"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

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MINHAS PÉROLAS

Professor burro tolhe o êxito dos alunos, com vetos vãos, atrasando seu próprio sucesso. O sucesso do aluno também é nosso.
Claudeci Ferreira de Andrade

sábado, 29 de março de 2025

Passando Mel na Boca de Todo Mundo ("A infância é um pote de mel." - Fernando Pessoa)

 

Passando Mel na Boca de Todo Mundo ("A infância é um pote de mel." - Fernando Pessoa)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Naquele dia, o sol de Roraima já despontava no céu, pintando-o com tons de laranja e rosa, enquanto a notícia se espalhava, trazendo consigo um zumbido doce e promissor. As informações chegavam através das ondas do rádio e das páginas da internet: a Assembleia Legislativa havia dado um passo importante, um daqueles que, à primeira vista, podem parecer pequenos, mas que carregam em si a força de transformar o cotidiano. Falavam sobre mel, aquele néctar dourado tão apreciado, e sobre a possibilidade de ele fazer parte da merenda escolar das crianças.

A notícia soou para muitos como um raio de otimismo em meio à rotina. Mel na merenda? Que ideia saborosa e nutritiva! Imaginavam as reações dos pequenos ao se depararem com essa novidade: seus olhinhos brilhando, não apenas pela doçura do mel, mas também pela sensação de cuidado e atenção que essa inclusão representava. Afinal, quem não se lembrava daquele potinho de mel que a avó oferecia para acalmar a tosse ou adoçar um dia mais cinzento?

A curiosidade levou muitos a buscar mais informações. Descobriram que essa iniciativa não era apenas um capricho, mas o resultado de um esforço conjunto, liderado por pessoas que enxergavam no mel um potencial muito maior do que um simples adoçante. Havia por trás disso a dedicação dos apicultores locais, homens e mulheres que, com esmero, cuidavam de suas colmeias, extraindo da natureza esse presente valioso. Alguns se lembravam de ter visto essas pequenas propriedades rurais, onde o aroma floral pairava no ar, anunciando a produção artesanal e cuidadosa.

Ao tomar conhecimento das declarações dos apicultores, percebi a alegria e a esperança em suas palavras. Para eles, essa lei representava o reconhecimento de um trabalho árduo e a oportunidade de expandir seus horizontes. A possibilidade de fornecer mel para as escolas abria um novo mercado, impulsionando a economia local e gerando mais empregos. Era como se o zumbido das abelhas, antes um som distante, agora ecoasse com mais força, anunciando um futuro mais próspero para toda a comunidade.

E não era só a economia que se fortalecia. Especialistas destacavam os inúmeros benefícios do mel para a saúde, especialmente para as crianças em fase de desenvolvimento. Sua riqueza em nutrientes e suas propriedades anti-inflamatórias o tornavam um aliado poderoso para uma alimentação escolar mais saudável e equilibrada. Imaginei a energia extra que as crianças teriam para aprender e brincar, impulsionadas por essa doçura natural.

Acompanhei o desenrolar dessa história através das notícias. Vi a Assembleia Legislativa debater o tema, ouvir os apicultores, analisar os dados de produção que mostravam um crescimento constante ao longo dos anos. Era gratificante perceber que o poder público estava atento às necessidades da população e buscando soluções inovadoras para o desenvolvimento do estado.

Hoje, imagino as crianças saboreando o mel em suas merendas e, de certa forma, fico até orgulhoso como professor. Não apenas pelo sabor delicioso que certamente alegra seus paladares, mas principalmente pela preocupação dos políticos em construir um futuro mais doce e saudável para as novas gerações. Essa pequena mudança, impulsionada pela visão de alguns e pela dedicação de muitos, mostra que, às vezes, as soluções mais simples e naturais são as que trazem os maiores benefícios. Que o doce zumbido das abelhas continue a ecoar nas escolas, trazendo consigo saúde, prosperidade e a certeza de que Roraima tem um mel de qualidade para oferecer ao mundo. Refiro-me também ao exemplo de educação para o Brasil.


