"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 12 de maio de 2026

O "Giz", o Ventre e a Herança Invisível (... porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem — Êxodo 20:5 ARA)

 



O "Giz", o Ventre e a Herança Invisível (... porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem — Êxodo 20:5 ARA)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Trinta e três anos dentro de uma sala de aula ensinam coisas que diploma nenhum ousa escrever. Com o tempo, aprendi a reconhecer o som de uma crise antes mesmo de ela estourar. O ranger da cadeira arrastada com raiva, o lápis arremessado ao chão como se fosse uma afronta pessoal, o olhar incendiado de quem não suporta ouvir um “não” sem sentir o mundo desabar. Há tempestades, afinal, que começam muito antes do trovão.

Foi numa terça-feira abafada — dessas em que o ventilador gira só para espalhar o calor — que vi o pequeno Enzo perder a batalha contra si mesmo. Bastou um lápis cair no chão. Só isso. O menino explodiu. Chutou a carteira, gritou palavrões ainda grandes demais para boca de uma criança e virou o rosto como quem desafia o mundo inteiro. A sala congelou. Uns riram de nervoso. Outros baixaram a cabeça, já acostumados ao teatro diário da desordem.

Eu fiquei imóvel. Não porque aquilo fosse normal — longe disso —, mas porque, depois de décadas segurando giz entre os dedos, a gente aprende uma verdade amarga: nenhuma explosão nasce no instante em que acontece. Todo comportamento é fumaça denunciando incêndios muito mais antigos.

Nas reuniões pedagógicas, os diagnósticos quase sempre chegam prontos, como receita velha passada de mão em mão: excesso de telas, ausência dos pais, famílias desestruturadas, falta de limites. E talvez haja verdade em tudo isso. Mas, sentado diante daquele menino arfando de raiva, senti outra vez a impressão que me acompanha há anos: o problema começa muito antes da matrícula. Muito antes do primeiro caderno comprado. Muito antes de a criança aprender a escrever o próprio nome.

Às vezes, a escola é só o palco onde aparecem feridas nascidas no invisível. Foi então que me vieram à memória certos relatos bíblicos que muita gente lê apenas como símbolo religioso, mas que talvez escondam algo mais profundo sobre a formação humana. Quando o anjo apareceu à mãe de Sansão, por exemplo, não entregou técnicas pedagógicas nem falou sobre disciplina na adolescência. A ordem foi simples, direta, quase cortante: “Guarda-te”. Antes mesmo do menino nascer, o cuidado já começava com a mulher que o carregava.

Também Isabel ouviu que João Batista seria cheio do Espírito Santo ainda no ventre. Maria, por sua vez, recebeu o peso — e a honra — de carregar Jesus como quem transporta esperança dentro do próprio corpo. E há algo em comum nesses relatos: o ventre nunca aparece como mero abrigo biológico. Não. Ele surge como oficina silenciosa da alma.

E, sinceramente, depois de tantos anos observando gente, comecei a olhar para isso com outros olhos. Não digo isso para condenar mães, como tantos fazem do alto de certezas frias e cruéis. Ser mãe hoje já é uma travessia pesada demais. Há mulheres carregando filhos enquanto suportam abandono, medo, violência, solidão e um cansaço que ninguém vê. Muitas delas, inclusive, também foram feridas por heranças emocionais que nunca conseguiram quebrar.

Mas fechar os olhos para influência desse período é ignorar algo que a própria vida insiste em mostrar. Existem gestantes que atravessam os nove meses mergulhadas numa ansiedade sem freio, em explosões constantes, em impulsos alimentados sem qualquer vigilância emocional. E o bebê, ali dentro, não recebe apenas nutrientes. Recebe atmosferas. Recebe silêncios pesados, medos acumulados, tensões diárias. O corpo aprende antes da fala. A alma, talvez, aprenda antes mesmo da consciência.

Talvez seja por isso que algumas crianças já chegam ao mundo como quem trava batalhas internas que ninguém consegue explicar. Não acredito em determinismo cruel. O ser humano não nasce condenado. Sempre existe a possibilidade de reconstrução. Sempre. Mas, acredito, sim, em heranças invisíveis — tendências emocionais que atravessam gerações como rios subterrâneos correndo debaixo da terra.

Quando Enzo gritava naquela sala abafada, eu já não enxergava apenas um menino indisciplinado. Via ecos. Via ausências. Via cansaços antigos. Via impulsos que talvez tivessem sido alimentados antes mesmo de ele abrir os olhos para o mundo. E foi aí que compreendi, mais uma vez, algo doloroso: muitos professores tentam corrigir, nos corredores da escola, aquilo que começou a ser moldado no silêncio de um ventre.

O mundo moderno transformou a gravidez numa vitrine de caprichos. “A gestante pode tudo”, repetem por aí. E talvez possa mesmo. Mas, há uma diferença enorme entre acolher desejos e transformar cada impulso em lei absoluta. A criança aprende cedo — cedo demais — a lógica perigosa do “eu quero agora”.

