"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 9 de junho de 2026

Quando os Ursos Voltam à Cidade: Vários Ursos no Portão da Escola ("O temor do Senhor é o princípio da sabedoria." — Provérbios 9:10)

 



Quando os Ursos Voltam à Cidade: Vários Ursos no Portão da Escola ("O temor do Senhor é o princípio da sabedoria." — Provérbios 9:10)

Por  Claudeci Ferreira de Andrade

Antes de virar manchete nos telejornais japoneses, o urso já rondava os territórios da imaginação humana. Era mais do que um animal: era aviso, presságio, fronteira. Guardião silencioso dos limites que a gente vive fingindo que não existem, ele lembrava ao homem uma verdade antiga e desconfortável: nem tudo pode ser domesticado. Em Utsunomiya, cidade de meio milhão de habitantes ao norte de Tóquio, esse símbolo ancestral saiu das brumas dos mitos para deixar pegadas reais sobre o asfalto. De uma hora para outra, quase cem escolas fecharam as portas, patrulhas cruzaram ruas estranhamente silenciosas, e pais apressaram o passo para buscar os filhos. O inesperado bateu à porta de uma das sociedades mais organizadas do planeta e, ironicamente, bastou a sombra de um urso para expor o quanto nossa rotina repousa sobre uma ilusão delicada de controle.

Tudo começou com um avistamento num sábado. Depois, vieram outros. Um urso teria passado pelos arredores de uma escola; outro surgiu nas imagens granuladas das câmeras de segurança do centro comercial; relatos desencontrados começaram a correr de bairro em bairro como quem carrega um segredo ruim. Naquela semana, o burburinho das crianças nos corredores foi substituído pelo ruído seco das janelas sendo trancadas. Sacos de lixo permaneceram dentro das casas. Conversas em tom baixo atravessaram cozinhas, portões e calçadas. Ninguém sabia ao certo se havia um único animal ou vários deles à solta. Mas, o medo, ah, o medo raramente espera pela confirmação dos fatos. Ele chega antes. Instala-se no corpo, aperta o peito, acelera os passos, faz mães olharem duas vezes pela janela antes de apagar a luz e pais demorarem alguns segundos a mais diante do portão, como se pudessem vigiar o invisível.

Mas, reduzir esse episódio a uma curiosidade exótica do outro lado do mundo seria um erro. Há algo profundamente humano escondido sob essas notícias. Com o fim da hibernação, os ursos voltaram a descer das montanhas. A diminuição da caça, as mudanças climáticas, a escassez de alimento e o esvaziamento das áreas rurais estreitaram, perigosamente, a distância entre a floresta e a cidade. O cheiro úmido do bosque parece já não respeitar a fronteira do concreto. A natureza, tantas vezes ignorada, reaparece para cobrar atenção — e talvez humildade. Eis uma das lições mais desconcertantes do nosso tempo: justamente quando acreditamos ter dominado tudo, descobrimos que continuamos pequenos diante das forças que nos cercam. Forças ecológicas, sim; mas também morais e espirituais. Afinal, o progresso não aboliu a nossa vulnerabilidade. Apenas a disfarçou sob camadas de conforto e tecnologia.

Curiosamente, muito antes das estatísticas, dos protocolos de segurança e das notas oficiais, os ursos já habitavam outro tipo de memória: a memória do sagrado. Em 2 Reis 2:23-25, Eliseu seguia seu caminho após suceder Elias quando foi cercado, em Betel, por jovens que o ridicularizavam. Chamaram-no de "careca", zombaram de sua autoridade e desprezaram aquilo que ele representava. O texto relata que duas ursas saíram do bosque e atacaram quarenta e dois daqueles rapazes. Evidentemente, não se trata de um aval à violência nem de uma nostalgia por punições exemplares. O episódio aponta para algo mais profundo: quando o respeito se desgasta, toda autoridade legítima corre o risco de ser banalizada. E basta olhar, sem muito esforço, para muitas salas de aula dos nossos dias para perceber o quanto essa reflexão continua incômoda e atual. Professores são interrompidos, desautorizados, transformados em alvo de deboche; pessoas mais velhas veem sua experiência ser tratada como peça de museu; limites são confundidos com opressão, e disciplina, com autoritarismo. Não, nenhum urso atravessa o portão da escola para impor silêncio ou restaurar a reverência perdida. Talvez isso seja até melhor. Ainda assim, permanece diante de nós a tarefa árdua — e inadiável — de ensinar respeito numa época em que o próprio respeito parece ter saído de moda.