https://g1.globo.com/rr/roraima/especial-publicitario/assembleia-legislativa-de-roraima/noticia/2025/03/28/mel-na-merenda-texto-aprovado-na-ale-rr-fortalece-apicultura-e-alimentacao-escolar.ghtml (Acessado em 29/03/2025)


Como um bom professor de sociologia, preparei 5 questões discursivas simples, baseadas nas ideias principais do texto, para estimular a reflexão sobre os aspectos sociais envolvidos na iniciativa do mel na merenda escolar em Roraima:


1. De que maneira a notícia sobre o mel na merenda escolar em Roraima pode ser interpretada como um exemplo de como políticas públicas podem impactar positivamente a vida cotidiana das pessoas? (Esta questão visa explorar a conexão entre a ação governamental e seus efeitos na sociedade.)

2. O texto destaca a importância dos apicultores locais para a concretização da lei. Como essa iniciativa pode fortalecer a economia local e as relações de trabalho na comunidade de Roraima? (Esta questão busca analisar o impacto da política no desenvolvimento econômico e nas dinâmicas sociais locais.)

3. A reação positiva à notícia, mencionada no texto, sugere alguns valores sociais importantes para a população. Quais valores você identifica nessa reação e como eles se manifestam na sociedade? (Esta questão pretende estimular a reflexão sobre os valores sociais subjacentes à aceitação da política.)

4. O texto menciona os benefícios do mel para a saúde das crianças. Como a inclusão desse alimento na merenda escolar pode contribuir para a promoção da saúde e para a redução das desigualdades sociais no acesso a uma alimentação nutritiva? (Esta questão busca analisar a política sob a perspectiva da saúde pública e da equidade social.)

5. Considerando a perspectiva do "exemplo para o Brasil" mencionada no final do texto, quais elementos dessa iniciativa em Roraima poderiam ser considerados relevantes e inspiradores para outras regiões do país no âmbito da alimentação escolar e do apoio à produção local? (Esta questão visa incentivar a análise comparativa e a identificação de boas práticas em nível nacional.)

sexta-feira, 28 de março de 2025

Sombras no Corredor ("Não se nasce com a luz; aprende-se a acendê-la." - Mia Couto)

 

Sombras no Corredor ("Não se nasce com a luz; aprende-se a acendê-la." - Mia Couto)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Os dias cinzentos de março sempre guardam segredos. Naquela quinta-feira, quando o mundo ainda dormia em seu silêncio mais profundo, algo se quebrava além das paredes da Escola Municipal André De Nadai — não apenas fios elétricos, mas talvez um pedaço da esperança coletiva.

O telefone vibrou cedo, trazendo consigo histórias de abandono. A notícia do furto de fios chegava como um sussurro de desalento, tão comum nos dias atuais que quase perdia o poder de chocar. Era mais um capítulo na saga interminável de descaso com a educação, um sintoma de um mal que corrói as estruturas sociais como ferrugem silenciosa.

Os corredores da escola mergulharam em uma penumbra que ia além da simples ausência de luz. Era como se a escuridão portasse uma mensagem — um grito silencioso sobre os desafios que assolam o sistema educacional. Ana Sofia, uma menina de 11 anos, encontrou a metáfora perfeita: "Parecia uma série de zumbis". Que imagem mais precisa poderia existir? Zumbis: seres sem alma, vagando por espaços sem vida. Não seriam os estudantes, muitas vezes, como zumbis de um sistema que os deixa à deriva?

Os ventiladores mudos, as lousas digitais inertes, os bebedouros secos — cada objeto parecia clamar por uma história. Uma história de abandono, de descaso, mas também de resistência. Porque, mesmo no escuro, a escola continuava. Atividades pedagógicas seguiam, professores improvisavam, alunos persistiam.

A cena revelava mais do que um simples furto. Era um retrato da resiliência brasileira, dessa capacidade quase sobre-humana de seguir em frente diante de adversidades que pareceriam intransponíveis para qualquer outro povo. As famílias, cansadas, mas esperançosas, continuavam empurrando seus filhos em direção ao conhecimento. "É melhor mandar para a escola", disse uma mãe. Não era resignação, era esperança. Uma esperança teimosa que se recusa a morrer, mesmo quando tudo ao redor parece conspirar contra ela.

