Ensaio I(14) A Convivência entre Cristãos e Não-Cristãos: Encarnação, Santidade
Por Claudeci Ferreira de Andrade
"Ama e faz o que quiseres." Agostinho de Hipona, Sermão sobre 1 João 4:4-12. Quatro palavras. Apenas quatro. E, ainda assim, uma teologia inteira condensada numa única frase. Se levadas realmente a sério, talvez ofereçam uma resposta para uma das perguntas que mais desafiam os cristãos desde os primeiros séculos: afinal, como devemos nos relacionar com um mundo que não compartilha da nossa fé?
Antes de entrar nos argumentos, porém, deixe-me dar um rosto a essa discussão. Ele se chama — digamos — Rafael. Trabalha no mesmo andar que você. Nunca entrou numa igreja por vontade própria, gosta da cerveja das sextas-feiras, conta piadas que, vez ou outra, ultrapassam a linha do bom senso e, ao mesmo tempo, demonstra uma generosidade discreta que constrange muita gente que frequenta os bancos da igreja todos os domingos. Rafael não é um vilão. Também não é um santo. É simplesmente humano, com todas as contradições, fragilidades e belezas que a condição humana carrega. No fundo, a pergunta deste ensaio nunca foi abstrata. Ela sempre teve nome e rosto. O que fazer com Rafael? Aproximar-se? Afastar-se? Mantê-lo a uma distância confortável, protegida por um sorriso cordial e algumas conversas superficiais?
Existe uma tradição cristã sólida e respeitável que responderia com cautela. E ela não faz isso sem razões. Textos como 2 Coríntios 6:14-18 e Isaías 52:11 conclamam o povo de Deus a separar-se da impureza, a sair do meio dos incrédulos e a preservar a santidade. Essa preocupação não nasce do desprezo pelo outro. Nasce do temor de que a convivência constante acabe diluindo aquilo que deveria permanecer distinto. Afinal, a influência existe. A contaminação é uma possibilidade real. O risco de sermos moldados pelo ambiente, em vez de transformá-lo, não pode ser ignorado.
Ainda assim, por mais sincera que seja, essa leitura tropeça quando transforma advertências contextuais em princípios absolutos. Os textos que enfatizam a separação foram escritos para comunidades submetidas à perseguição, cercadas pelo sincretismo religioso e ameaçadas por uma apostasia concreta. Generalizar essas exortações para toda e qualquer relação humana é fazer os textos dizerem mais do que realmente disseram. Em última análise, é colocar uma parte das Escrituras contra outra.
Porque a mesma Bíblia que ordena discernimento também apresenta Jesus sentado à mesa de Zaqueu, o cobrador de impostos mais rejeitado de Jericó, enquanto a cidade inteira murmura do lado de fora (Lc 19:1-10). Mostra-o conversando sozinho com a mulher samaritana, atravessando, de uma só vez, as fronteiras do gênero, da etnia e da reputação (Jo 4:1-26). Mostra Paulo tornando-se "tudo para todos" — fraco com os fracos, livre entre os livres — para, por todos os meios, alcançar alguns (1Co 9:19-23). Nenhum deles se deixou absorver pelo mundo. Mas, nenhum escolheu viver distante dele. A diferença nunca esteve no lugar onde estavam. Sempre esteve na direção para a qual seus corações apontavam.
Quando Jesus orou: "não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal" (Jo 17:15), ele não eliminou essa tensão; deu-lhe o seu verdadeiro sentido. A resposta não seria o isolamento, mas a permanência. Não uma proteção construída por muros, e sim uma proteção sustentada pela presença de Deus. O discípulo de Cristo não é aquele que foge de Rafael. É aquele que permanece ao lado dele sem perder a própria identidade.
É justamente aqui que as quatro palavras de Agostinho ganham todo o seu peso. "Ama e faz o que quiseres" (Homilias sobre a Primeira Epístola de João, Sermão 7) jamais foi um convite ao relativismo moral. Pelo contrário. É a descrição da liberdade que só existe quando o amor ocupa o centro da vida. Quem ama de verdade não vive perguntando onde termina a regra. Pergunta como pode glorificar a Deus e servir ao próximo. O amor corretamente ordenado — Deus em primeiro lugar, o próximo como consequência — produz um discernimento que nenhuma lista de proibições consegue substituir. Diante de Rafael, o amor saberá quando permanecer, quando falar, quando silenciar, quando confrontar e quando ceder, sem jamais negociar a verdade.
O maior mandamento confirma essa lógica. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (Mt 22:37-40). E Jesus ampliou ainda mais esse horizonte ao contar a parábola do bom samaritano. O próximo não é apenas quem compartilha da mesma fé, da mesma comunidade ou da mesma visão de mundo. O próximo é aquele que Deus coloca diante de nós, especialmente quando podemos ser instrumento de graça em sua vida.
Por isso, os cristãos não foram chamados a construir fortalezas, mas a lançar raízes. Raízes profundas o bastante para que nenhum vento os arranque do evangelho; e, ao mesmo tempo, abertas o suficiente para oferecer sombra, abrigo e esperança a quem ainda caminha sob o sol escaldante da vida. O sal não preserva mantendo distância daquilo que pode apodrecer. A luz não ilumina escondida por medo da escuridão. Sua missão é justamente entrar onde a escuridão insiste em permanecer.
Rafael continua trabalhando no mesmo andar. A pergunta, portanto, nunca foi se você deve conviver com ele. A verdadeira questão é outra: quando Rafael olhar para a sua vida, ele encontrará apenas alguém que professa uma fé ou alguém cujo amor torna essa fé visível? Porque, no fim das contas, é esse amor — firme na verdade e abundante em graça — que sabe, de fato, o que fazer.


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