Entre os ursos que hoje caminham pelas cidades japonesas e as ursas que emergem das páginas das Escrituras existe uma ponte invisível sustentada pela mesma advertência. A arrogância humana costuma florescer justamente quando esquecemos os nossos limites. Nem a tecnologia elimina nossa fragilidade diante da natureza, nem o progresso dispensa a necessidade de honra, humildade e reconhecimento da autoridade que serve ao bem comum. Talvez a verdadeira sabedoria não esteja em viver sem medo, mas em aprender o que o temor saudável tenta nos ensinar. Há fronteiras que não devem ser atravessadas com desdém; há forças que exigem reverência; há valores que, uma vez perdidos, custam caro para ser reconstruídos. E, num mundo cada vez mais disposto a rir de tudo e de todos, talvez o maior perigo não seja o urso escondido na floresta. Talvez seja a nossa crescente incapacidade de reconhecer que ainda existem realidades diante das quais convém baixar a voz, inclinar o coração e reaprender o respeito.


https://edition.cnn.com/2026/06/09/asia/japanese-city-schools-close-bear-intl-hnk



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Como professor de Sociologia de vocês, fico empolgado quando pegamos um texto tão rico como esse para analisar. À primeira vista, parece uma notícia sobre ursos invadindo cidades no Japão, mas, se olharmos com os "óculos da Sociologia", vamos ver que o texto fala sobre organização social, medo coletivo, a relação entre homem e natureza, e a crise de valores e autoridade na nossa sociedade. Com base nas ideias do texto, preparei 5 questões discursivas, simples e diretas, para aprofundarmos nosso conteúdo. Vamos exercitar nossa imaginação sociológica?

1. A Ilusão do Controle Social

O texto menciona que o Japão é uma das sociedades mais organizadas do planeta, mas que a presença de um urso bastou para "expor o quanto nossa rotina repousa sobre uma ilusão delicada de controle".

Pergunta: Do ponto de vista sociológico, como as instituições sociais (como o governo e as escolas) tentam manter a ordem e a segurança no dia a dia, e por que eventos inesperados da natureza conseguem quebrar essa sensação de controle tão facilmente?

2. O Medo Coletivo como Fenômeno Social

O autor afirma que "o medo raramente espera pela confirmação dos fatos. Ele chega antes". Na Sociologia, estudamos como sentimentos e comportamentos podem se espalhar rapidamente por uma comunidade, alterando a rotina de todos.

Pergunta: Explique como o medo relatado no texto deixou de ser um sentimento individual de uma única pessoa e se transformou em um "fenômeno social" que alterou a dinâmica de toda a cidade de Utsunomiya.

3. A Fronteira entre Sociedade e Natureza

O texto discute que problemas como o esvaziamento das áreas rurais e as alterações climáticas fizeram com que a natureza "cobrasse atenção", quebrando as barreiras entre a floresta e o concreto.

Pergunta: De que maneira o avanço das cidades e a modificação do meio ambiente pelo ser humano (o que os sociólogos chamam de impacto da ação antrópica) geram novos problemas e desafios para a vida em sociedade hoje em dia?

4. A Crise de Autoridade na Modernidade

Fazendo uma ponte com a história das ursas e do profeta Eliseu, o texto traz o debate para os dias atuais e afirma que "quando o respeito se desgasta, toda autoridade legítima corre o risco de ser banalizada", citando o exemplo de salas de aula onde professores são desautorizados e ridicularizados.

Pergunta: Por que a autoridade de figuras como professores e idosos parece estar em crise na sociedade moderna? Diferencie, com suas palavras, o que é ter autoridade legítima e o que é ser autoritário.

5. Valores Sociais e o "Respeito Fora de Moda"

No encerramento, o autor alerta que o maior perigo atual pode não ser o urso na floresta, mas a nossa "crescente incapacidade de reconhecer que ainda existem realidades diante das quais convém baixar a voz (...) e reaprender o respeito".

Pergunta: A Sociologia ensina que os valores (como o respeito, a empatia e a solidariedade) são a base para a convivência pacífica. O que acontece com a coesão de uma sociedade quando as pessoas passam a "rir de tudo e de todos", ignorando os limites sociais e o respeito mútuo?

quinta-feira, 4 de junho de 2026

O Neoliberalismo Escolar Mata ("Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor." — Paulo Freire)

 



O Neoliberalismo Escolar Mata ("Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor." — Paulo Freire)

*Por Claudeci Ferreira de Andrade


Silvaneide não era uma estatística. Não era uma meta descumprida, um gráfico em queda nem um número perdido no meio de uma planilha colorida. Era professora. Daquelas que chegam antes do sinal, levam provas para corrigir em casa e carregam nos ombros um peso que nenhuma descrição de cargo consegue medir.

