"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sábado, 14 de fevereiro de 2026

O Dia em que Resolvi Desconfiar dos Gráficos (“A ciência é a crença na ignorância dos especialistas.” — Richard Feynman)

 


O Dia em que Resolvi Desconfiar dos Gráficos (“A ciência é a crença na ignorância dos especialistas.” — Richard Feynman)

Por Claudeci Ferreia de Andrade

Começou numa madrugada silenciosa, dessas em que a casa dorme, mas a inquietação permanece acesa como luz esquecida no corredor. Diante do computador, eu rolava artigos científicos com a reverência de quem consulta escrituras. Eram milhares: publicados, revisados por pares, celebrados em congressos, citados como argumentos finais em jantares de família e trincheiras digitais.

A ciência — dizíamos — havia falado.

Naquela noite, porém, decidi inverter o olhar. Em vez de me deter nas conclusões em negrito, desci aos rodapés. Busquei o que se escondia em letras menores: financiamentos, conflitos de interesse, critérios de exclusão, ajustes estatísticos que domavam o acaso. Notei tamanhos de amostra aparentemente robustos que se revelavam frágeis; significâncias estatísticas impressionantes que, examinadas de perto, tinham impacto clínico modesto.

Não eram todos os estudos — seria injusto e intelectualmente desonesto sugerir uma conspiração generalizada. Mas eram suficientes para me inquietar.

Vieram à memória episódios conhecidos: a cruzada contra as gorduras saturadas nos anos 1980, quando diretrizes alimentares, sustentadas por leituras seletivas de dados, abriram espaço para uma enxurrada de produtos “low-fat” carregados de açúcar. Décadas depois, revisões mais amplas revelaram um cenário bem mais complexo do que a narrativa original admitia. Pensei também nos debates atuais sobre ultraprocessados: há pesquisas rigorosas apontando riscos consistentes, mas também estudos financiados por grandes conglomerados que minimizam danos e destacam benefícios pontuais com entusiasmo estatisticamente conveniente. O financiamento não determina automaticamente o resultado — mas tampouco é detalhe irrelevante.

Foi aí que percebi a fissura. Não na ciência como método, mas na ciência convertida em retórica.

Em certos contextos, vi estatísticas erguidas como espadas para absolver produtos industriais e condenar, com desdém ilustrado, a comida simples que atravessou gerações. Como se o laboratório tivesse autoridade absoluta sobre o prato da minha avó — nunca submetido a ensaio clínico randomizado, mas testado por décadas de vidas concretas.

Não se trata de opor tradição e investigação científica como exércitos rivais. O saber tradicional é empírico, acumulado, contextual; o científico é sistemático, replicável, universalizante. Quando dialogam, ampliam horizontes. Quando se hierarquizam de forma dogmática, empobrecem-se. Identificar toxinas por análise laboratorial é avanço; desprezar práticas ancestrais sem escutá-las é arrogância metodológica.

Enquanto percorria gráficos coloridos, percebi outro fenômeno: a ascensão dos intérpretes performáticos da ciência. Influenciadores que citam artigos sem discutir metodologia, brandem jargões como escudos, transformam estudos observacionais em sentenças definitivas e constroem comunidades fiéis como torcidas organizadas.

A economia da atenção não recompensa prudência. Algoritmos favorecem indignação, certeza e simplificação; complexidade honesta raramente viraliza. Uma metanálise criteriosa dificilmente compete com um vídeo de trinta segundos prometendo “a verdade que a indústria não quer que você saiba”. Assim se consolida uma autoridade fundada menos na leitura crítica e mais na segurança teatral.

Há, nisso, um problema ético incontornável. Quando dados são distorcidos — por interesses corporativos, vaidades acadêmicas ou oportunismo digital — não ocorre apenas um deslize metodológico, mas uma violência epistêmica. Populações vulneráveis arcam com as consequências: consumidores de baixa renda convencidos de que ultraprocessados baratos são escolhas ideais; idosos submetidos a medicalizações excessivas com base em evidências frágeis; comunidades afetadas por políticas públicas moldadas por números que impressionam mais do que esclarecem.

A verdade mal interpretada não é neutra. Ela pesa mais sobre quem tem menos margem para errar.