Por isso, o velho conselho bíblico ainda ecoa como advertência esquecida: “Guarda-te”. Guarda-te da raiva que explode sem freio. Guarda-te das palavras amargas lançadas como faca. Guarda-te da ansiedade que transforma o lar num campo de batalha. Guarda-te porque alguém, em silêncio, está absorvendo tudo isso antes mesmo de nascer.

Naquela tarde, depois que a aula terminou, vi Enzo sair pelo portão chutando pedrinhas pelo caminho. O sol descia devagar sobre a quadra da escola, tingindo tudo com aquele dourado triste de fim de dia. E eu fiquei sozinho na sala, recolhendo papéis espalhados pelo chão. Passei a mão sobre a velha mesa de madeira marcada por gerações de alunos e senti, mais uma vez, o peso silencioso do tempo.

Depois de trinta e três anos de magistério, descobri que educar nunca foi só ensinar matemática, gramática ou ciências. Educar é tentar interromper heranças invisíveis antes que elas virem destino. E talvez essa seja a tarefa mais difícil de todas. Porque salvar uma criança começa muito antes do primeiro caderno aberto sobre a carteira. Começa no ventre. Começa na serenidade que uma mãe consegue preservar em meio ao caos. Começa na rara capacidade humana de ensinar, pelo exemplo, que nem todo desejo precisa virar ordem e que nem toda vontade merece ser obedecida.

No fim das contas, talvez o caráter de uma geração seja escrito primeiro não no giz dos professores, mas no silêncio das mães que aprendem, dia após dia, a guardar a si mesmas para proteger aquilo que ainda pulsa, invisível, dentro delas.

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Olá, turma! Como professor de Sociologia de vocês, fico muito tocado quando encontramos um texto que não apenas descreve a sala de aula, mas investiga as estruturas invisíveis que moldam quem somos. Este texto nos permite aplicar o que o sociólogo C. Wright Mills chamava de Imaginação Sociológica: a capacidade de conectar a biografia individual (a raiva do Enzo) com a história e a estrutura da sociedade (as heranças familiares e geracionais). Vamos analisar como a nossa identidade é construída muito antes de termos consciência disso, através da Socialização Primária. Aqui estão 5 questões discursivas para pensarmos juntos:

1. A Construção do "Eu" e a Socialização Primária

O texto sugere que "nenhuma explosão nasce no instante em que acontece". De acordo com o conceito de Socialização Primária (o primeiro contato da criança com o mundo através da família), como o ambiente emocional e as atitudes dos cuidadores moldam a maneira como uma criança reagirá a frustrações e regras no futuro?

2. A Escola como Instituição de Socialização Secundária

O autor afirma que professores tentam corrigir na escola aquilo que foi moldado no "silêncio de um ventre". Explique a diferença entre o papel da família (socialização primária) e o papel da escola (socialização secundária) na formação do indivíduo. É possível para a escola "consertar" sozinha as feridas emocionais trazidas de casa? Justifique.

3. Determinismo Social vs. Agência Individual

Embora o texto fale em "heranças invisíveis", ele ressalta que "o ser humano não nasce condenado". Na sociologia, debatemos muito entre o determinismo (a ideia de que somos escravos do nosso meio) e a liberdade. Como podemos entender a importância da herança familiar sem tirar da pessoa a capacidade de mudar sua própria história?

4. O Contexto Social da Maternidade e as Estruturas de Apoio

O autor tem o cuidado de não condenar as mães, citando que muitas carregam filhos sob "abandono, medo e violência". Do ponto de vista sociológico, como a falta de políticas públicas e de uma rede de apoio (comunidade, estado, parceiros) pode afetar a saúde emocional da gestante e, consequentemente, a formação do novo indivíduo?

5. A Cultura do Imediatismo e a Lógica do "Eu quero agora"

A crônica critica a ideia moderna de que "a gestante pode tudo", relacionando isso à dificuldade das crianças em aceitarem o "não". Como os valores da nossa sociedade de consumo, que privilegia a satisfação imediata de todos os desejos, influenciam a educação das novas gerações e a crescente indisciplina escolar?

Dica do Professor:

Pessoal, ao responderem, lembrem-se de que a Sociologia não busca culpados, mas busca entender as causas. Olhem para o Enzo não apenas como um aluno "complicado", mas como o ponto de chegada de uma longa linhagem de sentimentos e pressões sociais. Mãos à obra e bons pensamentos!

domingo, 10 de maio de 2026

É na Sua Sombra que Mora Minha Luz? O Diabo criou a competição! (“Ninguém pode construir sua própria segurança sobre a infelicidade dos outros.” — Mahatma Gandhi)

 





É na Sua Sombra que Mora Minha Luz? O Diabo criou a competição! (“Ninguém pode construir sua própria segurança sobre a infelicidade dos outros.” — Mahatma Gandhi)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Tinha um jogo decisivo naquela noite. Diante da TV, Sentei na minha poltrona de sempre — aquela que já conhece minhas superstições, meus palavrões abafados e minhas esperanças inúteis — com o coração apertado do jeito que só o futebol consegue fazer. Porque o futebol, convenhamos, é uma espécie de religião emocional: faz adulto rezar, faz incrédulo prometer mudança de vida e transforma noventa minutos em eternidade.

