"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(2) A MESA DA SABEDORIA: ENTRE A CIÊNCIA E A COMPANHIA

 


Ensaio Teológico IX(2) A MESA DA SABEDORIA: ENTRE A CIÊNCIA E A COMPANHIA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há textos que envelhecem como o pão e outros que envelhecem como o vinho. Ao abrir Provérbios 9, pergunto-me não se o cardápio ainda serve, mas a quem pertence a mesa posta ali. Deparo-me com a Sabedoria, a Hokmá da tradição hebraica, construindo sua casa, preparando o banquete, misturando o vinho e enviando suas servas às praças para fazer um convite (Pv 9:1-5). Ela não impõe regras nem distribui receitas prontas: chama o ingênuo a abandonar a ingenuidade e a trilhar o caminho do discernimento (Pv 9:6). Afinal, mais do que encher a barriga, é preciso aprender a alimentar a consciência.

Confesso que, numa primeira leitura, reagi como um sujeito moderno, desses que logo puxam a calculadora antes de se sentarem à mesa. Vi carnes e vinho e me vieram à cabeça as recomendações atuais da ciência sobre alimentação, consumo de álcool e prevenção de doenças crônicas. A Organização Mundial da Saúde recomenda o consumo diário de pelo menos quatrocentos gramas de frutas e hortaliças, além de uma alimentação equilibrada, com grãos integrais e leguminosas, e moderação no consumo de açúcares, sal e gorduras. Sob esse olhar, transformar um banquete de carnes e vinho em modelo de alimentação cotidiana seria, de fato, um mau conselho. Mas, será que o texto bíblico está mesmo querendo nos ensinar a montar o prato?

Foi aí que percebi o tropeço: eu estava cobrando de um poema a precisão de uma receita médica. Provérbios 9 pertence à literatura sapiencial, e seu banquete é, antes de tudo, uma imagem de partilha, abundância, acolhimento e formação humana. A Sabedoria põe a mesa para ensinar a viver, não para prescrever um cardápio. E o próprio livro de Provérbios trata de desfazer qualquer interpretação que transforme fartura em virtude automática: condena a glutonaria e a embriaguez (Pv 23:20-21), recomenda moderação até no consumo do mel (Pv 25:16) e afirma que é melhor um prato de hortaliças servido com amor do que um boi cevado acompanhado de ódio (Pv 15:17). A mensagem, portanto, não está apenas no que se põe sobre a mesa, mas também no que se cultiva ao redor dela. Estudiosos como Michael V. Fox e Gerhard von Rad ajudam a compreender essa dimensão formativa da sabedoria antiga. E, quando penso nisso, volto à mesa de minha avó: arroz, feijão, couve e frango só em dia de festa. Era comida simples, sem luxo nem cerimônia, mas ali aprendi, sem saber, que o alimento também mora na conversa, no afeto e na presença de quem se senta ao nosso lado.

Por essas e outras, já não vejo a ciência e a sabedoria antiga como adversárias disputando o mesmo prato. Cada uma tem seu lugar à mesa. A ciência nos ajuda a compreender o que faz bem ao corpo; a sabedoria nos provoca a pensar no sentido daquilo que fazemos e na maneira como vivemos. Sem reflexão, podemos até seguir uma dieta impecável e continuar famintos de companhia. Por outro lado, sem conhecimento científico, corremos o risco de santificar hábitos que já não nos fazem bem, confundindo tradição com obrigação. Reinterpretar Provérbios, para mim, não significa corrigir a Bíblia como quem corrige a lição de um aluno, mas continuar a conversa que ela iniciou, trazendo para a mesa de hoje o vegetariano, o enfermo, quem tem fé e quem não tem. Afinal, uma mesa verdadeiramente sábia não exige que todos comam a mesma coisa; exige que ninguém seja tratado como menos digno por aquilo que come ou deixa de comer. No fim das contas, talvez a sabedoria alimentar consista em saber o que comer e com quem compartilhar a refeição. A primeira parte, a ciência continua refinando a cada década; a segunda, os Provérbios já me ensinam há milênios. E eu, feito aprendiz que ainda não sabe tudo, continuo aceitando o convite.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(1) Além da Sabedoria: A Importância das Instituições Sociais

 


Ensaio Teológico IX(1) Além da Sabedoria: A Importância das Instituições Sociais

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há uma cena que me acompanha: numa enfermaria de interior, de madrugada, uma senhora de mãos calejadas vela o marido doente. Ela reza, e é sábia, pois sabe esperar, consolar e suportar. Mas o que salvará aquele homem não é só essa sabedoria; é também o plantonista que estudou anos, o antibiótico fruto de décadas de pesquisa e o hospital que uma comunidade decidiu construir. A sabedoria sustenta a alma, as instituições sustentam o corpo, e o ser humano precisa de ambos. Não pretendo rebaixar o tesouro de Provérbios 3:13-14, que declara a sabedoria melhor que a prata e o ouro. Lembro, porém, que o livro inteiro trata de tribunais, trabalho, governo e vizinhança: a sabedoria bíblica já nasce prática e comunitária, e minha tese é a seu favor, pois ela floresce quando encontra estruturas que a encarnem.