Talvez por isso tantas instituições educacionais se deixem seduzir por métricas. Avaliações padronizadas transformam aprendizagem em gráficos comparáveis; rankings oferecem a ilusão de controle; números legitimam decisões e verbas. Forma-se, assim, uma geração treinada para consumir estatísticas, não para interrogá-las. Aprende-se a repetir percentuais antes de perguntar de onde vieram.

Fechei o computador. A madrugada permanecia intacta; eu, não.

A conclusão que amadureceu não era um manifesto contra a ciência, mas um gesto de fidelidade a ela. Questionar não é trair o método — é honrá-lo. A dúvida honesta não ameaça a investigação; sustenta-a.

Desde então, adotei uma disciplina simples: verificar financiamentos; distinguir estudos observacionais de ensaios clínicos randomizados; priorizar revisões sistemáticas em vez de resultados isolados; perguntar se a significância estatística corresponde a benefício real; reconhecer, com humildade, os limites do meu próprio entendimento.

Cultivar essa vigilância tornou-se menos sedutor do que opinar com convicção, mas infinitamente mais íntegro.

Hoje, em outra madrugada, volto ao computador. A casa ainda dorme. Os gráficos continuam elegantes, as curvas precisas, as conclusões sedutoras. Nada disso mudou.

O que mudou foi o olhar.

Não perdi a confiança na ciência; abandonei a tentação de transformá-la em altar. Aprendi que a verdade científica, quando é verdade, não teme perguntas — cresce com elas. E que desconfiar dos gráficos, às vezes, é o primeiro passo para enxergar o que eles mostram — e, sobretudo, o que silenciosamente deixam de mostrar.


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Olá! Que prazer recebê-lo nesta "sala de aula" virtual. Como professor de Sociologia, vejo neste texto uma oportunidade valiosa para discutirmos Epistemologia (como conhecemos o que conhecemos) e Sociologia da Ciência. O texto nos convida a pensar a ciência não como um conjunto de verdades estáticas, mas como um campo de forças onde operam interesses econômicos, políticos e sociais. Para os nossos alunos do Ensino Médio, o desafio é entender que criticar o uso da ciência não é ser contra a ciência, mas sim defender a sua integridade. Aqui estão as 5 questões discursivas pensadas para instigar esse olhar crítico:


1. A Ciência como Instituição e o Poder do Financiamento

O autor afirma que "o financiamento não determina automaticamente o resultado — mas tampouco é detalhe irrelevante". Do ponto de vista da sociologia das organizações, como o patrocínio de grandes empresas em pesquisas científicas pode influenciar a produção do conhecimento e quais os riscos de a ciência ser utilizada como "retórica" em vez de "método"?

2. Saber Científico vs. Saber Tradicional

O texto menciona que o laboratório muitas vezes tenta exercer uma "autoridade absoluta sobre o prato da minha avó". Explique a diferença sociológica entre o saber empírico/tradicional (passado por gerações) e o saber científico sistemático. É possível que ambos coexistam sem que um despreze o outro? Justifique.

3. A Economia da Atenção e os "Intérpretes da Ciência"

Muitos influenciadores digitais utilizam jargões científicos para construir comunidades de "torcidas organizadas". Como os algoritmos das redes sociais e a busca por simplificações impactam a percepção pública da ciência e a capacidade da sociedade de lidar com temas complexos?

4. Violência Epistêmica e Desigualdade Social

O autor argumenta que "a verdade mal interpretada não é neutra" e que ela pesa mais sobre populações vulneráveis. Como a distorção de dados científicos (sobre alimentação ou saúde, por exemplo) pode aprofundar as desigualdades sociais e afetar a vida de quem possui "menos margem para errar"?

