Ensaio Teológico IX(2) A MESA DA SABEDORIA: ENTRE A CIÊNCIA E A COMPANHIA
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há textos que envelhecem como o pão e outros que envelhecem como o vinho. Ao abrir Provérbios 9, pergunto-me não se o cardápio ainda serve, mas a quem pertence a mesa posta ali. Deparo-me com a Sabedoria, a Hokmá da tradição hebraica, construindo sua casa, preparando o banquete, misturando o vinho e enviando suas servas às praças para fazer um convite (Pv 9:1-5). Ela não impõe regras nem distribui receitas prontas: chama o ingênuo a abandonar a ingenuidade e a trilhar o caminho do discernimento (Pv 9:6). Afinal, mais do que encher a barriga, é preciso aprender a alimentar a consciência.
Confesso que, numa primeira leitura, reagi como um sujeito moderno, desses que logo puxam a calculadora antes de se sentarem à mesa. Vi carnes e vinho e me vieram à cabeça as recomendações atuais da ciência sobre alimentação, consumo de álcool e prevenção de doenças crônicas. A Organização Mundial da Saúde recomenda o consumo diário de pelo menos quatrocentos gramas de frutas e hortaliças, além de uma alimentação equilibrada, com grãos integrais e leguminosas, e moderação no consumo de açúcares, sal e gorduras. Sob esse olhar, transformar um banquete de carnes e vinho em modelo de alimentação cotidiana seria, de fato, um mau conselho. Mas, será que o texto bíblico está mesmo querendo nos ensinar a montar o prato?
Foi aí que percebi o tropeço: eu estava cobrando de um poema a precisão de uma receita médica. Provérbios 9 pertence à literatura sapiencial, e seu banquete é, antes de tudo, uma imagem de partilha, abundância, acolhimento e formação humana. A Sabedoria põe a mesa para ensinar a viver, não para prescrever um cardápio. E o próprio livro de Provérbios trata de desfazer qualquer interpretação que transforme fartura em virtude automática: condena a glutonaria e a embriaguez (Pv 23:20-21), recomenda moderação até no consumo do mel (Pv 25:16) e afirma que é melhor um prato de hortaliças servido com amor do que um boi cevado acompanhado de ódio (Pv 15:17). A mensagem, portanto, não está apenas no que se põe sobre a mesa, mas também no que se cultiva ao redor dela. Estudiosos como Michael V. Fox e Gerhard von Rad ajudam a compreender essa dimensão formativa da sabedoria antiga. E, quando penso nisso, volto à mesa de minha avó: arroz, feijão, couve e frango só em dia de festa. Era comida simples, sem luxo nem cerimônia, mas ali aprendi, sem saber, que o alimento também mora na conversa, no afeto e na presença de quem se senta ao nosso lado.
Por essas e outras, já não vejo a ciência e a sabedoria antiga como adversárias disputando o mesmo prato. Cada uma tem seu lugar à mesa. A ciência nos ajuda a compreender o que faz bem ao corpo; a sabedoria nos provoca a pensar no sentido daquilo que fazemos e na maneira como vivemos. Sem reflexão, podemos até seguir uma dieta impecável e continuar famintos de companhia. Por outro lado, sem conhecimento científico, corremos o risco de santificar hábitos que já não nos fazem bem, confundindo tradição com obrigação. Reinterpretar Provérbios, para mim, não significa corrigir a Bíblia como quem corrige a lição de um aluno, mas continuar a conversa que ela iniciou, trazendo para a mesa de hoje o vegetariano, o enfermo, quem tem fé e quem não tem. Afinal, uma mesa verdadeiramente sábia não exige que todos comam a mesma coisa; exige que ninguém seja tratado como menos digno por aquilo que come ou deixa de comer. No fim das contas, talvez a sabedoria alimentar consista em saber o que comer e com quem compartilhar a refeição. A primeira parte, a ciência continua refinando a cada década; a segunda, os Provérbios já me ensinam há milênios. E eu, feito aprendiz que ainda não sabe tudo, continuo aceitando o convite.







