"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(13) O Medo que Me Afastou de Deus e o Amor que Me Trouxe de Volta

 


Ensaio Teológico VIII(13) O Medo que Me Afastou de Deus e o Amor que Me Trouxe de Volta

Por  Claudeci Ferreira de Andrade


Ainda guardo na memória um domingo da infância em que o pregador falava do inferno com tanta precisão que até o banco de madeira parecia esquentar debaixo de mim. Eu tinha nove anos e saí dali sem vontade de amar a Deus; queria apenas escapar de sua punição. Demorei muito para desaprender aquela fé construída sobre o susto, como quem precisa abrir as janelas de uma casa fechada há anos para deixar o ar circular novamente. Não escrevo para acusar ninguém. Muitos dos que pregavam o medo acreditavam estar protegendo suas ovelhas, e eu mesmo, em outros tempos, repeti palavras duras cujo verdadeiro alcance nem sequer compreendia. Escrevo, antes, para perguntar, com a humildade de quem também errou, se a religião precisa mesmo do medo e do ódio para ser levada a sério. Creio que não. E, para minha surpresa, encontro nas próprias Escrituras razões para sustentar essa convicção.

O texto que mais me consola é o de João: "o perfeito amor lança fora o medo, porque o medo supõe castigo" (1 João 4:18). O medo expulso pelo amor é justamente o medo da punição, aquele que me acompanhava no banco de madeira e me fazia imaginar Deus como um juiz sempre pronto a condenar. João não elimina a reverência; denuncia a angústia de quem não consegue enxergar no divino nada além da ameaça. Essa compreensão, porém, exige que eu também encare Provérbios 8:13, que define o temor do Senhor como odiar o mal. A palavra hebraica yirah abrange sentidos como reverência, espanto e admiração, embora também possa expressar temor. Nesse contexto, o alvo do repúdio são o orgulho, a arrogância e os caminhos tortuosos, não a dignidade de uma pessoa. Afinal, odiar o mal e amar quem o pratica não são atitudes incompatíveis. Pense na mãe que combate o vício do filho sem deixar de amá-lo: ela rejeita aquilo que o destrói, mas não desiste daquele que ama. O Salmo 130:4 aprofunda essa reflexão ao mostrar que o perdão também pode despertar o temor reverente.

Quando perdi o medo, descobri o que ele havia me roubado: o direito de perguntar. Durante muito tempo, confundi fé com silêncio e reverência com a obrigação de não questionar. Anos depois, li uma reflexão atribuída a Albert Einstein, publicada na revista Life em 1955, sobre a importância de continuar questionando e de reconhecer na curiosidade uma razão própria para existir. Senti, então, como se alguém abrisse uma janela num quarto abafado. Passei a ler Provérbios 9:10 como um convite à reverência que amplia a compreensão, não como um instrumento de pânico que aprisiona a consciência. Aprendi também, à custa dos meus próprios erros, que o ódio ao pecado pode facilmente escorregar para o ódio ao pecador. Por isso, carrego como lanterna a conhecida reflexão de Martin Luther King Jr., em Strength to Love: só a luz expulsa a escuridão, e só o amor expulsa o ódio. A fronteira moral precisa ser traçada entre o bem e o mal, entre atitudes que constroem e comportamentos que destroem, sem que isso nos autorize a negar a dignidade de quem erra. Prefiro, portanto, a tarefa mais difícil — e mais honesta — de compreender as raízes do mal, inclusive aquelas que podem crescer dentro de mim antes que eu as reconheça nos outros.

Mas, não foi um argumento filosófico, uma explicação teológica ou um sermão eloquente que começou a desfazer meu medo. Foi uma senhora da congregação, de mãos grossas e voz mansa, que me encontrou chorando no fundo do templo. Em vez de me repreender ou tentar corrigir meus sentimentos, sentou-se ao meu lado e permaneceu em silêncio. Naquele instante, sem discursos nem ameaças, compreendi mais sobre Deus do que em dezenas de pregações. O amor de que João falava havia deixado de ser uma frase bíblica para ganhar rosto, mãos e presença. A teologia desceu do púlpito e se sentou ao lado de um menino assustado. E, veja só, às vezes é justamente quando ninguém tenta nos convencer de nada que começamos a compreender aquilo em que podemos acreditar.