5. Educação e o Culto às Métricas

Segundo o texto, muitas instituições de ensino treinam gerações para "consumir estatísticas, não para interrogá-las". Pensando no papel da escola, como o foco excessivo em rankings e avaliações padronizadas pode prejudicar o desenvolvimento do pensamento crítico e da autonomia intelectual dos estudantes?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O Reflexo nas Mãos: Evolução, Estrogênio e o Futuro da Educação (“A evolução não se faz apenas com garras e dentes, mas com a capacidade de cuidar e compreender.” — Frans de Waal)

 



O Reflexo nas Mãos: Evolução, Estrogênio e o Futuro da Educação (“A evolução não se faz apenas com garras e dentes, mas com a capacidade de cuidar e compreender.” — Frans de Waal)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Naquela manhã, enquanto o café ainda filtrava lentamente, reparei nas minhas mãos apoiadas sobre a mesa. Sempre as considerei instrumentos práticos — servem para escrever, gesticular, contar moedas, folhear livros. Nada além disso. No entanto, meus olhos se detiveram na diferença quase imperceptível entre o indicador e o anelar. Recordei, então, a pesquisa que lera dias antes: o comprimento dos dedos pode guardar pistas silenciosas sobre quem fomos antes mesmo de nascer.

Há certa poesia nisso. Costumamos imaginar a evolução humana como uma sucessão de grandes conquistas — o fogo, a roda, a escrita — mas talvez parte dessa história esteja inscrita discretamente na proporção 2D:4D de nossas mãos. O professor John Manning, da Universidade de Swansea, dedicou anos ao estudo dessa relação entre o dedo indicador e o anelar. Segundo suas investigações, essa proporção reflete o equilíbrio hormonal ao qual o feto é exposto no primeiro trimestre da gestação: maior presença de estrogênio tende a alongar o indicador; predominância de testosterona favorece o anelar.

O que mais me chamou a atenção, porém, foi outro dado. Em um estudo com 225 recém-nascidos — 100 meninos e 125 meninas — verificou-se que, entre os meninos, proporções mais altas (indicando maior exposição pré-natal ao estrogênio) estavam associadas a maior circunferência craniana, medida fortemente correlacionada ao tamanho do cérebro e, mais tarde, a indicadores de desempenho cognitivo. Entre as meninas, essa relação não se manifestou da mesma maneira.

Manning evoca, nesse contexto, a hipótese do “macaco estrogenizado”, segundo a qual o aumento do cérebro humano ocorreu paralelamente a uma feminização gradual do esqueleto ao longo da evolução. O ganho cognitivo, entretanto, pode ter trazido custos biológicos: maior predisposição masculina a problemas cardiovasculares, infertilidade e transtornos psiquiátricos. Como se a natureza tivesse operado uma troca silenciosa — mais capacidade cerebral, menor robustez física tradicional.

Ao fechar o artigo, minha memória me levou à sala dos professores da escola onde lecionei por tantos anos. A presença feminina ali é amplamente majoritária. Os poucos homens que permanecem frequentemente revelam modos mais delicados, sensibilidade apurada, paciência constante. Não o digo como crítica, mas como observação cotidiana. O magistério, sobretudo na educação básica, consolidou-se como um espaço em que escuta, empatia e cuidado — traços culturalmente associados ao feminino — deixaram de ser diferenciais e tornaram-se requisitos essenciais.

Se aceitarmos que, segundo a pesquisa, cérebros maiores em homens podem estar ligados a maior influência estrogênica pré-natal, e que a docência exige intenso exercício intelectual e estabilidade emocional, é possível supor que tenderão a permanecer no sistema educacional aqueles indivíduos — mulheres e homens com traços mais “feminilizados” — cujo perfil favoreça habilidades cognitivas refinadas, comunicação sensível e adaptação emocional. Não se trata de estabelecer determinismos, mas de perceber a convergência entre dados científicos e transformações sociais já visíveis.

Além disso, os custos biológicos associados a determinadas proporções hormonais podem influenciar a permanência de certos perfis ao longo da vida profissional. Se a evolução privilegiou cérebros maiores, ainda que à custa de alguma vulnerabilidade, é plausível imaginar que prosperarão nos ambientes educacionais aqueles com maior equilíbrio cognitivo e emocional.

Contudo, ao observar novamente minhas mãos, compreendi o risco de reduzir o humano a índices anatômicos. Somos mais que proporções digitais: somos escolhas, circunstâncias e vocações. A biologia pode sugerir tendências; a cultura, porém, redefine destinos. Talvez o futuro da educação se torne cada vez mais feminino — não apenas em número, mas em sensibilidade. E isso talvez não represente perda alguma, mas um amadurecimento coletivo.