Nesse ponto, Yuval Noah Harari ajuda. Em Sapiens, ele sustenta que nossa espécie venceu por cooperar em larga escala, apoiada em ficções compartilhadas como leis, moedas e instituições. Embora ele trate a religião como uma dessas ficções, e eu não concorde com essa conclusão, reconheço a força do diagnóstico: nenhuma civilização se mantém só de boas intenções individuais. Steven Pinker, em Os Anjos Bons da Nossa Natureza, reforça a ideia ao documentar que a queda da violência e da miséria resultou de esforço coletivo, feito de comércio, ciência, direitos humanos e governos responsáveis. Também ele vê mais sombra que luz na religião, e é honesto admitir a divergência. Paulo, a seu modo, já intuía a lição: sabedoria, conhecimento e fé são dons distintos (1Co 12:8-9), e a sabedoria é um dom entre dons, não o corpo inteiro.

Além disso, o conhecimento muda. Carl Sagan, em O Mundo Assombrado pelos Demônios, defende que a ciência vive de dúvida e autocorreção, e que isso é sua grandeza, não sua fraqueza. Curiosamente, o texto sapiencial concorda: "O sábio ouvirá e aumentará o aprendizado" (Pv 1:5). Quem aumenta o aprendizado admite não o possuir por inteiro, e essa humildade intelectual é, talvez, o ponto de encontro mais honesto entre o laboratório e o templo. Dela decorre a objeção mais séria: o pluralismo não enfraqueceria a fé? Penso o contrário. Se só uma "sabedoria divina", entendida como monopólio, conduzisse à vida plena, a vizinha que não crê, o médico que duvida e o professor de outra tradição seriam inúteis à nossa felicidade, e sabemos que não são. Paulo, ao lembrar que temos muitos membros num só corpo (Rm 12:4-5), me autoriza a ver na diversidade uma arquitetura, não uma ameaça.

Volto, então, à enfermaria. A senhora continua rezando, e faz bem, mas agradeço também, com igual sinceridade, à enfermeira que ajusta o soro, ao pesquisador que jamais conhecerei e ao legislador que garantiu aquele leito. A sabedoria, isolada, é uma lamparina preciosa num quarto escuro; unida à ciência, às instituições e à diversidade, torna-se cidade iluminada. Não é a sabedoria que perde com isso. É o ser humano que ganha.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(36) A SABEDORIA E O MEDO: DA COERÇÃO À LIBERDADE DE PENSAMENTO

 


Ensaio Teológico VIII(36) A SABEDORIA E O MEDO: DA COERÇÃO À LIBERDADE DE PENSAMENTO

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Aprendi cedo que certas perguntas não se faziam em voz alta. Não havia proibição escrita, nem precisava. Bastava o silêncio que caía sobre a sala, o olhar atravessado de quem se sentia incomodado ou aquela frase pronta, repetida como se encerrasse qualquer discussão: “é o temor do Senhor que nos guarda”. Cresci entendendo que duvidar era quase um desacato, uma espécie de rebeldia contra o sagrado, e que a obediência silenciosa representava a forma mais elevada de sabedoria. Só muito tempo depois comecei a perceber o preço daquela educação pelo medo. Quanta pergunta ficou entalada na garganta? Quantas ideias deixei de explorar, quantas possibilidades de aprendizagem abandonei, sem sequer me dar conta? Pois é, há silêncios que não fazem barulho, mas vão apagando, devagarinho, partes importantes de quem somos.

Com o tempo, compreendi que esse silêncio não nasce do nada. Em determinados ambientes religiosos, exige-se a aceitação irrestrita da chamada “Sabedoria”, quase sempre acompanhada de um vocabulário de ameaças. Quem questiona “esfria”, “se perde”, “dá lugar ao inimigo”, enquanto o destino de quem rejeita as orientações estabelecidas é anunciado em tons de condenação e ruína. Convém esclarecer: não estou falando de todos os crentes, muito menos ignorando aqueles que encontram na dúvida uma forma sincera de aprofundar a própria fé. Conheço a importância da experiência religiosa na vida de muita gente. Minha crítica se dirige a uma pedagogia específica: aquela que transforma o medo em método de ensino e confunde obediência com compreensão, como se repetir uma verdade fosse o mesmo que entendê-la. Ora, uma coisa é respeitar uma convicção; outra, bem diferente, é proibir que alguém examine os fundamentos dessa convicção.