Quando o juiz apitou o fim da partida, o estádio explodiu. Meu time ganhou, e eu aqui também com os braços erguidos para o céu; lá, gente chorando, desconhecidos se abraçando como irmãos sobreviventes de uma guerra. Do outro, silêncio, cabeça baixa, mãos no rosto e aquele olhar perdido de quem acabou de assistir ao próprio sonho escapar pelo ralo. Era o mesmo gramado, o mesmo suor, o mesmo barulho ensurdecedor — mas sentimentos separados por um abismo sentimental.

E foi ali, observando aquela catarse coletiva, que uma pergunta me atravessou como faca fria: Será que é na sua incapacidade que mora a minha luz? A frase ficou dias martelando dentro de mim. Dessas ideias inconvenientes que não batem na porta — arrombam. Primeiro queimam no peito, depois começam a bagunçar os móveis da consciência.

Porque, olhando bem, existe mesmo uma lógica cruel sustentando boa parte do mundo. No esporte, um time só levanta a taça porque outro desabou de joelhos no campo. No trabalho, quantas promoções não nascem justamente do erro do colega? O sujeito vacila numa entrega, você resolve o problema, e pronto: segunda-feira aparece sorridente na reunião enquanto ele evita contato visual perto da máquina de café. No mercado, na política, nas relações pessoais… quase sempre há alguém brilhando exatamente no espaço onde outro fracassou.

É duro admitir isso. Mas fingir que essa engrenagem não existe também é uma forma elegante de ingenuidade. Só que existe uma armadilha silenciosa nesse pensamento — e ela não faz barulho quando chega. Ela corrói aos poucos.

Lembro de dois homens numa empresa onde trabalhei anos atrás. O primeiro era estrategista da própria ambição. Não precisava derrubar ninguém explicitamente; bastava esperar. Tinha a paciência fria dos que observam o tropeço alheio como pescador esperando o peixe fisgar o anzol. Quando alguém errava, lá estava ele: impecável, eficiente, pronto para ocupar o espaço vazio. Cresceu rápido. Ganhou sala maior, bônus gordo e aqueles elogios corporativos que parecem abraço, mas têm cheiro de cálculo.

O segundo era o oposto. Perdia tempo — segundo a lógica da empresa — ensinando novato, compartilhando atalhos, dividindo experiência e ajudando o time inteiro a funcionar melhor. Enquanto um subia sozinho, o outro fazia questão de puxar gente junto. Demorou mais para ser reconhecido, é verdade. O mundo quase nunca recompensa imediatamente quem constrói pontes em vez de escadas.

Mas o tempo… ah, o tempo tem uma ironia fina. Décadas depois, o primeiro ainda era lembrado pelo cargo. O segundo, pela humanidade. E existe uma diferença brutal entre as duas coisas. Cargo tem prazo de validade. Respeito não. O crachá acaba esquecido numa gaveta qualquer. Já a memória que alguém deixa nos outros continua circulando por aí, silenciosa, mesmo depois que as luzes da sala se apagam.

Desde então, essa pergunta me acompanha como sombra comprida no fim da tarde: será que a vida é mesmo um jogo de soma zero, em que meu brilho depende necessariamente da escuridão alheia? Será que só existimos plenamente quando alguém perde espaço para nós? Ou será que inventaram essa lógica porque ela justifica melhor nossa fome de vencer? Não tenho resposta pronta. Desconfio, inclusive, de quem tem.

Mas aprendi uma coisa assistindo àquele jogo. O time campeão merecia comemorar. Vitória também é suor, disciplina e coragem. Só que, passado o barulho, os nomes que permaneceram vivos na memória da torcida — dos dois lados — não foram apenas os vencedores. Foram os que jogaram com alma. Os que honraram a camisa até o último minuto, mesmo quando a derrota já rondava o campo como urubu em céu de seca. Porque existe uma dignidade rara em não abandonar a própria essência nem quando o placar desaba.

A competição tem seu valor satânico, claro. É ela que nos arranca da acomodação, como vento forte empurrando moinho velho. O problema se agrava quando a gente passa a viver esperando o tropeço do outro para se sentir inteiro. Isso amarga. A pessoa já não celebra conquistas; celebra quedas. Já não admira talentos; torce por fracassos. E, sem perceber, transforma a própria felicidade numa dependência triste da ruína alheia.

Talvez, no fim das contas, a luz mais bonita não seja aquela que nasce quando o rival apaga.

Talvez seja aquela que continua brilhando mesmo quando o outro também acende a própria chama.


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Olá, pessoal! Como professor de Sociologia, fico muito entusiasmado com textos que nos fazem olhar para além do óbvio. Esta crônica é um "prato cheio" para discutirmos como a nossa sociedade se organiza e como nós, indivíduos, nos relacionamos uns com os outros em um sistema que muitas vezes parece priorizar o conflito e a competição sobre a cooperação. Na Sociologia, analisamos fenômenos como a meritocracia, a competição social e a solidariedade. O texto nos convida a pensar se o sucesso é algo individual ou se ele sempre depende do fracasso de alguém — o que chamamos de "jogo de soma zero". Aqui estão 5 questões discursivas pensadas para o nosso nível de Ensino Médio, para ajudar vocês a conectarem esse texto com os conceitos da nossa disciplina:


1. A Sociedade da Competição e o "Jogo de Soma Zero"

O autor questiona se a vida é um "jogo de soma zero", onde para alguém ganhar, outro obrigatoriamente tem que perder. Relacione essa ideia com o conceito de Capitalismo e Competição Social. Como a estrutura do nosso mercado de trabalho incentiva a ideia de que "o brilho de um depende da escuridão do outro"?

