"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Ensaio Teológico VII(14) Religião e Moralidade: Desconstruindo Mitos e Ressignificando Valores

 

Ensaio Teológico VII(14) Religião e Moralidade: Desconstruindo Mitos e Ressignificando Valores

 Por Claudeci Ferreira de Andrade

Tenho em mente dois homens que dividem a mesma rua. O primeiro é ateu, conserta de graça a instalação elétrica das viúvas do bairro e nunca aparece numa festa sem antes perguntar quem está sozinho. O segundo é diácono, ocupa o primeiro banco aos domingos, fala de Deus com desenvoltura e, na segunda-feira, atrasa o salário de quem trabalha para ele. Se a moral fosse propriedade de uma crença, um dos dois estaria no lugar errado. Mas, ambos estão exatamente onde a vida os colocou — e é justamente aí que a pergunta começa a apertar: o que, afinal, faz um ser humano bom? Começo com uma honestidade que considero necessária: quase ninguém sensato sustenta que a prática religiosa, por si só, garanta retidão moral. Combater essa tese seria derrubar um espantalho. A questão verdadeira é mais antiga e mais espinhosa: de onde viria a autoridade de um bem objetivo? O crente pode perguntar isso ao não crente; este, por sua vez, pode responder que compaixão, justiça e reciprocidade nascem da experiência, da empatia e da razão. E não estamos falando de uma briga entre ignorantes. Há filósofos de peso dos dois lados. Bertrand Russell defendeu uma ética sem sanção religiosa, enquanto Kant procurou fundamentar a moral na razão sem abandonar Deus. No fim das contas, a pergunta permanece de pé, feito uma pedra no caminho: precisamos acreditar em Deus para agir bem?

Diante dessa questão antiga, o que os fatos permitem afirmar é algo bem mais simples — e talvez justamente por isso mais difícil de engolir: há bondade dentro e fora da religião, assim como há crueldade dentro e fora dela. Pessoas sem fé sustentam asilos, denunciam injustiças, cuidam de desconhecidos e arriscam a própria vida por quem nem sequer conhecem. Pessoas de fé fizeram o mesmo, como o abolicionista William Wilberforce e o militante Martin Luther King Jr., movidos por convicções religiosas. Ao mesmo tempo, a história registra violência cometida em nome da fé, das Cruzadas à Inquisição, mas registra também atrocidades praticadas por regimes ateus e a cumplicidade de igrejas com sistemas opressores. Não há trincheira completamente limpa. Talvez seja justamente por isso que a discussão precise abandonar a velha guerra entre "crentes bons" e "descrentes maus", ou o inverso. A moralidade humana é mais complexa do que nossas etiquetas. E, nesse ponto, a própria Bíblia oferece uma crítica que vem de dentro: os profetas não estavam simplesmente atacando a fé; estavam atacando uma religião que se ajoelhava diante do altar enquanto pisava o próximo.

Amós é um exemplo contundente. Deus rejeita as festas de um povo que explora os pobres e exige que o direito corra como águas (5:21-24). Miqueias resume o essencial em três movimentos quase impossíveis de esquecer: praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com Deus (6:8). Tiago chama de religião pura aquela que visita órfãos e viúvas em suas tribulações (1:27). E Jesus reserva algumas de suas palavras mais duras justamente para os religiosos zelosos das aparências, mas negligentes em "a justiça, a misericórdia e a fé" (Mateus 23:23). Portanto, quando denuncio a religião usada como fachada para encobrir abusos, justificar privilégios ou explorar os vulneráveis, não estou importando uma crítica de fora para dentro. Estou apenas repetindo, com outras palavras, aquilo que os profetas já gritavam há quase três mil anos. Mas, seria igualmente injusto reduzir a religião às suas falhas. Para milhões de pessoas, ela oferece consolo diante da perda, comunidade na doença, linguagem para o luto e uma disciplina de generosidade que se transforma em hospitais, escolas, abrigos e serviços aos pobres. A questão, então, não é simplesmente saber se a religião produz o bem, mas que tipo de relação estabelecemos com ela. Existe uma diferença enorme entre religião como fonte de virtude e religião como certificado de virtude. A primeira educa a consciência; a segunda a aposenta. E, quando isso acontece, o indivíduo passa a se acomodar no selo que carrega, enquanto quem observa conclui, apressadamente, que a fé nada tem a ver com a bondade.