Hoje, volto àquele menino de nove anos, encolhido no banco de madeira, e gostaria de lhe dizer que o Deus de quem ele tinha medo não precisava ser o Deus que o acompanharia pelo resto da vida. Gostaria de lhe ensinar que a fé não precisa nascer do terror, que a consciência não deve ser sufocada e que o amor não se torna menos sério por ser compassivo. Ao contrário: amar sem humilhar, corrigir sem destruir e discordar sem odiar talvez sejam algumas das tarefas mais difíceis da experiência religiosa. Deixo, então, ao leitor uma pergunta que também dirijo a mim mesmo: que espécie de fé estamos oferecendo às crianças e às gerações que virão depois de nós — uma fé que as ensina a temer castigos ou uma fé que as ajuda a discernir, amar e assumir responsabilidades? Encerro com as palavras de Paulo, que continuam a iluminar minha caminhada: "permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor" (1 Coríntios 13:13).

Ensaio Teológico VIII(12) A Sabedoria das Mãos: Entre a Fé, a Ciência e a Responsabilidade Humana

 




Ensaio Teológico VIII(12) A Sabedoria das Mãos: Entre a Fé, a Ciência e a Responsabilidade Humana

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Meu avô lavrava a terra com uma enxada de cabo gasto e, quando lhe perguntavam de onde vinha tanto saber, respondia sem cerimônia: "Deus ensina a gente". Eu, adolescente e apressado, achava aquilo um jeito bonito de não explicar nada. Afinal, queria respostas, explicações, argumentos; não me contentava com a simplicidade de uma frase que, na minha imaturidade, parecia encerrar a conversa antes mesmo de começar. Hoje, porém, diante de uma tela que põe o mundo na palma da mão, é justamente ele quem me volta à memória. Percebo, agora, que aquela resposta carregava uma sabedoria que eu ainda não tinha aprendido a enxergar. Isaías já dizia que o lavrador recebe instrução para realizar seu trabalho e reconhecia a sabedoria do Senhor, "maravilhoso em conselho e grande em sabedoria" (Isaías 28:26-29). Falamos de inovação com espanto, orgulho ou medo, mas raramente com gratidão. E se, em vez de enxergarmos a criatividade apenas como conquista humana, também a reconhecêssemos como uma dádiva antiga?

Tiago afirma que toda boa dádiva vem do alto, do "Pai das luzes" (Tiago 1:17), e é aí que encontro uma das raízes teológicas da criatividade. Em Êxodo 31:1-5, Deus enche Bezalel de seu Espírito, concedendo-lhe sabedoria, entendimento e habilidade para trabalhar metais, madeira e pedra. Veja só que interessante: entre as primeiras figuras bíblicas explicitamente descritas como capacitadas pelo Espírito para uma tarefa específica está um artesão, não um profeta ou sacerdote. Isso nos convida a ampliar nossa compreensão do sagrado: Deus também pode ser reconhecido no trabalho das mãos, na inteligência aplicada e na habilidade de transformar a matéria. Provérbios 8 reforça essa percepção ao apresentar a Sabedoria falando de conselho, justiça e governo. O espiritual e o prático, portanto, não precisam ser adversários; podem ser duas faces de uma mesma busca por compreensão. Separá-los rigidamente é empobrecer ambos, como sugere a conhecida máxima atribuída a Einstein: a ciência sem religião é manca, e a religião sem ciência é cega.

Mas, não dá para contornar a sombra que acompanha essa luz: se toda boa dádiva vem do alto, o que dizer das invenções que destroem? A mesma engenhosidade capaz de produzir vacinas e salvar vidas também foi empregada na fabricação de gases venenosos e de outras armas de extermínio. Confesso que não tenho uma resposta capaz de dissolver essa dor. A Bíblia, contudo, não ignora a ambiguidade da capacidade humana. Gênesis menciona um artífice que trabalhava o bronze e o ferro (4:22), mas também narra a construção da torre de Babel (11:1-9), episódio que levanta questões sobre orgulho, poder e ambição coletiva. Em outra passagem, Isaías anuncia um horizonte de paz no qual as espadas serão transformadas em relhas de arado (2:4). Eis uma imagem poderosa: o instrumento que fere pode ceder lugar à ferramenta que cultiva. A capacidade é dádiva; o uso, responsabilidade. E, como ensina a reflexão filosófica associada a Descartes, não basta ter bom espírito; é preciso saber empregá-lo bem.

