"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(17) A DÚVIDA, A FÉ E A SABEDORIA: A CORAGEM DE PERGUNTAR

 


Ensaio Teológico VIII(17) A DÚVIDA, A FÉ E A SABEDORIA: A CORAGEM DE PERGUNTAR

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Tinha uns dez anos quando perguntei à professora da escola dominical como podíamos saber se aquilo que ela acabara de afirmar era mesmo verdade. Não era desafio, muito menos rebeldia; era curiosidade pura, dessas que brotam na cabeça da criança antes que alguém lhe ensine a ter medo de perguntar. A resposta, porém, não esclareceu minha dúvida: "Isso a gente não pergunta, a gente crê." Guardei aquela pergunta como quem guarda uma pedra no bolso: pequena, incômoda, mas impossível de ignorar. Agora, tantos anos depois, este ensaio é o momento de tirá-la dali e examiná-la à luz do dia. Desconfio de quem trata a dúvida como inimiga da fé, como se pensar fosse uma espécie de pecado e perguntar, uma afronta a Deus. Ora, Provérbios, livro que tantas vezes usamos como cartilha de obediência, também é um convite à busca. Diz que o Senhor dá a sabedoria (Pv 2:6), mas manda quem a recebe ir atrás dela (Pv 4:7). E vai além: afirma que a glória de Deus é encobrir as coisas, enquanto a dos reis é esquadrinhá-las (Pv 25:2). Veja só que ironia bonita! Se há um Deus que esconde, há também um ser humano chamado a procurar. Talvez a fé não comece quando todas as perguntas se calam, mas quando encontramos coragem para fazê-las.

Preciso, contudo, corrigir minha própria desconfiança. Seria preguiça intelectual colocar "dogma", "credo" e "tradição" no mesmo saco, jogar tudo fora e declarar que nada disso tem valor. Afinal, a preguiça de pensar também pode se disfarçar de liberdade, assim como o dogmatismo pode vestir tanto a roupa da religião quanto a da razão. Entendo o dogma como uma doutrina que determinada comunidade considera fundamental, depois de um longo percurso de reflexão e debate. Já o dogmatismo é outra conversa: é a recusa de olhar novamente, a certeza que se fecha numa redoma e se protege de qualquer evidência capaz de abalá-la. Um pode resultar de séculos de pensamento; o outro pode nascer numa sala de aula, num laboratório ou num púlpito. Ninguém está livre dessa armadilha, nem mesmo quem se orgulha de não acreditar em nada sem provas. Por isso, minha pergunta nunca foi simplesmente "fé ou razão?", como se uma precisasse expulsar a outra de casa. O que realmente me inquieta é outra coisa: o que acontece quando uma certeza se recusa a ser examinada? É nesse ponto que a convicção deixa de ser caminho e se transforma em prisão.

O caso de Galileu Galilei nos ajuda a compreender o tamanho desse perigo. Em 1633, ele foi condenado pela Inquisição romana por defender o heliocentrismo, segundo o qual a Terra gira em torno do Sol. O episódio expôs o conflito entre as observações astronômicas, as interpretações então predominantes de determinadas passagens bíblicas e a autoridade filosófica herdada da Antiguidade. A rigidez com que se sustentou a interpretação contrária acabou revelando a fragilidade de uma postura que não admitia rever suas certezas. Séculos depois, em 1992, o papa João Paulo II reconheceu os erros cometidos no tratamento dado a Galileu. Eis uma lição que não convém esquecer: quando a fé se agarra a uma interpretação humana como se ela fosse a própria revelação divina, corre o risco de ferir justamente aquilo que pretende defender. Mas, calma lá! A história não cabe numa fábula de heróis e vilões, como se a religião estivesse sempre de um lado e a ciência, invariavelmente do outro. Foi o padre Georges Lemaître quem formulou a hipótese do universo em expansão, e foi o frade Gregor Mendel quem estabeleceu bases fundamentais da genética por meio de seus experimentos com ervilhas. Portanto, a fronteira entre a abertura e o fechamento não passa simplesmente entre o templo e a universidade. Passa, sobretudo, por dentro de cada um de nós.