Naquele dia, ela estava onde sempre esteve: em sala de aula. No meio da rotina escolar, porém, foi chamada para uma reunião pedagógica. Deixou os alunos por alguns instantes, atravessou o corredor e entrou numa sala onde já estavam membros da equipe gestora e uma representante do Núcleo Regional de Educação (Tutora). O assunto não era um estudante com dificuldades. Não era um projeto para melhorar a aprendizagem. Tampouco era a saúde física ou emocional dos professores.

O assunto eram metas. Metas ligadas a plataformas digitais adquiridas pelo governo. Metas de adesão. Metas de desempenho. Metas que precisavam ser alcançadas porque, aparentemente, tudo precisa caber dentro de indicadores. Segundo relatos, a reunião foi marcada por cobranças e pressão. Pouco depois, Silvaneide sofreu um mal súbito. E morreu dentro da escola.

Há acontecimentos que ultrapassam a esfera da tragédia individual e se transformam em símbolos de algo maior. A morte de uma professora dentro do espaço ao qual dedicou sua vida nos obriga a encarar uma pergunta incômoda: o que estamos fazendo com a educação?

A escola deveria ser um lugar de encontro. Um território fértil onde o conhecimento nasce do diálogo, da curiosidade e da convivência humana. Mas, pouco a pouco, ela vem sendo empurrada para uma lógica empresarial que mede quase tudo, exceto aquilo que realmente importa. Nessa lógica, educadores são convertidos em operadores de indicadores. O tempo da escuta cede lugar à urgência dos relatórios. A confiança é substituída pela vigilância. O vínculo humano perde espaço para a produtividade.

E a escola, que deveria pulsar como comunidade, começa a funcionar como uma engrenagem. Não de formação. De produção. É nesse ambiente que muitos profissionais adoecem. Não apenas no corpo. Adoecem na mente. Adoecem nas emoções. Adoecem na esperança. Vivem sob a sensação permanente de insuficiência, como se estivessem sempre em dívida com alguma meta, algum sistema ou algum avaliador invisível e visível. (coordenadora agendando com o professor para assistir à sua aula e fazer relatório).

Por isso, Silvaneide não pode ser vista como um caso isolado. Há professores afastados por ansiedade, depressão e burnout. Há educadores que fazem cursos de progressão funcional deitados em leitos hospitalares, receosos de perder direitos conquistados após anos de dedicação. Há profissionais exaustos que continuam trabalhando porque já não conseguem enxergar outra saída. E quando alguém finalmente desaba, costuma-se dizer que foi uma fatalidade. Mas será mesmo?

Fatalidades acontecem. Padrões se repetem. E o que estamos vendo há anos não se parece com acaso. Quando o cuidado é substituído pela cobrança, algo se rompe. Quando metas passam a valer mais do que pessoas, algo se rompe. Quando a gestão esquece que trabalha com seres humanos, algo se rompe.

O neoliberalismo aplicado à educação raramente se apresenta de forma explícita. Não chega fazendo discursos grandiosos. Não precisa. Ele se instala discretamente nos procedimentos. Nas métricas. Nos rankings. Nas comparações permanentes. Na obsessão por desempenho. Na crença de que todo problema humano pode ser resolvido com mais monitoramento, mais controle e mais produtividade.

É um sistema silencioso. E talvez seja justamente por isso que se torna tão eficiente. Ele mata quando retira da escola qualquer possibilidade de cuidado. Mata quando transforma a precarização em rotina. Mata quando faz do esgotamento um requisito não declarado da profissão. Mata quando convence educadores de que seu valor depende exclusivamente daquilo que produzem. E, quando a vida finalmente entra em colapso, o sistema lava as mãos e chama tudo de acidente. (Mata quando procrastina o processo de aposentadoria e licenças já conquistadas).

Mas, a pergunta continua de pé, firme, desconfortável e necessária. Quantos sinais ainda serão ignorados? Quantos pedidos de socorro serão tratados como fraqueza? Quantos professores precisarão adoecer para que entendamos que educação não é mercadoria e que escolas não são empresas?

Silvaneide tinha um nome. Tinha uma história. Tinha afetos, responsabilidades, sonhos e preocupações que jamais aparecerão em qualquer relatório de desempenho. Sua morte não deveria ser apenas mais uma notícia consumida pela velocidade das redes sociais. Deveria ser um espelho. Um daqueles espelhos difíceis de encarar porque revelam aquilo que preferiríamos não ver. Porque a maneira como tratamos nossos professores revela, no fundo, a maneira como tratamos o próprio futuro.

