Ensaio Teológico VI(7) — Empreender: Entre o Lucro e o Próximo
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Existe uma pergunta que todo empreendedor deveria fazer a si mesmo antes de abrir as portas do próprio negócio: para quem, afinal, estou construindo isso? Peter Drucker dizia que "a melhor maneira de prever o futuro é criá-lo" — uma frase que soa quase como um hino ao protagonismo humano, à capacidade de transformar sonhos em projetos e projetos em realidade. Mas, espera aí: criar o futuro para quem? Apenas para si, para aumentar o patrimônio e engordar a conta bancária, ou para construir um futuro que também tenha lugar para o outro? Essa pergunta, aparentemente simples, pode separar o empreendedor que apenas busca sucesso daquele que compreende que toda atividade econômica também produz consequências humanas e sociais.
A formiga de Provérbios, com sua diligência silenciosa, continua sendo uma boa professora, mas já não basta para explicar o empreendedorismo do nosso tempo. O mundo mudou — e mudou depressa. Hoje, não basta estocar grãos para enfrentar o inverno. É preciso enxergar oportunidades, assumir riscos, inovar, aprender com os erros e, sobretudo, saber trabalhar com gente. A poupança, a prudência e a aversão ao desperdício, tão presentes na sabedoria bíblica de Provérbios 6:6-8, continuam atuais; entretanto, precisam conversar com uma realidade econômica em que investimento, criatividade, tecnologia e colaboração também fazem parte do jogo. O empreendedor moderno não trabalha apenas com aquilo que possui; muitas vezes, precisa imaginar aquilo que ainda não existe e reunir pessoas dispostas a construí-lo.
É justamente aí que Sartre entra, quase como aquela visita inconveniente que chega sem avisar, mas traz uma pergunta da qual não conseguimos escapar: "não somos apenas responsáveis por aquilo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer". Se Drucker nos convida a agir e criar, Sartre nos lembra que a omissão também é uma escolha. E, convenhamos, algumas omissões custam caro. Não investir na própria capacitação, não preparar os filhos para compreender criticamente o mundo econômico em que vivem, não abrir espaço para talentos diferentes, não compartilhar conhecimento e oportunidades — tudo isso pode representar uma forma de responsabilidade negligenciada. Empreender, portanto, não é simplesmente criar o futuro; é assumir as consequências do futuro que ajudamos a construir. Afinal, não existe ação econômica completamente neutra: toda escolha beneficia alguém, afeta alguém ou deixa alguém de fora.
Mas, há uma pergunta que nem Drucker nem Sartre conseguem responder sozinhos: criar o futuro e assumir responsabilidade... para servir a quem? É exatamente nesse ponto que a mensagem de Jesus Cristo entra não como um detalhe religioso, mas como um contraponto capaz de deslocar o centro da discussão. Enquanto boa parte do discurso empreendedor contemporâneo coloca o indivíduo, sua performance e sua vitória no centro do palco, Cristo muda a direção do olhar: "amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mateus 22:39). Isso não significa demonizar o lucro, condenar o patrimônio ou transformar todo empresário em benfeitor. O lucro é necessário para a sobrevivência e a continuidade de qualquer empreendimento. A questão é outra: o lucro é o fim ou é um meio? Quando o dinheiro deixa de ser instrumento e passa a ser senhor, o próximo corre o risco de virar apenas número, cliente, consumidor ou mão de obra. Quando, porém, o resultado financeiro se alia à responsabilidade, à ética e ao serviço, o empreendimento pode produzir algo maior do que riqueza: pode produzir dignidade.
Talvez seja justamente aqui que a famosa ideia de Einstein sobre a mente aberta ganhe uma dimensão ainda mais profunda: não apenas a mente que se abre para uma nova ideia e jamais volta ao tamanho original, mas a mente que se abre para o outro e, por isso mesmo, se amplia. Uma mente empreendedora não precisa escolher entre ganhar dinheiro e fazer o bem, como se fossem inimigos naturais. Pode aprender a conciliar resultado e propósito, eficiência e solidariedade, crescimento e responsabilidade. Pode investir sem explorar, competir sem destruir e prosperar sem precisar passar por cima de ninguém.
No fim das contas, empreender é muito mais do que abrir uma empresa, criar um produto ou descobrir uma oportunidade de mercado. É decidir que tipo de futuro queremos deixar depois que nossas mãos já não estiverem nele. É construir pontes em vez de apenas muros; gerar oportunidades em vez de concentrá-las; transformar recursos em possibilidades. O verdadeiro empreendedor talvez seja aquele que compreende que o sucesso não se mede somente pelo tamanho do patrimônio acumulado, mas também pelas vidas que foram alcançadas, pelos talentos que foram despertados e pelas oportunidades que nasceram ao longo do caminho. Afinal, de que adianta construir um futuro brilhante para si mesmo se, ao redor, o mundo continua escuro para os outros?
Questões Discursivas:
1. O texto apresenta uma crítica à visão tradicional do empreendedorismo como mera imitação da formiga em seu trabalho árduo e poupança, defendendo uma abordagem mais abrangente e contextualizada para o sucesso na era moderna. Explique, com base nas ideias do texto, quais são as limitações da visão tradicional do empreendedorismo e quais características são essenciais para o sucesso na era moderna.
2. O autor utiliza citações de diversos autores e figuras históricas para embasar suas reflexões. Escolha duas citações presentes no texto e explique como elas contribuem para a compreensão da mensagem central do autor sobre o empreendedorismo na era moderna.


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