2. Solidariedade Mecânica e Orgânica

Émile Durkheim, um dos pais da Sociologia, falava sobre como a sociedade se mantém unida através da solidariedade. No texto, vemos dois tipos de profissionais: um que sobe sozinho e outro que "puxa gente junto". De que maneira a atitude do segundo profissional fortalece a coesão social e os laços de cooperação dentro de um grupo ou empresa?

3. Meritocracia e Desigualdade

O texto menciona que "o mundo quase nunca recompensa imediatamente quem constrói pontes em vez de escadas". Reflita sobre o conceito de Meritocracia: em uma sociedade que valoriza apenas o vencedor final (o placar do jogo), o que acontece com os valores humanos e éticos daqueles que não "chegam ao topo", mas que jogaram com alma e honraram sua essência?

4. A Espetacularização da Vitória e o Consumo

O futebol é descrito como uma "religião emocional" e uma "catarse coletiva". Como a indústria cultural e os meios de comunicação transformam a vitória e a derrota em mercadorias emocionais? Por que a nossa sociedade parece ter tanta "fome de vencer" a qualquer custo, como sugere o autor?

5. Ética e Reconhecimento Social

O cronista diferencia o "cargo" do "respeito", afirmando que o cargo tem prazo de validade, mas o respeito não. Do ponto de vista sociológico, como o reconhecimento social (a forma como somos lembrados pela comunidade) constrói a nossa identidade de forma mais profunda do que os títulos hierárquicos ou o poder econômico?

Dica do Prof:

Ao responder, não fiquem apenas no "eu acho". Tentem observar como essas situações aparecem na escola, nos esportes que vocês praticam ou até no que vocês veem nas redes sociais. A Sociologia é o exercício de olhar para o que todo mundo vê, mas pensar o que ninguém pensou!

Bom trabalho!

sábado, 9 de maio de 2026

O Tribunal das Telas e o Giz de Vidro: Quando a Indignação Vira Literatura ("Onde não há respeito, a avaliação vira arma e a palavra vira pedra." — Immanuel Kant)



 

O Tribunal das Telas e o Giz de Vidro: Quando a Indignação Vira Literatura ("Onde não há respeito, a avaliação vira arma e a palavra vira pedra." — Immanuel Kant)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Essa semana meus dedos travaram no celular. Sabe aquele frio na barriga que não é fome, mas espanto puro? Pois é. Dei de cara com um vídeo viral: um estudante, com deboche ensaiado no espelho, estava "avaliando" seus professores. Notas baixas jogadas como pedras, xingamentos fantasiados de "opinião sincera" e uma risadinha de fundo que soava igual ao martelo de um juiz batendo na sentença. Vi muita gente achando o máximo — "nossa, que moderno", "que democrático". Eu? Senti um gelo atravessar a alma.

Olha, pouco me importa se o vídeo foi teatro para caçar curtida ou rebeldia de verdade. O buraco é mais embaixo: a ideia foi lançada, ganhou aplauso, e quando o deboche encontra plateia, ele deixa de ser exceção para virar moda. Quando a humilhação vira entretenimento de intervalo, a educação começa a pedir socorro em voz alta — e ninguém levanta a mão para responder.

Na mesma hora, me veio à cabeça o professor Claudeko — pode colocar o nome que quiser, porque esse rosto mora em toda sala de aula do Brasil. O Claudeko vara a noite tentando fazer a sociologia não parecer um bicho de sete cabeças, briga com o sono para corrigir prova e, vira e mexe, tira do próprio bolso o dinheiro para comemorar o dia do estudante. Agora imagina esse homem, depois de dez aulas seguidas, abrindo o WhatsApp e vendo a própria dignidade virar meme. Julgado não pela competência, mas pela birra de quem tirou nota baixa ou pela foto tirada às escondidas, sem permissão, sem cerimônia, sem humanidade. É de amargar — e de doer fundo.

Transformar a escola nesse tribunal de internet é brincar com fogo dentro de um depósito de gasolina emocional. Avaliar o trabalho docente é necessário? Ô, se é! Diálogo é o oxigênio do aprendizado, isso ninguém contesta. Mas avaliação séria exige chão firme, critério e, sobretudo, maturidade. Não dá para medir uma vida inteira de magistério com a regrinha rasa da simpatia ou de quem é mais "da hora". Didática e acolhimento não caem do céu; são construções de formiguinha, pacientes e silenciosas — não vereditos disparados entre uma colherada de galinhada e outra.