E o ceticismo? Ora, se queremos levar a sério o pensamento crítico, precisamos permitir que ele examine também as nossas próprias certezas. Carl Sagan, em O Mundo Assombrado pelos Demônios (1995), apresentou um "kit de detecção de falsidades", um conjunto de ferramentas para avaliar afirmações e reconhecer falhas de raciocínio. O princípio é simples, embora nem sempre fácil de praticar: submeter ao exame não apenas aquilo de que discordamos, mas também o que gostaríamos muito que fosse verdade. Karl Popper, por sua vez, desenvolveu a ideia de falseabilidade como critério para distinguir teorias científicas: uma teoria precisa admitir, ao menos em princípio, a possibilidade de ser contrariada por evidências. Isso não significa que toda afirmação não falseável seja automaticamente inútil em qualquer campo do conhecimento, mas que não podemos apresentar como científica uma explicação que não se dispõe a correr o risco de ser refutada. Curiosamente, encontro nas próprias Escrituras uma orientação que conversa com essa disposição crítica. Paulo aconselha: "examinai tudo, retende o bem" (1Ts 5:21). E os bereanos são elogiados por verificarem diariamente as Escrituras para conferir se o que ouviam correspondia à verdade (At 17:11). Perceba: não se trata de engolir tudo sem mastigar, mas de examinar antes de acolher. A própria tradição bíblica oferece, assim, elementos para questionarmos uma fé que exige obediência sem reflexão.

Volto, então, à professora da minha infância, mas já não volto com raiva. Talvez ela estivesse apenas protegendo aquilo que aprendera a considerar sagrado, repetindo uma resposta que também lhe haviam ensinado. Quem sabe eu mesmo, hoje, não faça algo parecido em algum canto da vida em que ainda não aprendi a duvidar? A gente costuma enxergar com facilidade as certezas alheias, mas, quando chega a hora de examinar as próprias, o negócio muda de figura. Não proponho trocar a Bíblia pelos cientistas, nem o laboratório pelo templo, muito menos transformar a dúvida em religião e o ceticismo em dogma. Proponho algo mais simples — e, justamente por isso, mais exigente: examinar tudo, inclusive aquilo que usamos para examinar o mundo. Ter fé não precisa significar fechar os olhos; pensar criticamente não exige fechar o coração. O problema não está em acreditar, mas em acreditar que já sabemos o suficiente para nunca mais precisar perguntar. Afinal, a sabedoria não exige que tenhamos todas as respostas. Exige disposição para procurar, humildade para reconhecer os próprios limites e coragem para rever o que julgávamos definitivo. Aquela criança de dez anos continua aqui, com a pergunta guardada no bolso. E talvez seja justamente por ainda não ter desistido dela que continuo aprendendo. Porque, no fim das contas, a sabedoria começa quando a certeza deixa de ter medo da pergunta.

Ensaio Teológico VIII(16) A SENHORA SABEDORIA E O PODER: QUANDO A JUSTIÇA FALA MAIS ALTO QUE O CREDO

 


Ensaio Teológico VIII(16) A SENHORA SABEDORIA E O PODER: QUANDO A JUSTIÇA FALA MAIS ALTO QUE O CREDO


Por Claudeci Ferreira de Andrade


Ouvi, num culto qualquer, um pregador dizer que só governa bem quem governa com a Bíblia na mão. A afirmação foi recebida com um "amém" convicto, mas, cá comigo, fiquei calado, remoendo uma pergunta que não cabia naquele coro: e Ciro? Foi dessa inquietação que nasceu este ensaio, da vontade de interrogar a própria tradição que aprendi a respeitar. Afinal, amar uma tradição não significa concordar com tudo o que dizem em nome dela; significa, também, ter coragem de fazer perguntas. Começo, então, desfazendo um equívoco: a "Senhora Sabedoria" não é um verniz moderno aplicado à palavra seca das Escrituras. Ela está lá, em Provérbios 8, clamando nas encruzilhadas e às portas da cidade, afirmando que, por meio dela, reinam os reis e os príncipes decretam justiça (Pv 8:15). O problema, portanto, não está na figura, mas no uso que fazemos dela. Quando a transformamos em slogan ou selo eclesiástico, esvaziamos justamente o que há de mais radical nessa imagem: a Sabedoria não se limita aos templos; ela ganha as ruas, ocupa as esquinas e interpela quem exerce o poder.

É aí que a conversa fica mais delicada. A ideia de que somente governantes cristãos podem ser grandes e nobres esbarra em exemplos que a própria Bíblia apresenta. José ajudou a salvar multidões da fome sob o governo de um faraó que não adorava o Deus de Israel. Daniel serviu com honra a impérios pagãos. E Isaías chamou Ciro, rei da Pérsia, de "ungido" (Is 45:1), um título associado aos reis de Israel e, na tradição bíblica, também à figura do Messias, mas atribuído, nesse caso, a um estrangeiro que nem sequer conhecia a Deus. Ora, se a própria narrativa bíblica admite que alguém de fora da tradição israelita possa cumprir uma missão importante, com que autoridade podemos afirmar que somente os nossos são capazes de governar com justiça? Isso não significa dispensar critérios, muito menos fechar os olhos para os erros de quem governa. Com Agostinho, na Cidade de Deus, retomo uma pergunta incômoda: o que seriam os reinos, sem justiça, senão grandes bandos de ladrões? No fim das contas, a medida de um governo não pode ser apenas o credo de quem o exerce, mas a justiça que pratica. Reconhecer isso não é relativismo; é levar a sério as próprias Escrituras.