Se o preço de cérebros maiores foi uma lenta feminização da espécie, talvez estejamos apenas presenciando o desdobramento dessa longa história evolutiva. No fim, o que sustenta uma sala de aula não é a força do braço, mas a delicadeza da escuta. E, ao contemplar minhas mãos, percebi que a evolução pode ter moldado nossos ossos — mas é a consciência que decide o rumo que lhes damos.


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Como professor de sociologia, vejo que esse texto é um material riquíssimo para discutirmos temas como natureza versus cultura, gênero, trabalho e a própria evolução das instituições sociais. O texto nos convida a sair do senso comum e olhar para a biologia não como um destino fatalista, mas como um pano de fundo para nossas construções sociais. Aqui estão 5 questões discursivas, elaboradas com uma linguagem acessível para estudantes do Ensino Médio, focadas no desenvolvimento do pensamento crítico:


Questão 1

O texto menciona a proporção entre os dedos (2D:4D) como um reflexo de hormônios no período gestacional. De acordo com o autor, como essa característica biológica pode estar relacionada ao desenvolvimento cerebral e cognitivo nos homens?

Questão 2

O autor utiliza o termo “macaco estrogenizado” para explicar uma hipótese evolutiva. Explique, com suas palavras, o que seria essa "troca silenciosa" feita pela natureza: o que a espécie humana teria "ganhado" e o que teria "perdido" nesse processo?

Questão 3

Ao observar a sala dos professores, o autor percebe que o magistério é um espaço majoritariamente feminino ou de homens com traços mais sensíveis. Por que habilidades como a "escuta" e a "empatia" tornaram-se requisitos essenciais na educação básica moderna, superando a ideia de força ou autoridade física?

Questão 4

A sociologia frequentemente discute o Determinismo Biológico (a ideia de que nossa biologia define totalmente quem somos). Como o autor do texto se posiciona em relação a isso no parágrafo em que diz: "A biologia pode sugerir tendências; a cultura, porém, redefine destinos"?

Questão 5

A epígrafe de Frans de Waal afirma que a evolução também se faz com a "capacidade de cuidar". Relacione essa frase com a conclusão do texto, discutindo por que a "feminização" da educação pode ser vista como um "amadurecimento coletivo" da nossa sociedade.

Dica para o Professor:

Ao corrigir essas questões, busque avaliar se o aluno compreendeu que o texto não está dizendo que "homens não podem ser professores", mas sim que o perfil exigido pela sociedade atual para a educação valoriza traços de cuidado e inteligência emocional, que o autor associa a uma trajetória evolutiva específica.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A Arte Perdida de Perguntar: O Crepúsculo da Curiosidade

 




A Arte Perdida de Perguntar: O Crepúsculo da Curiosidade

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Guardo na memória o rosto de Lucas — nome inventado, experiência real. Tinha seis anos e segurava a mochila maior que o próprio corpo na véspera do primeiro dia de aula. Perguntava pouco. Apenas uma coisa: “Vai dar tempo de eu pensar?” Sorri, sem compreender plenamente o alcance da pergunta. Hoje, compreendo. Naquele quase silêncio habitava algo raro: a curiosidade ainda intacta, à espera de espaço.

Os anos avançaram com eficiência burocrática. Séries cumpridas, conteúdos vencidos, provas arquivadas. No percurso, porém, algo se perdeu. No Ensino Médio, as perguntas rarearam; na universidade, passaram a soar como indisciplina. Não foi a curiosidade que amadureceu — foi o silêncio que se profissionalizou. A educação seguiu, paradoxalmente, no sentido inverso do pensamento: quanto mais escolarização, menos interrogação.

Não se trata apenas de melancolia pessoal. Pesquisas educacionais indicam o predomínio de metodologias centradas na memorização, no desempenho em testes padronizados e na lógica do acerto rápido. Em nome da eficiência, consolidou-se um pensamento lógico-linear, algorítmico, treinado para responder, não para perguntar. O imaginativo, o dialógico, o pensamento que erra, retorna e tensiona, passou a ser tratado como distração — quando deveria ser a matriz da autonomia. Não se idealiza aqui a curiosidade infantil, mas se reconhece que a qualidade da pergunta precisa ser cultivada, não domesticada.