Essa sabedoria, a meu ver, não pertence exclusivamente aos que professam uma religião. O agricultor que conhece a terra, a engenheira que projeta uma ponte e o programador que desenvolve uma ferramenta participam, cada qual à sua maneira, dessa aventura humana de compreender e transformar a realidade. Se o mundo é inteligível e somos capazes de investigar seus mistérios, a criatividade floresce justamente desse encontro entre curiosidade, experiência e conhecimento. A fé pode interpretar essa capacidade como dádiva divina; a ciência, por sua vez, investiga os processos pelos quais ela se manifesta. Não precisamos apagar as diferenças entre essas perspectivas para reconhecer que ambas podem contribuir para uma reflexão séria sobre o que fazemos com aquilo que sabemos.

Meu avô já não está aqui para ouvir o que entendi tarde. Ainda assim, imagino que sorriria e repetiria, sem cerimônia, que Deus ensina a gente. Hoje, eu acrescentaria ao seu ensinamento uma reflexão que a vida, a leitura e tantos anos de experiência me ajudaram a amadurecer: essa sabedoria também nos ensina a agradecer, a discernir e a transformar nossas invenções em instrumentos de cuidado. Afinal, de pouco vale descobrir como fazer alguma coisa se não nos perguntamos para que ela servirá e a quem poderá beneficiar. Se a criatividade humana reflete, ainda que de longe, a imagem daquele que nos criou com sabedoria, cada ferramenta nova se torna mais do que uma conquista técnica: transforma-se numa pergunta sobre quem somos e numa escolha sobre quem desejamos ser. No fim das contas, não basta iluminar o mundo com nossas descobertas; precisamos decidir, com discernimento, prudência e coragem, a serviço de que luz queremos colocá-las.

Ensaio Teológico VIII(11) A Sabedoria como Eixo da Vida: Entre o Conhecimento, o Dinheiro e o Cuidado de Si

 


Ensaio Teológico VIII(11) A Sabedoria como Eixo da Vida: Entre o Conhecimento, o Dinheiro e o Cuidado de Si

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Durante muito tempo, li Provérbios 4:7 — "A sabedoria é a coisa principal; adquire, pois, a sabedoria" — com certo desconforto. Ora, se ela é a coisa principal, o que sobra para o diploma, o salário e o corpo dolorido às cinco da manhã? Cheguei a pensar que a fé me exigia uma escolha entre o céu e as urgências da terra, como se cuidar da vida fosse uma forma de negligenciar a eternidade. Hoje, porém, percebo que o equívoco estava na minha leitura. O versículo prossegue com "e com tudo o que adquirires, adquire o entendimento". Ora, isso pressupõe que haverá outras conquistas; o que se pede é que a sabedoria esteja presente em todas elas, dando sentido ao que buscamos e discernimento ao que fazemos.

Foi minha avó, que nunca passou do terceiro ano primário, quem me ensinou que "o que a gente aprende, ninguém tira". Essa convicção, simples na aparência, mas imensa no significado, sustentou-me em sala de aula até nos dias em que desistir, parecia mais sensato do que continuar. Provérbios 1:5 fala do sábio que ouvirá, e é justamente aí que encontro uma lição preciosa: aprender exige humildade, disposição para rever certezas e coragem para reconhecer que ninguém sabe tudo. Por isso, vejo a educação não apenas como um caminho para o conhecimento, mas também como uma forma de caridade em potencial. Afinal, quem aprende a pensar com autonomia tem mais condições de questionar, discernir e não se deixar transformar em massa de manobra. A sabedoria não nos ensina somente a acumular informações; ensina-nos, sobretudo, a fazer bom uso delas.

Com o dinheiro, entretanto, o terreno é mais árduo. Paulo condena o amor ao dinheiro (1 Timóteo 6:10), não o dinheiro em si. E, convenhamos, há uma distância considerável entre possuir recursos e ser possuído por eles. Não ignoro essa tensão; pelo contrário, reconheço que ela atravessa a vida de quem precisa trabalhar, pagar contas e garantir o sustento da família. É por isso que me recordo da oração de Provérbios 30:8: "não me dês nem a pobreza nem a riqueza". Há sabedoria nesse pedido de equilíbrio, nessa recusa tanto da miséria que humilha quanto da abundância que pode seduzir e escravizar. A pergunta, portanto, não é apenas quanto tenho, mas a quem pertenço enquanto possuo. O dinheiro cumpre seu papel quando sustenta a casa, garante alguma tranquilidade e permite socorrer o vizinho; começa a nos governar quando cobra, em troca, nosso sono, nossa honestidade e nossa consciência. Afinal, de que vale encher os bolsos e esvaziar a alma?