Se a fé não garante a virtude e a ausência dela tampouco a impede, talvez seja preciso abandonar os crachás e olhar para os frutos. Afinal, o próprio Evangelho oferece essa medida: pelos frutos se conhece a árvore (Mateus 7:16-20). Isso significa avaliar as pessoas pelo que fazem e pelos efeitos de suas ações sobre os mais frágeis, e não apenas pelos rótulos que carregam ou pelos grupos aos quais pertencem. Vale para o ateu e para o crente; para o cientista diante dos dados e para o pastor diante de quem depende dele. E vale, sobretudo, para mim, que escrevo estas linhas com a perigosa certeza de quem pode se imaginar do lado certo. Porque é muito fácil apontar o dedo para o outro e chamar isso de consciência. Difícil é voltar o dedo para o próprio peito. Talvez a verdadeira moralidade comece justamente aí: quando deixamos de perguntar apenas "quem está certo?" e passamos a perguntar "o que estou fazendo com aquilo que acredito?"

Penso, então, novamente nos dois homens da rua. Quero que o eletricista ateu saiba que sua bondade não precisa de autorização religiosa para existir. E quero que o diácono tenha coragem de ouvir Amós sem se ofender, porque talvez o profeta esteja falando menos contra a sua fé do que contra aquilo que sua fé pode se tornar quando perde a compaixão. No fundo, talvez a jornada moral seja muito menos grandiosa do que imaginamos. Não exige necessariamente discursos, títulos, templos ou certificados de santidade. Exige uma prática diária, imperfeita e teimosa, de olhar o outro com justiça, compaixão e responsabilidade. Crentes e descrentes podem tropeçar; ambos podem levantar; ambos podem fazer o bem e ambos podem fazer o mal. Diante de quem sofre, porém, todas as nossas etiquetas ficam pequenas. E talvez reste apenas uma pergunta, simples como a vida e incômoda como a verdade: o que posso fazer por ela?

Com base no texto, elabore respostas completas e abrangentes para as seguintes questões:

Questões para Discussão e Aprofundamento

1. Moralidade e Crença:

O texto apresenta o dilema sobre a origem da retidão moral a partir de dois personagens (um ateu solidário e um diácono incoerente). A partir de uma perspectiva sociológica, explique por que a prática religiosa, por si só, não garante a virtude moral e como a ética pode existir de forma independente de dogmas religiosos.

2. Religião como fonte versus certificado de virtude:

O autor diferencia "religião como fonte de virtude" (que educa a consciência) de "religião como certificado de virtude" (que acomoda o indivíduo em um rótulo). Discuta como essa distinção nos ajuda a entender a diferença entre a vivência genuína de valores humanitários e o uso da religião apenas como fachada ou status social.

3. A crítica interna e o papel dos profetas:

O texto aponta que a denúncia contra a hipocrisia e a exploração dos vulneráveis não vem de fora, mas de dentro da própria tradição profética (como Amós, Miqueias e o próprio Evangelho). Sociologicamente, como os movimentos de contestação e reforma interna ocorrem dentro das instituições tradicionais?

4. O perigo das etiquetas e o critério dos frutos:

Ao citar o princípio de "pelos frutos se conhece a árvore", o texto propõe avaliar as pessoas pelas ações e pelos efeitos reais sobre os mais frágeis, em vez de pelos rótulos ou crachás que carregam. Como o preconceito e o rótulo social muitas vezes impedem uma análise justa da diversidade de caráter humana (tanto de crentes quanto de ateus)?

5. A responsabilidade individual e a prática diária:

O trecho final sugere que a verdadeira moralidade começa quando deixamos de perguntar "quem está certo?" e passamos a perguntar "o que estou fazendo com aquilo que acredito?". Analise como essa postura incentiva a autocrítica, a empatia e a responsabilidade social no cotidiano dos indivíduos.

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domingo, 27 de outubro de 2024

O Clube dos Desafetos ("O ódio é uma confissão de que estamos sendo superados." — Friedrich Nietzsche, filósofo alemão.)

