"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sábado, 17 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(26) Os Dois Livros e o Mesmo Autor

 


Ensaio Teológico VIII(26) Os Dois Livros e o Mesmo Autor

Por Claudeci Ferreira de Andrade

“O Senhor com sabedoria fundou a terra; preparou os céus com inteligência” (Pv 3,19). Quem já ergueu os olhos para um céu escuro, longe das luzes da cidade, sabe que esse versículo não é apenas doutrina: é o espanto humano diante da imensidão transformado em palavras. Os antigos, ao afirmarem que a criação nasceu da sabedoria, não pretendiam fazer física; expressavam reverência diante de algo que os ultrapassava. Antes de qualquer explicação, havia o assombro. E foi justamente esse sentimento, mais do que qualquer teoria, que atravessou os séculos e alimentou a busca humana pelo sentido da existência.

Entretanto, quando o assunto é fé e ciência, parece que muita gente insiste em colocar uma contra a outra. Há quem enxergue na tradição religiosa um obstáculo ao conhecimento, assim como há quem veja nas descobertas científicas uma ameaça à fé. Confesso que já me irritei com os dois lados. Com o tempo, porém, fui percebendo que a irritação é péssima conselheira: em vez de esclarecer, levanta muros; em vez de aproximar, afasta. E tem mais: quando critico aqueles que defendem a fé com rigidez, corro o risco de repetir o mesmo comportamento que condeno, julgando antes de escutar. Ora, se a verdade merece ser procurada, não seria mais sensato começar pelas perguntas, em vez de erguer trincheiras? Prefiro, portanto, investigar como a própria tradição cristã, ao longo de sua história, interpretou as Escrituras e lidou com o conhecimento da natureza.

A resposta pode surpreender quem imagina que o literalismo estrito sempre foi a única maneira cristã de ler a Bíblia. Agostinho de Hipona, em De Genesi ad litteram, advertiu que seria vergonhoso um cristão falar de fenômenos naturais de maneira tão absurda que os não cristãos, ao ouvi-lo, não conseguissem conter o riso. Basílio de Cesareia, em suas homilias sobre o Hexaêmeron, também refletiu sobre a criação à luz dos conhecimentos disponíveis em seu tempo. Essa postura revela algo importante: a tradição cristã não foi, em toda a sua história, uniforme na interpretação dos textos bíblicos. Nela também encontramos a imagem dos “dois livros”: o da Escritura e o da natureza, ambos compreendidos como obras do mesmo Criador. Galileu Galilei retomou essa perspectiva ao defender a distinção entre a finalidade espiritual das Escrituras e a investigação dos fenômenos naturais, sintetizada na conhecida ideia de que a Bíblia ensina como se vai ao céu, não como vai o céu. Não se trata, portanto, de inventar uma conciliação moderna para acomodar a religião à ciência, mas de reconhecer uma vertente antiga do próprio pensamento cristão: a busca pela verdade não precisa transformar o conhecimento em inimigo da fé.

É por isso que não vejo a ciência como rival da espiritualidade. O fato de a vida ter se diversificado ao longo de bilhões de anos, conforme explica a teoria da evolução, sustentada por um vasto conjunto de evidências científicas, não precisa diminuir o mistério da existência. Para mim, pode até aprofundá-lo. Basta pensar numa célula que se divide, numa semente que rompe a terra ou numa estrela cuja luz atravessa distâncias inimagináveis antes de alcançar nossos olhos. Há tanta complexidade nesses processos que a ignorância, quando reconhecida com honestidade, pode se transformar em convite à investigação. E é nesse ponto que me recordo das palavras de Paulo, ao afirmar que, desde a criação do mundo, os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, “têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas” (Rm 1,20). O apóstolo não estava falando de laboratórios, telescópios ou teorias científicas modernas. Ainda assim, suas palavras permitem uma reflexão pertinente: se a criação pode revelar algo sobre seu Criador, investigar a natureza também pode ser uma maneira de contemplar a grandeza daquilo que existe. Para quem crê, observar não precisa ser o contrário de reverenciar; pode ser outra forma de fazê-lo.