E há ainda o corpo, esse companheiro de jornada que tantas vezes ignoramos até que ele resolva cobrar a conta. Na correria dos dias, a gente estuda, trabalha, enfrenta problemas, assume compromissos e, não raro, deixa a própria saúde para depois. Mas, se Paulo afirma, em 1 Coríntios 6:19, que o corpo é templo do Espírito Santo, cuidar dele também é uma forma de zelo, não de vaidade. Alimentar-se bem, respeitar os limites físicos, descansar e cultivar hábitos saudáveis não são gestos de egoísmo; são maneiras de preservar as condições necessárias para viver e servir. De que adianta tanta disposição para cuidar dos outros se, por descuido, vamos abandonando a nós mesmos pelo caminho? Um corpo cuidado não garante uma vida sem sofrimento, é verdade, mas pode nos dar melhores condições para atravessá-la com dignidade.

Ao reunir esses três fios — conhecimento, dinheiro e cuidado de si —, percebo que Aristóteles, na Ética a Nicômaco, já havia apontado para uma compreensão mais ampla da existência ao definir o bem supremo como "a atividade da alma de acordo com a virtude". Embora partam de horizontes distintos, Atenas e Jerusalém oferecem reflexões que podem dialogar entre si. A filosofia aristotélica nos convida a pensar no florescimento humano; a tradição bíblica nos chama a refletir sobre a origem, o sentido e a responsabilidade da vida. Uma olha para a realização de nossas potencialidades; a outra amplia o horizonte ao situar a existência diante de Deus. Não se trata de apagar as diferenças entre ambas, mas de reconhecer que suas reflexões podem se iluminar mutuamente, como janelas abertas para uma mesma paisagem, ainda que vistas de ângulos diferentes.

Volto, então, ao versículo que durante tanto tempo me incomodou: a sabedoria é a coisa principal, mas ser principal não significa ser a única coisa importante. Ela é o eixo em torno do qual as demais conquistas encontram seu lugar. Estudar, trabalhar, ganhar dinheiro e cuidar do corpo não precisam competir com a fé; podem, ao contrário, tornar-se expressões concretas de uma vida conduzida pelo discernimento. O problema não está em adquirir, mas em transformar aquilo que adquirimos em senhor de nossa existência. Minha avó tinha razão. E hoje acrescento ao seu ensinamento aquilo que talvez ela dissesse com outras palavras: o que se aprende com sabedoria não é para guardar numa gaveta, exibir num diploma ou usar como degrau para subir na vida. É para repartir. Porque o conhecimento que não nos torna mais humanos pode até encher a cabeça, mas dificilmente engrandece a alma.

ALINHAMENTO CONSTRUTIVO

Como professor de Sociologia do Ensino Médio, elaborei este Encaminhamento Didático focado em conectar as reflexões do texto com conceitos sociológicos fundamentais, como socialização, autonomia, alienação, sociedade de consumo, corpo/biopolítica e ética social.

As questões foram estruturadas de forma discursiva, acessível e progressiva, estimulando os alunos a desenvolverem a capacidade de análise crítica sem perder a simplicidade.

Encaminhamento Didático: Sociologia no Ensino Médio

Tema: A Sabedoria como Eixo da Vida: Conhecimento, Dinheiro, Corpo e Autonomia

Objetivo: Promover a reflexão crítica sobre a formação do pensamento autônomo, as relações sociais mediadas pelo consumo e a valorização do indivíduo em seu contexto comunitário e ético.

1. Conhecimento, Autonomia e "Massa de Manobra"

O autor cita a frase de sua avó: "o que a gente aprende,ninguém tira", e defende que aprender a pensar com autonomia impede que as pessoas se tornem "massa de manobra".

Questão: Do ponto de vista sociológico, qual é a diferença entre apenas acumular informações e desenvolver um pensamento crítico e autônomo? Como a educação pode ajudar um indivíduo a não ser facilmente manipulado pela sociedade?