 

O Clube dos Desafetos ("O ódio é uma confissão de que estamos sendo superados." — Friedrich Nietzsche, filósofo alemão.)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Outro dia, num desses momentos de correria, entrei na sala dos professores fora de hora, só para reabastecer os pincéis. Nem esperava ver ninguém ali, mas deparei-me com Ayla Cavalli, Lívia Fábrici e Kaira Renni, três funcionárias conhecidas por suas frequentes conversas à parte. O que me surpreendeu foi o súbito silêncio que se instalou assim que perceberam minha presença. Pela troca de olhares nervosos e o recomeço da conversa em outro tom, entendi rapidamente: eu era o assunto da reunião.

Não pude deixar de rir da ironia. Ayla Cavalli ainda guardava um certo ressentimento desde que critiquei a limpeza da sala de professores em horários inconvenientes; Lívia Fábrici, por sua vez, mantinha uma antiga mágoa de um desentendimento qualquer de anos atrás, e Kaira Renni, bem, pareceu nunca ir com a minha cara desde o primeiro dia. O curioso era que, entre elas, mal havia amizade ou simpatia; ainda assim, estavam ali, unidas por uma improvável conexão — eu. Quem diria que eu, sem querer, teria o poder de provocar uma reunião das “desafetos”?

Continuei minha tarefa, mas com um sorriso discreto, observando aquela assembleia improvisada de rostos que, tão diferentes entre si, agora trocavam suas pequenas frustrações com gosto. A situação tinha algo de cômico: três pessoas que normalmente não trocariam mais do que um “bom dia” agora compartilhavam olhares e sussurros animadas. É estranho perceber como, às vezes, as pessoas se unem para partilhar esse tipo de antipatia, quase como se precisassem do outro para dar corpo às próprias frustrações.

Esse tipo de situação nos faz pensar. Por que alguém se incomoda tanto com a vida de outra pessoa? Talvez porque, para muitos, aquilo que não conseguem ter ou ser se torna um espelho incômodo, refletindo inseguranças que preferiam manter ocultas. E ali estavam aquelas três, suas pequenas queixas individuais se entrelaçando em uma espécie de clube involuntário, uma irmandade de insatisfações compartilhadas.

Foi então que percebi que eu não estava simplesmente “provocando” essas pessoas. Na verdade, minha simples presença, minha maneira de seguir meus próprios rumos, parecia servir como um lembrete incômodo do que talvez desejassem ou sentissem faltar. O que antes eram migalhas de incômodos individuais agora era uma grande fatia de desgosto compartilhado, uma espécie de sinfonia desafinada onde eu, involuntariamente, era o maestro.

Ao sair da sala, senti-me estranhamente fortalecido. Compreendi que, enquanto eles se ocupavam em debater minha vida, eu tinha uma vantagem: estava ocupado demais vivendo-a. E no fim das contas, essa foi a maior lição de todas. Aprendi que vale mais valorizar aqueles que estão genuinamente ao nosso lado, em vez de perder tempo com olhares enviesados e palavras vazias.

Ao final, seguir o próprio caminho, com firmeza e propósito, é o que realmente importa. E se essa estrada atrai os olhares daqueles que, por suas razões, preferem alimentar o incômodo? Pois que seja! Porque, no fundo, cada novo “membro” do clube dos desafetos não é mais do que a confirmação de que estou seguindo exatamente por onde deveria.


5 Questões Discursivas sobre o Texto:


Qual a principal emoção que o narrador experimenta ao descobrir que é o assunto de conversa entre seus colegas de trabalho?


De que forma as relações interpessoais entre os colegas de trabalho são descritas no texto?


Qual a reflexão do narrador sobre as razões pelas quais as pessoas sentem inveja ou ressentimento em relação aos outros?


Como a experiência vivida pelo narrador o fez perceber o valor de seguir o próprio caminho?


