Ensaio Teológico III(25) “A Fé em Deus e a Realidade do Medo: Uma Reflexão Teológica”
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Lembro-me de uma noite em que o medo não tinha rosto nem nome — apenas presença. Não havia perigo real à minha frente, nenhuma sombra à espreita atrás da porta. Ainda assim, o coração acelerava como se o mundo estivesse prestes a ruir. Quanto mais eu tentava convencer a razão de que tudo estava bem, mais o corpo insistia em contar outra história. Foi ali, entre o silêncio do quarto e o tumulto da própria mente, que compreendi uma verdade desconcertante: o medo não pede licença, tampouco se preocupa em saber se é racional antes de se instalar dentro de nós.
A tradição religiosa oferece uma resposta sedutora para essa experiência. O Salmo 111:10 ensina que "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria", sugerindo que, ao reverenciar o divino, os demais medos perdem sua força. Há um consolo profundo nessa promessa. É reconfortante imaginar que exista um porto seguro capaz de resistir às tempestades da alma. Entretanto, Sêneca, séculos depois, acrescenta uma nuance que torna essa reflexão ainda mais rica ao afirmar: "não é o homem que tem pouco, mas o homem que deseja mais, que é pobre". Aos poucos fui percebendo que muitos dos nossos medos não brotam da escassez de fé, mas do excesso de expectativas. Tememos perder a saúde, o amor, o reconhecimento, o controle sobre o amanhã. No fundo, o medo costuma florescer exatamente onde criamos raízes profundas demais.
Talvez seja por isso que eu desconfie das explicações simplistas, daquelas que prometem segurança absoluta aos justos e castigo inevitável aos ímpios. Essa lógica pode até confortar por um instante, mas dificilmente resiste ao peso da vida concreta. Já vi homens e mulheres de fé inabalável estremecerem diante de um diagnóstico médico. Também testemunhei pessoas sem qualquer convicção religiosa atravessarem grandes tempestades com uma serenidade admirável. A existência humana é menos previsível do que gostaríamos de admitir. Heráclito expressou essa realidade com uma precisão quase dolorosa: "nenhum homem pisa no mesmo rio duas vezes, pois não é o mesmo rio e ele não é o mesmo homem". O medo também é assim. Muda de forma, de intensidade e de endereço. Hoje veste a roupa da doença; amanhã, a da solidão; depois, a do desconhecido. Escapa das nossas tentativas de aprisioná-lo, porque nenhuma fórmula — espiritual, filosófica ou científica — consegue eliminá-lo de uma vez por todas.
Foi justamente essa constatação que me levou a outra compreensão. A verdadeira sabedoria talvez não consista em vencer o medo, mas em aprender a caminhar ao lado dele sem permitir que conduza nossos passos. Isso exige coragem, mas também humildade. Significa reconhecer nossos limites, buscar apoio quando a angústia ultrapassa aquilo que conseguimos suportar sozinhos, recorrer à terapia, conversar com alguém de confiança, derramar lágrimas quando elas insistem em vir. Nada disso diminui a fé. Pelo contrário, revela uma espiritualidade madura, consciente de que a vulnerabilidade não é sinal de fracasso, mas uma das marcas mais autênticas da condição humana.
O Eclesiastes parece antecipar essa verdade quando afirma: "para tudo há uma estação, e um tempo para cada propósito debaixo do céu". Há tempo de plantar e tempo de colher; tempo de rir e tempo de chorar. E há, também, um tempo de sentir medo. Hoje já não enxergo esse tempo como um desvio do caminho, mas como parte dele. Talvez seja exatamente quando as mãos tremem sem que eu consiga explicar o motivo que mais me aproximo do significado de ser plenamente humano. Porque, no fim das contas, não é a ausência do medo que nos torna fortes, mas a decisão silenciosa de continuar caminhando apesar dele.