A prefeitura prometia soluções. Palavras bonitas que dançavam nos comunicados oficiais, como pequenos balés de burocracia. Mas todos sabiam — era um segredo não declarado — que a verdadeira solução não estava em comunicados, mas na transformação. Na valorização real da educação.

Ao anoitecer, pairava no ar uma reflexão: os fios roubados eram apenas um sintoma. O diagnóstico era mais profundo: precisava-se reconectar não apenas a fiação elétrica, mas os fios que unem a sociedade. Reacender não só as luzes das escolas, mas a luz nos olhos dos jovens.

A escuridão era temporária. A esperança, infinita.

E no silêncio daquela escola, entre sombras e sussurros, a educação seguia. Resiliente. Inquebrantável.


https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2025/03/28/furto-de-fios-deixa-escola-municipal-de-sumare-sem-aulas.ghtml (Acessado em 28/0382025)


Como um bom professor de sociologia, preparei 5 questões discursivas e simples, baseando-me nas ideias principais do texto apresentado:


1. O autor descreve o furto de fios em uma escola como um "sintoma de um mal que corrói as estruturas sociais". De que maneira a sociologia pode analisar eventos como esse como indicadores de problemas mais amplos na sociedade, especialmente no que diz respeito à valorização da educação e da infraestrutura pública?

2. A metáfora da escuridão é utilizada no texto para descrever a situação da escola sem energia e, de forma mais ampla, os desafios do sistema educacional. Como a sociologia interpreta o uso de metáforas como essa para representar problemas sociais e quais as implicações dessa representação para a percepção pública da educação?

3. O texto destaca a resiliência da comunidade escolar, com professores e alunos continuando as atividades apesar das dificuldades. De que forma a sociologia estuda a resiliência como um fenômeno social, e quais fatores podem contribuir para a capacidade de indivíduos e comunidades de superar adversidades no contexto da educação?

4. O autor menciona a reação da prefeitura e a burocracia envolvida na solução do problema. Como a sociologia analisa o papel do Estado e das instituições governamentais na gestão da educação e na resposta a problemas sociais como o descrito no texto? Quais são os desafios e as possíveis críticas a essa atuação?

5. O texto conclui com a ideia de que é preciso "reconectar não apenas a fiação elétrica, mas os fios que unem a sociedade" e "reacender não só as luzes das escolas, mas a luz nos olhos dos jovens". Sob uma perspectiva sociológica, qual a importância da coesão social e da esperança para o desenvolvimento da educação e para o futuro de uma sociedade? Como eventos como o furto de fios podem afetar esses aspectos?

quarta-feira, 26 de março de 2025

DECLÍNIO ("Tempos difíceis virão, marcados pela maldade e egoísmo humanos." — Apostolo Paulo)

 

DECLÍNIO ("Tempos difíceis virão, marcados pela maldade e egoísmo humanos." — Apostolo Paulo)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Houve um tempo em que a escola era um refúgio. Os alunos viam nas carteiras enfileiradas uma oportunidade de escapar do trabalho pesado, do rigor da vida adulta que batia à porta cedo demais. Estudar não era apenas um dever, mas um abrigo. Hoje, a realidade se inverteu: o que antes era esperança tornou-se castigo. E, como professor, testemunho essa metamorfose com um misto de perplexidade e desalento.

Três décadas de magistério e nunca vi turmas tão áridas de curiosidade, tão impermeáveis ao conhecimento. O conteúdo está ali, farto e acessível como nunca, com livros, internet, projetos e programas de incentivo. No entanto, a aprendizagem patina. O pensamento lógico se tornou um deserto, e a escrita, um amontoado de frases soltas, desprovidas de coesão e alma. Os olhos vidrados nas telas brilham mais do que as mentes. A escola tenta oferecer tudo, mas a sede por saber parece extinta.