É da dúvida que nasce o pensamento sofisticado. O cientista que rompe paradigmas, o entrevistador que revela o invisível, o filósofo que desloca certezas — todos são filhos da pergunta bem formulada. Ainda assim, nossas escolas transformaram professores em cozinheiros do conhecimento: seguem receitas prontas, servem conteúdos mornos e observam, resignados, uma plateia sem apetite intelectual. Não por desinteresse natural, mas por exaustão simbólica.

O problema extrapola a pedagogia: é estrutural. Vivemos sob um modelo educacional pressionado por métricas, rankings, produtividade e credencialismo. O tempo da reflexão cede lugar ao tempo da entrega. Experimentar virou risco. Questionar virou atraso. Assim, enquanto os estudantes ocupam fisicamente a sala de aula, suas mentes habitam outros territórios — redes, grupos, bolhas de pares e jogo de baralho — onde se formam identidades, conflitos, pertencimentos e exclusões.

Por isso, quando um aluno pergunta, esse gesto deveria ser protegido como acontecimento raro. A pergunta precisa ser celebrada, não ridicularizada; acolhida, não corrigida às pressas. Pode funcionar como escudo contra o isolamento, o bullying e o sofrimento silencioso que, não raro, desemboca em automutilação ou desistência da própria vida. Ensinar a perguntar é também ensinar a existir. É entre os pares que os maiores conflitos emergem — e é ali que a pergunta pode inaugurar alguma forma de cura.

Costumamos evocar Harvard, Oxford ou Pequim como espelhos incômodos. A comparação é injusta se ignorar desigualdades materiais e históricas, mas reveladora no essencial: não é o luxo que produz pensadores, e sim a permissão ao pensamento. Aqui, ainda engatinhamos na formação de sujeitos críticos, embora sejamos especialistas em produzir repetidores eficientes de dados.

Volto a Lucas. Hoje, universitário, responde tudo com precisão. Mas quase não pergunta. Não por falta de inteligência, e sim por condicionamento. Talvez o maior fracasso da educação contemporânea não esteja na ausência de respostas corretas, mas no silenciamento progressivo das perguntas vivas. E quando a pergunta morre, não morre apenas o pensamento — morre também a possibilidade de um futuro que faça sentido.


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Olá! Como seu professor de Sociologia, fico muito satisfeito em trabalhar com um texto que toca em feridas tão necessárias do nosso sistema educacional. Este material é um prato cheio para discutirmos Socialização, Instituições Sociais e a Reprodução das Desigualdades. O texto nos convida a pensar como a escola, muitas vezes, em vez de libertar o pensamento, acaba por "domesticá-lo" para atender às exigências do mercado e da burocracia. Aqui estão 5 questões discursivas, pensadas para o nível de Ensino Médio, que conectam o texto aos conceitos sociológicos:

1. Socialização e Instituição Escolar. O texto afirma que o silêncio do aluno se "profissionalizou" ao longo dos anos. Do ponto de vista da sociologia da educação, como a escola atua como um agente de socialização que molda o comportamento do indivíduo para se adequar a normas e hierarquias, muitas vezes sacrificando a espontaneidade e a curiosidade?

2. A "Escola de Massas" e a Lógica Algorítmica. O autor menciona que vivemos sob um modelo pressionado por "métricas, rankings e produtividade". Relacione esse cenário ao conceito de Racionalidade Instrumental (de Max Weber): como a busca obsessiva pela eficiência e por "respostas certas" pode acabar transformando a educação em uma linha de montagem, em vez de um espaço de formação humana?

3. O Papel do Professor e a Reprodução do Conhecimento. O texto descreve os professores como "cozinheiros do conhecimento" que seguem receitas prontas. Discuta como a estrutura do sistema educacional atual pode limitar a autonomia do docente e transformar o ensino em uma mera transmissão de conteúdos "mornos", impedindo o desenvolvimento do pensamento crítico dos alunos.

4. Interação Social e Identidade. Segundo o autor, enquanto o corpo está na sala, a mente do aluno habita "redes, grupos e bolhas de pares". Como esses espaços de interação informal influenciam a construção da identidade do jovem e por que eles parecem ser mais atraentes ou "vivos" do que o espaço formal da sala de aula?