Qual a lição que o texto nos oferece sobre as relações humanas e o lidar com as críticas e inveja?

sábado, 26 de outubro de 2024

Ensaio Teológico VII(13) Consentimento e Escolha: As Novas Palavras de Ordem da Sexualidade Feminina

 

Ensaio Teológico VII(13) Consentimento e Escolha: As Novas Palavras de Ordem da Sexualidade Feminina

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Conheço uma história que se repete em muitas igrejas. Aos dezessete anos, uma menina recebe um anel de pureza durante uma vigília e ouve que seu corpo é um presente a ser guardado, como uma flor que perde o viço quando passa de mão em mão. Aos vinte e cinco, já casada, ouve que agora esse mesmo corpo deve estar disponível — e que a alegria, de preferência, precisa aparecer no rosto. Certa noite, ela me disse, sem raiva, mas com um cansaço antigo: "Ninguém me ensinou a dizer sim. Só me ensinaram a dizer não." Eis o paradoxo: exigem dela castidade até o altar e disponibilidade depois dele. Em ambos os casos, porém, ela é tratada como objeto, nunca como sujeito. Falo aqui da tradição cristã na qual fui formado, católica e evangélica, e não de "a religião" em abstrato. E a pergunta volta, incômoda: foi a Escritura que condenou essa mulher ao silêncio ou foram as nossas leituras que fizeram isso em nome dela? A raiz da assimetria é antiga. Deuteronômio 22:13-21 previa o apedrejamento da noiva acusada de não ser virgem, sem estabelecer regra equivalente para o noivo; Êxodo 22:16-17, por sua vez, trata a sedução de uma virgem como prejuízo a ser indenizado ao pai. Muitos estudiosos observam que esses códigos estavam mais preocupados com patrimônio, honra e linhagem familiar do que com a autonomia da mulher. E, ainda assim, a própria narrativa bíblica é capaz de denunciar essa lógica. Tamar, viúva e explorada por Judá, força-o a reconhecer a própria injustiça, e ele confessa: "Ela é mais justa do que eu" (38:26). A Bíblia, portanto, não é uma voz única e sem conflitos; às vezes, é justamente dentro dela que a mulher encontra a denúncia daquilo que fizeram contra ela.

Mas, o cânon guarda uma surpresa ainda maior: um livro inteiro dedicado ao desejo, e cuja voz principal é feminina. Cantares começa com ela tomando a iniciativa: "Beije-me com os beijos da sua boca" (1:2). Não é uma mulher esperando autorização para desejar; é alguém que fala, procura, chama, celebra e assume o próprio corpo. Mais adiante, afirma: "o meu amado é meu, e eu sou dele" (2:16). A exegeta Phyllis Trible percebeu em 7:10, quando o desejo do amado se volta para ela, uma possível reversão do castigo de Gênesis 3:16, em que o desejo da mulher aparece associado à dominação do marido. No Éden restaurado de Cantares, por assim dizer, o desejo é recíproco e ninguém governa ninguém. Há, ainda, o refrão que recomenda não despertar o amor "até que ele queira" (2:7; 3:5; 8:4). À primeira vista, parece apenas um conselho de paciência. Mas, há ali uma ideia preciosa: o amor não se arranca à força, não se fabrica por pressão, não se exige como pagamento. Ele tem seu próprio tempo e sua própria vontade. Sem empregar a palavra moderna, o poema parece guardar, na própria gramática do desejo, uma espécie de ética do consentimento.

E se a Bíblia sabe celebrar o desejo livre, também sabe reconhecer quando esse desejo é violado. Em 2 Samuel 13, Tamar suplica a Amnon: "Não, meu irmão, não me forces". O narrador chama o ato de loucura em Israel, e uma das frases mais dolorosas do capítulo — "Cala-te, minha irmã" — revela também a tentativa de silenciar a vítima depois da violência. O texto registra a recusa de Tamar; quem insiste em apagá-la é que se afasta daquilo que a narrativa denuncia. Paulo, quando lido por inteiro, também não cabe facilmente no papel de patrono da posse conjugal que tantas vezes lhe atribuíram. Em 1 Coríntios 7:3-5, num mundo em que o corpo da mulher era frequentemente compreendido como pertencente ao marido, Paulo fala de uma reciprocidade desconcertante para seu tempo: marido e mulher cedem, cada um, autoridade sobre o corpo do outro, e só se abstêm "de comum acordo". Reconheço que a linguagem ainda pode soar dura aos nossos ouvidos, mas existe nela uma reciprocidade que foi traída sempre que se citou apenas a parte que cobrava submissão da esposa. Jesus, por sua vez, colocou sobre os homens o peso da responsabilidade pelo olhar (Mateus 5:28). E, diante da samaritana que tivera cinco maridos, não começou interrogando sua moralidade; começou pedindo água. Depois, fez daquela mulher uma anunciadora em sua própria cidade (João 4). Há algo profundamente significativo nisso: quem era frequentemente reduzida à própria história conjugal passa a ser portadora de uma mensagem.