O mais irônico é que essa postura costuma encontrar respaldo em Provérbios 1.7: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”. Seria fácil, talvez até tentador, transformar o versículo em adversário e atribuir à própria Escritura a responsabilidade por tudo o que se fez em seu nome. Mas isso seria uma leitura apressada, daquelas que condenam o texto sem examinar as interpretações construídas ao redor dele. No hebraico, a expressão yirat YHWH está associada ao temor reverente diante de Deus, uma atitude que envolve respeito, assombro e reconhecimento dos próprios limites, não necessariamente terror ou submissão cega. Nessa perspectiva, o versículo não precisa ser entendido como uma ordem para calar, mas como um convite à humildade e à aprendizagem. Afinal, reconhecer que não sabemos tudo deveria nos tornar mais dispostos a aprender, e não mais receosos de perguntar. O problema, portanto, não está necessariamente no texto bíblico, mas no uso que se faz dele quando a reverência vira ameaça e o princípio da sabedoria, que deveria abrir uma caminhada, passa a ser tratado como ponto final.

Para enfrentar essa confusão, vale chamar alguns interlocutores que, embora venham de caminhos diferentes, ajudam a iluminar a questão. Bertrand Russell nos convida a reconhecer os limites do conhecimento e a desconfiar das certezas que se julgam intocáveis. Afinal, quem acredita já possuir todas as respostas fecha as portas para aquilo que ainda poderia aprender. Chimamanda Ngozi Adichie, por sua vez, alerta para “o perigo de uma história única”, mostrando como uma narrativa exclusiva pode reduzir pessoas e culturas a uma imagem incompleta, apagando suas diferenças, experiências e possibilidades. E o que acontece quando, no campo religioso, uma única interpretação recebe o direito de falar em nome de toda a verdade? Acontece que as perguntas desaparecem, as experiências divergentes são desconsideradas e, pouco a pouco, pessoas inteiras deixam de caber no discurso oficial. Quando a Sabedoria se transforma numa voz única, não é apenas o pensamento que empobrece: são vidas humanas que perdem o direito de se expressar e de participar da construção do conhecimento.

É nesse ponto que Paulo Freire nos oferece uma chave preciosa: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão.” Essa afirmação desmonta duas ilusões de uma só vez. A primeira é a do mestre que acredita libertar os outros pela imposição de suas próprias certezas, como se ensinar fosse depositar respostas prontas na cabeça de quem aprende. A segunda é a do indivíduo que imagina poder construir sozinho todo o conhecimento de que necessita. A verdadeira aprendizagem exige encontro, escuta e participação. Ninguém precisa abrir mão de suas convicções para dialogar, assim como discordar não significa, necessariamente, desrespeitar. A sabedoria que liberta é um trabalho a muitas mãos, tecido com diálogo, divergências, paciência e disposição para rever caminhos. É nesse exercício que o conhecimento deixa de ser instrumento de controle e passa a ser possibilidade de emancipação.

Por isso, recuso-me a escolher entre a fé e a liberdade de pensamento, como se uma precisasse sufocar a outra para sobreviver. Prefiro uma fé tão firme que não tenha medo de ser interrogada e uma dúvida tão honesta que também esteja disposta a escutar. Não vejo sabedoria em aceitar tudo sem exame, assim como não vejo lucidez em rejeitar tudo por princípio. O caminho exige discernimento, humildade e coragem. A busca da sabedoria é, sim, um empreendimento nobre, mas só merece esse nome quando não carrega a mão do medo sobre o ombro de quem pensa. Se o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, que seja um temor nascido da reverência, capaz de nos fazer reconhecer nossa pequenez sem transformar essa condição em prisão. Que seja o temor de quem se ajoelha, se levanta e continua perguntando, não o de quem se cala para escapar da punição.

Hoje, quando uma pergunta me sobe à garganta, já não a engulo como fazia antigamente. Deixo-a sair, ainda que a voz trema e que a resposta não venha na hora. Aprendi que perguntar não é necessariamente afrontar, assim como duvidar não significa abandonar a fé. Às vezes, é justamente a pergunta que impede a crença de virar repetição mecânica e abre espaço para uma compreensão mais profunda daquilo em que acreditamos. Continuo aprendendo, errando, revendo ideias e reconhecendo que ainda há muito a descobrir. E talvez seja essa a lição que mais demorei a compreender: a sabedoria não exige que eu saiba todas as respostas, mas que tenha coragem de procurá-las sem transformar o medo em senhor do meu pensamento. Afinal, se a sabedoria abre caminhos, a coragem é a primeira porta que precisamos atravessar.