5. A Pergunta como Ferramenta de Cidadania. A conclusão do texto sugere que "quando a pergunta morre, morre também a possibilidade de um futuro que faça sentido". Explique a importância sociológica de "aprender a perguntar" para o exercício da Cidadania Ativa. Por que uma sociedade composta por "repetidores de dados" é mais vulnerável a manipulações e menos capaz de transformar sua própria realidade?

Dica Pedagógica para o Aluno:

Ao responder, tente não apenas copiar trechos do texto. Use a sua experiência como estudante para confirmar ou questionar as ideias do autor. A Sociologia é, antes de tudo, uma ciência que nos ajuda a olhar para a nossa própria realidade com "estranhamento" e espírito crítico.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Quando o Professor Chora: Diagnóstico de uma Escola Adoecida (“Ensinar exige coragem para ser vulnerável.” — bell hooks

 



Quando o Professor Chora: Diagnóstico de uma Escola Adoecida (“Ensinar exige coragem para ser vulnerável.” — bell hooks)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há dias em que a escola deixa de ser prédio e vira organismo. Respira ofegante, range ossos nos corredores, testa nossos limites com a precisão cruel de quem conhece nossas fissuras mais íntimas. Isso se revela com nitidez em certas reuniões pedagógicas que começam sob o pretexto de planejar o ano, avaliar o que foi feito, alinhar rumos. Mas o roteiro é conhecido: rapidamente o planejamento cede lugar à "lavação de roupa suja". Não há sugestões, apenas julgamentos; não há escuta, apenas condenações disfarçadas de zelo profissional. O que emerge ali não é projeto coletivo, mas ressentimento acumulado, vinganças afetivas e frustrações mal elaboradas. Quando, ao final, a coordenadora chora diante do próprio corpo docente, o que se rompe não é apenas sua compostura — é a ilusão de que aquele espaço ainda se sustenta sobre um pacto ético de cuidado mútuo.

Esse choro público carrega consequências profundas. Moralmente, ele desorganiza as hierarquias simbólicas: a figura que deveria mediar conflitos aparece exposta, vulnerável, sem rede. Em vez de produzir empatia, muitas vezes gera constrangimento, silêncio cúmplice ou cinismo defensivo. Emocionalmente, instala um clima de insegurança difusa: se até quem coordena desaba, quem sustenta o cotidiano? O efeito é perverso — o sofrimento não aproxima, isola. Cada um retorna à sua sala com a sensação de que ali ninguém será amparado quando o limite for ultrapassado.

Foi num desses dias aparentemente banais que compreendi, pela via mais dolorosa, que o choro do professor em sala de aula obedece à mesma lógica. Em meu quarto ano de magistério, assumi uma turma de sétimo ano sem acolhimento, sem mentoria, sem passagem de bastão. Entrei naquela sala como quem ocupa uma casa já habitada: móveis fora do lugar, memórias alheias no ar, códigos afetivos que não me pertenciam. Planejei a aula com rigor quase ritual, acreditando — como ainda acreditam os iniciantes — que método bastaria. Mas a proposta se dissolveu em dispersão, ruídos e pequenos conflitos. À época, li aquilo como desrespeito. Hoje sei: era luto pedagógico. Alunos que perderam uma referência e receberam uma estranha. O caos não era ataque — era desamparo.

Quando perdi o controle da voz, perdi também a imagem de autoridade que eu tentava sustentar. O choro que veio — envergonhado, solitário, escondido no banheiro — não foi reação a uma aula que falhou, mas ao acúmulo invisível de violências naturalizadas: a solidão profissional, a ausência de suporte institucional, a cobrança por desempenho em contextos instáveis. Moralmente, aquele choro abriu fissuras na autoridade; emocionalmente, instaurou culpa e vergonha. Mas, como o choro da coordenadora na reunião, ele denunciava algo maior: uma instituição que exige equilíbrio constante sem oferecer sustentação.

A escola ensina a resistir, mas não ensina a pausar. Treina para o heroísmo silencioso — aguentar mais um ano, mais uma turma, mais uma humilhação — e pune qualquer tentativa de desaceleração. Parar é lido como fraqueza; adoecer, como falha moral. Aprendi, tardiamente, que o erro não estava em sentir demais, mas em não haver espaços legítimos para elaborar o que se sente. Quando a pausa é proibida, o corpo fala. E fala chorando.