E um país que transforma educadores em máquinas de desempenho talvez esteja ensinando, sem perceber, a mais cruel de todas as lições: a de que resultados importam mais do que vidas.


*(A professora Silvaneide Monteiro Andrade, de 56 anos, faleceu vítima de um infarto no dia 30 de maio de 2025, dentro do Colégio Estadual Jayme Canet, em Curitiba (PR). Ela sofreu o mal súbito enquanto estava na sala da equipe pedagógica, onde havia sido chamada para ser cobrada por metas de uma plataforma digital de redação. — https://appsindicato.org.br/morte-de-professora-dentro-de-escola-civico-militar-em-curitiba-gera-comocao-nacional-e-debate-sobre-adoecimento/ )


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Como professor de Sociologia do Ensino Médio, elaborei 5 questões discursivas, simples na linguagem, mas profundas na reflexão, perfeitamente adequadas para uma folha de prova. Elas acompanham as expectativas de resposta (gabarito) baseadas estritamente nas ciências sociais.


Questão 1: Neoliberalismo e a Lógica Empresarial na Escola

“O neoliberalismo aplicado à educação raramente se apresenta de forma explícita. (...) Ele se instala discretamente nos procedimentos. Nas métricas. Nos rankings.”

Pergunta: O texto critica a introdução de uma "lógica empresarial" dentro das escolas públicas. A partir dos seus conhecimentos em Sociologia, explique de que forma o modelo econômico e político do neoliberalismo transforma a educação em mercadoria e o papel dos professores dentro da escola.

Expectativa de Resposta

O estudante deve explicar que o neoliberalismo aplica a lógica do mercado de trabalho privado às instituições públicas. Isso transforma a educação em uma busca por eficiência produtiva, onde a escola passa a funcionar como uma empresa produtora de dados, e o professor deixa de ser um articulador do conhecimento crítico para se tornar um mero operador de plataformas digitais e metas estatísticas.

Questão 2: Adoecimento, Produtividade e Alienação do Trabalho

“E a escola, que deveria pulsar como comunidade, começa a funcionar como uma engrenagem. Não de formação. De produção. É nesse ambiente que muitos profissionais adoecem.”

Pergunta: O texto cita que muitos profissionais sofrem com ansiedade, depressão e burnout por viverem sob a sensação permanente de insuficiência. Relacione a cobrança excessiva por produtividade e alcance de metas com o adoecimento físico e mental dos trabalhadores na sociedade atual.

Expectativa de Resposta

O estudante deve apontar que, no capitalismo atual, a cobrança desmedida por metas e o monitoramento constante geram um ambiente de forte pressão psicológica. O trabalhador se sente alienado e desumanizado, pois seu valor como pessoa passa a depender exclusivamente dos números que ele produz. Esse esgotamento de energia e a falta de tempo para o autocuidado levam ao adoecimento crônico da mente (burnout) e do corpo (como o mal súbito).

Questão 3: Racionalização e o Controle Social (Vigilância)

“A confiança é substituída pela vigilância. O vínculo humano perde espaço para a produtividade. (...) (coordenadora agendando com o professor para assistir à sua aula e fazer relatório).”

Pergunta: O monitoramento constante das aulas e a exigência de preenchimento de relatórios contínuos são formas de controle dentro da escola. Como a Sociologia explica a substituição da "confiança e do vínculo humano" por mecanismos de vigilância e controle social dentro das instituições de trabalho?

Expectativa de Resposta

Espera-se que o aluno identifique que as estruturas burocráticas usam a vigilância e a fiscalização (como visitas programadas e relatórios de desempenho) para garantir a padronização e a obediência do trabalhador. Esse controle retira a autonomia pedagógica do professor e transforma o ambiente escolar, que deveria ser de cooperação e diálogo, em um espaço de desconfiança e estresse institucional.

Questão 4: Burocracia versus Direitos Sociais do Trabalhador

“Mata quando procrastina o processo de aposentadoria e licenças já conquistadas.”

Pergunta: O texto faz uma crítica severa aos entraves burocráticos que atrasam ou dificultam direitos garantidos dos professores, como licenças médicas e a aposentadoria. Do ponto de vista sociológico, qual é o impacto social quando o Estado e a burocracia governamental priorizam as métricas de desempenho em vez de garantir o bem-estar e os direitos de seus servidores?