Não falo apenas do Ensino Médio. A erosão do intelecto começa cedo, já nos primeiros anos do Fundamental. Lá, onde deveria germinar o encanto pelo mundo das palavras e dos números, floresce o imediatismo. A paciência para o esforço, para o erro e a correção, se perdeu. O conhecimento se tornou um fardo pesado demais para ombros acostumados ao conforto.

E não é só culpa dos alunos. Os pais, distraídos ou coniventes, não percebem – ou fingem não perceber – a mediocridade que se alastra. Acostumaram-se a uma educação que não cobra, que não exige, que perdoa tudo em nome de uma suposta inclusão. O resultado é uma geração que se orgulha de saber pouco e que rejeita qualquer desafio que exija mais do que um clique.

Penso nos que desistiram: em professores que, vencidos pela apatia estudantil, trocaram a lousa por outros ofícios; em alunos que, cegos pelo desinteresse, desistiram antes mesmo de tentar. Pergunto-me: quando foi que a escola deixou de ser um lugar de descobertas para se tornar um incômodo? Quando foi que aprender passou a ser visto como punição?

Talvez eu esteja velho para essas respostas. Talvez o que vejo seja apenas um fragmento de algo maior, um sintoma de um tempo em que o esforço foi desvalorizado. Mas uma coisa é certa: a colheita virá, sempre vem. E temo que, quando enfim perceberem o estrago, o solo já esteja infértil para qualquer recomeço.


"1 Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.

2 Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos,

3 Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, intemperantes, cruéis, sem amor para com os bons,

4 Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus,

5 Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te.

6 Porque deste número são os que se introduzem pelas casas, e levam cativas mulheres néscias carregadas de pecados, levadas de várias concupiscências;

7 Que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade.

8 E, como Janes e Jambres resistiram a Moisés, assim também estes resistem à verdade, sendo homens corruptos de entendimento e réprobos quanto à fé.

9 Não irão, porém, avante; porque a todos será manifesto o seu desvario, como também o foi o daqueles" ( 2 Tm 3: 1-9).


Como um bom professor de sociologia, preparei 5 questões discursivas e simples, baseando-me nas ideias principais do texto apresentado:


1. O autor descreve uma inversão na percepção da escola, que antes era vista como um "refúgio" e hoje é encarada como um "castigo". Sob uma perspectiva sociológica, quais fatores sociais, econômicos ou culturais podem ter contribuído para essa mudança na relação dos estudantes com a instituição escolar?

2. O texto lamenta a "aridez de curiosidade" e a dificuldade dos alunos em desenvolver o pensamento lógico e a escrita coerente, apesar da abundância de recursos educacionais. De que maneira a sociologia analisa o papel da escola no desenvolvimento dessas habilidades e quais elementos da sociedade contemporânea poderiam estar impactando negativamente esse processo?

3. O autor aponta para a possível influência dos pais, que se acostumaram a uma educação menos exigente, na formação de uma geração com menor interesse pelo esforço intelectual. Como a sociologia aborda a relação entre família e escola no processo de socialização e na construção dos valores relacionados à educação?

4. O texto expressa uma preocupação com o futuro, utilizando a metáfora da "colheita" para se referir às possíveis consequências do atual cenário educacional. De que forma a sociologia analisa a importância da educação para o desenvolvimento social e econômico de uma sociedade, e quais seriam os potenciais impactos de um sistema educacional com os desafios apontados pelo autor?

5. O autor inclui uma passagem bíblica que descreve "tempos trabalhosos" e características negativas dos indivíduos. Estabeleça uma possível conexão sociológica entre as observações do autor sobre a situação atual da educação e os traços de comportamento descritos na passagem bíblica. Essa conexão sugere uma visão de declínio social? Justifique sua resposta.

segunda-feira, 24 de março de 2025

Reflexões de um Professor Desacreditado (Os professores incríveis se achando ruins, por conta de um sistema ruim que se acha incrível. — Professora Gesiane Ramalho)

 

Reflexões de um Professor Desacreditado (Os professores incríveis se achando ruins, por conta de um sistema ruim que se acha incrível. — Professora Gesiane Ramalho)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Sempre achei curioso como a escola, esse espaço que deveria ser um celeiro de conhecimento e transformação, consegue muitas vezes funcionar como um moinho que tritura sonhos e expectativas. No início da carreira, acreditava que o trabalho de um professor era iluminar mentes, acender curiosidades, despertar reflexões. Com o tempo, percebi que, dentro desse sistema escolar, o papel do mestre é frequentemente o de um personagem invisível, esmagado por engrenagens que giram sem qualquer preocupação com quem as movimenta.