Por isso, o choro no ambiente escolar não deve jamais ser tratado como problema individual. Ele é sintoma coletivo, expressão de uma organização do trabalho que adoece enquanto cobra desempenho. Quando exposto sem acolhimento, produz constrangimento e isolamento; quando reconhecido, pode se transformar em consciência política. Chorar é humano. O erro reside em permitir que o profissional permaneça sozinho em sua dor. Converter o choro isolado — da coordenação, do professor, de qualquer trabalhador da educação — em responsabilidade coletiva talvez seja o gesto mais urgente e mais revolucionário que ainda nos resta dentro da escola.


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Olá! Como seu professor de Sociologia, fico satisfeito em ver como este texto mergulha na Sociologia das Organizações e na Saúde do Trabalhador. Ele nos desafia a olhar para a escola não apenas como um lugar de ensino, mas como um espaço de relações de poder, afetos e, infelizmente, de adoecimento estrutural. Aqui estão 5 questões discursivas, elaboradas de forma simples e direta, para refletirmos sobre esses conceitos:


1. A Escola como Organismo e o Pacto Ético. O texto descreve a escola como um "organismo" onde reuniões pedagógicas muitas vezes viram "lavação de roupa suja". Na sua visão, por que a falta de um pacto ético de cuidado mútuo entre os profissionais dificulta a construção de um projeto coletivo de educação?

2. A Fragilização das Hierarquias Simbólicas. Quando uma coordenadora chora publicamente, o texto diz que isso "desorganiza as hierarquias". Como a Sociologia explica o fato de que, em nossa sociedade, a vulnerabilidade de quem ocupa cargos de liderança costuma causar constrangimento ou insegurança em vez de gerar acolhimento imediato?

3. O "Luto Pedagógico" vs. Indisciplina. O autor ressignifica a desordem dos alunos como "luto pedagógico" (desamparo pela troca de professor) e não como um ataque pessoal. Como essa mudança de olhar ajuda a entender que os conflitos em sala de aula podem ser sintomas de problemas sociais e afetivos, e não apenas "falta de educação" individual?

4. A Instituição que Exige Heroísmo. O texto afirma que a escola "treina para o heroísmo silencioso" e lê a pausa como fraqueza. Como a cobrança excessiva por desempenho e resistência, sem oferecer suporte emocional, contribui para o fenômeno do burnout (esgotamento profissional) entre os professores?

5. Do Choro Individual à Consciência Política. Ao final, defende-se que o choro deve ser visto como um "sintoma coletivo" e não uma "falha moral". O que significa, na prática, transformar a dor individual em consciência política dentro de uma instituição de ensino?

Dica do Professor:

Lembre-se: em Sociologia, quando um problema se repete com muitas pessoas em lugares diferentes (como vários professores chorando ou se sentindo exaustos), ele deixa de ser um "problema pessoal" e passa a ser um fato social. Investigar as causas disso é o primeiro passo para a mudança!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A Ilusão do Rigor como Sinônimo de Qualidade (ENAMED — 2026)

 



A ilusão do rigor como sinônimo de qualidade (ENAMED — 2026)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Desde a divulgação dos resultados da primeira edição do Enamed, em 2024, consolidou-se no debate público — especialmente em pronunciamentos de gestores estaduais, setores conservadores da categoria médica e editoriais de parte da imprensa — a interpretação de que o exame teria revelado falhas estruturais solucionáveis, sobretudo, por maior rigor regulatório e pela contenção da expansão dos cursos de Medicina. Embora politicamente sedutora, essa leitura simplifica um problema que é, em sua natureza, sistêmico e multifatorial.

Reduzir a qualidade da formação médica a indicadores pontuais ignora a complexidade do processo educacional. Avaliações em larga escala cumprem função diagnóstica, jamais explicativa. Como adverte Michael Power, “a obsessão por auditorias tende a confundir controle com melhoria real” (POWER, 1997). Um desempenho satisfatório ou insuficiente no Enamed não apreende, por si só, a densidade pedagógica dos currículos, a qualidade do internato, a integração com o Sistema Único de Saúde nem a trajetória formativa de longo prazo dos egressos. Eleger o exame como critério quase absoluto tende a estimular um ensino voltado ao treinamento para provas, em detrimento da complexidade da prática clínica.