Expectativa de Resposta

O estudante deve explicar que o atraso intencional ou a negligência burocrática com direitos fundamentais (como licenças para tratamento de saúde ou aposentadoria) demonstra a desvalorização do funcionalismo público. Isso aprofunda a precarização do trabalho, pois obriga profissionais exaustos ou doentes a continuarem na linha de frente da produção, mostrando que a máquina estatal passa a valorizar mais os índices do que a vida humana que sustenta o sistema.

Questão 5: A Função Social da Escola

“A escola deveria ser um lugar de encontro. Um território fértil onde o conhecimento nasce do diálogo, da curiosidade e da convivência humana.”

Pergunta: Com base na leitura da crônica e na nota informativa sobre o caso da professora Silvaneide, faça uma reflexão crítica sobre qual deve ser a verdadeira função social da escola na construção do futuro de um país, contrapondo-a à visão de que "resultados importam mais do que vidas".

Expectativa de Resposta

O aluno deve concluir que a função social da escola pública é a formação humana integral, a promoção da cidadania, a emancipação crítica dos sujeitos e o acolhimento comunitário. Uma escola que prioriza resultados numéricos acima da integridade das vidas de seus professores e alunos falha democraticamente, pois ensina a crueldade da indiferença em vez de promover uma sociedade justa, solidária e humanizada.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

O QUE OS OLHOS NÃO VEEM, A ESCOLA PRECISA ENXERGAR ("A inclusão acontece quando se aprende com as diferenças e não com as igualdades." — Paulo Freire)

 



O QUE OS OLHOS NÃO VEEM, A ESCOLA PRECISA ENXERGAR ("A inclusão acontece quando se aprende com as diferenças e não com as igualdades." — Paulo Freire)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Lembro-me do dia em que li, quase por acaso, um artigo que me fez parar no meio do caminho — daquele jeito raro que só os textos honestos conseguem. Não foi o título acadêmico que me capturou. Tampouco os dados ou a metodologia. Foi a pergunta escondida por trás de tudo aquilo, simples e incômoda como uma pedra no sapato: o que sentem, pensam e revelam os jovens com deficiência visual quando são colocados, pela primeira vez, numa sala de aula que nunca foi planejada para eles?

A pergunta ficou comigo. Ficou porque não era apenas uma questão de pesquisa. Era uma questão de humanidade. E, de algum modo, eu já tinha ouvido aquela pergunta antes, embora vestida de outras palavras e carregada por outras vozes.

"Eu sabia a resposta. Levantei a mão. O professor não me viu." Essa frase não aparece no artigo. Mas poderia aparecer. Poderia estar em qualquer página, entre qualquer parágrafo, porque traduz com precisão o tipo de silêncio que muitos estudantes cegos aprendem a carregar. Não o silêncio da falta de capacidade, mas o da invisibilidade. O silêncio de quem está presente e, ainda assim, passa despercebido.

O trabalho que inspirou esta reflexão foi assinado por Karine Vieira e Mauro Conceição, do Instituto Benjamin Constant (IBC), referência nacional na educação de pessoas com deficiência visual, e por Jussara Nascimento, diretora do Colégio Brigadeiro Newton Braga. Três educadores movidos por uma inquietação que deveria ser de todos nós. O estudo foi publicado na Cadernos Cajuína, revista científica interdisciplinar cujo nome evoca, curiosamente, a mesma ideia que sustenta a boa educação: raízes profundas e identidade sem disfarces.

A pesquisa acompanhou estudantes que cresceram dentro do ambiente do IBC. Ali, os corredores podiam ser percorridos pelo tato, os materiais chegavam em braile, os recursos pedagógicos faziam sentido e os obstáculos eram conhecidos por quem ensinava. Havia desafios, claro, mas havia também pertencimento.

Então veio a transição. Ao ingressarem no primeiro ano do Ensino Médio no Colégio Brigadeiro Newton Braga, uma escola regular de caráter militar, no Rio de Janeiro, esses jovens atravessaram muito mais do que um portão. Cruzaram uma fronteira invisível entre um espaço preparado para acolhê-los e outro ainda aprendendo a compreender suas necessidades.

Era um mundo novo. Uma nova rotina. Uma nova gramática de convivência. E foi justamente nesse encontro entre expectativa e realidade que suas vozes revelaram algo que o país inteiro precisa ouvir: inclusão não acontece quando a porta é aberta. Ela começa quando alguém se pergunta, com seriedade e compromisso, o que existe depois da porta.