Seria desonesto, porém, fingir que não existem argumentos do outro lado. Se a Bíblia é a Palavra de Deus, perguntam muitos cristãos, por que ela não deveria ser o manual supremo da política? Nem todos os que defendem essa posição estão em busca de poder ou de privilégios. Muitos querem apenas coerência entre aquilo em que acreditam e a maneira como vivem. Para essas pessoas, separar a fé do governo pode parecer uma tentativa de partir a vida ao meio, como se fosse possível deixar as convicções religiosas do lado de fora quando se entra na vida pública. A questão merece mais do que uma resposta apressada. Por interpretação literal como guia absoluto, entendo a leitura que retira uma lei do contexto histórico em que foi dada a uma antiga nação e a transplanta, sem mediações, para uma sociedade completamente diferente. Já por abordagem secular, entendo algo bem mais modesto do que muita gente imagina: justificar as decisões públicas com razões que até o vizinho que não professa a mesma fé possa examinar, questionar e compreender. No Brasil, a Constituição assegura a liberdade de crença e estabelece a separação entre o Estado e os cultos religiosos. Essa proteção não serve para expulsar a fé da vida pública, mas para impedir que o poder estatal se confunda com uma religião e constranja quem pensa diferente. O cristão, portanto, continua livre para levar suas convicções ao debate; o desafio é apresentá-las também por meio de argumentos que todos possam ouvir e discutir. É nesse horizonte que se situa a reflexão de Habermas, em seu diálogo com o então cardeal Ratzinger, sobre o aprendizado mútuo entre a razão secular e as tradições religiosas.

Por fim, volto à passagem bíblica com que costumo concluir minhas reflexões. Quando Paulo afirma que se fez "tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns" (1Co 9:22), está falando de uma postura missionária: atravessar fronteiras culturais sem exigir que o outro se transforme numa cópia de nós mesmos. O versículo não é salvo-conduto para o vale-tudo político, nem autorização para abandonar princípios conforme a conveniência. Ainda assim, ensina uma lição que vai muito além da evangelização: quem deseja ser ouvido precisa aprender a falar também a língua de quem escuta. Por isso, acredito que a sabedoria necessária ao exercício do poder seja menos um título ou um atributo de quem se julga iluminado e mais uma disciplina cotidiana. É ouvir antes de decretar, desconfiar da própria certeza quando ela nos favorece demais e reconhecer a justiça mesmo quando ela chega por mãos que não são as nossas. Afinal, a Senhora Sabedoria continua na esquina, clamando a quem passa, sem pedir carteira de membro nem exigir profissão de fé. Resta saber se eu, se nós, temos humildade suficiente para interromper a caminhada, baixar o tom das próprias certezas e escutá-la — ainda que sua voz venha de onde jamais imaginamos encontrá-la.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(15) Liderança Eficaz: A Confluência de Experiência, Conhecimento e Abertura à Mudança

 


Ensaio Teológico VIII(15) Liderança Eficaz: A Confluência de Experiência, Conhecimento e Abertura à Mudança

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Lembro-me de uma assembleia numa cidade pequena, numa noite abafada, com o salão cheio de gente cansada, daquelas que chegam ao fim do dia carregando no corpo o peso do trabalho e, na alma, as preocupações de sempre. O prefeito havia decidido fechar o posto de saúde do bairro alto e concentrar os atendimentos no centro da cidade. No papel, os números fechavam direitinho: economia de recursos, reorganização dos serviços, eficiência administrativa. Tudo parecia fazer sentido, até que uma senhora se levantou e perguntou: “O senhor já tentou subir aquele morro com uma criança febril no colo?” De repente, o salão emudeceu. O prefeito olhou para os próprios papéis, depois para aquela mulher, e percebeu que havia algo que suas planilhas não conseguiam traduzir: a realidade de quem precisava do serviço público. Diante de todos, desfez a decisão. Para alguns, talvez tenha saído menor, por voltar atrás; para outros, saiu maior, justamente por ter reconhecido o próprio equívoco. Foi uma das lições mais claras que já recebi sobre o significado de governar com sabedoria: nem sempre a grandeza de um líder está em sustentar uma decisão, mas em ter coragem de revê-la quando a vida lhe mostra que o caminho escolhido não é o melhor.