O que a gente viu ali não tem nada de democracia. Foi jogo de poder invertido: a violência só mudou de dono. Quando a escola vira palco de exposição, ela deixa de ser porto seguro para virar arena de linchamento. O professor — que já vive equilibrando pratos entre a indisciplina, o desamparo que vem de casa e a pressão que desce de cima — agora caminha sobre um giz de vidro. Cada passo é um risco. Qualquer movimento pode ser capturado, editado e servido como entretenimento para quem nunca pisou naquela sala e jamais sentiu o peso daquele silêncio antes da chamada.

É uma carnificina emocional embrulhada para presente como "liberdade de expressão". Esse aplauso fácil para o constrangimento alheio é sintoma de uma sociedade que jogou o respeito no lixo como se fosse coisa velha, fora de moda, embaraçosa demais para os tempos modernos.

"Ah, mas então não pode avaliar?" Claro que pode — deve! A avaliação corrige a rota, limpa o caminho e aperta o nó que une mestre e aprendiz. Só que ela vale quando carrega responsabilidade e competência junto. Sem respeito como alicerce, avaliação deixa de ser escada para virar cadafalso, onde a honra de quem ensina é sacrificada por dez segundos miseráveis de glória virtual.

Que esse vídeo suma no buraco negro dos algoritmos. Mas que o rosto de cada Claudeko que ainda insiste em dar aula fique gravado na gente como tatuagem: educar é ato de coragem bruta, de resistência diária, de fé teimosa no ser humano. E tela nenhuma de celular — por maior que seja — terá tamanho suficiente para conter o valor de quem dedica a vida inteira a ensinar.

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Olá! Como seu professor de Sociologia, fico muito entusiasmado com a escolha desse texto. Ele é um "prato cheio" para analisarmos como as novas tecnologias e a cultura digital estão reconfigurando as nossas instituições, especialmente a Escola. O texto nos convida a pensar sobre a autoridade, o respeito e a espetacularização da vida privada. Para a Sociologia, não se trata apenas de um "vídeo engraçado", mas de uma mudança na forma como os indivíduos se relacionam e exercem poder. Aqui estão 5 questões discursivas, com um vocabulário acessível, para aprofundarmos essa reflexão:

1. Relações de Poder na Escola

O texto menciona um "jogo de poder invertido". Tradicionalmente, o professor é a figura de autoridade na sala de aula. De que maneira as redes sociais e o uso do celular por alunos podem alterar essa hierarquia tradicional e quais as consequências disso para o ambiente de ensino?

2. O Espetáculo da Humilhação

A crônica afirma que a "humilhação virou entretenimento". Na sociologia contemporânea, discutimos muito a Sociedade do Espetáculo. Como a busca por curtidas e engajamento nas redes sociais pode incentivar comportamentos que desrespeitam a dignidade humana, como no caso do professor Claudeko citado no texto?

3. Avaliação vs. Julgamento Público

Existe uma diferença sociológica entre avaliar um serviço (critério técnico e maduro) e promover um linchamento virtual (emocional e impulsivo). Por que, na sua opinião, as redes sociais facilitam o julgamento impulsivo em vez de uma crítica construtiva e responsável?

4. O Papel do Respeito nas Instituições Sociais

O autor descreve o respeito como algo que está sendo tratado como "antiquado ou descartável". Para que uma instituição como a Escola funcione, é necessário um conjunto de normas e valores compartilhados. O que acontece com a convivência social quando o respeito básico entre os indivíduos é substituído pelo desejo de aprovação virtual?

5. Ética e Liberdade de Expressão

O texto chama o vídeo viral de "carnificina emocional travestida de liberdade de expressão". Do ponto de vista da ética social, onde termina o direito de um aluno se expressar sobre sua escola e onde começa o direito do professor à sua imagem e honra?

Dica do Prof:

Para responder a essas questões, tente se colocar no lugar dos dois personagens: o aluno que quer ser ouvido e o professor que dedica sua vida ao magistério. A Sociologia é, antes de tudo, o exercício de olhar para o mundo com os olhos do outro! Bom trabalho!

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O Apagão das Almas: Uma Carta Para Quem Ainda Está de Pé ("Não perdi o amor pela educação. Tiraram isso de mim. É diferente." — )

 



O Apagão das Almas: Uma Carta Para Quem Ainda Está de Pé ("Não perdi o amor pela educação. Tiraram isso de mim. É diferente." — )

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Houve um tempo, sabe, em que eu botava fé que a sala de aula era um lugar sagrado. E não era pelo silêncio — porque, vamos combinar, o silêncio nunca morou ali —, mas porque aquelas paredes pareciam respirar esperança. Eu entrava na escola carregando livros, planos de aula e aquela certeza, quase infantil, de que ensinar podia, sim, virar o destino de alguém pelo avesso. E virava. Durante muitos anos, a maior metamorfose foi a minha: eu florescia entre as carteiras.

Lembro como se fosse hoje da minha primeira escola, lá em Araguaína. Gente, eu era feliz! Trabalhava o dia inteiro, e lecionava à noite, não sentia o peso do mundo nas costas. Preparava cada atividade com um cuidado artesanal, feito quem lapida uma joia para dar de presente. Naquela época, o título de "professor" soava em mim com o brilho de uma condecoração. E assim passei por várias escolas. Foram vinte anos de uma paixão avassaladora, daquelas que fazem a gente entregar a saúde, o tempo e o sono num altar que a gente jura que é eterno.