Os estudantes não pediam privilégios. Pediam condições. Pediam acesso aos materiais. Pediam participação efetiva nas atividades. Pediam mediação pedagógica quando necessária. Pediam o direito elementar de aprender em igualdade de oportunidades. Parece pouco. Mas, para quem nunca precisou lutar para ter acesso ao conteúdo da própria aula, essa diferença muitas vezes passa despercebida.

E aqui reside uma das grandes confusões do nosso tempo: muita gente ainda confunde acessibilidade com privilégio. Confunde adaptação com favorecimento. Confunde justiça com vantagem. Não são a mesma coisa. Privilégio é receber mais do que os outros. Condição é receber o necessário para caminhar ao lado deles. A conclusão do estudo é tão clara quanto urgente: a inclusão efetiva depende de uma articulação real entre gestão escolar, professores, famílias e recursos pedagógicos acessíveis.

Parece óbvio. E talvez seja justamente esse o problema. Quando falamos de educação inclusiva no Brasil, o óbvio ainda precisa ser defendido. Precisa ser explicado. Precisa ser publicado, discutido, financiado e repetido inúmeras vezes até deixar de ser exceção e finalmente se transformar em rotina.

Fecho esta reflexão com aquela sensação estranha de quem aprendeu algo que deveria ter compreendido muito antes. E também com uma certeza que não me abandona: A escola que não consegue enxergar as necessidades de seus alunos talvez possua prédios, janelas, corredores e quadros impecáveis. Pode até ostentar índices e discursos bem elaborados. Mas visão, de fato, ela ainda não tem. Porque enxergar nunca foi apenas uma função dos olhos. É, antes de tudo, uma disposição da consciência.

https://v3.cadernoscajuina.pro.br/index.php/revista/article/view/2993

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Olá! Que texto potente e necessário para disparar a imaginação sociológica dos nossos estudantes. Como professor de Sociologia do Ensino Médio, vejo aqui uma oportunidade preciosa de conectar a vivência escolar deles com conceitos fundamentais da nossa disciplina, como desigualdade, cidadania, instituições sociais e o papel do indivíduo na estrutura.

Preparei as 5 questões discursivas de forma simples e direta, focadas na realidade do Ensino Médio, acompanhadas de um gabarito com as expectativas de resposta para ajudar na mediação pedagógica.

Questão 1

O autor do texto afirma que "inclusão não acontece quando a porta é aberta. Ela começa quando alguém se pergunta, com seriedade e compromisso, o que existe depois da porta".

Com base nessa afirmação e nos seus conhecimentos de Sociologia, explique por que garantir o acesso físico (a matrícula) não é suficiente para garantir a cidadania plena dos estudantes com deficiência.

Expectativa de Resposta

O estudante deve explicar que a cidadania plena vai além dos direitos formais (como o direito de se matricular). Na perspectiva sociológica, a verdadeira inclusão exige a garantia de direitos substantivos (reais), que envolvem a permanência, a acessibilidade aos materiais e a participação social. Abrir a porta sem dar condições de igualdade mantém a exclusão do lado de dentro.

Questão 2

O texto traz uma reflexão marcante: "Não o silêncio da falta de capacidade, mas o da invisibilidade. O silêncio de quem está presente e, ainda assim, passa despercebido."

Como o conceito de invisibilidade social ajuda a compreender a situação do estudante com deficiência visual em uma sala de aula que não foi planejada para ele?

Expectativa de Resposta

Espera-se que o aluno identifique que a invisibilidade social ocorre quando um indivíduo ou grupo, embora esteja fisicamente presente no espaço público (como a escola), é ignorado pela estrutura e pelas interações sociais. Quando o espaço e o professor não reconhecem as necessidades específicas do aluno cego, ele deixa de ser visto como um sujeito ativo de direitos.

Questão 3

Ao saírem do Instituto Benjamin Constant (IBC) para o Colégio Brigadeiro Newton Braga, os estudantes mudaram de ambiente escolar. O texto menciona que eles cruzaram uma fronteira rumo a uma "nova gramática de convivência" e a uma escola de "cunho militar".

A escola é uma das principais instituições socializadoras da nossa sociedade. Explique de que forma a estrutura e as normas de uma instituição de ensino influenciam a socialização e a adaptação dos indivíduos.

Expectativa de Resposta

O estudante deve apontar que as instituições escolares moldam nossos comportamentos por meio de regras, rotinas e valores (socialização secundária). Ambientes com estruturas muito rígidas ou militarizadas possuem códigos específicos de disciplina que podem exigir um esforço maior de adaptação, tornando ainda mais urgente que a gestão e os professores criem pontes de mediação pedagógica e acolhimento para as diferenças.