No fim das contas, tanto o crente quanto o cientista precisam de uma virtude que nem sempre recebe o devido valor: a humildade. O primeiro reconhece que o mistério o ultrapassa; o segundo compreende que cada descoberta abre caminho para novas perguntas. Evidentemente, fé e ciência não são a mesma coisa, nem respondem necessariamente às mesmas questões. A ciência investiga fenômenos naturais por meio de observações, evidências e métodos verificáveis; a fé procura, entre outras coisas, sentido, propósito e uma relação com o transcendente. Quando cada uma respeita seus limites, o diálogo se torna possível, sem que uma precise usurpar o lugar da outra. Afinal, ninguém segura a verdade inteira nas mãos, por mais que goste de falar como se fosse seu único proprietário. Talvez a síntese que procuro não esteja numa fórmula capaz de resolver todas as controvérsias, mas numa postura diante da vida: ler o livro da Escritura com reverência, o livro da natureza com os olhos bem abertos e a consciência disposta a aprender. E jamais esquecer que, para quem acredita, ambos remetem ao mesmo Autor. Porque, se a fé nos ensina a contemplar, a ciência nos convida a investigar; e, quando há humildade nas duas caminhadas, até as perguntas podem se tornar pontes entre aquilo em que acreditamos e aquilo que ainda precisamos compreender.

Ensaio Teológico VIII(25) A Sabedoria que Caminha Conosco

 


Ensaio Teológico VIII(25) A Sabedoria que Caminha Conosco

Por Claudeci Ferreira de Andrade

“Antes das colinas, eu nasci” (Pv 8,25). Poucas frases das Escrituras carregam tanta antiguidade em tão poucas palavras. Quem as lê tem a impressão de que o tempo recua até um ponto em que nem sequer a terra existia. Não é de admirar, portanto, que a tradição cristã tenha reconhecido nessas palavras um sinal da eternidade. Essa leitura não nasceu do nada: traz consigo séculos de oração, debates teológicos e até martírios. Por isso, antes de questioná-la, é preciso escutá-la com respeito e reconhecer o peso de sua história.

Escuto essa tradição, mas uma pergunta continua me cutucando por dentro: o que significa, para um poeta hebreu, dizer que a Sabedoria é mais antiga que as colinas? Talvez não se trate de estabelecer a idade de um ser, mas de afirmar que a ordem do mundo não é fruto do acaso. Para o povo bíblico, as colinas representavam permanência, algo que parecia resistir ao próprio tempo. Ao colocá-las diante de uma Sabedoria anterior a elas, o poeta nos convida a olhar além daquilo que os olhos alcançam. O versículo, portanto, não pede uma refutação apressada, mas uma interpretação cuidadosa. Afinal, hokmah, palavra hebraica para sabedoria, é um substantivo feminino. Na literatura sapiencial, ela ganha voz nas praças, oferece banquetes e aparece como uma criança que brinca diante do Criador. Eis a personificação, um recurso literário que dá vida a ideias abstratas e permite que o pensamento se transforme em imagem. Isso, por si só, não constitui uma biografia cósmica; é, antes, uma maneira poética de falar da presença da Sabedoria na criação e na experiência humana.

Mas, a conversa não termina em Provérbios. Em Colossenses 2,3, Paulo afirma que em Cristo “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento”, enquanto o prólogo do Evangelho de João apresenta o Logos como agente da criação. Os Padres da Igreja aproximaram essas passagens e reconheceram na Sabedoria um prenúncio do Filho. Mais tarde, o Concílio de Niceia, em 325, deu forma doutrinal a uma convicção fundamental da fé cristã: o Filho é gerado, não criado. Confesso que é justamente nesse ponto que meu primeiro rascunho tropeçava. Reduzir Cristo a um “arquétipo de valores universais” pode até parecer uma saída elegante, mas é uma simplificação que deixa de lado aquilo que o cristianismo historicamente afirma sobre sua identidade. Ora, se quero dialogar honestamente com essa tradição, preciso encará-la de frente, sem contornar suas convicções para tornar mais confortável o meu próprio argumento. Para a fé cristã, a Sabedoria não é apenas um ideal a perseguir, uma virtude a cultivar ou um conceito a compreender: é Alguém que se encontra.