A Escritura abre esse caminho com uma afirmação fundamental: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Provérbios 9:10). Mas, convenhamos, princípio não é ponto final. A reverência a Deus pode orientar o exercício do poder, mas a vida pública exige que outros elementos se juntem a ela: experiência, conhecimento, sensibilidade e, sobretudo, disposição para ouvir. Quem governa amparado apenas pela reverência religiosa, sem aprender com a realidade concreta das pessoas, corre o risco de transformar a fé em cegueira diante das necessidades humanas. Por outro lado, quem se agarra exclusivamente às planilhas, aos cálculos e às metas, sem qualquer compromisso ético, acaba reduzindo a população a números e esquecendo os rostos por trás das estatísticas. Ora, de que adianta uma administração aparentemente eficiente se o cidadão mais vulnerável não consegue chegar ao posto de saúde? Governar com sabedoria é justamente encontrar o equilíbrio entre os princípios que orientam a consciência e o conhecimento que permite compreender a vida como ela é. Afinal, a justiça não se realiza apenas nas intenções de quem governa; precisa chegar à porta de quem dela necessita.

É aqui que encontro uma tensão filosófica que não quero esconder. O ideal estoico, presente em diferentes tradições filosóficas e associado à busca de serenidade diante das adversidades, encontra ecos na literatura de Fernando Pessoa, embora sua obra seja muito mais ampla do que essa única perspectiva. Trata-se de cultivar firmeza interior para não ser derrubado a cada mudança dos acontecimentos. A cena do prefeito, entretanto, apresenta outra exigência: a capacidade de recuar, rever decisões e reconhecer que a realidade pode desmentir nossas certezas. À primeira vista, essas atitudes parecem contraditórias; olhando mais de perto, porém, percebemos que podem caminhar juntas. O líder sábio mantém a firmeza nos princípios, mas não transforma seus métodos em dogmas. A dignidade humana, o cuidado com os mais frágeis e o compromisso com a justiça não devem ser negociados. Já os meios de concretizar esses valores precisam ser avaliados continuamente. Se o posto de saúde no centro dificulta o atendimento de quem mora no alto do morro, cabe rever a decisão, e não exigir que a população se adapte cegamente à conveniência administrativa. Millôr Fernandes, mestre do humor e da ironia, ajuda-nos a desconfiar das certezas empedradas e das contradições humanas. Afinal, há quem confunda coerência com teimosia e firmeza com orgulho. Só que permanecer fiel a um erro não é sinal de caráter; muitas vezes, é apenas medo de admitir que se estava errado.

Mas, a sabedoria não se resume a refletir, ponderar ou reconhecer os próprios limites. Também é preciso agir. Cícero, em Dos Deveres, refletiu sobre a relação entre virtude, responsabilidade e vida pública, lembrando-nos, em essência, que o compromisso moral precisa se manifestar nas ações. De pouco vale um conhecimento guardado na estante se ele não ajuda a enfrentar os problemas da comunidade. Nesse sentido, a narrativa bíblica sobre Salomão oferece uma lição significativa. Quando Deus lhe permitiu fazer um pedido, o rei não escolheu riquezas ou vitórias sobre os inimigos; pediu discernimento para governar e julgar o povo (1 Reis 3). A sabedoria desejada não era um ornamento pessoal, mas uma capacidade a serviço de outros. Isso fica evidente no episódio das duas mulheres que disputavam a maternidade de uma criança. Salomão não se limitou a aplicar mecanicamente uma regra: diante de uma situação delicada, elaborou uma prova que revelou a disposição de cada mulher e permitiu identificar aquela que demonstrava verdadeiro amor materno. A narrativa apresenta a sabedoria como discernimento diante da complexidade humana, não como simples acúmulo de informações. Eis o ponto: liderar exige princípios, conhecimento da realidade e coragem para decidir, sem fugir à responsabilidade pelas consequências. Quem ocupa uma função pública não pode se esconder eternamente atrás de pareceres, relatórios ou discursos bem elaborados. Chega uma hora em que é preciso escolher — e responder pela escolha.