Os dados globais reforçam essa cautela. A Organização Mundial da Saúde estima um déficit superior a 10 milhões de profissionais de saúde até 2030, afirmando que “a escassez de médicos é um dos principais entraves à equidade no acesso à saúde” (OMS, 2023). No Brasil, onde a distribuição desses profissionais permanece profundamente desigual, políticas restritivas de vagas tendem a ampliar vazios assistenciais, sem assegurar, por si mesmas, um salto qualitativo na formação.

O caso da Universidade Estadual de Goiás ilustra esse argumento. Relatórios institucionais e dados orçamentários indicam que a elevação da qualidade do curso decorreu de concursos docentes, investimentos em infraestrutura laboratorial, ampliação de convênios com o SUS e reorganização curricular — e não do simples fechamento temporário de turmas. Como observa Martha Nussbaum, “educação de qualidade não nasce da exclusão, mas do fortalecimento deliberado das capacidades humanas” (NUSSBAUM, 2011).

À objeção recorrente de que cursos frágeis formariam médicos inseguros, é preciso responder com rigor analítico: exames punitivos não substituem financiamento adequado, supervisão contínua e avaliação formativa. Experiências internacionais, como no Canadá e em Portugal, indicam que a melhoria sustentável resulta do acompanhamento institucional permanente, e não de interdições episódicas.

Assim, a qualidade não se impõe por proibição ou por rankings. Ela se constrói por políticas públicas consistentes, compromisso social e processos avaliativos orientados à melhoria — dimensões que nenhum exame isolado é capaz de mensurar plenamente.


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Olá! Como seu professor de Sociologia, vejo que este texto é uma excelente ferramenta para discutirmos a Sociologia das Organizações e as Políticas Públicas. Ele nos desafia a olhar além dos números e entender como as instituições tentam medir a "qualidade" e quais são as consequências sociais dessas escolhas. Aqui estão 5 questões discursivas pensadas para o nível de Ensino Médio, focadas na análise crítica do texto:


1. A "Cultura da Auditoria" e o Controle Social. O texto cita Michael Power para alertar que a "obsessão por auditorias tende a confundir controle com melhoria real". Do ponto de vista sociológico, como a transformação de um exame (como o Enamed) em um "critério absoluto" pode mudar o comportamento das escolas de medicina, fazendo-as focar mais em rankings do que na formação de bons médicos?

2. Desigualdade Regional e Acesso à Saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que a falta de médicos é um obstáculo à equidade. Considerando o cenário brasileiro, por que a proposta de "conter a expansão dos cursos" pode ser vista como uma medida que aprofunda a desigualdade entre as grandes capitais e o interior do país?

3. O Sucesso da UEG e o Investimento Institucional. O autor utiliza o exemplo da Universidade Estadual de Goiás (UEG) para mostrar que a qualidade veio de "investimentos em infraestrutura e concursos docentes", e não de punições. Como essa análise reforça a ideia de que o Estado deve atuar como um provedor de recursos e não apenas como um fiscalizador punitivo?

4. O Ensino como "Treinamento para Provas". O texto sugere que focar apenas em avaliações de larga escala pode "estimular um ensino voltado ao treinamento para provas". Explique como esse fenômeno (conhecido como "ensinar para o teste") pode esvaziar a função social da educação, transformando o conhecimento em uma mercadoria estatística.

5. Educação: Exclusão vs. Fortalecimento de Capacidades. Utilizando a citação de Martha Nussbaum ("educação de qualidade não nasce da exclusão"), discuta por que o autor defende que "qualidade não se impõe por proibição". Qual seria, segundo o texto, o papel da avaliação se ela não fosse usada para punir ou fechar cursos?

Dica do Professor:

Para responder a essas questões, pense na escola e na universidade como engrenagens da sociedade. Se a engrenagem só se move para bater metas numéricas, ela deixa de produzir o que a sociedade realmente precisa: profissionais humanos e preparados para o mundo real.

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