Questão 4

Muitas pessoas no cotidiano confundem conceitos básicos de justiça social. O autor do texto desfaz uma dessas confusões ao escrever: "Privilégio é receber mais do que os outros. Condição é receber o necessário para caminhar ao lado deles."

Diferencie privilégio de igualdade de condições (equidade) sob o ponto de vista da justiça social na escola.

Expectativa de Resposta

O aluno deve esclarecer que privilégio significa uma vantagem injusta concedida a alguns em detrimento de outros. Já a equidade (dar condições necessárias) consiste em reconhecer que as pessoas partem de lugares diferentes e possuem necessidades distintas; portanto, oferecer materiais em braile ou mediação pedagógica não é um favorecimento, mas uma reparação necessária para que todos disputem as oportunidades em real igualdade.

Questão 5

Na conclusão, o autor provoca o leitor ao afirmar: "A escola que não consegue enxergar as necessidades de seus alunos talvez possua prédios, janelas, corredores e quadros impecáveis (...) Mas visão, de fato, ela ainda não tem."

A partir dessa crítica social do texto, discuta qual deve ser a função social da escola pública na construção de uma sociedade democraticamente justa.

Expectativa de Resposta

Espera-se que o estudante reflita que a função social da escola não é apenas técnica ou estética (prédios e índices bonitos), nem serve apenas para padronizar indivíduos para o mercado de trabalho. A escola pública tem o dever de ser um espaço de democratização do conhecimento, de valorização da diversidade humana e de desenvolvimento da consciência social, combatendo ativamente as estruturas de exclusão.

sábado, 23 de maio de 2026

A Conta que Não Fecha: Fazer 11 PEI até sexta-feira ("Há homens que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam muitos dias e são melhores. Mas, há os que lutam toda a vida: esses são imprescindíveis." — Bertolt Brecht)

 



A Conta que Não Fecha: Fazer 11 PEI até sexta-feira ("Há homens que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam muitos dias e são melhores. Mas, há os que lutam toda a vida: esses são imprescindíveis." — Bertolt Brecht)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Hoje foi uma daquelas manhãs em que o café esfria antes mesmo de encontrar a boca. A fumaça sobe devagar, faz uma última dança no ar e desaparece — talvez cansada também. E foi justamente numa manhã dessas, meio cinzentas por dentro, que recebi mais uma lista. Não era lista de compras, não era lista de desejos, muito menos daquelas coisas que a gente empurra com a barriga prometendo resolver "na semana que vem". Não. Era uma lista de obrigações.

— Professor, você sabe fazer PEI? A pergunta veio leve, quase inocente, dessas que chegam sem bater à porta. Veio com a naturalidade de quem pergunta se sei ligar um computador ou amarrar os próprios sapatos. Fiquei parado por alguns segundos. Plano Educacional Individualizado. Protocolo de Conduta. Relatório de comorbidades. Mapeamento de ansiedade. Identificação de depressão. Trilhas formativas. Itinerários.

Siglas. Siglas e mais siglas. Elas brotam como cogumelos depois da chuva, silenciosas, insistentes, ocupando espaço sobre a mesa, dentro das mochilas e, vez ou outra, dentro da cabeça da gente também. Parece até que descobriram um jeito de transformar papel em organismo vivo: crescem, se multiplicam e, quando a gente percebe, já tomaram conta da paisagem.

Sem aviso, me peguei pensando nos meus antigos professores. Lembro dos rostos sérios, das mãos manchadas de giz, daquele cheiro característico de sala úmida nas manhãs frias. Seriam eles incompetentes? Hoje desconfio que não. Pelo contrário. Talvez carregassem, em silêncio, o mesmo peso que agora se acomoda sobre meus ombros. A diferença é que ninguém lhes perguntava se sabiam elaborar PEI, preencher formulários ou atravessar uma floresta de protocolos. O mundo ainda não tinha inventado tantos nomes sofisticados para dores tão antigas.

Lembro também de quando eu ainda era aluno. Ah, a juventude... especialista em certezas precipitadas. Eu dizia aos meus professores — com aquela arrogância suave de quem acredita ter entendido a vida cedo demais — que a educação era a profissão mais mal paga do país. Eles sorriam. Só sorriam.