Por isso, volto àquela ladeira e à senhora que, com uma pergunta simples, desmontou a aparente perfeição de uma decisão administrativa. A sabedoria não é troféu para exibir, muito menos um título que alguém conquista e guarda para sempre. É ferramenta de trabalho, exercício cotidiano de consciência e disposição permanente para aprender. Seu valor está em servir à justiça, à equidade e ao bem-estar coletivo, alcançando também quem mora longe do centro, quem tem pouco dinheiro, quem enfrenta dificuldades para se locomover e quem quase nunca é ouvido nas reuniões onde seu destino é decidido. O sábio aconselha: “A sabedoria é a coisa principal; adquire, pois, a sabedoria”, e acrescenta: “emprega tudo o que possuis na aquisição de entendimento” (Provérbios 4:7). Esse entendimento, no entanto, não nasce apenas dos livros, das teorias ou dos gabinetes. Nasce também do contato com a vida, da escuta atenta e da humildade de reconhecer que uma pessoa simples pode enxergar aquilo que os especialistas deixaram passar. Governar bem, portanto, não significa jamais mudar de ideia, mas saber por que mantê-la ou por que abandoná-la. No fim das contas, a liderança eficaz começa quando a experiência ensina, o conhecimento ilumina, a consciência orienta e a realidade tem liberdade para contestar nossas certezas. Porque o verdadeiro líder não é aquele que nunca volta atrás: é aquele que não permite que o orgulho o impeça de seguir na direção certa.

Ensaio Teológico VIII(14) Inovação, Educação e Justiça: Pilares da Grandeza Nacional

 


Ensaio Teológico VIII(14) Inovação, Educação e Justiça: Pilares da Grandeza Nacional

Por Claudeci Ferreira de Andrade


Carrego comigo, desde a infância, a imagem de uma avó analfabeta, sentada à porta de casa, ouvindo o neto soletrar sua primeira frase inteira. Ela não sabia ler, é verdade, mas reconheceu naquele instante que algo maior estava nascendo diante de seus olhos. Talvez tenha sido ali, sem que eu percebesse, que comecei a compreender o sentido da educação e sua força transformadora. Afinal, a grandeza de uma nação não se mede apenas por seus monumentos, suas riquezas ou suas conquistas tecnológicas. Ela é um mosaico de gestos humanos: a professora que corrige cadernos de madrugada, o cientista que repete o experimento pela centésima vez, o juiz que resiste às pressões e o vizinho que divide o pouco que tem. Separadas, essas peças parecem pequenas; juntas, porém, revelam o verdadeiro rosto de um povo. Não por acaso, o sábio de Israel registrou que "a justiça engrandece a nação, mas o pecado é a vergonha dos povos" (Provérbios 14:34). Eis uma verdade que atravessa os séculos: a medida de uma sociedade está naquilo que ela defende, não apenas naquilo que acumula.

Essa sabedoria, entretanto, não pertence exclusivamente a uma tradição, a um povo ou a um livro. É fruto de uma construção coletiva, tecida ao longo das gerações por homens e mulheres que, de Atenas a Jerusalém, de Bagdá a Salvador, ousaram perguntar, experimentar, errar e corrigir o rumo. Reconhecer essa herança compartilhada não diminui o valor das Escrituras; pelo contrário, permite compreender melhor a riqueza do diálogo entre diferentes experiências humanas. É dessa convicção que nasce o segundo pilar da grandeza nacional: a educação. Com Amartya Sen, em Desenvolvimento como Liberdade (1999), compreendo que desenvolver uma sociedade significa ampliar as liberdades reais das pessoas, criando condições para que possam escolher seus caminhos e construir a própria história. Nesse processo, a escolaridade e a saúde são fundamentais, pois de pouco adianta falar em liberdade quando faltam os meios para exercê-la. Afinal, um povo privado do conhecimento tem suas escolhas reduzidas e corre o risco de viver à mercê daqueles que pensam, decidem e governam por ele. Educação não é luxo, privilégio ou favor concedido pelos poderosos: é condição para que a cidadania deixe de ser promessa e se torne realidade.

