Ensaio Teológico X(8) A PERGUNTA COMO REVERÊNCIA
Por Claudeci Ferreira de Andrade
No fundo da sala havia um menino que nunca levantava a mão. Sabia algumas respostas, ou pelo menos desconfiava delas, mas a pergunta que lhe queimava a garganta — "E se não for assim?" — parecia-lhe uma espécie de ofensa. Talvez tivesse medo de contrariar a professora, decepcionar os colegas ou simplesmente ser confundido com alguém que não respeitava a autoridade. Até que, certo dia, em vez de repreendê-lo, a professora escreveu a frase no quadro e disse: "Hoje vamos começar por aqui". Naquele instante, o menino aprendeu uma lição que talvez levasse anos para compreender por inteiro: há silêncios que nascem do respeito e outros que são filhos do medo. E só os primeiros merecem ser preservados. Lembro-me dele quando releio o velho provérbio segundo o qual o sábio ama ser ensinado, enquanto o tolo prefere ouvir a própria voz. Não pretendo desmentir essa sabedoria, afinal, quem se considera completo já fechou as portas para o aprendizado. Mas, fica uma inquietação: escutar bem significa deixar de perguntar ou será que uma atitude amadurece justamente com a outra?
A própria tradição sapiencial nunca confundiu humildade com obediência cega. No livro de Jó, encontramos um homem que interroga o Céu, expõe suas angústias e questiona a justiça divina. Curiosamente, é ele quem recebe reconhecimento, enquanto seus amigos, tão seguros de suas fórmulas e explicações prontas, acabam repreendidos. Os Salmos também estão cheios de clamores, perguntas e pedidos de explicação, mostrando que a inquietação pode ser uma forma legítima de oração. Em Atos 17, os judeus de Bereia são elogiados justamente porque recebiam a mensagem com entusiasmo, mas examinavam diariamente as Escrituras para verificar se aquilo correspondia à verdade. Ora, que bela demonstração de equilíbrio! Eles ouviam sem fechar os olhos e examinavam sem desprezar o que ouviam. Vejo nisso uma sabedoria que não coloca a escuta e a crítica em lados opostos: perguntar não é necessariamente desconfiar de quem ensina, mas levar a sério aquilo que foi ensinado.
Nosso tempo, aliás, torna essa lição ainda mais necessária. Yuval Noah Harari, historiador e autor de Sapiens e 21 Lições para o Século XXI, chama a atenção para um problema da sociedade contemporânea: a abundância de informações não significa, necessariamente, maior compreensão. Em meio a tantas notícias, opiniões e versões, o desafio é separar o que realmente importa do barulho que nos cerca. Daniel Kahneman, psicólogo e Nobel de Economia, demonstrou como o pensamento rápido pode nos conduzir a julgamentos equivocados, razão pela qual decidir bem exige, muitas vezes, desconfiar das próprias certezas. Carol Dweck, também psicóloga, acrescenta que a inteligência e a aprendizagem se desenvolvem quando estamos dispostos a errar, rever caminhos e tentar novamente. Paulo Freire, por sua vez, criticava a chamada "educação bancária", na qual o aluno é tratado como um cofre no qual o professor deposita conhecimentos, e defendia uma educação fundamentada no diálogo, em que ensinar e aprender são movimentos de mão dupla. Hannah Arendt, ao refletir sobre os perigos da ausência de pensamento crítico e sobre a responsabilidade individual diante do autoritarismo, também nos ajuda a compreender o risco de simplesmente aceitar o que nos dizem. Hoje, em meio à desinformação, às notícias fabricadas e às opiniões que circulam como verdades absolutas, quem não pergunta acaba ficando à mercê de quem fala mais alto. Até o progresso, penso eu, nasce muitas vezes da inquietação de alguém que resolve examinar aquilo que todos consideram indiscutível. A campanha "Think Different", da Apple, criada por uma agência de publicidade, e não uma declaração pessoal de seu fundador, sintetizou essa intuição: ideias novas costumam parecer insolentes antes de serem reconhecidas como necessárias. Afinal, quase toda mudança começa com alguém que tem coragem de perguntar: por que precisa continuar sendo assim?
Volto, então, ao menino do fundo da sala. O que a professora lhe ofereceu não foi uma licença para a rebeldia, muito menos um convite à contestação gratuita. Foi algo mais importante: a segurança de saber que sua pergunta seria recebida como contribuição, não como desacato. É esse equilíbrio que procuro defender, tanto na escola quanto na vida. A sabedoria não mora na submissão de quem aceita tudo, tampouco na soberba de quem rejeita qualquer ideia que venha do outro. Mora na atenção humilde de quem escuta até o fim, pensa, pondera e só então pergunta, mesmo que sua pergunta provoque algum desconforto. Afinal, não precisamos escolher entre ouvir e pensar, entre respeitar e questionar. Uma coisa não anula a outra; pelo contrário, completa-a. Escutar dá à dúvida o direito de existir; perguntar dá à escuta o seu verdadeiro sentido. Num mundo que muda depressa e onde tantas certezas envelhecem antes mesmo de serem compreendidas, precisamos de pessoas capazes de aprender sem se ajoelhar diante de qualquer discurso e de questionar sem perder a humildade. Gente que saiba ser, ao mesmo tempo, discípula e interlocutora. Porque, no fim das contas, perguntar também é uma forma de reverência: é reconhecer que o conhecimento merece respeito, mas nenhuma resposta humana deve ser confundida com a verdade absoluta.