Seria injusto, porém, fingir que a tradição cristã só sabe dizer "não". Há cristãos sérios que entendem a sexualidade como dom de uma aliança, defendem que a castidade deve valer para homens e mulheres e sustentam que o consentimento, sozinho, é um critério pobre. Nesse ponto, concordo em parte: consentimento é condição necessária, mas não suficiente. Uma ética sexual completa também precisa falar de cuidado, afeto, responsabilidade, respeito e das consequências das escolhas. Minha divergência está na assimetria e no medo. A tradição que ensina a menina a temer o próprio corpo prepara-a mal para o amor; e aquela que a treina apenas para dizer "não" pode prepará-la mal até para escolher a castidade. Afinal, só quem pode dizer sim pode, de fato, dizer não. A mulher que escolhe esperar, a que escolhe não esperar e a que escolhe não casar precisam encontrar o mesmo respeito, desde que suas escolhas sejam livres, conscientes e responsáveis. Como afirma 1 João 4:18, "o perfeito amor lança fora o medo". E bell hooks, em Tudo sobre o amor, insiste que amor e dominação não caminham juntos. Se a fé quer continuar falando seriamente de amor, talvez precise começar desfazendo o medo que ela mesma, em alguns contextos, ajudou a ensinar.

Com Simone de Beauvoir, que escreveu que não se nasce mulher, torna-se, acrescento outra pergunta: que tipo de mulher nossas comunidades estão ensinando alguém a se tornar? E, se a fé cristã pretende formar pessoas livres diante de Deus, essa formação não pode ser confundida com obediência cega. Gálatas 3:28 não deveria ficar pendurado na parede como uma bela frase teológica, enquanto a desigualdade continua sendo praticada na vida cotidiana. A igualdade precisa alcançar a consciência, os relacionamentos, o corpo e também o direito de cada mulher dizer o próprio nome e escolher os próprios caminhos. Por isso, volto àquela menina do início e gostaria de vê-la crescer numa comunidade que lhe ensine o "não" que protege, o "sim" que liberta e também o "talvez", o "ainda não" e o "agora" — palavras que pertencem à gramática da vida adulta. Que ela aprenda que seu corpo não é pecado ambulante, moeda de troca, propriedade do marido ou patrimônio da família, mas parte de uma pessoa inteira, criada à imagem de Deus: "homem e mulher os criou" (Gênesis 1:27). Talvez a fé precise reaprender uma coisa muito simples, embora nada fácil: a liberdade da mulher não ameaça o sagrado. Ao contrário, quando nasce da dignidade, da consciência e do respeito, pode ser uma das formas mais honestas de honrá-lo.

Com base no texto apresentado, elabore respostas completas e concisas para as seguintes questões:

Questões para Discussão e Aprofundamento

1. Corpo, objeto e sujeito:

O texto aponta um paradoxo na formação tradicional: exige-se castidade antes do altar e disponibilidade imediata depois dele, tratando a mulher ora como "pureza a ser guardada", ora como "propriedade". A partir de uma perspectiva sociológica, explique a diferença entre tratar o indivíduo como objeto (submetido a normas externas) e como sujeito (dotado de agência e autonomia sobre o próprio corpo).

2. A "ética do consentimento" e as relações de poder:

O autor argumenta que "só quem pode dizer sim pode, de fato, dizer não", destacando que a restrição da autonomia e o medo prejudicam a própria capacidade de escolha do indivíduo. Discuta como a ausência de liberdade e a assimetria de poder nas relações sociais e de gênero afetam o conceito de consentimento genuíno.

3. O controle social das instituições sobre a sexualidade:

Pensando na sociologia das instituições (como a família e a religião), analise de que maneira os discursos morais e tradicionais moldam comportamentos, internalizam tabus e regulam a sexualidade feminina ao longo das diferentes fases da vida (juventude, matrimônio).

4. Agência feminina e resistência cultural:

Apesar das estruturas de dominação históricas descritas no texto (como códigos antigos de honra e patrimônio), o autor resgata narrativas bíblicas onde mulheres exercem voz, desejo e iniciativa (como em Cantares e nas denúncias de Tamar). Sociologicamente, o que é agência e como grupos historicamente subalternizados encontram formas de resistência e ressignificação dentro das próprias instituições?