Ensaio Teológico VIII(35) A SABEDORIA É UMA JORNADA: APRENDER A VIVER SEM TER TODAS AS RESPOSTAS

 


Ensaio Teológico VIII(35) A SABEDORIA É UMA JORNADA: APRENDER A VIVER SEM TER TODAS AS RESPOSTAS

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há perguntas que não se resolvem de uma vez por todas: elas habitam a gente, acompanham nossos passos e, vez ou outra, tiram nosso sono. A pergunta sobre como viver plenamente é uma delas. Levei-a para a oração, para os livros e para as madrugadas de reflexão, mas sempre voltei com a mesma suspeita: a sabedoria é uma jornada, e nenhum mapa, por melhor que seja, dá conta de todo o território. Numa dessas noites de dúvida, quando as certezas da infância já não me serviam como antes, 1 Coríntios 13.12 falou comigo de outro jeito. Encontrei ali a confissão de um apóstolo que reconhece suas limitações, admitindo que ainda vê de maneira incompleta, como quem se olha num espelho de bronze e contempla uma imagem turva. Foi então que percebi algo importante: a humildade de reconhecer os limites do próprio conhecimento não nasce contra a Escritura, mas dentro dela.

Reparei, sobretudo, na ordem dos verbos usados por Paulo: conheço em parte, mas sou plenamente conhecido. Eis aí uma mudança e tanto de perspectiva! O autoconhecimento cristão não começa apenas em mim, no esforço de examinar meus pensamentos, minhas escolhas e minhas contradições, mas também no olhar de um Outro que já me conhece por inteiro. Sócrates nos convida a conhecer a nós mesmos; Paulo, por sua vez, acrescenta uma dimensão que amplia essa busca: somos também seres conhecidos, mesmo quando ainda não conseguimos compreender tudo a nosso respeito. Por isso, posso encarar o espelho sem tanto medo de minhas imperfeições. É nesse ponto que o diálogo com a filosofia deixa de ser uma concessão e se torna uma necessidade. Martha Nussbaum, herdeira do pensamento de Aristóteles, defende que uma vida boa não se mede apenas pela renda ou pela doutrina professada, mas pelas possibilidades reais de cada pessoa desenvolver suas capacidades, como cuidar da saúde, pensar, amar, brincar e participar da vida em sociedade. Reconheço algo dessa compreensão no fruto do Espírito apresentado em Gálatas 5.22-23: ali se desenha uma vida humana que floresce, não apenas alguém que obedece a regras. Digo isso com cuidado, porque não se trata de condenar toda experiência religiosa, mas de reconhecer um risco: quando a fé se reduz à vigilância doutrinária, seus frutos podem acabar tratados como simples enfeites, quando deveriam revelar a qualidade da vida que cultivamos.

E por que não ampliar ainda mais esse horizonte? Amartya Sen mostrou que o desenvolvimento humano não consiste apenas em acumular riquezas, mas em expandir as liberdades reais que permitem às pessoas escolher e realizar aquilo que valorizam. Kwasi Wiredu, por sua vez, defendeu a necessidade de examinar criticamente os conceitos de cada tradição, fazendo da conversação respeitosa um caminho para a busca da verdade. Esses pensadores me ajudam a compreender que nenhuma tradição, por mais rica que seja, pode falar sozinha em nome de toda a humanidade. Sei que alguém pode objetar que Provérbios 2.6 afirma que a sabedoria vem de Deus, sem apresentar explicitamente a pluralidade de suas fontes. A objeção merece ser considerada. Mas faço uma pergunta: se toda sabedoria procede de Deus, por que eu deveria desprezar uma verdade apenas porque ela foi percebida por alguém de outra cultura, tradição ou perspectiva filosófica? Se encontro uma reflexão valiosa em Atenas, em Acra ou em Calcutá, posso acolhê-la sem precisar renunciar à minha fé. Afinal, o próprio Paulo, no Areópago, dialogou com o pensamento grego e recorreu a palavras de poetas daquela tradição. O exemplo me ensina que escutar o outro não significa abandonar as próprias convicções, mas reconhecer que a verdade não precisa ser temida só porque também pode ser percebida fora dos limites do nosso grupo.