Mas, há um detalhe que não podemos ignorar: o conhecimento, por si só, não garante uma sociedade justa. A história está aí para nos lembrar disso. A Revolução Industrial britânica multiplicou invenções, transformou a produção e alterou profundamente o mundo; ao mesmo tempo, porém, devorou infâncias nas fábricas, submeteu trabalhadores a condições desumanas e amontoou famílias em cortiços. O progresso avançava, mas nem todos caminhavam na mesma direção, muito menos no mesmo ritmo. Essa contradição ensina uma lição indispensável: a inovação sem justiça pode produzir riqueza de um lado e miséria do outro, iluminando as vitrines enquanto mantém gente demais na escuridão. Por isso, defendo que o desenvolvimento precisa de uma arquitetura ética, sustentada por instituições capazes de proteger direitos, distribuir oportunidades e impedir que o poder se transforme em privilégio. É nesse ponto que encontro John Rawls, em Uma Teoria da Justiça (1971), com sua proposta de pensar os princípios da organização social como se desconhecêssemos a posição que ocuparíamos nela. Sem saber se nasceríamos ricos ou pobres, fortes ou vulneráveis, privilegiados ou excluídos, talvez escolhêssemos regras mais justas para todos. Vejo nessa ideia uma espécie de afinidade com os ensinamentos evangélicos, agora expressos em linguagem filosófica: construir a ordem comum considerando, sobretudo, a realidade de quem se encontra em situação de maior fragilidade.

Resta, então, enfrentar uma tensão que atravessa a história humana: para avançar, precisamos abandonar o passado? A meu ver, não. Seria um equívoco tratar a tradição como inimiga do progresso, assim como seria ingenuidade imaginar que tudo o que recebemos das gerações anteriores deve permanecer intocado. A tradição é o solo; a inovação, a colheita. Sem raízes, a árvore não se sustenta; sem frutos, sua existência perde parte do sentido. Os profetas denunciaram as injustiças de seu tempo com a linguagem e os recursos de que dispunham. Cabe a nós fazer o mesmo, sem repetir mecanicamente suas fórmulas, mas recorrendo às ferramentas de nossa época: ciência, educação, instituições democráticas e políticas públicas comprometidas com o bem comum. Olhar para trás e para a frente não são movimentos opostos; são gestos complementares de quem deseja caminhar com consciência. É essa unidade na diversidade que me remete à imagem de Paulo em 1 Coríntios 12:12: muitos membros, um só corpo. As diferenças não precisam ser apagadas para que exista unidade, assim como o progresso não exige que neguemos nossa herança. O desafio é fazer com que as partes cooperem sem que nenhuma seja considerada descartável.

Volto, por fim, àquela avó sentada à porta de casa, ouvindo o neto soletrar sua primeira frase inteira. Ela nunca leu um tratado de economia, não conheceu as teorias de Rawls nem estudou o pensamento de Amartya Sen. Ainda assim, talvez tenha compreendido, naquele instante, algo que muitos governantes, intelectuais e especialistas insistem em esquecer: o valor do conhecimento aparece de verdade quando transforma vidas. A inovação ganha sentido quando melhora a existência humana; a educação cumpre sua missão quando amplia horizontes; e a justiça se torna concreta quando alcança quem historicamente ficou à margem. Não basta erguer edifícios modernos, anunciar recordes econômicos ou celebrar descobertas científicas se a criança da casa mais simples continuar sem acesso a uma escola de qualidade, a condições dignas de vida e a oportunidades reais de construir o próprio futuro. Uma nação verdadeiramente grande não é aquela que deixa alguns correrem muito à frente, mas aquela que não aceita condenar tantos outros a permanecer para trás. No fim das contas, sua grandeza começa quando a justiça atravessa a porta da casa mais humilde e, ali, uma criança aprende a ler. É nesse encontro entre conhecimento, dignidade e esperança que o futuro deixa de ser discurso e começa, enfim, a se tornar realidade.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(13) O Medo que Me Afastou de Deus e o Amor que Me Trouxe de Volta

 


Ensaio Teológico VIII(13) O Medo que Me Afastou de Deus e o Amor que Me Trouxe de Volta

Por  Claudeci Ferreira de Andrade


Ainda guardo na memória um domingo da infância em que o pregador falava do inferno com tanta precisão que até o banco de madeira parecia esquentar debaixo de mim. Eu tinha nove anos e saí dali sem vontade de amar a Deus; queria apenas escapar de sua punição. Demorei muito para desaprender aquela fé construída sobre o susto, como quem precisa abrir as janelas de uma casa fechada há anos para deixar o ar circular novamente. Não escrevo para acusar ninguém. Muitos dos que pregavam o medo acreditavam estar protegendo suas ovelhas, e eu mesmo, em outros tempos, repeti palavras duras cujo verdadeiro alcance nem sequer compreendia. Escrevo, antes, para perguntar, com a humildade de quem também errou, se a religião precisa mesmo do medo e do ódio para ser levada a sério. Creio que não. E, para minha surpresa, encontro nas próprias Escrituras razões para sustentar essa convicção.