A caneta paira sobre o papel em branco, hesitante. Mais de trinta anos dedicados ao ensino, e a cada novo ciclo letivo, a mesma ponta de angústia me cutuca. Lembro-me daquele brilho nos olhos quando corrigia a primeira redação impecável, da euforia contagiante ao ver um aluno finalmente desvendar a lógica de um poema. Éramos faróis, incendiando mentes jovens com a chama do conhecimento. Éramos...
Hoje, sinto-me mais como uma vela quase apagada, tremulando sob a brasa de um sistema que insiste em se autoelogiar. Observo meus colegas, outrora mestres entusiasmados, arrastando os pés pelos corredores, o sorriso cansado, a voz embargada por um desânimo silencioso. A paixão que nos movia parece ter se esvaído, gota a gota, diante de metas irreais, burocracias sufocantes e a constante sensação de nadar contra a correnteza.
Lembro-me bem de uma colega brilhante. Suas aulas eram envolventes, sua presença em sala, magnética. Os alunos a respeitavam – ou pelo menos, era o que eu imaginava. Certo dia, encontrei-a cabisbaixa na sala dos professores. "O que houve?", perguntei. Ela suspirou, apontando para um bilhete amassado em sua mão. Era uma anotação da coordenação: uma reclamação formal sobre o seu método, supostamente rígido demais. Nenhuma menção ao impacto positivo que ela causava naqueles que realmente se importavam em aprender, nenhum elogio ao brilho que imprimia em cada explicação. Apenas uma advertência velada, uma tentativa de moldá-la ao formato padrão, insípido e previsível.
Começou sutilmente, talvez com a imposição de um currículo engessado, que parecia ignorar a diversidade dos nossos alunos e as particularidades de cada turma. Depois vieram as avaliações externas, números frios que não capturavam o calor da nossa dedicação nem o progresso individual de cada criança. Aos poucos, a autonomia em sala de aula foi sendo cerceada, as inovações desestimuladas, e a criatividade, essa ferramenta essencial do ensino, tornou-se um luxo raro.
A cada reunião pedagógica, a mesma ladainha: índices, metas, números, relatórios. Mas nunca, jamais, a pergunta essencial: como você está? Você ainda sente que vale a pena? Alguém já lhe disse que seu trabalho faz diferença? No silêncio dessa ausência de reconhecimento, muitos vão apagando a chama que um dia os fez acreditar que poderiam mudar o mundo.
Lembro-me daquele projeto sobre literatura brasileira que desenvolvi com tanto afinco, culminando em uma apresentação teatral emocionante feita pelos alunos. O diretor, na época, elogiou a iniciativa, mas logo em seguida, mandou a coordenadora me orientar a parar com execução do plano, pois os colegas reclamaram que a movimentação atrapalhava as aulas deles. Então, a prioridade passou a ser o cumprimento rigoroso de planilhas e relatórios, como se a alma da educação pudesse ser quantificada em gráficos e tabelas. E assim, fomos nos tornando meros executores de um plano pré-fabricado, peças substituíveis em uma engrenagem que se vangloriava da própria eficiência, enquanto nós, os artesãos do saber, sentíamos nossas mãos cada vez mais atadas.
A ironia é que os professores incríveis, aqueles que desafiam o comodismo e buscam transformar a educação em algo real e pulsante, acabam muitas vezes se sentindo pequenos e desacreditados. Não por incompetência, mas porque operam dentro de um sistema que se vangloria de sua própria eficácia, mesmo quando falha estrondosamente. A escola se acha grandiosa enquanto seus mestres, exaustos, se convencem de que são insuficientes.
Vejo o reflexo dessa insatisfação nos rostos dos meus alunos, que percebem o nosso desânimo, a falta daquele entusiasmo contagiante. Como inspirá-los a sonhar, a ir além, se nós mesmos nos sentimos presos em um ciclo vicioso? A ironia cruel reside justamente aí: nós, que nos dedicamos a construir futuros, nos sentimos impotentes diante de um presente que nos asfixia.
Talvez a maior tragédia não seja a nossa sensação de inadequação, mas o potencial desperdiçado, os talentos sufocados, a energia criativa que poderia transformar a educação, mas que se perde na engrenagem desse sistema que se julga impecável. E enquanto a máquina burocrática continua rodando, alheia ao nosso desgaste, resta-nos a silenciosa constatação de que, por trás de cada professor desmotivado, há um mar de possibilidades inexploradas, um universo de aprendizado que jamais será plenamente descoberto. A pergunta que ecoa em minha mente é: até quando permitiremos que essa engrenagem continue triturando o coração da educação?