É claro que abertura sem discernimento vira dispersão. Não basta ouvir tudo, aceitar tudo e chamar isso de sabedoria. A própria Escritura oferece um princípio para essa caminhada: "Examinai tudo. Retende o bem" (1Ts 5.21). Gosto dessa orientação justamente porque ela não manda fechar os olhos, tapar os ouvidos ou desconfiar de antemão de tudo o que vem de fora. Manda examinar. O pluralismo que defendo não é uma mistura indiscriminada de ideias, mas a disposição de escutar diferentes vozes, confrontar argumentos e discernir o que contribui para uma vida mais justa, consciente e plena. É nessa mesma direção que compreendo o convite de Romanos 12.2 à renovação da mente: preciso permitir que a Escritura me leia enquanto eu a leio, que a filosofia questione minhas certezas, que a ciência me apresente evidências e que a experiência de outros povos me ensine aquilo que, sozinho, talvez eu nunca descobrisse. Nem sempre esse encontro será confortável; às vezes, vai mexer em convicções antigas e me obrigar a rever caminhos. Ainda assim, prefiro o desconforto de uma pergunta honesta à tranquilidade artificial de uma certeza que não aceita ser examinada.

No fim das contas, talvez a vida plena não consista em chegar a um ponto em que todas as perguntas estejam respondidas, mas em aprender a caminhar sem transformar nossas respostas provisórias em verdades intocáveis. A fé que não suporta perguntas pode esconder fragilidade; a que as acolhe, examina e enfrenta com honestidade revela confiança. Não preciso saber tudo para continuar buscando, nem concordar com todos para aprender alguma coisa com cada um. Talvez a sabedoria seja justamente essa travessia: olhar para o espelho turvo sem desespero, ouvir vozes diferentes sem perder a própria consciência e seguir adiante, mesmo sabendo que meu conhecimento é limitado. Se vejo em parte, mas sou plenamente conhecido, posso reconhecer meus limites sem fazer deles uma prisão. Afinal, a jornada continua, e ainda há muito a aprender, muito a rever e muito a viver. Por ora, isso basta para continuar caminhando.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(34) A SABEDORIA: DOM DIVINO OU CONSTRUÇÃO HUMANA?

 


Ensaio Teológico VIII(34) A SABEDORIA: DOM DIVINO OU CONSTRUÇÃO HUMANA?

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Houve um tempo em que eu repetia, sem pestanejar, que a sabedoria vinha de cima. Aprendi isso cedo, entre cantos, cadeiras de plástico e aquele cheiro de café requentado dos domingos. Na época, eu confundia a segurança de repetir com a certeza de compreender. Depois vieram uma decepção, uma pergunta sem resposta e uma noite comprida, daquelas em que o silêncio faz mais perguntas do que a gente consegue responder. Foi então que percebi: repetir uma verdade recebida não significa, necessariamente, ter compreendido o que ela quer dizer. Dessa inquietação nasceu a questão que conduz esta reflexão: a sabedoria é algo que se recebe ou algo que se constrói? Não trago um veredicto debaixo do braço, muito menos uma resposta definitiva. Tenho apenas uma inquietação que, desconfio, merece mais respeito do que qualquer sentença apressada.

Começo pelo que a tradição afirma. Muitos cristãos, entre eles os evangélicos, compreendem a sabedoria como dom divino e caminho a ser percorrido. O livro de Provérbios recomenda buscá-la "como prata" (Pv 2.4) e declara que "o Senhor dá a sabedoria" (Pv 2.6). Tiago, por sua vez, aconselha aquele que carece dela a pedi-la a Deus (Tg 1.5). Não se trata de ingenuidade, mas de uma convicção antiga, presente também no pensamento de Agostinho e Tomás de Aquino, para quem fé e razão não precisam viver de costas uma para a outra. Por isso, procuro não combater um espantalho, daqueles que a gente mesmo fabrica para derrubar com facilidade. Afinal, existe fé que pensa, questiona e busca compreender, assim como existe fé que apenas repete o que ouviu. A questão, portanto, é outra: o que significa, de fato, "receber" sabedoria? Se a ideia for a de uma espécie de transmissão sobrenatural que dispensa estudo, reflexão e esforço, a própria experiência humana nos obriga a desconfiar, pois ninguém acorda sábio de uma hora para outra. Mas, se entendermos esse dom como uma graça que acompanha a disposição de estudar, escutar, refletir e aprender com os próprios erros, a distância entre a tradição religiosa e a razão diminui consideravelmente. Por outro lado, afirmar que a sabedoria nasce exclusivamente da razão humana também exige argumentos. E, para ser sincero, não encontrei uma resposta pronta que encerre essa discussão.