2. O Dinheiro e as Relações Sociais

O texto debate o papel do dinheiro e faz um alerta sobre o perigo de "ser possuído" pelos bens materiais, relacionando o equilíbrio financeiro ao bem-estar e à honestidade.

Questão: Na sociedade contemporânea (marcada pelo consumismo), muitas vezes o valor das pessoas é medido pelo que elas possuem e não pelo que elas são. Como a busca excessiva pelo dinheiro pode afetar as relações sociais e a convivência entre as pessoas?

3. O Cuidado com o Corpo na Sociedade do Trabalho

O autor destaca que o ritmo acelerado de trabalho e compromissos muitas vezes nos faz negligenciar a saúde física e mental, lembrando que cuidar de si é essencial para continuar vivendo com dignidade.

Questão: A sociedade atual exige constante produtividade e velocidade dos indivíduos. De que maneira a rotina exaustiva do trabalho moderno pode impactar a saúde do trabalhador e o seu "cuidado de si"?

4. Diálogo entre Tradições (Atenas e Jerusalém)

O texto aproxima a filosofia grega (Aristóteles) da tradição bíblica para mostrar que diferentes visões do mundo podem dialogar na busca pelo sentido da vida e pela virtude.

Questão: Por que respeitar e dialogar com diferentes formas de pensar (sejam científicas, religiosas ou filosóficas) é fundamental para a vida em uma sociedade democrática e plural?

5. A Função Social do Conhecimento

Na conclusão, lê-se: "o conhecimento que não nos torna mais humanos pode até encher a cabeça, mas dificilmente engrandece a alma". O autor defende que a sabedoria e o aprendizado servem para ser repartidos.

Questão: Na sua opinião, qual deve ser o papel do estudante ou profissional na sociedade? O conhecimento deve servir apenas para o sucesso individual ou deve ser usado para transformar a comunidade ao seu redor? Justifique sua resposta.

Sugestão de Orientação para Aplicação em Sala:

Tempo estimado: 1 a 2 aulas (50 a 100 minutos).

Metodologia: Recomenda-se uma leitura jogada/compartilhada do texto em sala antes da resolução, incentivando os alunos a sublinharem os pontos em que concordam ou discordam antes de responderem às questões individualmente ou em duplas.

domingo, 11 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(10) O Dinheiro, o Coração e Aquilo que Não Tem Preço

 


Ensaio Teológico VIII(10) O Dinheiro, o Coração e Aquilo que Não Tem Preço

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Houve um mês em que o dinheiro faltou, e ainda me lembro do som exato do silêncio naquela cozinha. A conta de luz vencida repousava sobre a mesa, enquanto eu fingia ler o jornal para não encarar quem dividia a casa comigo. Não havia filosofia capaz de pagar aquela conta, nem frase bonita que enchesse a geladeira. Descobri, na dureza daqueles dias, que a falta de dinheiro não é uma ideia abstrata: é um corpo inteiro em estado de alerta, uma preocupação que nos acompanha até quando tentamos dormir. Anos depois, numa fase de relativa fartura, aprendi outra lição, igualmente incômoda. O dinheiro que sobrava não comprava aquilo de que eu mais precisava naquela semana: alguém que tivesse tempo para me ouvir. De um lado, a aflição de não ter o suficiente para viver; do outro, a constatação de que ter mais não significa, necessariamente, viver melhor. Foram duas escolas diferentes, cada uma com suas próprias lições, e é justamente desse encontro entre a escassez e a abundância que nasce esta reflexão.

