezo a sabedoria popular de que “o crime não compensa”, mas também não quero transformar essa frase numa venda que esconda as desigualdades sociais. Afinal, compreender as circunstâncias não significa justificar o delito, muito menos esquecer quem sofre suas consequências. É preciso separar uma coisa da outra: explicar não é absolver.

Com Peter Singer, compreendo que a ética precisa considerar todos os envolvidos, tanto quem pratica a violência quanto quem carrega suas consequências. Philip Zimbardo me faz pensar no peso que o ambiente exerce sobre o comportamento humano, embora isso não apague a responsabilidade individual. Afinal, conheço a realidade de tantas pessoas pobres que, mesmo enfrentando dificuldades de toda sorte, escolheram o caminho da honestidade. E isso também precisa entrar nessa conversa! Com John Rawls e Ruth Wilson Gilmore, percebo que a justiça não se resume a punir quem atravessa a porta errada; exige também instituições capazes de oferecer oportunidades concretas, como educação, saneamento, emprego e segurança. Thomas Piketty, por sua vez, leva-me a questionar as desigualdades que não encontram justificativa, sobretudo aquelas construídas à custa da violência, da fraude e da exploração do próximo.

Na perspectiva da fé, encontro duas responsabilidades que não podem ser colocadas em lados opostos: o mandamento de não roubar (Êxodo 20:15) e a denúncia das estruturas que alimentam a injustiça (Isaías 5:8; Amós 5:24). Ao recordar o jovem rico (Marcos 10:17-22) e Zaqueu (Lucas 19:8-9), compreendo que a riqueza conquistada injustamente compromete a consciência e que a verdadeira conversão não se resolve com palavras bonitas: exige reparação. Também vejo em Nelson Mandela uma distinção que merece atenção. Sua desobediência enfrentou um regime opressor, não buscou enriquecimento pessoal e tinha como horizonte o bem coletivo. Depois de vinte e sete anos de prisão, escolheu a reconciliação em vez da vingança. Por isso, não aceito que sua história seja usada como desculpa para legitimar o atalho do ganho fácil. Uma coisa é resistir à opressão; outra, bem diferente, é explorar a fragilidade alheia para benefício próprio.

Volto, então, àquela viela e ao rapaz diante das duas portas. Concluo que uma sociedade verdadeiramente justa precisa sustentar duas verdades ao mesmo tempo: cada indivíduo responde por suas escolhas, mas todos temos responsabilidade na construção de oportunidades dignas. Não defendo uma justiça que apenas castiga, tampouco uma compreensão social que transforme a pobreza em salvo-conduto para qualquer violência. O caminho precisa reunir prevenção e responsabilização, justiça e misericórdia, proteção às vítimas e possibilidade de recomeço para quem errou. Afinal, não basta apontar a porta errada e condenar quem entrou por ela; é preciso também trabalhar para que a porta da honestidade esteja aberta, iluminada e ao alcance de todos. Para mim, a verdadeira retidão começa justamente aí: em não condenar sem compreender, nem absolver sem critérios, mas lutar por uma sociedade na qual a dignidade humana não seja privilégio de poucos.