Há outra questão que me incomoda: quando buscamos a sabedoria apenas para conquistar o favor divino, corremos o risco de transformar o conhecimento numa espécie de moeda de troca. Aprender para receber uma recompensa é diferente de aprender porque reconhecemos o valor do próprio saber. Sócrates defendia a importância de uma vida examinada, uma existência submetida à reflexão, e não simplesmente organizada em função de vantagens. Aristóteles, por sua vez, abre a Metafísica afirmando que todos os seres humanos desejam naturalmente conhecer. E o próprio livro de Provérbios apresenta a sabedoria como caminho de vida, não como mercadoria a ser negociada com Deus. Talvez a motivação mais genuína seja amar o conhecimento pelo que ele é, sem transformá-lo num instrumento de barganha. Digo talvez porque isso, para mim, ainda é uma hipótese a ser examinada, não uma verdade que pretendo impor. Também percebo um perigo dos dois lados: dividir as pessoas entre "bons ouvintes" e "preguiçosos teimosos" é simplificar demais a complexidade humana. Ora, cada pessoa chega ao conhecimento por estradas diferentes, carregando pesos que nem sempre aparecem aos olhos dos outros. Pensemos na criança que não teve acesso à escola, no trabalhador que chega em casa exausto ou naquele homem que, depois de tantas decepções, já não consegue confiar facilmente na palavra de ninguém. Será justo medir todos pela mesma régua? Eu mesmo, que critico esse tipo de divisão, quase caí na armadilha ao imaginar o crente como adversário da razão. Felizmente, questionar também é reconhecer quando nosso próprio pensamento precisa de correção.

É por isso que proponho uma humildade de duas mãos. Ao fiel, faço um convite: reconheça que perguntar não é pecado e que a dúvida, quando nasce de uma busca sincera, pode ser também uma forma de reverência. Questionar não significa, necessariamente, abandonar a fé; às vezes, significa apenas recusar uma fé que não nos permite compreender aquilo em que acreditamos. Ao cético, dirijo outro convite: reconheça que a razão também pode construir seus dogmas e que nem tudo o que importa na existência humana cabe, sem perdas, dentro de um experimento. Isso não significa abandonar o pensamento crítico, mas admitir que a realidade é maior do que nossas explicações sobre ela. Nesse encontro entre fé e razão, a sabedoria deixa de ser troféu para se tornar caminhada. Há espaço tanto para quem acredita tê-la recebido de Deus quanto para quem continua procurando compreendê-la por meio da experiência, do estudo e da reflexão. Quanto a mim, sigo no meio do caminho, sem a pretensão de ter chegado ao fim da estrada. Já não repito com a mesma facilidade aquilo que não compreendo e aprendi a escutar melhor quem pensa diferente. Se a sabedoria é um dom, que me alcance enquanto caminho, estudo e aprendo a reconhecer meus limites. Se é uma construção humana, que eu tenha coragem, paciência e humildade para continuar edificando. Em qualquer dos casos, há algo que não quero perder: a capacidade de me espantar diante da vida, de rever minhas certezas e de continuar perguntando. Afinal, talvez a sabedoria comece justamente quando a gente deixa de se preocupar tanto em ter a última palavra e passa a levar a sério a pergunta que ainda não conseguiu responder.

Ensaio Teológico VIII(33) A SABEDORIA ENTRE A OBEDIÊNCIA E A EXPERIÊNCIA

 


Ensaio Teológico VIII(33) A SABEDORIA ENTRE A OBEDIÊNCIA E A EXPERIÊNCIA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Aos dezenove anos, ouvi de um velho pastor um conselho que, na minha teimosia juvenil, não quis escutar: eu não devia assumir sozinho um compromisso para o qual ainda não tinha ombros. Sorri, fiz pouco caso e segui pelo caminho contrário. Seis meses depois, lá estava eu, sentado numa calçada, com um café frio no copo de papel e a vergonha inteira pesando no peito. Foi naquele instante que compreendi o que aquele homem já tinha enxergado muito antes de mim. Quando finalmente o procurei, ele não me disse "eu avisei". Simplesmente me serviu água e ficou em silêncio. Curiosamente, aquele silêncio foi o conselho mais eloquente que já recebi.