E, ainda assim, há uma verdade que me parece inegociável: a sabedoria, em nós, também cresce. Ninguém nasce sabendo viver, muito menos recebe pronta a capacidade de compreender os próprios erros. Lembro-me de uma falha minha, dessas que só mostram o tamanho do estrago depois que a poeira baixa. Insisti em ter certeza, quis sustentar minha razão e acabei perdendo alguém que era importante para mim. Doeu, claro! Mas foi justamente daquela experiência que tirei uma lição que muitos livros, sozinhos, não teriam conseguido me ensinar. A sabedoria que hoje reconheço em mim também nasceu do tombo, da escuta que chegou tarde e do arrependimento que me obrigou a olhar para dentro. Nesse sentido, Sócrates, ao reconhecer os limites do próprio saber — formulação que resume a tradição platônica, embora não seja uma citação literal —, toca numa verdade que o próprio livro de Provérbios anuncia: “o princípio da sabedoria é o temor do Senhor” (Pv 9,10). Não se trata de alimentar o medo, mas de reconhecer os limites humanos diante daquilo que nos ultrapassa. A sabedoria começa quando a arrogância perde a voz e a humildade finalmente encontra espaço para falar.

Por isso, já não vejo necessidade de escolher entre uma Sabedoria anterior às colinas e outra que caminha conosco. Posso reconhecer, de um lado, a interpretação teológica que contempla a Sabedoria como realidade eterna em Deus e, de outro, a experiência humana de quem aprende a viver entre acertos, tropeços e recomeços. Uma não precisa apagar a outra. Que a Sabedoria seja dom que vem do alto e, ao mesmo tempo, fruto que se colhe na terra, com suor, paciência e, não raro, algumas lágrimas. Talvez o mistério esteja justamente aí: aquilo que a fé contempla como eterno em Deus manifesta-se, em nossa existência, como caminho, aprendizado e transformação. Desconfio das respostas definitivas, sim, mas não desprezo as antigas. Quando ouvidas com atenção, elas ainda têm muito a nos ensinar — e, sobretudo, continuam capazes de nos fazer perguntas. Afinal, quem aprende a perguntar com humildade e reverência talvez já esteja, sem perceber, caminhando ao lado da Sabedoria.

Ensaio Teológico VIII(24) A Sabedoria que Brinca Diante do Mundo

 


Ensaio Teológico VIII(24) A Sabedoria que Brinca Diante do Mundo

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há textos que pedem para ser lidos de joelhos; outros, de olhos bem abertos. Provérbios 8 pede as duas coisas. Nesse capítulo, a Sabedoria toma a palavra e diz que o Senhor a possuiu “no princípio de seus caminhos”, antes das profundezas, antes das fontes carregadas de águas. Ela estava ao lado dele como mestre-de-obras, “brincando diante dele em todo tempo” (Pv 8,22-31). Convenhamos: quem passa os olhos por essa página sem sentir o chão se mover um pouquinho talvez ainda não tenha percebido a grandeza do que está lendo.

A tradição cristã, com razão, enxergou nesse texto algo que vai além da poesia. Os Padres da Igreja reconheceram na Sabedoria preexistente um prenúncio do Logos, e o prólogo do Evangelho de João, assim como o hino de Colossenses, parece ecoar essa mesma intuição: por meio dela, “todas as coisas foram feitas”. É uma leitura antiga, respeitável, sustentada por séculos de oração, reflexão e pensamento teológico. Não a desprezo; pelo contrário, aprendo com ela. Afinal, dialogar com a tradição não significa aceitar cada interpretação sem examiná-la, mas também não exige jogar fora o que gerações de pensadores construíram antes de nós.