Mas a real é que a paixão, quando vira um sacrifício de um lado só, adoece a gente. Hoje, depois de 33 anos de professorado, quando caminho pelos corredores, o que eu vejo é um apagão. Os professores das antigas estão batendo em retirada, um a um, como veteranos de uma guerra que ninguém declarou vencida. E o que dá um nó na garganta não é só a partida deles, mas o vazio que fica. Não tem ninguém chegando, percebe? Falta entusiasmo, falta sangue novo, falta coragem para assumir esse posto. A educação brasileira está ficando com as cadeiras lotadas e as lousas órfãs.

E, olha, eu entendo perfeitamente quem joga a toalha. A sala de aula deixou de ser um chão de autonomia para virar um labirinto burocrático de vigilância. A gente não ensina mais; a gente presta contas. É gráfico para cá, meta para lá, relatório, justificativa... um mundo de papel que soterra o humano. O giz ficou pesado demais diante de tanta burocracia.

O corpo, claro, acaba cobrando o boleto. Aos 66 anos, tem dia que entro na sala e o "branco" me assalta sem dó. Tento lembrar o que planejei na noite anterior e a mente patina, derrapa no meio da gritaria, dos conflitos, dessa pressão que faz o peito apertar. E o professor não tem direito ao esquecimento, né? Cada lacuna de memória acontece ali, ao vivo, diante de quarenta pares de olhos inquietos. Só mais tarde, no silêncio do quarto, é que o conteúdo volta como um fantasma:

— "Era aquilo... era aquilo que eu precisava ter dito."

E a culpa, essa velha conhecida que nunca pede licença, deita-se comigo antes do sono.

Dizem por aí, com uma facilidade irritante, que professor deveria trabalhar até o último suspiro. Pois eu faço um convite: passem uma semana que seja numa escola pública. Não tem pausa, não tem refresco mental. É uma luta hercúlea para ser ouvida em meio ao deboche e ao desamparo. São pais que terceirizaram o afeto e empurraram para o Estado a missão impossível de dar limites a quem nunca ouviu um "não" dentro de casa.

Nunca me esqueço de uma mãe que veio tirar satisfação por causa da nota baixa do filho. Ela dizia, com uma agressividade que cortava o ar, que o menino "não entendia nada" do que eu explicava. O irônico — e trágico — é que o garoto era um prodígio na compreensão: entendia perfeitamente cada palavrão que cuspia em mim, cada provocação cínica, cada deboche bem ensaiado. Mas, o conteúdo... ah, o conteúdo era culpa da minha "falha didática". Saí dali com o gosto metálico da injustiça na boca. É assim que a gente morre um pouco por dia: nesse acúmulo de pequenas violências que ninguém vê.

Até a inclusão, esse termo que fica tão lindo em papel timbrado, na prática virou um abandono compartilhado. Sem estrutura, sem apoio, a gente vai no improviso, enquanto a criança que precisava de um olhar especializado recebe apenas o nosso cansaço. Tem horas que me sinto menos educador e mais um sentinela desesperado tentando segurar o portão para o caos não invadir tudo.

E aí chega a verdade mais doída de todo esse relato: "Eu não perdi o amor pela educação. Tiraram isso de mim. É diferente." Ainda acredito que um professor pode mudar o mundo, juro que acredito. Mas, aprendi, da forma mais dura, que nenhum trabalho vale a nossa sanidade. Por isso, para os mais novos, eu peço: sejam zelosos, sejam humanos, mas não deixem que o sistema devore vocês. Ele não olha para trás com gratidão. Governos mudam, gestores trocam de cadeira, e você continua lá, sozinha com seu giz, tentando acender uma vela no meio de um vendaval.

O apagão que tá chegando não é de energia elétrica. É de gente. É de alma. Os velhos estão indo por exaustão; os novos nem passam da porta por medo. E os que ficam, feito eu, sobrevivem por uma teimosia que dói. Educação não era para ser sinônimo de prisão. Era para reacender vidas — inclusive a de quem ensina. Enquanto a sociedade exigir que sejamos máquinas de engrenagem gasta, vamos continuar vendo salas cheias de alunos, mas escolas tristemente vazias de esperança.

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Atividade de Sociologia: A Crise do Trabalho e da Escola

Instruções: Leia atentamente a crônica e responda às questões abaixo sob uma perspectiva sociológica.

1. A Instituição Escolar e a Terceirização da Educação

O texto menciona pais que "terceirizaram o afeto" e transferiram ao Estado a missão de dar limites aos filhos. De acordo com o que estudamos sobre as Instituições Sociais, qual é o papel da Família e qual é o papel da Escola? O que acontece com o equilíbrio social quando uma instituição deixa de cumprir sua função básica e a transfere para outra?

2. Burocratização e Perda de Autonomia

O autor afirma que a sala de aula virou um "labirinto burocrático de vigilância" onde o professor "presta contas" em vez de ensinar. Relacione essa fala ao conceito de Burocracia, de Max Weber. Como o excesso de regras, gráficos e relatórios pode acabar "soterrando o humano" e retirando a criatividade e a autonomia do trabalhador?