Por isso, antes de qualquer conversa sobre riqueza, espiritualidade ou realização pessoal, preciso deixar uma coisa bem clara: é fácil falar em transcender o dinheiro quando o básico já está garantido. Quem não sabe como fechará o mês não precisa, em primeiro lugar, de sermão sobre desapego. Precisa de pão, trabalho digno, moradia, saúde e justiça. A própria Bíblia reconhece essa realidade. Em Provérbios 30:8-9, o pedido é por uma condição que não seja nem de pobreza nem de riqueza, pois a privação extrema também pode empurrar alguém para situações que comprometem seus valores. Portanto, que ninguém me interprete como defensor do desprezo à segurança material. Dinheiro faz falta, sim, e quem já enfrentou uma geladeira vazia sabe muito bem que a dignidade também depende de condições concretas de existência. Minha crítica se dirige a outra coisa: à cultura que transformou o sucesso financeiro e profissional numa espécie de certificado de valor humano. Parece que, hoje, a pessoa precisa apresentar o contracheque, o cargo, os títulos e as conquistas para provar que deu certo na vida. Mas, será que deu mesmo? Provérbios 22:1 afirma que a boa fama vale mais do que grandes riquezas. O texto não declara que possuir dinheiro seja pecado; lembra-nos, antes, que existem bens que a riqueza não consegue comprar. A estima verdadeira, por exemplo, não se adquire na vitrine nem se conquista com uma conta bancária recheada: nasce das relações, da confiança e dos motivos que damos aos outros para nos respeitarem. Michael Sandel, em O que o dinheiro não compra, também nos convida a refletir sobre os limites morais do mercado e sobre os valores que colocamos em jogo quando a lógica financeira invade espaços que não deveriam ser governados por ela. Recorro à paráfrase, e faço questão de esclarecer isso, porque não disponho aqui da página que me permitiria reproduzir suas palavras literalmente. Afinal, se defendo uma reflexão honesta, não posso começar atribuindo a um autor uma frase que não consigo verificar.

Durante algum tempo, imaginei que a resposta estivesse no equilíbrio: um pouco de dinheiro, um pouco de espiritualidade, tudo na medida certa, como quem dosa os ingredientes de uma receita. A ideia parecia razoável, mas logo percebi que a palavra equilíbrio também pode servir de esconderijo para quem não quer enfrentar as próprias contradições. Jesus não tratou a questão apenas como um problema de dosagem. Em Mateus 6:24, afirmou que ninguém pode servir a Deus e a Mamom. A advertência é direta: quando o dinheiro deixa de ser instrumento e passa a ocupar o lugar de senhor, alguma coisa essencial se perde. Isso não significa abandonar o emprego, rejeitar o salário ou viver de braços cruzados, esperando que o pão caia do céu. Significa perguntar, com honestidade, quem está no comando. Se consigo abrir mão de uma vantagem financeira para não trair um princípio, o dinheiro continua sendo uma ferramenta em minhas mãos. Se, ao contrário, aceito qualquer coisa, engulo qualquer injustiça e negocio minha consciência para não perder renda ou prestígio, talvez seja eu quem esteja nas mãos dele. E não adianta enfeitar essa prisão com o nome de sucesso. Paulo, em 1 Coríntios 13:2, lembra que até a profecia, o conhecimento e uma fé capaz de mover montanhas perdem o valor quando falta amor. Leio essa passagem também como um convite a rever a obsessão contemporânea por currículos impecáveis, títulos acumulados e carreiras brilhantes. Formação contínua, habilidades interpessoais e planejamento profissional são conquistas legítimas, sem dúvida. O problema começa quando os meios tomam o lugar dos fins, quando nos preparamos tanto para vencer na profissão que nos esquecemos de aprender a conviver, cuidar e amar. De que adianta subir na carreira se, no caminho, deixamos para trás a consciência, os afetos e a capacidade de reconhecer a humanidade de quem caminha conosco?

Das duas lições que a vida me ensinou — a da escassez e a da fartura —, tiro uma convicção que parece simples, mas não é pequena: o dinheiro facilita a vida, enquanto o amor, a dignidade e a presença humana ajudam a torná-la habitável. Não há contradição em desejar um salário justo, conquistar estabilidade e oferecer melhores condições à família. Contradição seria imaginar que essas conquistas, por si sós, garantem felicidade, respeito ou paz de espírito. Uma geladeira abastecida alivia a preocupação; não substitui o abraço. Uma carreira bem-sucedida pode abrir portas; não garante que haverá alguém disposto a nos escutar quando as portas se fecharem. E uma mesa farta perde parte do sentido quando ninguém se dispõe a repartir o pão, a conversa e o próprio tempo. Por isso, não escrevo para convencer ninguém a desprezar o dinheiro, mas para questionar o lugar que ele ocupa em nossa existência. No fim das contas, volto à pergunta de Mateus 6:21: onde está o meu tesouro? Não é uma pergunta que se responde apenas com palavras bonitas, nem com declarações públicas de fé. A resposta aparece nas escolhas miúdas, naquilo que sacrificamos para ganhar mais, nas pessoas que deixamos esperando enquanto corremos atrás de reconhecimento e nos princípios que preservamos quando ninguém está olhando. O tesouro revela o coração, mas também o denuncia. E talvez a maior riqueza seja chegar ao fim do dia sem precisar esconder de nós mesmos aquilo em que nos transformamos para conquistar o que temos. Afinal, dinheiro é necessário para viver; só não pode se tornar a razão pela qual deixamos de viver aquilo que realmente importa.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A Sala Onde Ninguém Vê ("Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção." — Paulo Freire)