Meu desconforto, porém, nasce de outro lugar. Quando lemos Provérbios como se o texto nos entregasse o registro de uma entidade separada, existente antes das águas, quase como quem consulta a certidão de nascimento de um ser cósmico, corremos o risco de exigir da poesia um serviço que ela nunca se propôs a prestar. O hebraico hokmah é um substantivo feminino, e o sábio de Israel transforma a Sabedoria numa voz que clama nas praças, convida para o banquete e brinca como uma criança. Estamos diante de uma personificação, recurso precioso da literatura sapiencial, que dá voz, rosto e movimento a uma realidade abstrata para torná-la compreensível à experiência humana. Agostinho, ao refletir sobre as Escrituras, chamava a atenção para a humildade de sua linguagem como expressão de misericórdia para com os pequenos. Por isso, convém citá-lo com o devido cuidado, indicando a obra e a passagem, em vez de me apoiar numa frase solta. A mesma prudência vale para a ideia de que a compreensão do mundo exige olhares diversos: Chomsky e tantos outros pensadores poderiam defendê-la à sua maneira, mas não seria honesto atribuir-lhes uma frase específica sem uma fonte que a confirme. A busca pela verdade também exige que saibamos distinguir aquilo em que acreditamos daquilo que podemos demonstrar.

E o que resta, então, da Sabedoria? Resta muito — talvez até mais do que imaginamos. Se não precisamos entendê-la como um ser solitário que existia antes do tempo, podemos reconhecê-la na própria marca de Deus impressa na textura do universo: na simetria de um floco de neve, na silenciosa precisão de uma célula que se divide, na gravidade que curva o espaço-tempo ao redor de uma estrela. Já me peguei diante de um céu aberto no interior, longe das luzes da cidade, contemplando aquela imensidão e sentindo que o universo não era apenas grande: era inteligível. Havia nele uma ordem que convidava à descoberta, como se cada estrela, cada silêncio e cada mistério me provocassem a olhar mais fundo. Foi nesse espanto que encontrei uma maneira de chamar essa experiência de Sabedoria. Não uma abstração suspensa acima do mundo, distante da vida e dos nossos sentidos, mas uma ordem generosa que se deixa investigar, embora nunca se entregue por inteiro.

É daí que nasce uma conclusão que me parece mais fiel tanto ao texto quanto à nossa condição humana. Não precisamos escolher entre a sabedoria que vem do alto e o conhecimento que se constrói aqui na terra. Quando o astrônomo mede a distância entre as estrelas, o biólogo observa a vida, o teólogo medita sobre o mistério e o poeta escuta aquilo que as palavras mal conseguem dizer, todos caminham, por trilhas diferentes, em busca de vestígios da mesma realidade. Isso não significa que ciência, teologia e poesia sejam a mesma coisa, nem que suas respostas possam ser avaliadas pelos mesmos critérios. Cada uma tem seus métodos, suas perguntas e seus limites. Ainda assim, todas podem nos ajudar a perceber que o mundo é maior do que aquilo que conseguimos apreender de imediato. O conhecimento humano, tecido de observação, reflexão e diálogo, não precisa ser inimigo da Sabedoria; pode ser um dos caminhos pelos quais nos aproximamos dela.

Se a Sabedoria brinca diante de Deus, como sugere a imagem poética de Provérbios, talvez também brinque, de certa forma, diante de nós. Está no enigma que desafia o cientista, na pergunta que inquieta o filósofo, na passagem bíblica que resiste às interpretações apressadas e no céu que nos devolve o silêncio quando pensamos ter encontrado todas as respostas. Ela nos convida a participar desse jogo sem transformar o mistério em superstição, mas também sem reduzir a existência àquilo que pode ser medido. Brincar de volta significa investigar com rigor, contemplar com reverência e reconhecer, com humildade, que aprender a medir o universo não é o mesmo que esgotar seu significado. Afinal, há uma sabedoria especial em descobrir cada vez mais sem perder a capacidade de se maravilhar.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(23) A sabedoria não é um porto: é uma estrada

 


Ensaio Teológico VIII(23) A sabedoria não é um porto: é uma estrada

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Durante muito tempo, imaginei a sabedoria como um porto: aquele lugar onde a gente chega, lança a âncora e, enfim, descansa. Fui educado numa tradição que me ensinou a reverenciá-la, e não me arrependo disso. Mas a vida, essa professora impaciente que não espera a gente terminar a lição, mostrou-me que o saber se parece muito mais com uma estrada do que com um destino. Por isso, quero fazer justiça à fé que me formou: ela me ensina que Deus é a fonte de toda sabedoria, mas também me lembra que é preciso buscá-la, pedi-la e cultivá-la ao longo da existência. Afinal, de que adianta acreditar na fonte se a gente não se dispõe a caminhar até ela?

