"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

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MINHAS PÉROLAS

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

A Reprovação na Educação: Entre o Desafio e a Necessidade de Avaliação ("A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre todo o futuro." - Barão de Holbach)

 Crônica 


A Reprovação na Educação: Entre o Desafio e a Necessidade de Avaliação ("A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre todo o futuro." - Barão de Holbach)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

A manhã desta segunda-feira trouxe consigo uma reflexão que tem reverberado nas últimas semanas, especialmente após a entrevista da secretária de Educação do Rio Grande do Sul, Raquel Teixeira, à Rádio Gaúcha. Em um contexto educacional turbulento, dois temas chamaram minha atenção: a progressão parcial e a proibição do uso de celulares nas escolas. Ambas as questões vêm suscitando intensos debates sobre os rumos da educação, revelando um profundo dilema entre manter tradições pedagógicas e adotar novas abordagens.

A recente portaria, que autoriza a progressão de alunos com até quatro matérias pendentes, gerou divisões entre os educadores e a sociedade. A ideia de permitir que um aluno avance mesmo sem ter dominado completamente o conteúdo das disciplinas parece contraditória à lógica pedagógica tradicional, que sempre usou a reprovação como forma de garantir que o aluno estivesse preparado para o próximo ciclo. No entanto, a secretária Raquel Teixeira defende que, ao invés de impulsionar o aprendizado, a reprovação frequentemente leva à defasagem do aluno, distanciando-o ainda mais do conhecimento e aumentando o risco de evasão escolar. “Reprovação não é alternativa para aprendizagem”, disse ela, trazendo à tona uma nova forma de encarar a educação.

Contudo, a crítica à aprovação automática como medida educacional deve ser feita com cautela. A evasão escolar, muitas vezes associada à retenção, é igualmente um reflexo de uma falta de exigência nas escolas, onde se busca evitar o confronto com a dificuldade em nome de uma falsa aprovação. A solução para a evasão escolar não reside na eliminação da reprovação, mas na construção de um sistema de ensino mais eficaz, que desafie o aluno de maneira adequada e o prepare para os desafios acadêmicos e profissionais. Ao invés de adotar uma abordagem permissiva, é crucial que o professor e o conselho de classe assumam a responsabilidade de proporcionar uma avaliação que garanta o domínio do conteúdo e o real aprendizado do aluno.

A autonomia dos educadores deve ser levada a sério, mas com a consciência de que a reprovação precisa ser considerada como parte de um processo educacional rigoroso e que, ao mesmo tempo, favoreça o crescimento do aluno. O papel do professor vai além da simples aplicação de conteúdos; é também o de garantir que os alunos avancem com as competências necessárias para enfrentar os próximos desafios da vida acadêmica e profissional. Assim, a reprovação, longe de ser uma punição, deve ser vista como um instrumento de reflexão e um alerta para que o aluno busque alcançar seu verdadeiro potencial.

Dessa forma, ao equilibrar a responsabilidade do professor, o apoio institucional e a exigência necessária, podemos construir um sistema de ensino que, ao invés de suavizar as dificuldades, promove o verdadeiro aprendizado, preparando os alunos para um futuro mais sólido e consciente.


Como um bom professor de sociologia do Ensino Médio, preparei 5 questões discursivas no formato de pergunta simples sobre os temas principais do texto:


1. Quais os dois temas centrais abordados no texto que têm gerado debates no contexto educacional?

2. De acordo com a secretária Raquel Teixeira, qual o efeito da reprovação no processo de aprendizagem dos alunos?

3. Segundo o autor do texto, qual a relação entre a evasão escolar e a falta de exigência nas escolas?

4. Qual a importância da autonomia dos educadores e do conselho de classe no processo de avaliação dos alunos, segundo o texto?