O texto que mais me consola é o de João: "o perfeito amor lança fora o medo, porque o medo supõe castigo" (1 João 4:18). O medo expulso pelo amor é justamente o medo da punição, aquele que me acompanhava no banco de madeira e me fazia imaginar Deus como um juiz sempre pronto a condenar. João não elimina a reverência; denuncia a angústia de quem não consegue enxergar no divino nada além da ameaça. Essa compreensão, porém, exige que eu também encare Provérbios 8:13, que define o temor do Senhor como odiar o mal. A palavra hebraica yirah abrange sentidos como reverência, espanto e admiração, embora também possa expressar temor. Nesse contexto, o alvo do repúdio são o orgulho, a arrogância e os caminhos tortuosos, não a dignidade de uma pessoa. Afinal, odiar o mal e amar quem o pratica não são atitudes incompatíveis. Pense na mãe que combate o vício do filho sem deixar de amá-lo: ela rejeita aquilo que o destrói, mas não desiste daquele que ama. O Salmo 130:4 aprofunda essa reflexão ao mostrar que o perdão também pode despertar o temor reverente.

Quando perdi o medo, descobri o que ele havia me roubado: o direito de perguntar. Durante muito tempo, confundi fé com silêncio e reverência com a obrigação de não questionar. Anos depois, li uma reflexão atribuída a Albert Einstein, publicada na revista Life em 1955, sobre a importância de continuar questionando e de reconhecer na curiosidade uma razão própria para existir. Senti, então, como se alguém abrisse uma janela num quarto abafado. Passei a ler Provérbios 9:10 como um convite à reverência que amplia a compreensão, não como um instrumento de pânico que aprisiona a consciência. Aprendi também, à custa dos meus próprios erros, que o ódio ao pecado pode facilmente escorregar para o ódio ao pecador. Por isso, carrego como lanterna a conhecida reflexão de Martin Luther King Jr., em Strength to Love: só a luz expulsa a escuridão, e só o amor expulsa o ódio. A fronteira moral precisa ser traçada entre o bem e o mal, entre atitudes que constroem e comportamentos que destroem, sem que isso nos autorize a negar a dignidade de quem erra. Prefiro, portanto, a tarefa mais difícil — e mais honesta — de compreender as raízes do mal, inclusive aquelas que podem crescer dentro de mim antes que eu as reconheça nos outros.

Mas, não foi um argumento filosófico, uma explicação teológica ou um sermão eloquente que começou a desfazer meu medo. Foi uma senhora da congregação, de mãos grossas e voz mansa, que me encontrou chorando no fundo do templo. Em vez de me repreender ou tentar corrigir meus sentimentos, sentou-se ao meu lado e permaneceu em silêncio. Naquele instante, sem discursos nem ameaças, compreendi mais sobre Deus do que em dezenas de pregações. O amor de que João falava havia deixado de ser uma frase bíblica para ganhar rosto, mãos e presença. A teologia desceu do púlpito e se sentou ao lado de um menino assustado. E, veja só, às vezes é justamente quando ninguém tenta nos convencer de nada que começamos a compreender aquilo em que podemos acreditar.

Hoje, volto àquele menino de nove anos, encolhido no banco de madeira, e gostaria de lhe dizer que o Deus de quem ele tinha medo não precisava ser o Deus que o acompanharia pelo resto da vida. Gostaria de lhe ensinar que a fé não precisa nascer do terror, que a consciência não deve ser sufocada e que o amor não se torna menos sério por ser compassivo. Ao contrário: amar sem humilhar, corrigir sem destruir e discordar sem odiar talvez sejam algumas das tarefas mais difíceis da experiência religiosa. Deixo, então, ao leitor uma pergunta que também dirijo a mim mesmo: que espécie de fé estamos oferecendo às crianças e às gerações que virão depois de nós — uma fé que as ensina a temer castigos ou uma fé que as ajuda a discernir, amar e assumir responsabilidades? Encerro com as palavras de Paulo, que continuam a iluminar minha caminhada: "permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor" (1 Coríntios 13:13).

Ensaio Teológico VIII(12) A Sabedoria das Mãos: Entre a Fé, a Ciência e a Responsabilidade Humana

 




Ensaio Teológico VIII(12) A Sabedoria das Mãos: Entre a Fé, a Ciência e a Responsabilidade Humana

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Meu avô lavrava a terra com uma enxada de cabo gasto e, quando lhe perguntavam de onde vinha tanto saber, respondia sem cerimônia: "Deus ensina a gente". Eu, adolescente e apressado, achava aquilo um jeito bonito de não explicar nada. Afinal, queria respostas, explicações, argumentos; não me contentava com a simplicidade de uma frase que, na minha imaturidade, parecia encerrar a conversa antes mesmo de começar. Hoje, porém, diante de uma tela que põe o mundo na palma da mão, é justamente ele quem me volta à memória. Percebo, agora, que aquela resposta carregava uma sabedoria que eu ainda não tinha aprendido a enxergar. Isaías já dizia que o lavrador recebe instrução para realizar seu trabalho e reconhecia a sabedoria do Senhor, "maravilhoso em conselho e grande em sabedoria" (Isaías 28:26-29). Falamos de inovação com espanto, orgulho ou medo, mas raramente com gratidão. E se, em vez de enxergarmos a criatividade apenas como conquista humana, também a reconhecêssemos como uma dádiva antiga?