O próprio texto bíblico insiste nessa busca. Em Provérbios 18:15, os ouvidos dos sábios buscam o conhecimento; já em Provérbios 2:1-5, o discípulo é convidado a inclinar o ouvido e procurar o entendimento como quem procura prata escondida. Em Jó 28, encontramos o ser humano capaz de abrir galerias na rocha e arrancar tesouros das profundezas da terra, mas incapaz de dominar, por suas próprias forças, o caminho da sabedoria. E Eclesiastes nos apresenta a confissão de quem percorreu os caminhos da existência e voltou com as mãos cheias de perguntas. Perceba: a tradição sapiencial não trata a sabedoria como um troféu conquistado de uma vez por todas, mas como um dom que se acolhe e um caminho que se percorre. Uma coisa não anula a outra; pelo contrário, caminham de mãos dadas.

Aprendi o valor desse caminho com um professor a quem chamo de Mestre Antônio. Certa manhã, ele explicou um fenômeno com enorme segurança, como quem tinha a resposta na ponta da língua. Na semana seguinte, porém, entrou na sala, olhou para a turma e disse: "Errei. Vamos refazer." Naquele instante, conquistou um respeito maior do que em todas as aulas anteriores. Foi ali que compreendi uma lição que carrego comigo: reconhecer um erro não é sinal de fraqueza, mas demonstração de coragem e método. A ciência moderna também avançou ao institucionalizar essa disposição para rever explicações diante de novas evidências. Em O Mundo Assombrado pelos Demônios, Carl Sagan destaca justamente a importância do pensamento crítico e da disposição de submeter as ideias à verificação, em vez de aceitá-las como dogmas intocáveis. Isso não significa que ciência e fé sejam a mesma coisa, nem que precisem viver em guerra permanente. Agostinho, Galileu e Georges Lemaître, padre e cosmólogo, ajudam-nos a perceber, cada qual em seu contexto, que a relação entre investigação, conhecimento e crença é mais complexa do que certas disputas fazem parecer. A mesma humildade intelectual aparece em Sócrates, retratado por Platão na Apologia, cuja vantagem consistia em não presumir saber aquilo que ignorava. Embora a conhecida fórmula "só sei que nada sei" não apareça literalmente dessa maneira nos diálogos, ela resume bem essa postura de quem prefere reconhecer os limites do próprio conhecimento a se esconder atrás de certezas vazias.

Se a sabedoria é dom e caminho, ninguém a possui sozinho, muito menos em caráter definitivo. O crente a recebe e continua a buscá-la; o cientista se surpreende com as descobertas, mas permanece disposto a revê-las; o filósofo persegue respostas sabendo que dificilmente encerrará toda a verdade dentro das próprias mãos. Por isso, recuso-me a escolher entre a fé que se curva diante do Mistério e a razão que se disciplina diante dos fatos, como se fosse necessário amputar uma parte de mim para preservar a outra. Ambas, cada qual à sua maneira, ensinaram-me que ser sábio não é chegar ao fim da estrada, mas conservar a disposição de caminhar, aprender e, quando necessário, mudar de rumo. E há algo mais: a empatia, esse esforço de enxergar o mundo também pelos olhos de quem pensa e vive diferente de nós, talvez seja o mapa mais honesto que temos. Afinal, de pouco vale acumular conhecimentos se eles não nos tornam mais humanos. A sabedoria não está apenas naquilo que sabemos, mas também na humildade com que reconhecemos o que ignoramos e no cuidado com que tratamos quem caminha ao nosso lado.

Ensaio Teológico VIII(22) De onde vem a sabedoria: entre o dom divino e os erros da vida

 



Ensaio Teológico VIII(22) De onde vem a sabedoria: entre o dom divino e os erros da vida

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Carrego comigo uma pergunta antiga e teimosa: de onde vem a sabedoria? A tradição bíblica responde que "o Senhor dá a sabedoria; da sua boca procedem o conhecimento e o entendimento" (Provérbios 2:6). Cresci ouvindo essa resposta e nunca deixei de acreditar nela. Com o passar dos anos, porém, aprendi que uma resposta verdadeira nem sempre é completa e que inquietar-se diante dela não significa falta de fé. Pelo contrário, às vezes, questionar é também uma forma de reverência. Afinal, quem disse que a fé precisa caminhar de mãos dadas com a ausência de perguntas?