5. Em síntese, qual a proposta do texto para a construção de um sistema de ensino mais eficaz?

domingo, 12 de janeiro de 2025

De Mozart ao Pole Dance: Uma Crônica de Absurdos Educacionais ("A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida." – Oscar Wilde)

 



  • De Mozart ao Pole Dance: Uma Crônica de Absurdos Educacionais ("A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida." – Oscar Wilde)
  • Enquanto folheava antigas fotos de excursões escolares, deparei-me com uma notícia que quase me fez engasgar com o café. Vinte anos dedicados à educação me deram a falsa impressão de já ter visto de tudo. Ledo engano. A história da Hart Middle School, em Detroit, provou que o universo educacional ainda reserva doses cavalares de surrealismo.

    A cena, digna de um roteiro de comédia bizarra, começa com um passeio escolar aparentemente convencional: uma manhã de novembro em Michigan, alunos do sexto ano e a promessa de um encontro com a Orquestra Sinfônica de Detroit. Mozart, Beethoven, a beleza da música clássica. Tudo dentro dos conformes, um programa educativo e culturalmente enriquecedor. Mas a calmaria sinfônica logo daria lugar a um ritmo bem mais… peculiar.

    Após a apresentação, a fome apertou, e o destino escolhido para o almoço foi a Niki's Pizza. Um clássico dos passeios escolares. O problema surgiu quando a pizzaria se mostrou pequena demais para acomodar todos os estudantes. E foi nesse exato momento, em que a lógica e o bom senso tiraram férias, que alguém – cuja identidade permanece um mistério nebuloso – teve a infeliz ideia de transferir parte da turma para o “estabelecimento irmão” ao lado: o Niki's Lounge. Uma boate. Sim, uma casa noturna, com direito a luz baixa, decoração temática e, claro, os inevitáveis pole dancing, descritos pelo gerente como “meras decorações”.

    A imagem dos adolescentes, em plena fase de descobertas e experimentações, entrando em uma boate, interagindo com os postes metálicos sob o olhar atento (ou não) dos responsáveis, é simplesmente inacreditável. Imagino a cena: a curiosidade infantil em contraste com o ambiente adulto, as câmeras do Projeto Green Light Detroit registrando cada movimento, e os policiais, provavelmente, divididos entre a perplexidade e o tédio de monitorar uma situação tão atípica.

    O que mais me intriga, além do absurdo da situação em si, é a reação subsequente. A postura do distrito escolar, que inicialmente se recusou a comentar o caso, soa como uma tentativa desesperada de abafar o escândalo. As opiniões divididas entre os pais, alguns indignados e outros aparentemente indiferentes, revelam uma preocupante banalização do ocorrido.

    Em duas décadas de magistério, testemunhei diversas situações inusitadas em passeios escolares: ônibus quebrando na estrada, piqueniques arruinados pela chuva, crianças passando mal no aquário. Mas nada, absolutamente nada, se compara a essa incursão involuntária ao mundo da dança vertical.

    Esse acontecimento me leva a refletir sobre a fragilidade de nossas diretrizes para excursões escolares e a necessidade urgente de revisá-las. No mínimo, deveríamos assegurar que as pizzarias parceiras tenham capacidade para receber nossos alunos, evitando soluções “criativas” como a que resultou nesse episódio lamentável. Afinal, a distância entre Mozart e o pole dance, como essa crônica demonstra, é assustadoramente curta. E, principalmente, me faz questionar: onde, afinal, nossos filhos estão sendo levados em nome da “experiência educacional”? Onde está o limite entre a aventura e o completo absurdo?


    https://pjmedia.com/lincolnbrown/2023/01/11/middle-school-field-trip-pole-dancing-what-could-go-wrong-n1660953?fbclid=IwY2xjawHwj75leHRuA2FlbQIxMAABHVCB6SZQL22L75O2CAlUrA2ipp2AiB6K36-S8ZexKTzBdfZguNA0qKhYqg_aem_oyAoB8xrDgdiPpHkDy1aJA


    Como um bom professor de sociologia do Ensino Médio, preparei 5 questões discursivas no formato de pergunta simples sobre os temas principais do texto:


    1. Qual o evento central narrado na crônica e o que o torna tão surpreendente para o narrador, um educador com vinte anos de experiência?