Tiago afirma que toda boa dádiva vem do alto, do "Pai das luzes" (Tiago 1:17), e é aí que encontro uma das raízes teológicas da criatividade. Em Êxodo 31:1-5, Deus enche Bezalel de seu Espírito, concedendo-lhe sabedoria, entendimento e habilidade para trabalhar metais, madeira e pedra. Veja só que interessante: entre as primeiras figuras bíblicas explicitamente descritas como capacitadas pelo Espírito para uma tarefa específica está um artesão, não um profeta ou sacerdote. Isso nos convida a ampliar nossa compreensão do sagrado: Deus também pode ser reconhecido no trabalho das mãos, na inteligência aplicada e na habilidade de transformar a matéria. Provérbios 8 reforça essa percepção ao apresentar a Sabedoria falando de conselho, justiça e governo. O espiritual e o prático, portanto, não precisam ser adversários; podem ser duas faces de uma mesma busca por compreensão. Separá-los rigidamente é empobrecer ambos, como sugere a conhecida máxima atribuída a Einstein: a ciência sem religião é manca, e a religião sem ciência é cega.

Mas, não dá para contornar a sombra que acompanha essa luz: se toda boa dádiva vem do alto, o que dizer das invenções que destroem? A mesma engenhosidade capaz de produzir vacinas e salvar vidas também foi empregada na fabricação de gases venenosos e de outras armas de extermínio. Confesso que não tenho uma resposta capaz de dissolver essa dor. A Bíblia, contudo, não ignora a ambiguidade da capacidade humana. Gênesis menciona um artífice que trabalhava o bronze e o ferro (4:22), mas também narra a construção da torre de Babel (11:1-9), episódio que levanta questões sobre orgulho, poder e ambição coletiva. Em outra passagem, Isaías anuncia um horizonte de paz no qual as espadas serão transformadas em relhas de arado (2:4). Eis uma imagem poderosa: o instrumento que fere pode ceder lugar à ferramenta que cultiva. A capacidade é dádiva; o uso, responsabilidade. E, como ensina a reflexão filosófica associada a Descartes, não basta ter bom espírito; é preciso saber empregá-lo bem.

Essa sabedoria, a meu ver, não pertence exclusivamente aos que professam uma religião. O agricultor que conhece a terra, a engenheira que projeta uma ponte e o programador que desenvolve uma ferramenta participam, cada qual à sua maneira, dessa aventura humana de compreender e transformar a realidade. Se o mundo é inteligível e somos capazes de investigar seus mistérios, a criatividade floresce justamente desse encontro entre curiosidade, experiência e conhecimento. A fé pode interpretar essa capacidade como dádiva divina; a ciência, por sua vez, investiga os processos pelos quais ela se manifesta. Não precisamos apagar as diferenças entre essas perspectivas para reconhecer que ambas podem contribuir para uma reflexão séria sobre o que fazemos com aquilo que sabemos.

Meu avô já não está aqui para ouvir o que entendi tarde. Ainda assim, imagino que sorriria e repetiria, sem cerimônia, que Deus ensina a gente. Hoje, eu acrescentaria ao seu ensinamento uma reflexão que a vida, a leitura e tantos anos de experiência me ajudaram a amadurecer: essa sabedoria também nos ensina a agradecer, a discernir e a transformar nossas invenções em instrumentos de cuidado. Afinal, de pouco vale descobrir como fazer alguma coisa se não nos perguntamos para que ela servirá e a quem poderá beneficiar. Se a criatividade humana reflete, ainda que de longe, a imagem daquele que nos criou com sabedoria, cada ferramenta nova se torna mais do que uma conquista técnica: transforma-se numa pergunta sobre quem somos e numa escolha sobre quem desejamos ser. No fim das contas, não basta iluminar o mundo com nossas descobertas; precisamos decidir, com discernimento, prudência e coragem, a serviço de que luz queremos colocá-las.