Ensaio Teológico I(19) Loucura, Pecado e Graça: Entre o Determinismo e a Liberdade
Por Claudeci Ferreira de Andrade
"Qualquer que disser a seu irmão: 'Louco!', corre o risco de ir para o fogo do inferno." (Mt 5:22 NVI). Jesus pronunciou essas palavras no Sermão da Montanha, e elas continuam desconcertantes. Não porque sejam difíceis de compreender, mas porque são difíceis de aceitar. O critério do julgamento não recai sobre o que o outro fez, e sim sobre o que eu digo a respeito do que ele fez. A palavra "louco", lançada contra alguém com todo o peso do desprezo que carrega, basta, segundo Jesus, para me colocar sob um julgamento mais severo do que aquele reservado ao homicídio na compreensão dos antigos. O que está em jogo não é apenas o ato cometido, mas a disposição do coração diante de quem errou, caiu ou adoeceu.
É justamente dessa inversão de perspectiva que nasce este ensaio. Existe uma leitura moralizante do pecado que, embora contenha elementos verdadeiros, incorre num equívoco que a própria Escritura corrige. Ela transforma a constatação bíblica de que o pecado produz consequências — algo inegável — numa sentença definitiva sobre o pecador. Nessa lógica, ele está em queda livre, incapaz de reagir, e a loucura que o acompanha seria apenas a confirmação de sua ruína inevitável. O problema, porém, não está na observação em si, mas no olhar de quem observa e no lugar de onde fala.
Provérbios 11:21 afirma, com mais precisão do que normalmente se cita, que "o ímpio certamente não ficará sem castigo". O texto não diz que o pecador esteja condenado antes mesmo de qualquer possibilidade de mudança. Há uma diferença enorme entre descrever as consequências do mal e decretar a impossibilidade de transformação. Afinal, a mesma Bíblia que declara em Romanos 3:23 que "todos pecaram" também anuncia, em Romanos 5:8, que "Cristo morreu por nós enquanto ainda éramos pecadores." Em outras palavras, a universalidade do pecado não serve como argumento para abandonar o pecador; ao contrário, é justamente ela que torna a graça indispensável.
Essa distinção se torna ainda mais clara quando olhamos para a experiência humana concreta. Viktor Frankl sobreviveu a Auschwitz. Isso não é metáfora nem recurso retórico; é um fato biográfico que antecede toda a teoria que ele desenvolveria mais tarde. Inserido na estrutura mais brutal produzida pelo século XX, onde praticamente toda liberdade exterior havia sido arrancada, Frankl percebeu que ainda restava algo que nenhum carcereiro podia confiscar: a liberdade de escolher a própria atitude diante das circunstâncias (Em Busca de Sentido, 1946). Longe de ser um otimismo ingênuo, essa conclusão nasceu da observação clínica realizada justamente no ambiente que mais desafiava qualquer esperança. Se existe liberdade interior até mesmo em Auschwitz, então a afirmação de que o pecador ou o louco "não pode fazer nada para impedir" sua própria ruína precisa ser examinada com muito mais cautela do que permite uma leitura estritamente determinista.
Isso, evidentemente, não significa minimizar o peso do pecado. A narrativa de Adão e Eva, em Gênesis 3, não precisa ser compreendida apenas como um relato histórico literal para comunicar sua verdade mais profunda. Ela revela uma realidade permanente da condição humana: existe em nós uma inclinação que nos arrasta para aquilo que não deveríamos desejar; uma tendência de trocar a comunhão verdadeira pela ilusão da autonomia, de preferir o fruto proibido ao jardim inteiro. Paulo descreve esse conflito com uma honestidade desarmante quando escreve, em Romanos 7:15: "o que quero fazer, não faço; o que odeio, isso faço." Não é fatalismo. É diagnóstico. E todo diagnóstico, por definição, aponta para a possibilidade de tratamento.
É exatamente aí que a graça entra em cena. O remédio oferecido pela Escritura não é a condenação moral do paciente, mas o encontro restaurador de Deus com aquele que está ferido. "Se alguém está em Cristo, é nova criação; as coisas antigas passaram; eis que surgiram coisas novas" (2Co 5:17). A escolha das palavras não é casual. Paulo não fala simplesmente em reforma ou renovação, mas em nova criação. A linguagem remete diretamente ao Gênesis. Não se trata apenas de recuperar o que foi perdido, mas de inaugurar aquilo que jamais existiu antes.
É por isso que a tensão entre a graça divina e a responsabilidade humana não se resolve eliminando um dos polos. Ela precisa ser vivida na convivência das duas verdades. Deus não salva quem não deseja ser salvo, mas ninguém é capaz de salvar a si mesmo. A responsabilidade humana não torna a graça desnecessária, assim como a graça não anula a responsabilidade. A Escritura sustenta essas duas afirmações lado a lado, sem tentar dissolver a tensão entre elas.
Quando voltamos às palavras de Jesus em Mateus 5:22, percebemos que Ele não condena o reconhecimento do pecado nem da loucura. O que Ele rejeita é a postura de quem nomeia o outro com desprezo, como se o simples ato de rotular revelasse uma posição de superioridade moral. O julgamento anunciado por Jesus não recai apenas sobre a palavra pronunciada, mas sobre a arrogância silenciosa de quem acredita estar acima daquele que observa.
E é justamente aí que o evangelho alcança sua profundidade. Nenhum de nós está acima. Todos compartilhamos da mesma fragilidade, da mesma necessidade de redenção e da mesma dependência da graça. Por isso, ela não é destinada apenas aos que chamamos de loucos ou pecadores. Ela também é para nós, que tantas vezes, sem perceber, os julgamos a partir do lugar errado.


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