3. Alienação e Saúde Mental no Trabalho

"Eu não perdi o amor pela educação. Tiraram isso de mim." Essa frase forte remete ao conceito de Alienação. Quando o trabalho deixa de ser uma forma de realização pessoal e passa a ser um "sacrifício de um lado só", quais são os impactos para a saúde mental do indivíduo e para a qualidade do serviço prestado à sociedade?

4. O Fenômeno do "Apagão de Gente"

O cronista descreve um "apagão de almas": veteranos saindo por exaustão e jovens que nem chegam a entrar na profissão. Do ponto de vista da Sociologia do Trabalho, como a desvalorização social e salarial, somada à violência cotidiana relatada, coloca em risco o futuro da educação brasileira?

5. A Escola como Espaço de Reconhecimento e Empatia

O texto termina falando sobre "máquinas de engrenagem gasta" versus "reacender vidas". Para a sociologia contemporânea, a escola deve ser um espaço de socialização. Como as "pequenas violências diárias" citadas no texto (deboches, agressividade e falta de apoio na inclusão) impedem que a escola cumpra seu papel de formar cidadãos éticos e solidários?

Nota ao Professor:

Essas questões visam tirar o aluno da posição passiva e fazê-lo enxergar o professor como um sujeito social atravessado por pressões políticas, econômicas e familiares. É uma excelente oportunidade para discutir o conceito de Burnout e a importância das redes de apoio nas políticas públicas educacionais.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Falo da consciência coletiva: "O Que Sobra de Nós Quando Tudo Muda?" ("O que pensamos ser o nosso 'eu' é apenas uma onda; o que realmente somos é o oceano." — Alan Watts)

 


Falo da consciência coletiva: "O Que Sobra de Nós Quando Tudo Muda?" ("O que pensamos ser o nosso 'eu' é apenas uma onda; o que realmente somos é o oceano." — Alan Watts)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

A gente passa a vida inteira pronunciando a palavra “eu” como se ela fosse pedra antiga: firme, definitiva, fincada no centro do mundo. “Eu penso.” “Eu quero.” “Eu sinto.” Tudo parece muito sólido quando sai da boca. Só que basta um instante de silêncio — daqueles que chegam sem pedir licença — para perceber que esse “eu” talvez seja menos concreto do que imaginamos. Mais névoa do que rocha. Mais correnteza do que margem.

Porque, convenhamos, você já foi tanta gente dentro da mesma pele. A criança que chorava por causa de um joelho ralado desapareceu faz tempo. O adolescente que acreditava que um coração partido era o fim do mundo também ficou pelo caminho. Depois vieram outras versões: a pessoa que sonhava alto demais, a que se decepcionou em silêncio, a que aprendeu a fingir força nos dias ruins. Seus pensamentos mudaram de endereço, seus medos trocaram de nome, e até os seus gostos — ah, esses traidores — abandonaram antigas certezas sem nem olhar para trás.

A vida foi passando como lixa em madeira bruta: desgastando excessos, revelando rachaduras, deixando marcas. E, ainda assim, sobra alguma coisa. Um eco discreto, mas persistente, que atravessa todas as mudanças e continua sussurrando baixinho: “sou eu.” Mas, quem é esse “eu”? Quem foi que atravessou a infância, suportou os abismos da juventude e agora lê estas palavras escondido atrás dos próprios olhos? Porque o corpo mudou. O rosto mudou. Até a maneira de enxergar o mundo já não é a mesma. Então o que permaneceu?

Talvez o “eu” não esteja na história que você conta para os outros. Talvez não more no nome escrito nos documentos, nem na idade que o calendário empurra ano após ano. Talvez você seja outra coisa. Algo mais silencioso.

O observador. Essa presença invisível que assiste à própria vida como quem vê chuva cair pela janela de um ônibus em movimento. Você escuta o barulho, percebe as gotas escorrendo pelo vidro, sente o balanço da estrada… mas não consegue segurar nenhuma delas. A experiência acontece diante de você o tempo inteiro: alegrias chegam, dores passam, pessoas entram e saem, versões suas nascem e morrem — e existe algo aí dentro apenas observando tudo.

Isso assusta um pouco, né? Porque antes do seu nome existir, o mundo já girava indiferente. As ruas já tinham barulho, os mares já quebravam nas pedras, alguém já chorava em algum lugar. Então, de repente, aconteceu esse pequeno milagre biológico: células se organizaram, um cérebro despertou e a consciência acendeu como luz numa casa escura.

E aí veio a estranha experiência de existir. Em algum momento da vida, todo mundo encara o próprio reflexo no espelho e tropeça na mesma pergunta: “Por que eu?” Por que nasci justamente nessa família? Nesse corpo? Nesse tempo tão cansado da humanidade? Por que estou vendo o mundo através destes olhos e não de outros?