Penso, então, em Dona Aparecida, uma personagem que imagino, mas que reconheço em tantas casas deste Brasil afora. Analfabeta, lavadeira e mãe de seis filhos, era procurada pela vizinhança quando surgiam brigas entre casais, filhos se desgarravam ou decisões difíceis tiravam o sono de alguém. Ela não citava filósofos, não recorria a livros nem fazia discursos bonitos. Escutava muito, falava pouco e, não raro, acertava na mosca. Quando lhe perguntavam de onde vinha tanta sabedoria, respondia: "Do que eu errei, meu filho." Eis aí uma lição e tanto! Sua sabedoria tinha duas raízes profundas: o temor reverente de quem reconhecia sua dependência de Deus e a memória lúcida de quem sabia que não era dona da verdade. Dona Aparecida talvez não conhecesse as palavras dos grandes pensadores, mas conhecia a vida — e, convenhamos, há experiências que nenhuma escola ensina por inteiro.

Por isso, recuso-me a colocar o dom divino de um lado e a conquista humana do outro, como se fossem adversários disputando o mesmo território. A própria Bíblia desfaz essa falsa oposição. O mesmo capítulo de Provérbios que afirma que o Senhor concede sabedoria também me ensina a acolher as palavras, inclinar os ouvidos e buscar o entendimento como quem procura prata (Provérbios 2:1-5). Ou seja, a sabedoria vem de Deus, mas exige disposição para aprender, esforço e perseverança. Em Jó 28, encontramos o ser humano capaz de escavar minas e arrancar tesouros das profundezas da terra, mas incapaz de dominar, por suas próprias forças, o mistério da sabedoria. Já Eclesiastes nos apresenta a confissão de um buscador que percorreu os caminhos da existência e voltou com as mãos cheias de perguntas. Nessa mesma encruzilhada, encontramos Sócrates, cuja trajetória é apresentada por Platão na Apologia. Ao interrogar homens considerados sábios, ele descobriu o perigo de presumir que se sabe aquilo que, na verdade, se ignora. Embora a conhecida fórmula "só sei que nada sei" não apareça literalmente dessa maneira nos diálogos platônicos, ela sintetiza essa postura de humildade intelectual. E há um detalhe interessante: sua investigação começou com um oráculo, um sinal que vinha de fora e o levou a examinar o conhecimento humano. Até nesse caso, portanto, inspiração e busca, experiência e reflexão, caminham lado a lado.

Concluo, então, que definir sabedoria simplesmente como "o poder do julgamento correto" me parece pouco, pois julgar bem exige compreender, e compreender de verdade exige disposição para enxergar o mundo também pelos olhos de quem pensa diferente de mim. Sem empatia, o julgamento vira sentença; sem humildade, transforma-se em soberba vestida de boas maneiras. Aprendi isso da pior maneira: certa vez, defendi com firmeza uma posição que, semanas depois, descobri estar errada. A vergonha passou depressa, mas a lição ficou. Desde então, procuro desconfiar um pouco mais das minhas certezas e ouvir com mais atenção as razões alheias. Afinal, reconhecer um erro não diminui ninguém; o que nos apequena é insistir nele só para salvar as aparências. A sabedoria é dom, recebido de mãos abertas, mas também é caminho, percorrido com paciência, reflexão e disposição para aprender com os próprios tropeços. E volto, assim, à pergunta que abriu esta reflexão: de onde vem a sabedoria? Talvez venha de Deus, floresça na experiência e amadureça na humildade de quem reconhece que ainda tem muito a aprender. Porque, no fim das contas, a sabedoria mora menos na boca de quem afirma saber tudo e mais no coração de quem nunca perde a coragem de perguntar.