Costuma-se dizer que a sabedoria nasce da disposição de ouvir quem já caminhou antes de nós. A tradição bíblica confirma essa verdade: o sábio ouve conselhos (Pv 12.15), enquanto o rei velho que já não aceita advertências vale menos que o jovem sábio (Ec 4.13). Entretanto, a mesma Bíblia que recomenda a obediência não esconde as quedas de quem aprende pelo caminho. Afinal, o justo cai sete vezes e se levanta (Pv 24.16); o salmista reconhece que lhe fez bem ter sido afligido (Sl 119.71); e o próprio Cristo aprendeu a obediência pelo que sofreu (Hb 5.8). Ora, se até a dor pode se tornar mestra, por que desprezar as lições que nascem dos nossos tropeços? Para mim, obediência e experiência nunca foram rivais, mas as duas mãos de um mesmo gesto: uma nos ajuda a evitar certas quedas; a outra nos ensina a levantar quando não conseguimos evitá-las. O filho pródigo e Pedro ilustram bem essa realidade. O primeiro "caiu em si" no chiqueiro (Lc 15.17) e decidiu voltar para o pai. O segundo, mesmo advertido de antemão, precisou conhecer a dor da própria negação para experimentar o arrependimento e, depois de restaurado, fortalecer os irmãos (Lc 22.32; Jo 21).

A psicologia contemporânea também me ajuda a compreender esse mistério, desde que eu a tome como lente, e não como fundamento absoluto. Daniel Goleman, em Inteligência Emocional (1995), destaca a importância de reconhecer as próprias emoções e compreender as alheias. De certo modo, foi isso que o filho pródigo começou a fazer quando, no fundo do poço, percebeu a distância entre a vida que levava e aquela que poderia reconstruir. Carol Dweck, em Mindset (2006), distingue a mentalidade de quem enxerga as próprias capacidades como algo fixo daquela que as considera passíveis de desenvolvimento. Nessa perspectiva, o erro pode ser fonte de informação, não uma sentença definitiva, embora o crescimento também exija estratégia, persistência e ajuda. Brené Brown, em A Coragem de Ser Imperfeito (2012), chama a atenção para a coragem de se expor à possibilidade do fracasso e para o peso da vergonha quando nos isolamos. Afinal, quem cai e se esconde tende a carregar sozinho o peso da própria queda; quem encontra coragem para reconhecer o erro e aceitar ajuda pode transformar a ferida em aprendizado. Até Nietzsche, com a conhecida frase "o que não me mata me fortalece", em Crepúsculo dos Ídolos (1888), merece uma leitura cautelosa: nem toda dor fortalece, nem todo sofrimento produz sabedoria. Às vezes, o que nos salva não é a queda em si, mas a presença de alguém que nos oferece água, respeita nosso silêncio e mantém uma porta aberta para o recomeço. Foi assim que a minha queda deixou de ser apenas vergonha e se tornou lição.

Chego, então, ao ponto central desta reflexão: a sabedoria não consiste em obedecer cegamente, tampouco em acreditar que precisamos experimentar tudo na própria pele. Ela está na arte de ouvir antes de cair e, quando a queda for inevitável ou acontecer por nossa teimosia, ter humildade para aprender com ela. Quem apenas obedece, sem compreender, corre o risco de viver uma fé emprestada, sustentada pelas certezas dos outros. Quem insiste em aprender somente pela própria experiência, por sua vez, pode pagar caro por lições que já estavam disponíveis nos conselhos de quem veio antes. Hoje, quando um jovem me procura com aquele brilho teimoso nos olhos — um brilho que conheço bem, porque já foi meu —, procuro compartilhar o que aprendi, mas também me preparo para servir água. Não posso escolher por ele, muito menos impedir todas as suas quedas. Posso, contudo, oferecer uma palavra, estender a mão e deixar a porta aberta. Se não me ouvir, que encontre dignidade para reconhecer o erro e humildade para recomeçar. Porque, no fim das contas, quem um dia foi acolhido aprende a acolher; quem recebeu ajuda descobre o valor de ajudar. E é nesse movimento, entre conselhos ouvidos, erros reconhecidos e mãos estendidas, que nos tornamos não apenas mais sábios, mas também mais humanos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(32) A FÉ, A DÚVIDA E A CORAGEM DE PENSAR

 


Ensaio Teológico VIII(32) A FÉ, A DÚVIDA E A CORAGEM DE PENSAR

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Conheci cedo o peso de uma pergunta sem licença. Na igreja da minha infância, quem ousava duvidar em voz alta era olhado como quem deixava a porta aberta num dia de vento: alguém que ameaçava a ordem e podia trazer problemas para dentro de casa. Aprendi, então, a calar. Só mais tarde compreendi que aquele silêncio nem sempre era humildade; às vezes, era medo vestido de reverência, com roupa de domingo e aparência de virtude. É dessa experiência que nasce minha inquietação. Escrevo para quem já sentiu o desconforto de perguntar e para quem nunca passou por isso, porque a conversa que proponho precisa dos dois lados da mesa. Afinal, se queremos compreender a fé e a razão, não adianta reunir apenas quem concorda conosco.