5. Amor, dominação e a superação do medo:

Dialogando com a reflexão de bell hooks de que "amor e dominação não caminham juntos", discuta como a superação de uma cultura baseada no medo e na obediência cega pode transformar as relações interpessoais e promover estruturas sociais mais igualitárias e democráticas.

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sexta-feira, 25 de outubro de 2024

As Últimas Aulas (“Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais.” - Rubem Alves)

 


As Últimas Aulas (“Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais.” - Rubem Alves)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Nunca pensei que chegaria o dia em que contaria os minutos para me despedir da sala de aula. Depois de trinta anos dedicados à educação pública, aqui estou eu, sentada diante de uma pilha de documentos que parecem zombar da minha ansiedade pela aposentadoria.

Ontem mesmo, com as mãos trêmulas, entrei na seção de Recursos Humanos para fazer a famosa "simulação". O coração batia acelerado, como se estivesse prestes a receber o resultado de um exame importante. E, de certa forma, estava. Maria, a funcionária por trás do computador, digitava meus dados com uma lentidão que fazia cada segundo parecer uma eternidade.
"Professora..." - ela começou, e só pelo tom de sua voz já senti meus olhos marejarem - "com a nova legislação, ainda faltam dois anos". Dois anos que, na prática, significavam quatro, considerando a burocracia kafkiana dos processos administrativos e a assinatura do governador.
As lágrimas vieram sem pedir licença. Não eram apenas lágrimas de frustração, mas de exaustão. Cada manhã tem sido uma batalha para manter o entusiasmo diante de 40 adolescentes, quando meu corpo e mente imploram por descanso. Pensei em voz alta.
"Faça de conta que está dando aula", sugeriu um colega atendente da secretaria, numa tentativa desajeitada de consolo. Aquelas palavras me atingiram como um tapa. Em três décadas de magistério, nunca "fiz de conta". Cada aula foi real, cada aluno foi importante, cada momento foi vivido intensamente.
Voltei para casa naquele dia pensando em quantos colegas vi desistirem no meio do caminho, quantos adoeceram esperando a aposentadoria, quantos partiram antes mesmo de conseguir desfrutá-la. O sistema nos trata como números em uma planilha, esquecendo que somos seres humanos que dedicaram uma vida inteira à nobre arte de ensinar.
Mas, hoje, enquanto escrevo estas linhas, decido continuar não sendo uma "fazer de conta". Se preciso ficar mais alguns anos, que sejam anos de verdade, de dedicação autêntica. Porque ser professor não é uma profissão que se possa fingir - é uma vocação que se vive até o último dia, até a última aula, até o último aluno.
E você, que me lê agora, talvez seja um daqueles milhares de alunos que passaram por minhas aulas. Saiba que cada momento foi real, cada ensinamento foi sincero, e que mesmo diante do cansaço e da burocracia, jamais fiz de conta. Porque a educação é real demais para ser fingida.


Com base no texto apresentado, elabore respostas completas e concisas para as seguintes questões:


Quais os sentimentos e emoções que a narradora descreve ao longo do texto?


Quais as principais dificuldades enfrentadas pela professora em relação à sua aposentadoria?


Qual a importância da dedicação e da autenticidade na profissão docente, segundo a narradora?


Como a Narradora compara a sua experiência como professora com o sistema educacional?


Qual a mensagem principal que o autor deseja transmitir aos seus leitores, especialmente aos seus ex-alunos?

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Ensaio Teológico VII(12) A Bíblia sob a Ótica Feminina: Desafios e Possibilidades

 

Ensaio Teológico VII(12) A Bíblia sob a Ótica Feminina: Desafios e Possibilidades