 


A Sala Onde Ninguém Vê ("Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção." — Paulo Freire)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Cheguei antes da hora, como quem chega cedo demais para um enterro. A reunião era às duas, mas eu já estava ali, às treze e meia, sentado naquele banco de madeira do corredor — liso de tanto peso nervoso apoiado nele por gerações de pais. O pátio, vazio, guardava um silêncio de recreio que ainda não tinha coragem de começar. Havia no ar aquele cheiro de giz misturado à merenda fria, um cheiro que eu conhecia de outros tempos, de outras escolas, de outras vidas. E foi talvez esse silêncio que me levou até Davi.

Treze anos, um jeito de rir que desarma qualquer sala e um mundo que, até ali, ainda não tinha lhe emprestado as letras do alfabeto. Não por preguiça — Deus me livre dessa palavra! —, mas porque ninguém tinha encontrado, até então, a chave certa para abrir a porta da cabeça dele. Ainda assim, decidiram: Davi vai para o nono ano. Junto dos grandes. Junto daqueles que já sabem escrever o próprio nome e, pior, o nome de quem os machuca. No papel, a promoção parece avanço. Na vida real, porém, pode ser apenas uma mudança de sala, de corredor e de risco.

Foi pensando nele que aquele banco de madeira virou máquina do tempo e me devolveu aos meus próprios corredores. A escola tem uma memória que não aparece nos boletins, nos diários de classe nem nas atas das reuniões. Foi ali, entre uma aula e outra, que ouvi falar de maconha pela primeira vez — antes mesmo de qualquer adulto em casa desconfiar de que aquela palavra já circulava entre nós. Foi ali também que corriam boatos sobre professores e alunas, cochichados em voz baixa, mas ouvidos alto demais. E foi atrás do banheiro, dentro de uma mochila emprestada, que vi pela primeira vez uma revista que não deveria estar ali. A escola é um território com geografia própria, cheia de esquinas que os adultos juram não existir. Só que elas existem. E essa geografia, convenhamos, nem sempre é gentil com quem chega mais frágil.

É justamente para esse território que, muitas vezes, empurramos os mais indefesos. Falamos em inclusão, matrícula, permanência, adaptação, direitos — palavras bonitas, necessárias, sem dúvida —, mas nenhuma delas, sozinha, garante que uma criança esteja realmente protegida ou que consiga participar da vida escolar. Colocar alguém dentro da sala não significa, automaticamente, fazê-lo pertencer. Às vezes, a porta está aberta, a matrícula está garantida, a chamada é feita, e ainda assim a criança continua do lado de fora.

Lembrei de uma reunião, meses atrás, quando Marta — vou chamá-la assim —, a mãe de Davi, perguntou baixinho, quase como quem se desculpava por fazer a pergunta: "e quem vai ficar com ele no intervalo?" A pergunta caiu no meio da sala feito uma pedra num copo d’água. Silêncio. Ninguém respondeu. Alguém desviou os olhos para a agenda, como se a solução pudesse estar escondida entre uma pauta e outra. Não estava. E talvez aquele silêncio tenha dito mais do que qualquer relatório pedagógico poderia dizer.

Porque inclusão não é presença; é pertencimento. E pertencimento não se decreta — constrói-se. Constrói-se com acompanhamento, com professor de apoio quando necessário, com profissionais preparados, com diálogo entre família e escola, com um projeto pedagógico pensado para aquela criança, e não simplesmente para a média estatística da turma. Não basta dizer que todos têm o mesmo direito se, na prática, alguns precisam de condições diferentes para exercer esse direito. Igualdade, às vezes, começa justamente quando reconhecemos que ninguém chega à escola carregando o mesmo mundo dentro da mochila.