Antes de avançar, porém, quero fazer justiça ao assunto. Pintar a religião inteira como um exercício de obediência cega seria uma caricatura, e caricatura, convenhamos, não é argumento. A própria história do cristianismo apresenta pensadores que fizeram da reflexão uma parte importante da experiência religiosa. Agostinho colocou a razão em diálogo com a fé; Tomás de Aquino construiu uma obra monumental de argumentação filosófica e teológica; Karl Barth e Dietrich Bonhoeffer, cada qual à sua maneira, questionaram as próprias igrejas em nome do Evangelho. Além disso, para muitos cristãos, a palavra grega pistis, presente no Novo Testamento, envolve confiança e fidelidade, não simplesmente aceitar qualquer afirmação sem examiná-la. Minha crítica, portanto, não se dirige a toda forma de fé, mas aos ambientes em que a pergunta vira ameaça e a obediência é tratada como a maior das virtudes. Uma coisa é confiar depois de refletir; outra, bem diferente, é calar a boca por medo de ser excluído. E entre essas duas atitudes existe um abismo que não devemos fingir que não enxergamos.

Curiosamente, a própria Bíblia, tantas vezes usada para encerrar discussões, também oferece motivos para abri-las. Provérbios 4:7 recomenda adquirir sabedoria; Provérbios 2:3-5 compara a busca pelo conhecimento à procura da prata e de tesouros escondidos; João 8:32 associa a verdade à liberdade; e Tiago 1:5 afirma que Deus concede sabedoria "e não censura". Ora, se a sabedoria precisa ser buscada, por que transformar a pergunta em pecado? Se há tesouros escondidos, como encontrá-los sem procurar, investigar e, às vezes, rever aquilo em que acreditamos? Reconheço, entretanto, uma tensão no meu próprio argumento: critico a aceitação de autoridades sem exame e, ao mesmo tempo, recorro à Bíblia. Não ignoro essa contradição aparente. Leio as Escrituras de duas maneiras: como interlocutor interno, conversando com quem fundamenta sua fé nelas, e como patrimônio literário e moral, submetido à leitura crítica, assim como faço com Platão, Montaigne e outros pensadores. Não recorro à Bíblia para ganhar uma discussão por decreto, muito menos para me dispensar de pensar. Recorro a ela porque também podemos dialogar com seus textos, questioná-los e encontrar neles motivos para aprofundar a reflexão.

Defendo a importância das evidências, e vejo na ciência moderna uma das maiores conquistas humanas justamente porque ela institucionalizou a dúvida, o exame e a possibilidade de corrigir erros. Uma hipótese não se torna verdadeira só porque alguém importante a defendeu; precisa enfrentar as evidências e resistir, tanto quanto possível, ao teste dos fatos. Mas também reconheço que a ciência, por si só, não responde a todas as perguntas da existência. Ela pode nos ajudar a compreender o mundo, sem determinar sozinha o que devemos amar, perdoar, respeitar ou preservar. É aí que desconfio de dois dogmatismos: o de quem declara a dúvida um pecado e o de quem considera real apenas aquilo que pode ser medido. Embora partam de posições diferentes, ambos podem cair na mesma armadilha: a soberba de imaginar que já encontraram todas as respostas. Foi justamente esse tipo de presunção que Sócrates, em sua caminhada pelas ruas de Atenas, ajudou a desmontar. Por isso, não quero uma fé que tenha medo da razão, nem uma razão que se considere dispensada da humildade. Quero uma mente disposta a examinar e um coração capaz de acolher, porque amar o próximo, como ensina Mateus 22:39, também exige escutar quem pensa diferente de nós.

Deixo, então, algumas perguntas que não pretendo resolver com uma frase bonita, dessas que encerram o assunto antes mesmo de a conversa começar: pode a fé sobreviver ao exame? Creio que sim. Em muitos casos, aliás, pode sair dele mais consciente, honesta e madura, livre de certezas que nunca tiveram coragem de enfrentar uma pergunta. Pode a razão dispensar a humildade? Creio que não, pois até o conhecimento mais sólido tem limites, e reconhecer esses limites não diminui ninguém; pelo contrário, abre espaço para aprender. Talvez seja esse o verdadeiro desafio: ter coragem de perguntar sem transformar a dúvida em arrogância e saber ouvir sem fazer da obediência uma prisão. No fim das contas, prosperar intelectualmente e amadurecer espiritualmente talvez tenham algo em comum: a disposição de continuar buscando, mesmo quando a resposta incomoda. Porque a sabedoria não começa quando deixamos de perguntar, mas quando perdemos o medo de fazê-lo e aprendemos a ouvir, com respeito e discernimento, a resposta que vem de onde menos esperamos.