    2. De que forma o texto descreve a sequência de eventos que levaram os alunos do sexto ano a uma boate durante um passeio escolar?

    3. Segundo o autor, qual a principal crítica em relação à reação do distrito escolar e de alguns pais diante do ocorrido?

    4. Além do aspecto inusitado da situação, que reflexões o autor propõe sobre as diretrizes para excursões escolares?

    5. Qual a principal questão levantada pelo autor ao final da crônica sobre as "experiências educacionais" oferecidas aos alunos?

    sábado, 11 de janeiro de 2025

    Do Silêncio ao Grito: Reflexões sobre Violência, Indisciplina e a Falta de Afeto ("Precisamos aprender a conviver ou a perecer juntos." – Martin Luther King Jr.)

     

  • Do Silêncio ao Grito: Reflexões sobre Violência, Indisciplina e a Falta de Afeto ("Precisamos aprender a conviver ou a perecer juntos." – Martin Luther King Jr.)

    Por Claudeci Ferreira de Andrade

    A notícia, fria e distante, chegou como um impacto: “Estudante é presa no Japão após ataque com martelo em universidade”. A manchete, por si só, já carregava uma violência intrínseca, mas a descrição dos detalhes tornava a cena ainda mais perturbadora: oito estudantes feridos em um ambiente que deveria ser sinônimo de aprendizado e convívio pacífico. A reportagem da g1 detalhava o ocorrido na Universidade Hosei, em Tóquio, envolvendo uma jovem sul-coreana de 22 anos. A agência Kyodo acrescentava um elemento crucial: a confissão da agressora, que alegava sentir-se “frustrada” por ser ignorada e assediada pelos colegas. A palavra “frustrada” ecoou em minha mente, revelando um abismo de sofrimento e solidão.

    Imediatamente, a tragédia japonesa me remeteu a outra questão, também relacionada à violência, embora em um contexto diferente: a indisciplina escolar. Reflexões sobre esse tema apontam, frequentemente, para a ausência de afeto familiar como um fator determinante. A falta de diálogo, de limites claros e de uma educação responsável no ambiente familiar contribui para o comportamento indisciplinado dos alunos. A escola, enquanto instituição social, precisa estar preparada para lidar com esses reflexos, buscando a participação da família e trabalhando para desenvolver nos alunos a capacidade de expressar ideias e opiniões de forma crítica e construtiva.

    A cena da universidade japonesa, com cerca de 150 estudantes em uma aula rotineira interrompida pela violência, intensificou essa reflexão. O relato de um aluno à Agência Kyodo, sobre a agressora movendo o martelo sem direção aparente, atingindo aqueles sentados na última fileira, transmitia uma sensação de caos e desespero. Outro descreveu o rosto inexpressivo da jovem, como se ela estivesse agindo sob uma força incontrolável. A reportagem também mencionava a discriminação sofrida por coreanos no Japão, adicionando uma complexidade social e histórica à tragédia.

    A violência, seja o ataque com um martelo em uma universidade, seja a indisciplina em sala de aula, revela uma profunda carência: a falta de escuta atenta, de diálogo e de afeto. O martelo, um instrumento de construção, transformado em arma, simboliza essa inversão de valores. Da mesma forma, a indisciplina, muitas vezes, é um grito silencioso por atenção, por reconhecimento, por um espaço onde a voz possa ser ouvida.

    Acredito que tanto a violência extrema quanto a indisciplina cotidiana têm raízes profundas na falta de limites e, principalmente, na falta de afeto. Os limites, contudo, não devem ser meramente impostos, mas construídos em conjunto pela criança, pela família e pela escola, utilizando o diálogo como ferramenta principal. A família precisa procurar compreender a criança, oferecendo afeto, atenção e estabelecendo limites com respeito. A escola, por sua vez, deve gerar atividades que incentivem a participação da família, mostrando aos pais a importância de seu envolvimento na vida escolar dos filhos.

