Uma Manhã de Sexta-Feira: ENTRE FUGAS E APRENDIZADOS ("Errar é humano. Culpar outra pessoa é política." — Hubert H. Humphrey)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Era uma manhã de sexta-feira na escola. As aulas corriam em pleno vapor, mas havia algo fora do eixo, como uma engrenagem girando com dentes desencontrados. O movimento era incessante. Alunos entravam e saíam das salas a todo instante, esticando os limites do espaço, testando a autoridade da vidraça, do giz e, talvez sem perceber, os próprios limites também. Um pedido atravessado para ir ao banheiro aqui, uma gargalhada escapando pelo pátio ali. O corredor virava uma espécie de ímã, desses que puxam a atenção sem pedir licença. Parecia que todos, de algum jeito, tentavam romper aquele pacto invisível de permanecer entre quatro paredes.
No meio daquela correnteza, a coordenadora subia e descia os blocos da escola como quem recolhe destroços depois de uma tempestade. Uma batalha quase impossível: juntar os náufragos dispersos e devolvê-los aos seus lugares. A frustração lhe marcava o rosto em traços duros. Era visível que ela se debatia dentro do labirinto dos desafios cotidianos, preso às urgências de sempre, às pequenas crises que nunca esperam a vez. E foi então que o desgaste encontrou um destino: a minha porta.
Ela parou ali. O olhar carregava um peso que dizia mais do que palavras. Havia naquela expressão uma acusação muda, como se toda a desordem dos corredores tivesse escolhido um único endereço para pousar. — Professor, o que esses meninos estão fazendo aqui fora? — perguntou, com a voz tingida de cobrança. Olhei para ela. Depois para o corredor. — Pergunte a eles mesmos — respondi, num tom seco, devolvendo a complexidade do problema para quem realmente fazia parte dele.
Confesso: senti o estômago apertar. Na hora, veio aquela sensação desconfortável de quem foi colocado contra a parede. Porque, afinal, os alunos escapavam sem pedir licença, escorregando pelos vãos das portas e dos dedos como peixes fugindo de uma rede mal lançada. Mas, pensando bem, caberia mesmo ao professor ser um vigia absoluto em águas tão revoltas? Será que aquilo era apenas capricho adolescente, simples rebeldia de ocasião, ou a engrenagem inteira já vinha cobrando sua conta havia muito tempo?
Enquanto os minutos passavam, a poeira daquele pequeno confronto foi assentando devagar, como o pó de giz que insiste em pairar antes de cair sobre a lousa. Olhei para as carteiras ainda ocupadas. E foi impossível não perceber que aquela tensão entre a coordenação, a sala de aula e o cansaço dos estudantes revelava algo maior: a velha ilusão de acreditar que uma escola funciona apenas na base do decreto, da cobrança ou da força unilateral.
Porque escola não é quartel, e aprendizagem não nasce no grito. A engrenagem só encontra ritmo quando existe escuta, quando o peso das estruturas não sufoca o lado humano de quem ensina e de quem aprende. Sem isso, no fim das contas, sobram apenas paredes, regras e cobranças ecoando em corredores vazios.
O sinal tocou, decretando o fim do período. A coordenadora passou novamente pela minha porta, seguindo em direção à secretaria. Nossos olhares se cruzaram uma última vez. Já não havia a faísca do embate de antes — apenas aquele cansaço silencioso que surge quando pessoas diferentes percebem que estão lutando na mesma trincheira.
Juntei meus cadernos, o apagador e os pilotos coloridos. Antes de apagar a luz, olhei para o fundo da sala vazia. Havia um rastro de giz desfeito no chão, misturado à poeira que dançava preguiçosamente dentro do feixe de sol que atravessava a janela. E, no silêncio que enfim tomou conta do corredor, restou apenas o eco distante dos últimos passos indo embora — junto com a velha certeza de que, na segunda-feira, o labirinto estaria ali, esperando por nós exatamente no mesmo lugar.
-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/-*/
Como professor de Sociologia, vejo que esta crônica é um prato cheio para analisarmos conceitos fundamentais da nossa disciplina, como instituições sociais, relações de poder, burocracia, anomia e interacionismo. O ambiente escolar funciona como um microcosmo da própria sociedade. Com base nas vivências e reflexões que o texto traz, preparei 5 questões discursivas e simples, ideais para o Ensino Médio, que ajudam a aprofundar esses temas sociológicos.
1. Relações de Poder e Instituições Sociais (Michel Foucault)
“...como se toda a desordem dos corredores tivesse escolhido um único endereço para pousar. — Professor, o que esses meninos estão fazendo aqui fora?”
Pergunta: O texto descreve a escola como um espaço de vigilância e cobrança unilateral, mas conclui dizendo que "escola não é quartel". Utilizando os conceitos sociológicos de poder e instituições, explique por que a tentativa de controlar os corpos e comportamentos dos alunos de forma puramente disciplinar muitas vezes falha ou gera resistência na engrenagem escolar.
2. O Conceito de Anomia e Desvio Social (Émile Durkheim)
“Alunos entravam e saíam das salas a todo instante, esticando os limites do espaço, testando a autoridade da vidraça, do giz...”
Pergunta: Para o sociólogo Émile Durkheim, as normas sociais são fundamentais para a coesão de um grupo. Quando as regras perdem a força ou o sentido para os indivíduos, ocorre o que ele chama de anomia (ausência ou enfraquecimento de normas). De que maneira o comportamento dos alunos nos corredores pode ser interpretado como um sintoma de que as regras daquela "engrenagem" perderam o sentido para eles?
3. Burocracia versus Relações Humanas (Max Weber)
“A engrenagem só encontra ritmo quando existe escuta, quando o peso das estruturas não sufoca o lado humano de quem ensina e de quem aprende.”
Pergunta: Max Weber estudou a burocracia como uma forma de organização baseada em regras rígidas, cargos e hierarquias. Pensando na atitude inicial da coordenadora e na estrutura da escola, como o "peso das estruturas" e a cobrança fria por resultados podem sufocar a empatia e a subjetividade dos indivíduos (professores e alunos) dentro de uma instituição?
4. Interacionismo e a "Mesma Trincheira"
“Nossos olhares se cruzaram uma última vez. Já não havia a faísca do embate de antes — apenas aquele cansaço silencioso que surge quando pessoas diferentes percebem que estão lutando na mesma trincheira.”
Pergunta: No início do texto, há um conflito de papéis (o professor se sente culpado pela coordenadora e rebate). No final, há uma identificação mútua através do cansaço. Como a mudança na interação social entre o professor e a coordenadora demonstra que, apesar de ocuparem cargos diferentes na hierarquia, ambos são afetados pela mesma estrutura social e institucional?
5. A Escola como Espaço de Socialização
“Porque escola não é quartel, e aprendizagem não nasce no grito. A engrenagem só encontra ritmo quando existe escuta...”
Pergunta: A Sociologia aponta a escola como uma das principais instituições de socialização secundária do indivíduo. A partir da leitura da crônica, qual é a diferença entre uma socialização baseada no "decreto e na força unilateral" e uma socialização baseada na "escuta"? Qual delas é mais eficaz para a construção de cidadãos conscientes?
Dica para o Professor:
Essas questões estimulam o aluno a correlcionar a literatura/crônica do cotidiano com as teorias clássicas e contemporâneas da Sociologia, exercitando a famosa imaginação sociológica (a capacidade de conectar problemas pessoais a estruturas públicas e sociais).


.jpeg)