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Imagino uma mulher que conheço de mil rostos: chega à igreja antes de todo mundo, abre as portas, cuida do berçário, visita as doentes, sustenta a cantina e sabe de cor capítulos inteiros dos Salmos. No culto, porém, ouve que não lhe cabe ensinar homens nem falar do púlpito. E lá vai ela, em silêncio, de volta para a cozinha. Essa mulher é mais retrato do que exceção. E sua presença, ou melhor, seu silêncio, me obriga a fazer uma pergunta incômoda: foi o texto sagrado que a condenou ao silêncio ou foram as nossas leituras que fizeram isso em nome dele? Creio que a religião, tantas vezes, transforma a Bíblia em muro: pinça versículos isolados, lê-os como se tivessem sido escritos ontem, para o nosso mundo, e os transforma em regulamento de conduta feminina. Esse literalismo, convenhamos, é muito mais cômodo do que fiel, porque dispensa perguntas essenciais: quem escreveu? Para quem? Em que circunstâncias? Sob qual cultura e sob qual império? E, no entanto, a mesma Bíblia que alguns usam para fechar portas guarda uma chave para abri-las. Em Gálatas 3:28, Paulo afirma que já não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus.

Essa porta, reconheço, não resolve tudo sozinha. Por isso, antes de fechar questão, prefiro olhar para as mulheres que efetivamente aparecem nas páginas da própria Escritura. Débora julga Israel, e é a ela que Baraque recorre quando precisa ir à guerra. Míriam conduz o canto da libertação e é mencionada por Miquéias ao lado de Moisés e Arão. Priscila instrui o eloquente Apolo e é apresentada por Paulo como colaboradora. Febe é diákonos da igreja de Cencreia. E Maria Madalena, primeira a ver o Ressuscitado, recebe dele a missão de anunciar o que havia visto, passando à tradição como "apóstola dos apóstolos". Ora, se a Escritura proibisse às mulheres a voz, a liderança e o anúncio, teríamos um problema dentro do próprio texto, porque essas mulheres continuam ali, falando alto através dos séculos. Mas, também não quero fazer o caminho inverso e simplesmente apagar os textos que sustentam a interpretação oposta: "as mulheres estejam caladas" (1 Coríntios 14:34-35), "não permito que a mulher ensine" (1 Timóteo 2:11-12) e "esposas, submetei-vos" (Efésios 5:22). O caminho, para mim, é enfrentá-los de frente, sem medo e sem maquiagem. Em 1 Coríntios, o próprio Paulo já supõe mulheres orando e profetizando (11:5). Em Efésios, a exortação à submissão vem depois de "sujeitai-vos uns aos outros" (5:21) e é seguida de um amor sacrificial dirigido aos maridos, algo que não se encaixava facilmente nas expectativas do mundo greco-romano. Em 1 Timóteo 2:12, por sua vez, aparece o verbo authentein, usado apenas uma vez no Novo Testamento e ainda objeto de discussão quanto ao seu sentido preciso. Reconheço, por honestidade intelectual, que leitores sérios, entre eles os chamados complementaristas, entendem esses textos como uma ordem permanente. Eu, porém, prefiro uma hermenêutica que leve contexto, história e linguagem a sério e que não transforme a Escritura em arma contra as próprias pessoas para quem ela pretende falar.

Há, entretanto, outra tensão que não quero esconder debaixo do tapete. Quando afirmo, com Simone de Beauvoir, que "ninguém nasce mulher: torna-se mulher", estou reconhecendo que os papéis sociais não caem do céu prontos e acabados; são construídos, ensinados, repetidos e, muitas vezes, impostos. Quando recorro a Provérbios 31:30, por outro lado, encontro na fé um critério: a mulher que teme ao Senhor será louvada. Não vejo necessariamente contradição entre essas duas ideias. O poema de Provérbios 31 é um acróstico hebraico que celebra a eshet chayil, expressão que evoca força, valor e vigor — a ponto de a mesma linguagem aparecer associada a homens de guerra. E que mulher é essa? Ela compra campo, planta vinha, negocia, administra a casa, trabalha e socorre o pobre. Não é exatamente a figura passiva que algumas leituras posteriores fizeram questão de desenhar. O elogio final está na reverência, não num figurino social imposto por terceiros. A fé pode apontar para um horizonte de sabedoria sem decretar, em nome de Deus, uma única maneira de ser mulher. O que ela deveria recusar é justamente a idolatria do modelo, aquela mania de transformar costume em mandamento e preferência pessoal em vontade divina. É aí que a reflexão de Chimamanda Ngozi Adichie sobre o perigo da história única ganha força: quando uma história parcial se transforma na única história possível, o estereótipo toma o lugar da pessoa. Dividir as mulheres entre "virtuosas" e "perdidas" é colocá-las em duas gavetas e jogar fora a chave. Onde ficam a viúva que sustenta cinco filhos, a mulher que perdeu a fé, a que a reencontrou, a que jamais quis se casar, a que reza calada na última fileira? A vida, felizmente, nunca coube inteira em duas gavetas.