Mas talvez a pergunta esteja torta desde o começo. Talvez não seja “por que eu?”, mas: “por que a existência está acontecendo através de mim agora?” A diferença parece pequena, mas muda tudo. Porque a gente passa os dias construindo fronteiras imaginárias. “Isso sou eu.” “Aquilo é o outro.” Criamos nomes, títulos, opiniões, feridas de estimação. Levantamos muros emocionais como quem tenta proteger um território sagrado. Só que, no fundo, talvez esse muro seja feito de papel molhado.

Imagine a consciência como um oceano imenso. Ela toca uma praia em Recife, outra em Lisboa, outra no Japão. Cada praia tem sua paisagem, seu clima, sua língua, suas dores particulares. A areia muda de cor. As ondas quebram em ritmos diferentes. Mas, o mar… o mar continua sendo o mesmo. Talvez seja assim com a gente.

Outro dia, no metrô, vi um homem sentado no canto do vagão. Devia ter uns cinquenta anos, embora o cansaço lhe acrescentasse mais vinte. Ele segurava uma mochila velha contra o peito como quem tenta impedir a própria vida de desabar. O olhar perdido, distante. E, por um segundo, sem nenhuma explicação lógica, senti aquela tristeza atravessar meu corpo também. Não era pena. Era reconhecimento.

Como se alguma parte silenciosa dentro de mim soubesse exatamente o peso que ele carregava, mesmo sem conhecer sua história. Talvez seja isso que chamamos de empatia: o instante em que o oceano reconhece a si mesmo batendo em outra margem.

Se eu fosse você, e você fosse eu, talvez o mundo deixasse de ser esse ringue interminável de egos feridos disputando razão, superioridade e aplauso. Talvez a pressa diminuísse. Talvez a arrogância perdesse força. Talvez a gente finalmente entendesse que ninguém atravessa esta vida sozinho — ainda que passe a existência inteira tentando parecer separado. Claro, isso é filosofia. Não dá pra medir em laboratório nem encaixar numa fórmula matemática. Mas nem toda verdade importante cabe numa experiência científica. Algumas apenas ressoam. E quando ressoam, a gente sente.

Porque existem ideias que não servem para serem provadas. Servem para despertar. No fim das contas, talvez a vida não seja um problema para resolver, mas uma experiência para atravessar. E atravessar exige menos controle do que presença. Menos resposta pronta e mais espanto diante do mistério.

O verdadeiro milagre talvez nem seja descobrir para onde vamos depois da morte. Talvez seja perceber que, apesar das células que morreram, dos sonhos abandonados no meio do caminho, das despedidas e do tempo que corrói tudo sem piedade, ainda existe algo intacto aí dentro. Uma presença silenciosa. Uma voz límpida que atravessa todas as suas versões e continua sussurrando, sem pressa, desde o primeiro dia: “Eu continuo aqui.”

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Olá! Como seu professor de sociologia, fico muito feliz em trabalhar esse texto com você. Ele é uma preciosidade porque toca em conceitos que estudamos como a construção da identidade, a alteridade (o reconhecimento do outro) e como a sociedade moderna muitas vezes nos fragmenta. O texto propõe que o "Eu" não é uma peça de museu estática, mas um processo contínuo e social. Para a sociologia, nós somos o resultado das nossas interações, mas o autor sugere que existe algo que observa tudo isso. Aqui estão 5 questões discursivas, simples mas profundas, para te ajudar a "mergulhar" nessas ideias:

1. A Metamorfose do "Eu" Social

O texto afirma que "você já foi tanta gente dentro da mesma pele" (criança, adolescente, sonhador, decepcionado). Do ponto de vista sociológico, como as diferentes fases da vida e os grupos sociais em que vivemos (família, escola, trabalho) moldam essas "várias versões" de nós mesmos?

2. O Reconhecimento no Outro (Alteridade)

Ao descrever a cena do homem no metrô, o autor diz que não sentiu pena, mas "reconhecimento", comparando a consciência a um oceano que bate em praias diferentes. Explique, com suas palavras, como o conceito de empatia apresentado no texto pode ajudar a reduzir os conflitos e a "arrogância" nas relações sociais hoje em dia.

3. Identidade: Rocha ou Névoa?

O autor critica a ideia de que o "Eu" é algo "firme, definitivo, fincado no centro do mundo". Relacione essa ideia ao conceito de identidade fluida (ou mundo líquido): por que na sociedade atual é tão difícil manter uma identidade única e imutável?

4. Os Muros de Papel e as Fronteiras Imaginárias

O texto menciona que criamos "muros emocionais" e títulos para nos separarmos dos outros ("Isso sou eu, aquilo é o outro"). De que maneira esses muros e categorias sociais (como classe, gênero ou nacionalidade) podem dificultar a percepção de que pertencemos a uma mesma coletividade humana?

5. A Vida como Experiência e não como Problema

No fechamento, o autor sugere que "a vida não é um problema para resolver, mas uma experiência para atravessar". Pensando na pressão que a sociedade exerce sobre os jovens para "terem sucesso" e "serem alguém", como essa mudança de pensamento (focar na presença e no mistério) poderia afetar a saúde mental e social da sua geração?

Dica do Prof:

Não procure respostas "certas" ou "erradas" como se fosse matemática. Use sua experiência de vida e o que você observa nas redes sociais e na rua para responder. O objetivo aqui é refletir!