    Acredito que, ao trabalhar valorizando e reconhecendo a história de vida de cada aluno, há um despertar para o processo de ensino-aprendizagem. Uma boa conversa, onde o professor expõe seus objetivos e acolhe as sugestões dos alunos, mostrando a eles que fazem parte da sociedade e que existem regras para o bom convívio, pode ajudar a amenizar muitos problemas. A construção conjunta das regras da turma pode ser uma solução eficaz, fazendo com que o aluno se sinta parte do processo e, consequentemente, mais propenso a obedecê-las.

    A tragédia no Japão e as reflexões sobre a indisciplina escolar me levam a concluir que a violência, em qualquer de suas formas, é um sintoma de uma sociedade que precisa urgentemente resgatar valores como o diálogo, o afeto e o respeito. Precisamos construir espaços mais acolhedores e inclusivos, onde a frustração não se transforme em violência e onde o silêncio ensurdecedor seja substituído por vozes que clamam por paz e compreensão. Educar, afinal, significa ajudar o aluno a construir sua autonomia, disciplina, ordem, liberdade, amor e paz. E essa construção só é possível com a parceria entre família e escola, com muita escuta, afeto e diálogo.


    Como um bom professor de sociologia do Ensino Médio, preparei 5 questões discursivas no formato de pergunta simples sobre os temas principais do texto:


    1. De que maneira o texto estabelece uma conexão entre o ataque ocorrido na universidade no Japão e a questão da indisciplina escolar?

    2. Segundo o autor, qual o papel do afeto familiar no desenvolvimento de comportamentos violentos ou indisciplinados?

    3. Como o texto aborda a importância da escola enquanto instituição social na prevenção da violência e na promoção do diálogo?

    4. Quais as propostas apresentadas no texto para lidar com a indisciplina escolar e construir um ambiente mais acolhedor?

    5. Em síntese, qual a principal mensagem que o autor busca transmitir ao conectar os eventos no Japão com a problemática da indisciplina escolar?

    Ensaio Teológico VIII(3) Sabedoria e Poder: Uma Reflexão Sobre as Dinâmicas do Conhecimento

     Ensaio 


    Ensaio Teológico VIII(3) Sabedoria e Poder: Uma Reflexão Sobre as Dinâmicas do Conhecimento

    Por Claudeci Ferreira de Andrade

    Desde menino, carrego uma pergunta que nunca me deixou em paz: quem decide o que merece ser chamado de sabedoria? Lembro-me de uma senhora da minha comunidade que mal assinava o próprio nome, mas sabia a hora de plantar, o momento de calar e o jeito exato de consolar um viúvo. Ninguém a chamava de sábia; era apenas "pessoa simples". E talvez esteja aí uma das nossas maiores contradições: a sabedoria pode até ser um dom universal, mas o reconhecimento dela, não. Com ela aprendi que existe uma diferença enorme entre possuir conhecimento e ser reconhecido como alguém que sabe. Creio, com Provérbios 2:6, que é o Senhor quem dá a sabedoria. Mas, confesso que me inquieta pensar no que acontece com esse dom quando ele desce ao chão da história, onde entram escolas, universidades, cânones, títulos e fronteiras. Foucault mostrou que todo saber nasce entrelaçado a dispositivos de poder, enquanto bell hooks nos lembrou que ensinar pode ser tanto prática de liberdade quanto instrumento de domesticação. O dom pode ser divino, mas as mãos que o distribuem são humanas — e mãos humanas, não raro, seguram para si aquilo que deveriam repartir.