Rotular, portanto, é também deixar de escutar. E o Evangelho, quando o leio em sua inteireza, é quase todo feito de escuta e encontro: o Cristo que conversa com a samaritana junto ao poço, que permite que a mulher do fluxo de sangue se aproxime e que enfrenta aqueles que já carregavam pedras nas mãos contra a mulher acusada de adultério. Não vejo nesses episódios apenas cenas bonitas para sermões de domingo; vejo uma maneira de tratar o outro. Isso conversa com o amor descrito por Paulo em 1 Coríntios 13:4-7, paciente, bondoso, sem inveja nem vanglória, e também com bell hooks, para quem amar é uma escolha diária, comprovada por atitudes. Um amor assim não cabe facilmente em regulamentos. Ele não se contenta em dizer ao outro onde é seu lugar; abre espaço para que o outro seja inteiro. Com Paulo Freire, lembro que, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. Talvez a igreja precise dessa mesma humildade pedagógica: admitir que ainda tem o que aprender, voltar ao texto, estudar a história, escutar outras vozes e, sobretudo, perder o medo de descobrir que algumas certezas eram apenas hábitos vestidos de doutrina.

Volto, então, àquela mulher da cozinha, que continua chegando cedo, abrindo as portas, cuidando de gente e carregando nas costas uma parte invisível da comunidade. Quero que a igreja lhe pergunte o que ela tem a dizer. Não como concessão dos chamados tempos modernos, nem como favor concedido por quem se julga dono do púlpito, mas como consequência de uma leitura mais honesta da própria Escritura. Afinal, antes que alguém lhe diga que ela não pode falar, a Bíblia já nos apresentou mulheres que falaram, lideraram, ensinaram, profetizaram, serviram e anunciaram: Débora, Míriam, Priscila, Febe, Madalena. Talvez o desafio de ler a Bíblia sob a ótica feminina não seja inventar uma nova Escritura, mas permitir que a antiga seja lida com olhos menos domesticados. Talvez seja deixar de usar a Bíblia apenas para responder às mulheres e começar a escutar o que as mulheres também nos perguntam. No fim das contas, talvez o grande desafio não seja simplesmente ler a Bíblia sob a ótica feminina, mas deixar que ela, enfim, nos leia de volta.

Com base no texto apresentado, elabore respostas completas e concisas para as seguintes questões:

Questões para Discussão e Aprofundamento

1. A construção social dos papéis de gênero:

O texto dialoga com a famosa frase de Simone de Beauvoir: "ninguém nasce mulher: torna-se mulher". A partir dessa premissa sociológica, explique como a sociedade e as instituições (como a religião) muitas vezes transformam costumes culturais em mandamentos naturais ou divinos.

2. O perigo da história única:

Utilizando o conceito da escritora Chimamanda Ngozi Adichie mencionado no texto, discuta como a redução das mulheres a um único modelo idealizado (como a passividade ou a "história única") afeta a diversidade de vivências femininas na sociedade e nas comunidades religiosas.

3. Hermenêutica, contexto e poder:

O autor diferencia o "literalismo" (ler textos antigos como se tivessem sido escritos hoje, ignorando o contexto) de uma leitura crítica e contextualizada. De que maneira a análise sociológica e histórica dos contextos de opressão e de poder nos ajuda a entender a transformação das normas sociais ao longo do tempo?

4. Educação, escuta e transformação social:

Fazendo referência a Paulo Freire, o texto sugere que a igreja — e por extensão a sociedade — precisa de uma "humildade pedagógica" para aprender, escutar outras vozes e rever certezas. Como a educação crítica pode atuar como ferramenta de transformação para superar preconceitos estruturais?

5. Amor, prática e relações sociais:

Apoiando-se na visão de bell hooks, o texto define o amor não como um sentimento abstrato, mas como uma escolha diária comprovada por atitudes que "abrem espaço para que o outro seja inteiro". Discuta como essa perspectiva sociológica e ética desafia as estruturas hierárquicas e o controle sobre os papéis sociais na atualidade.

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