Hoje compreendo aquele sorriso. Era o sorriso de quem conhece o fim da história enquanto você ainda está folheando as primeiras páginas. Cheguei até a cogitar medicina um dia. Parecia difícil demais, distante demais, quase outro planeta. Hoje rio disso sozinho, mas é uma risada meio torta, dessas que escapam mais do desgaste do que da graça. Porque o médico diagnostica. O professor diagnostica, acolhe, documenta, planeja, executa, avalia, reporta, orienta, media conflitos, administra crises e — se os deuses da burocracia resolverem demonstrar alguma misericórdia — ainda ensina.

E a remuneração? Ah... A remuneração continua parada no acostamento, vendo passar de longe o desfile interminável de exigências que cresce a cada nova portaria. As tarefas se acumulam. Os papéis se empilham. As responsabilidades se multiplicam. A conta simplesmente não fecha. Na verdade, sendo sincero, nunca fechou.

Mas, não escrevo isso para me lamentar. Reclamar por reclamar é como enxugar gelo: a gente se cansa e o chão continua molhado. Escrevo porque algumas palavras precisam sair da garganta antes que enferrujem por dentro. O silêncio, às vezes, conserva certas coisas podres como quem esquece restos no fundo da geladeira e finge que o cheiro não existe.

E, na verdade, escrevo pensando no PHillip. Ele tem dezenove anos e faz estágio na nossa escola. Carrega nos olhos aquela luz que só os sonhadores ainda conseguem sustentar. Ontem mesmo segurava um livro de Paulo Freire contra o peito como quem abraça uma bússola, e me perguntou — com um sorriso limpo, quase desarmado — qual era o segredo para não perder o encantamento pela sala de aula. Olhei para ele e, por alguns segundos, enxerguei a mim mesmo muitos anos atrás, antes das siglas, dos relatórios e das listas que parecem nunca terminar.

O PHillip merece saber que a missão continua sendo bonita. Talvez bonita justamente porque é difícil. Mas, merece a verdade inteira: precisa saber que ela também é pesada, exigente e extraordinariamente sub-reconhecida. Escrevo para que ele se prepare, não para que desista.

Termino o café. Já frio. Abro o computador. Tenho 11 PEIs para entregar até sexta-feira. E amanhã, ainda assim, estarei lá. Porque é isso que os professores fazem: ficam.

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Que excelente texto! Como professor de Sociologia, fico entusiasmado quando a literatura consegue traduzir de forma tão humana os conceitos abstratos que estudamos em sala de aula. Esse texto é um prato cheio para discutirmos a realidade do mundo do trabalho contemporâneo, a burocratização das instituições e o papel social da educação. Aqui estão 5 questões discursivas e simples, pensadas especificamente para o nível de Ensino Médio, com o objetivo de aprofundar o debate sociológico a partir da crônica:


1. O narrador descreve uma rotina onde o professor precisa diagnosticar, documentar, relatar, mediar conflitos e, por fim, tentar ensinar, enquanto as siglas e exigências "brotam como cogumelos". Utilizando o conceito sociológico de "burocracia" (ou a organização do trabalho moderno), explique como o excesso de funções administrativas pode afastar um profissional da sua atividade-fim.

2. A crônica afirma que a remuneração dos professores "continua parada no acostamento", enquanto a lista de exigências não para de crescer. Pensando nas transformações do mundo do trabalho que estudamos em Sociologia, de que forma o descompasso entre o aumento de responsabilidades e a falta de valorização financeira afeta o prestígio social de uma profissão?

3. No texto, o autor compara o silêncio a "restos esquecidos no fundo da geladeira" e diz que escreve para que as palavras não "enferrujem por dentro". Pensando nos movimentos sociais e na cidadania, qual é a importância sociológica de romper o silêncio e denunciar as condições precárias de trabalho em uma sociedade?

4. O jovem estagiário PHillip aparece segurando um livro de Paulo Freire "como quem abraça uma bússola" e mantendo o encantamento pela educação, apesar das dificuldades relatadas. Qual é a importância social da escola e da formação de novos professores (como o PHillip) para a continuidade e a transformação de uma sociedade?

5. O texto termina com a marcante frase: "Porque é isso que os professores fazem: ficam." A Sociologia estuda como as instituições (como a família, a igreja e a escola) moldam nossas ações. O ato de "ficar" e continuar lecionando, mesmo diante de tantos problemas, reflete apenas uma escolha individual ou demonstra o senso de responsabilidade social ligado à função de educador? Justifique.

💡 Dica de Ouro para a Aula:

Peça para os alunos identificarem no próprio cotidiano escolar se eles percebem os professores sobrecarregados com essas "siglas" e papéis mencionados no texto. Isso conecta a teoria sociológica diretamente com a vivência deles!