    É nesse ponto que a desigualdade deixa de ser uma palavra bonita de discurso acadêmico e ganha rosto, endereço e até sotaque. Bourdieu chamou de capital cultural aquilo que as famílias transmitem, muitas vezes sem perceber: o vocabulário, a familiaridade com os livros, os modos de falar, de argumentar e até de ocupar determinados espaços. Quem cresce entre estantes, conversas sobre literatura e ambientes intelectualmente estimulantes recebe, desde cedo, uma espécie de vantagem invisível. Penso no estudante da periferia que atravessa a cidade durante duas horas para chegar a uma universidade cuja linguagem lhe parece estrangeira. Ele não carece de inteligência; carece de passaporte. E, às vezes, o que chamamos de "falta de preparo" é apenas a ausência desse passaporte cultural. Por isso, leio com honestidade o eco de Mateus 25:29. No contexto da parábola dos talentos, o versículo trata de responsabilidade, não de sociologia da educação. Seria forçar o texto bíblico transformá-lo numa teoria educacional. Ainda assim, as grandes palavras não terminam no primeiro endereço em que foram pronunciadas. Elas continuam andando pela história, provocando novas perguntas. E eu me pergunto: quantos talentos se perdem todos os dias simplesmente porque seus donos nunca receberam o direito de tentar?

    A desigualdade, porém, não se limita à sala de aula; ela também tem geografia. Há lugares onde determinados conhecimentos são tratados como universais e outros onde saberes inteiros são empurrados para a margem, como se fossem apenas curiosidades folclóricas. Mbembe denuncia justamente essa pretensão europeia de falar em nome do universal, como se o pensamento pudesse nascer sem corpo, sem território e sem história. Não nasce. Todo conhecimento carrega marcas de quem o produz, de onde é produzido e, sobretudo, de quem teve poder para dizer: "isto é conhecimento". Said, em Orientalismo, mostrou como o Ocidente produziu saberes sobre o Oriente que serviram não apenas para compreendê-lo, mas também para classificá-lo, representá-lo e dominá-lo. Conhecer, nesse caso, tornou-se também uma forma de possuir. E aqui a pergunta volta a me cutucar: quem conhece quem? Quem tem o direito de nomear o outro? Quem permanece sendo objeto quando poderia ser sujeito da própria história?

    Por isso, não me basta, como cristão, repetir que todo saber vem de Deus. Colossenses 2:3 afirma que, em Cristo, estão escondidos todos os tesouros da sabedoria. E há algo bonito nessa imagem do tesouro escondido: tesouro escondido é tesouro que precisa ser procurado, cavado, descoberto. Talvez esteja justamente aí a provocação que a fé deveria fazer à academia e à própria Igreja: e se parte dos tesouros da sabedoria estiver onde quase nunca nos damos ao trabalho de procurar? Na cozinha, na roça, na oficina, no quintal, na conversa de calçada, na memória dos mais velhos, na voz de quem não assina o próprio nome, mas sabe a hora de plantar e a delicadeza necessária para consolar um coração partido. Há saberes que nunca receberam diploma porque jamais couberam numa moldura acadêmica. Nem por isso deixaram de ser saberes.

    E resta, finalmente, uma questão ainda mais incômoda: para que serve o saber quando ele não se transforma em responsabilidade? Eclesiastes 7:12 compara a sabedoria ao dinheiro, reconhecendo que ambos podem servir de proteção. A comparação é desconfortável, mas bastante realista. Quem tem acesso à palavra, à leitura crítica do mundo e às ferramentas do conhecimento possui uma espécie de escudo contra muitos abusos do poder; quem não tem, fica mais exposto. Nesse sentido, a luta pelo conhecimento não é mero luxo intelectual. É questão de sobrevivência, dignidade e justiça. Saber ler o mundo pode ser tão importante quanto saber ler uma palavra. E talvez seja justamente por isso que todo projeto de dominação tenha medo de pessoas que aprendem a fazer perguntas.

    Minha fé também me obriga a olhar para essa contradição. Uma espiritualidade que apenas louva a origem divina do dom, mas não pergunta quem está sendo impedido de recebê-lo, corre o risco de empobrecer o próprio louvor. Afinal, de que adianta afirmar que Deus dá sabedoria se nós, seres humanos, construímos cercas para decidir quem pode ser ouvido? A tarefa de quem pensa e de quem ora talvez seja mais parecida do que imaginamos: abrir portas, devolver nome aos anônimos, desmontar hierarquias injustas e aprender a escutar aquilo que o nosso próprio preconceito nos ensinou a desprezar. Pensar, nesse caso, não é apenas acumular respostas; é aprender a fazer justiça às perguntas.