Como um bom professor de sociologia, preparei 5 questões discursivas e simples, baseando-me nas ideias principais do texto apresentado:


1. O autor inicia o texto contrastando a visão idealizada da escola como um "celeiro de conhecimento e transformação" com a realidade percebida como um "moinho que tritura sonhos e expectativas". De que maneira essa metáfora inicial reflete as tensões e desafios enfrentados pelos professores no sistema educacional descrito no texto?

2. O cronista relata a perda de entusiasmo e paixão entre os professores, atribuindo isso a fatores como "metas irreais, burocracias sufocantes e a constante sensação de nadar contra a correnteza". Como a sociologia pode analisar o impacto das condições de trabalho e das estruturas organizacionais na motivação e no bem-estar dos profissionais da educação?

3. A narrativa destaca a falta de reconhecimento e apoio aos professores, evidenciada pela ausência de perguntas sobre seu bem-estar nas reuniões pedagógicas e pela valorização excessiva de métricas e relatórios. De que forma a sociologia aborda a importância do reconhecimento social e profissional para a manutenção da qualidade do trabalho e da saúde mental dos indivíduos?

4. O autor descreve a ironia de "professores incríveis" se sentirem "pequenos e desacreditados" dentro de um sistema que se vangloria de sua eficácia. Como a sociologia explica as dinâmicas de poder e as relações hierárquicas dentro das instituições educacionais, e como essas dinâmicas podem afetar a percepção que os profissionais têm de seu próprio valor?

5. Ao final do texto, o cronista expressa preocupação com o "potencial desperdiçado" e os "talentos sufocados" dentro do sistema educacional. De que maneira a sociologia analisa o papel da educação na promoção do desenvolvimento individual e social, e quais são as possíveis consequências para a sociedade quando o potencial dos educadores e dos alunos não é plenamente realizado?

domingo, 23 de março de 2025

Cicatrizes Invisíveis ("A infância é um reino onde ninguém morre." - Cecília Meireles)

 

Cicatrizes Invisíveis ("A infância é um reino onde ninguém morre." - Cecília Meireles)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Os corredores da escola municipal de Pium, antes preenchidos por vozes animadas e passos apressados, agora ecoavam um silêncio pesado naquela quinta-feira de março. Policiais entravam e saíam da diretoria, carregando equipamentos eletrônicos apreendidos, enquanto olhares atônitos os seguiam. Havia algo no ar, além da poeira suspensa sob a luz que atravessava as janelas: era o peso da confiança quebrada, que pairava sobre aquele espaço que deveria ser sagrado para o desenvolvimento das crianças.

Na sala dos professores, o silêncio opressor tomou conta quando a notícia chegou. O coordenador disciplinar, aquele homem de 53 anos que tanto prezava pelas regras e pela disciplina, havia sido preso. As acusações eram devastadoras: estupro de vulnerável e coação de uma aluna para produzir materiais íntimos.

—"Como não percebemos nada?", perguntou Maria, professora de português, com lágrimas nos olhos. Seu questionamento ecoou entre os colegas, cada um carregando sua própria culpa silenciosa.

