Ensaio Teológico VI(29) Adultério: Uma Análise Contextualizada da Falibilidade Humana e da Redenção
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma cena que se repete, silenciosa, em milhares de casas: duas pessoas sentadas à mesma mesa, comendo do mesmo pão e, ainda assim, separadas por um abismo que nenhuma delas consegue nomear. Conversam sobre o cotidiano, pagam contas, cuidam dos filhos, dormem sob o mesmo teto. Por fora, a casa parece de pé; por dentro, alguma coisa já desabou. Até que, um dia, o abismo transborda — e damos a esse transbordamento o nome de adultério. Só que o nome é sempre mais simples do que a ferida.
Provérbios 6:27-28 pergunta como alguém haveria de carregar fogo no peito sem se queimar. A pergunta é antiga, mas continua cortando como faca. O adultério queima. Queima quem trai, queima quem é traído e, muitas vezes, queima também os filhos, que observam de longe, sem compreender por que a casa esfriou. Por isso, antes de qualquer defesa filosófica da compreensão ou do perdão, é preciso dizer isto com todas as letras: a dor de quem foi traído não é um detalhe a ser administrado — é o centro de qualquer reflexão séria sobre o assunto. Não existe ensaio sobre redenção que possa, com honestidade, desviar os olhos de quem ficou sozinho à mesa, tentando entender o que aconteceu e, pior ainda, perguntando a si mesmo onde foi que errou.
E, no entanto — aqui é que a teologia fica mais interessante do que a simples moralização —, também precisamos admitir que ninguém trai por acaso, embora isso jamais transforme a traição em algo justificável. Quase sempre há uma história por trás da queda: vazios, escolhas, silêncios acumulados, desejos mal compreendidos, carências, egoísmo e, às vezes, uma longa distância entre duas pessoas que ainda dividem a mesma casa. Kierkegaard compreendia o pecado como uma espécie de perda do eu na dependência daquilo que é finito: uma alma que se agarra a algo pequeno demais para preenchê-la e acaba se perdendo justamente nesse apego. Nietzsche, por outro caminho, acrescenta uma provocação: talvez não seja apenas a falta de amor que corroa os casamentos, mas também a falta de amizade — aquela ausência silenciosa de companheirismo, escuta, cumplicidade e riso partilhado. As duas ideias não precisam brigar; podem conversar. Kierkegaard aponta para o vazio interior; Nietzsche, para o terreno relacional em que esse vazio pode ganhar força. Um olha para dentro; o outro, para o espaço entre dois.
Simone de Beauvoir, colocada ao lado dessas duas vozes, acrescenta uma dimensão que não pode ser ignorada: o gênero. Durante séculos, a moral tratou o adultério de maneira desigual, sobretudo quando envolvia a mulher. A honra masculina era colocada no centro, enquanto o desejo, a solidão e o sofrimento femininos eram empurrados para debaixo do tapete. A mulher era muitas vezes tratada como propriedade a ser vigiada, e não como sujeito de desejos, conflitos e escolhas. Beauvoir nos ajuda a perceber que sexo, desejo, liberdade e morte fazem parte da existência humana e não desaparecem porque uma sociedade prefere não falar deles. O adultério, portanto, não é uma anomalia demoníaca que possa ser exorcizada a pedradas. É uma possibilidade dolorosa da condição humana — e justamente por isso precisa ser enfrentada com responsabilidade, e não apenas com condenação.
É diante dessa pedra levantada que o episódio de João 8:7 continua queimando de atualidade: quem está sem falha que atire a primeira. Não se trata de absolver o adultério, muito menos de diminuir a dor de quem foi traído. Trata-se de reconhecer uma verdade incômoda: julgar é fácil quando não estamos dentro da história do outro. De fora, tudo parece preto no branco; por dentro de uma relação, há tons de cinza, silêncios, ressentimentos, desejos, omissões e escolhas que nem sempre cabem numa sentença rápida. A pedra, quando lançada sem consciência da própria fragilidade, pode até acertar o outro — mas também revela a mão de quem a atira.
Talvez por isso Paulo, em Efésios 4:2, não apresente a convivência como um tribunal permanente, mas como exercício de paciência, humildade e mansidão, de suportar uns aos outros. E isso não é pouca coisa. Conviver é trabalho diário. Amar, também. Perdoar, então, nem se fala. Nada disso acontece por decreto, como quem assina um documento e declara encerrado o assunto. Para um casal ferido, reconstruir pode significar atravessar dias difíceis, reaprender a conversar, reconhecer responsabilidades, estabelecer limites e, sobretudo, recuperar aquilo que talvez tenha sido perdido muito antes da traição: a amizade. Não se trata de esquecer o que aconteceu, mas de decidir o que fazer com aquilo que aconteceu.
Agostinho de Hipona resume essa dimensão da experiência humana numa frase que atravessa os séculos: errar é humano, insistir no erro é o que corrompe, mas cair e se levantar de novo é, em essência, o gesto cristão. E talvez seja também, simplesmente, o gesto humano. Porque a vida não é feita de gente impecável; é feita de gente que tropeça, machuca, arrepende-se, aprende — ou não aprende — e precisa decidir, depois da queda, se permanecerá no chão. A redenção não apaga a cicatriz. Ela muda o significado que damos a ela.
No fim das contas, este ensaio não pede que se absolva o adultério, nem que se apague a dor de quem o sofreu. Pede apenas que se olhe para a queda humana com os dois olhos abertos: um para a responsabilidade e outro para a possibilidade de recomeço. Rigor sem crueldade; compaixão sem conivência. Entre a pedra e o perdão, talvez exista um terceiro caminho: o da verdade. A verdade que reconhece a traição, encara a dor, assume responsabilidades e, quando ainda houver vontade e condições, permite que duas pessoas voltem a se sentar à mesma mesa. Não necessariamente para fingir que nada aconteceu, mas para fazer aquilo que talvez devesse ter acontecido muito antes: olhar uma para a outra, baixar as armas e, finalmente, escutar.
Possíveis questões para discussão:
Como a evolução da sociedade e o avanço do conhecimento científico influenciaram as concepções sobre adultério ao longo da história?
Quais os desafios para promover uma educação sexual abrangente e inclusiva nas escolas, que respeite a diversidade de identidades e orientações sexuais?
Como as mídias sociais e a cultura popular influenciam as percepções sobre o adultério e as relações interpessoais?
Quais as implicações legais e sociais da criminalização do adultério?
Como podemos construir uma sociedade mais justa e equitativa em relação à sexualidade, combatendo o preconceito e a discriminação?


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