As crianças saíram para o intervalo em fila torta, gritando, correndo, vivendo — como devem gritar, correr e viver as crianças. Fiquei olhando Marta ao longe. Aquela mulher carregava sozinha decisões que deveriam ser coletivas: decisões da família, da escola, da rede de ensino, do Estado e, de certo modo, de todos nós. Quando essa rede falha, o peso não desaparece. Ele apenas muda de ombro. E quase sempre cai sobre os mesmos. Na ausência de uma rede capaz de ampará-lo, Davi corre o risco de virar número numa planilha de matrícula, presença numa chamada, nome num diário de classe — quando, na verdade, é uma vida inteira esperando que alguém enxergue além do diagnóstico, da dificuldade ou da estatística.

Chamaram-me para a reunião. Entrei pensando que talvez a inclusão de verdade não coubesse nos discursos grandiosos das políticas públicas. Talvez ela coubesse muito mais nos pequenos gestos de todos os dias: uma escola especializada quando é disso que se precisa; uma família fortalecida quando é isso que falta; um professor preparado quando hoje existe apenas pela metade; um olhar atento no intervalo, quando ninguém está olhando. Porque é justamente nos lugares onde a burocracia não alcança que a humanidade da escola precisa aparecer.

Saí sem resposta pronta. E talvez isso seja importante. Há perguntas que não merecem uma resposta apressada, porque exigem de nós mais do que palavras: exigem responsabilidade. Saí com uma certeza que carrego como quem leva uma pedra no bolso, lembrando a cada passo que há coisas que não podemos esquecer: proteger um filho frágil não é escondê-lo do mundo. Também não é jogá-lo no mundo sem preparo, sob o pretexto de que isso é inclusão. É ter coragem para olhar a realidade de frente, reconhecer os riscos e escolher, com os olhos abertos, o lugar exato onde ele possa aprender, conviver e, sobretudo, ser visto.

Porque talvez a maior violência não seja enxergar a fragilidade de uma criança. Talvez seja fingir que não a vemos.

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Como seu professor de Sociologia, li atentamente o texto e preparei cinco questões discursivas e diretas. Elas foram pensadas para o nível do Ensino Médio, relacionando a narrativa sensível do texto com conceitos sociológicos fundamentais como socialização, inclusão escolar, desigualdade, instituições sociais e cidadania.

Você pode usar essas questões em sala de aula, para debates ou em avaliações. Vamos ao material:

Questões Discursivas de Sociologia

A socialização e o "território" escolar:

O autor do texto afirma que a escola possui uma "geografia própria, cheia de esquinas que os adultos juram não existir", onde circulam códigos, conversas e experiências próprias dos jovens (muitas vezes à margem do controle formal). A partir da perspectiva sociológica sobre o processo de socialização secundária, explique como a cultura escolar vai além dos conteúdos formais ensinados em sala de aula.

Inclusão versus Pertencimento:

No texto, há uma forte diferenciação entre garantir a presença física de um aluno (a matrícula na escola) e assegurar que ele realmente pertença àquele espaço ("inclusão não é presença; é pertencimento"). Com base nisso, discuta de que maneira a burocracia estatal pode, por vezes, mascarar as barreiras sociais e pedagógicas enfrentadas por alunos em situação de vulnerabilidade.

Desigualdade de pontos de partida e equidade:

O texto aponta que "Igualdade, às vezes, começa justamente quando reconhecemos que ninguém chega à escola carregando o mesmo mundo dentro da mochila." Relacione essa frase com o conceito sociológico de equidade e explique por que tratar todos os estudantes de forma idêntica nem sempre gera justiça social.

A responsabilidade coletiva e a rede de apoio:

Ao observar a mãe de Davi, Marta, o autor reflete que ela carregava sozinha decisões que deveriam ser coletivas (da família, da escola, do Estado). Utilizando o conceito de instituições sociais, analise qual é o papel dessas instâncias na garantia dos direitos fundamentais dos cidadãos e o que acontece quando essa rede falha.

A burocracia e a humanização das relações sociais:

O narrador conclui que a inclusão verdadeira muitas vezes não cabe nos "discursos grandiosos das políticas públicas", mas sim nos pequenos gestos e na humanidade da escola. Do ponto de vista sociológico, discuta a crítica que o autor faz à impessoalidade da burocracia institucional em contraponto à necessidade de empatia e responsabilidade social no cotidiano escolar.