A pequena cidade de Pium jamais imaginaria que, por trás da máscara de autoridade, se escondia alguém capaz de criar um perfil falso para ameaçar uma criança de apenas 11 anos com "maldições" contra ela e sua mãe. A perversidade do método não só revelava um planejamento meticuloso, mas também um padrão comportamental. Descobriu-se posteriormente que ele já respondia por um crime semelhante contra a própria enteada em Palmas, antes de se mudar para a pacata cidade em 2018.

Nas semanas seguintes, a comunidade escolar transformou-se. Pais aterrorizados passaram a buscar seus filhos pessoalmente, aguardando ansiosos no portão muito antes do sino final. Professores tornaram-se mais vigilantes, observando cada interação adulto-criança com olhos renovados. A secretaria municipal exonerou o servidor imediatamente, mas a demissão parecia um gesto insuficiente diante do trauma infligido àquela menina e à confiança coletiva depositada na instituição.

Os dispositivos eletrônicos apreendidos naquele dia revelaram um arquivo sombrio de imagens e vídeos que ampliavam o horror para dimensões ainda mais assustadoras. Enquanto o homem era encaminhado para a Unidade Prisional de Paraíso, a cidade inteira parecia refletir sobre as prisões invisíveis em que suas vítimas permaneceriam.

Três meses depois, as aulas seguiam seu curso natural. Novos protocolos de segurança foram implementados, e o novo coordenador disciplinar carregava nos ombros o peso de reconstruir a confiança perdida. Mas havia cicatrizes invisíveis nos corredores — lembrando a todos que a vigilância pelo bem-estar das crianças jamais deveria ser relaxada.

A jovem de 12 anos voltava gradualmente às aulas, seu olhar ainda carregado de desconfiança. Uma psicóloga, durante uma reunião com o corpo docente, compartilhara palavras que agora pareciam gravadas nas paredes da escola: "A pior violência é aquela perpetrada por quem deveria proteger."

Agora, a comunidade carregava uma responsabilidade maior. O silêncio e a omissão eram cúmplices dos predadores que se escondiam por trás de cargos de autoridade. E nenhuma criança deveria atravessar os portões da escola carregando o medo, ao invés da esperança. Esta era a lição que Pium aprendera da maneira mais dolorosa possível.


https://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/2025/03/20/coordenador-de-escola-e-preso-suspeito-de-estuprar-aluna-apos-coagi-la-a-gravar-videos-intimos-diz-delegada.ghtml (Acessado em 23/03/2025)


Como um bom professor de sociologia, preparei 5 questões discursivas e simples, baseando-me nas ideias principais do texto apresentado:


1. O texto descreve a prisão do coordenador disciplinar como uma quebra de confiança na comunidade escolar. De que maneira a sociologia analisa o papel das figuras de autoridade em instituições como a escola e as consequências sociais quando essa confiança é abalada?

2. A pergunta da professora Maria, "Como não percebemos nada?", sugere uma reflexão sobre a dificuldade de identificar e prevenir casos de abuso. Sob uma perspectiva sociológica, quais fatores podem contribuir para a invisibilidade da violência sexual contra crianças em ambientes institucionais?

3. O texto menciona o uso de um perfil falso na internet para ameaçar a vítima, revelando uma forma de violência que se utiliza da tecnologia. Como a sociologia estuda as novas formas de violência e coerção facilitadas pelo ambiente virtual, e quais são os desafios para a proteção de crianças e adolescentes nesse contexto?

4. A reação da comunidade escolar, com pais buscando seus filhos e professores tornando-se mais vigilantes, demonstra o impacto social do crime. De que maneira a sociologia analisa as respostas coletivas a eventos traumáticos e a importância da mobilização da comunidade na proteção de seus membros mais vulneráveis?

5. A metáfora das "cicatrizes invisíveis" e a citação da psicóloga sobre a violência perpetrada por quem deveria proteger apontam para as consequências duradouras do abuso. Como a sociologia aborda o conceito de trauma social e a importância do apoio psicossocial para as vítimas e a comunidade afetada por eventos como este?