Ensaio Teológico VIII(21) A fé não é bilhete de loteria: quando a prosperidade vira culpa

 



Ensaio Teológico VIII(21) A fé não é bilhete de loteria: quando a prosperidade vira culpa

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Ouço, nos púlpitos, nas telas e até nos estádios, uma promessa vendida como bilhete premiado: tenha fé suficiente, e a prosperidade virá. É o que chamam de teologia da prosperidade. Mas, antes de refutá-la, quero fazer justiça aos que acreditam nela. Seus defensores partem de uma intuição legítima: a de que Deus não é indiferente às necessidades materiais de seus filhos. Além disso, muita gente que abraça essa doutrina é sincera, gente simples, de coração apertado, que se agarra à fé como quem segura a última tábua antes de afundar. O problema começa quando a promessa não se cumpre. Afinal, uma promessa frustrada não apenas decepciona; ela também acusa. E quem passa a ser acusado pela própria fé carrega duas dores: a da falta e a da culpa.

Penso, então, em Dona Raimunda, uma personagem que imagino, mas que tem milhões de rostos reais por este Brasil afora. Costureira, viúva, dizimista fiel por vinte anos. Sempre que o dinheiro faltava, ouvia que lhe faltava ousadia espiritual. Sem dinheiro para as próprias necessidades, semeou o pouco que tinha, esperando colher a prosperidade anunciada. Mas, em vez da colheita prometida, vieram o aluguel atrasado, as contas acumuladas e o desespero silencioso de quem já não sabe a quem recorrer. No meio de tantas dificuldades, nasceu uma pergunta cruel, daquelas que nenhum sermão deveria plantar no coração de ninguém: "O que há de errado comigo?". Ora, se uma doutrina não consegue olhar para Dona Raimunda nos olhos sem fazê-la sentir-se culpada pela própria pobreza, alguma coisa precisa ser revista. E com urgência!

Essa experiência não revela falta de fé, mas uma realidade social que não se explica apenas pela vontade individual. Em O Capital no Século XXI e Capital e Ideologia, Thomas Piketty demonstra como a distribuição da riqueza é moldada por arranjos históricos, jurídicos e fiscais, sustentados por narrativas que procuram justificá-los. A teologia da prosperidade pode funcionar como uma dessas narrativas quando transforma desigualdades estruturais em mérito pessoal e circunstâncias econômicas em sentenças morais. Já Amartya Sen, em Desenvolvimento como Liberdade, compreende a pobreza como privação de capacidades e oportunidades reais. Afinal, ninguém escolhe estudar numa escola sem professores, consultar-se num posto de saúde sem médico ou conseguir um emprego digno quando as portas permanecem fechadas. Dizer ao pobre que sua condição é resultado exclusivo de suas escolhas é ignorar as barreiras que o cercam e, ainda por cima, culpá-lo por não conseguir superá-las. É somar insulto à injúria, como se a falta de dinheiro já não doesse o bastante.

Por isso, volto à Escritura, procurando não separar um suposto mundo "espiritual" puro de uma realidade "material" impura, dualismo muito mais próximo de certas tradições filosóficas platônicas do que da complexidade da mensagem bíblica. Em Mateus 6:19-21, Jesus não despreza o pão, o teto ou as necessidades da vida; ele chama a atenção para aquilo que ocupa o centro do coração. Em 1 Timóteo 6:10, o problema não é o dinheiro em si, mas o amor ao dinheiro. E uma idolatria semelhante se manifesta quando alguém mede a bênção divina pelo saldo bancário, como se a conta recheada fosse certificado de santidade e a carteira vazia, prova de abandono celestial. Os profetas e a Carta de Tiago, por sua vez, denunciam a exploração dos pobres e as injustiças cometidas pelos ricos, mostrando que a miséria não deve ser tratada simplesmente como castigo divino, mas também como consequência de relações sociais injustas. Se a pobreza é, em grande medida, produzida por estruturas humanas, também pode ser combatida pela ação humana. Para isso, não basta orar: são necessárias políticas públicas responsáveis, oportunidades reais, trabalho digno e solidariedade. Afinal, a fé que não se traduz em cuidado, justiça e compromisso com o próximo corre o risco de se tornar apenas discurso. Que a fé, portanto, deixe de ser bilhete de loteria e se transforme em abrigo para Dona Raimunda, em pão sobre a mesa, em dignidade para quem trabalha e em voz contra tudo aquilo que a deixou desamparada. Porque, se a religião promete o céu, não pode fechar os olhos para o inferno que tanta gente enfrenta aqui na Terra.