    E volto, então, àquela senhora do começo. Durante muito tempo, talvez eu tenha imaginado que ela precisava ser reconhecida por alguém como sábia. Hoje penso diferente. Ela nunca precisou do meu reconhecimento. Quem precisava dela era eu. Quem precisava ouvi-la éramos nós. E talvez essa seja a grande ironia da sabedoria: às vezes, passamos a vida procurando mestres em livros, universidades, púlpitos e bibliotecas, enquanto a vida deixa um deles sentado ao nosso lado, em silêncio, esperando apenas que alguém tenha humildade suficiente para escutar. No fim das contas, talvez sabedoria não seja somente saber muito. Talvez seja também saber reconhecer quem sabe — sobretudo quando esse alguém não tem título, diploma ou voz autorizada para provar que sabe.

    Questões Discursivas: Sabedoria, Poder e Conhecimento

    1. A legitimação do saber (Michel Foucault)

    O texto aponta que "a sabedoria pode até ser um dom universal, mas o reconhecimento dela, não" e menciona que Foucault mostrou que todo saber nasce entrelaçado a dispositivos de poder.

    Questão: Explique, com base na leitura e no conceito foucaultiano citado, por que saberes práticos de pessoas tradicionais ou de comunidades (como o manejo da terra ou o cuidado com o outro) muitas vezes não são reconhecidos socialmente como "conhecimento legítimo" pelas instituições formais.

    2. O Capital Cultural e a Desigualdade (Pierre Bourdieu)

    O autor utiliza o conceito de "passaporte cultural" ao falar sobre a vantagem invisível daqueles que crescem em ambientes intelectualmente estimulados, contrastando com a realidade de estudantes periféricos.

    Questão: Defina o conceito de "capital cultural" (apresentado por Pierre Bourdieu no texto) e explique como a falta desse capital específico pode transformar uma barreira social em uma falsa impressão de "falta de preparo" ou inteligência no ambiente acadêmico.

    3. Eurocentrismo e a Geopolítica do Conhecimento (Achille Mbembe e Edward Said)

    O texto discute a geografia da desigualdade, mencionando que certos conhecimentos são impostos como universais enquanto outros são marginalizados como "curiosidades folclóricas" (Mbembe) e como o conhecimento serviu para dominar o Outro (Said).

    Questão: De que maneira a imposição de um padrão único de conhecimento (geralmente eurocêntrico) desvaloriza saberes locais, regionais ou de povos originários? Relacione sua resposta com a ideia de que "conhecer também pode ser uma forma de possuir".

    4. A Função Social e Protetiva do Conhecimento (Eclesiastes e a Sociologia)

    Fazendo referência a Eclesiastes 7:12, o autor compara a sabedoria ao dinheiro, destacando que ela serve como um escudo contra abusos de poder e que a luta pelo conhecimento é uma questão de sobrevivência e dignidade.

    Questão: Por que, do ponto de vista sociológico, o acesso à leitura crítica do mundo e às ferramentas do conhecimento atua como uma ferramenta de proteção contra a dominação e a exclusão social?

    5. O Saber como Prática de Liberdade e Reponsabilidade (bell hooks)

    Inspirando-se na educadora bell hooks, o texto reflete sobre como a educação pode ser instrumento de domesticação ou prática de liberdade, questionando quem constrói cercas para decidir quem pode ser ouvido.

    Questão: Refletindo sobre a frase "pensar não é apenas acumular respostas; é aprender a fazer justiça às perguntas", discuta como a escola e os espaços de ensino podem superar preconceitos sociais para valorizar as diferentes formas de sabedoria presentes na sociedade.

    💡 Dica do professor: Essas questões podem ser aplicadas em uma atividade avaliativa dissertativa, usadas para iniciar um debate em sala de aula (roda de conversa) ou como disparadoras para a produção de uma redação argumentativa sobre desigualdade cultural e saberes plurais.

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