Ensaio Teológico VI(19) Amor Divino: Uma Perspectiva Humanista e Inclusiva
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Conheci, certa vez, uma mulher que passou décadas evitando entrar em igrejas. Não por falta de fé, nem porque tivesse deixado de acreditar em Deus, mas por medo. Quando ainda era jovem, alguém lhe dissera que Deus a observava de longe, atento a cada deslize, esperando apenas uma oportunidade para puni-la. E ela carregou aquela imagem durante anos, como quem leva uma pedra no bolso: aparentemente pequena, quase invisível, mas sempre presente, pesando a cada passo. O mais doloroso é que o medo, quando se instala dentro da alma, não precisa fazer barulho para governar uma vida. Muitos anos depois, já perto do fim da vida, ela me confessou, quase num sussurro: "E se eu tiver perdido tempo demais com medo de quem só queria me abraçar?"
Essa pergunta ficou comigo. Não foi embora quando a conversa terminou; ao contrário, continuou ecoando dentro de mim. Talvez porque ela toque numa das distorções mais antigas da experiência religiosa: transformar o divino em um juiz permanentemente vigilante, quando as próprias Escrituras insistem, página após página, que "Deus é amor" (1 João 4:8). E aqui está o ponto que não podemos perder de vista: não se trata de um amor condicional, concedido como prêmio a quem merece ou retirado de quem falha. Trata-se de um amor que, na própria essência de Deus, vem antes da nossa resposta, antes dos nossos méritos e até mesmo antes da nossa capacidade de compreendê-lo. Um amor que não espera a perfeição para começar a amar.
Albert Schweitzer percebeu algo dessa grandeza ao colocar a compaixão no centro da experiência ética e espiritual. Há, nessa perspectiva, uma ideia profundamente subversiva: se o amor de Deus dependesse de condições, deixaria de ser propriamente amor e assumiria a lógica de um contrato. Eu amo porque você merece; perdoo porque você mudou; acolho porque você cumpriu as exigências. Ora, isso é troca, não graça. E é justamente aqui que as palavras de Paulo ganham força: Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores (Romanos 5:8). Não depois de nos tornarmos pessoas irrepreensíveis, nem como recompensa por uma vida exemplar, mas no meio da nossa fragilidade, da nossa contradição e da nossa imperfeição mais crua. É como se o Evangelho dissesse, contra toda a lógica do merecimento: o amor não espera que você fique inteiro para começar a cuidar dos seus pedaços.
Apesar disso, há quem ainda prefira um Deus de eleitos, uma espécie de clube espiritual reservado aos que acertaram todas as respostas, cumpriram todas as regras e aprenderam o catecismo de cor. É uma religião de portas estreitas para os outros e largas para os próprios seguidores. Contra essa lógica excludente, Martin Buber oferece uma concepção que considero decisiva: o amor como encontro entre sujeitos livres, no qual ninguém é reduzido a objeto, número ou currículo de méritos. O outro não precisa ser dominado para ser acolhido, nem classificado para ser respeitado. Essa visão encontra ressonância em 1 Timóteo 2:4, quando se afirma o desejo divino de que todos alcancem a verdade. Todos. Sem asteriscos, sem rodapé, sem uma lista de exceções escondida nas entrelinhas. Não apenas os que acertam o catecismo de cor, mas também os que ainda estão tateando no escuro.
E se a verdadeira medida da fé não fosse o medo, mas a justiça? Essa pergunta muda muita coisa. Paulo Freire compreendeu que não existe paz verdadeira onde a injustiça continua intacta. A paz não pode ser apenas o silêncio produzido pela submissão dos mais fracos; precisa nascer de relações mais humanas, dignas e justas. Talvez seja justamente aí que esteja uma das pontes mais importantes entre teologia e vida cotidiana: a fé que se diz amor precisa produzir relações de amor. Caso contrário, vira discurso bonito pendurado na parede, mas sem força para transformar a vida.
Não por acaso, Jesus declara: "Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus" (Mateus 5:9). Repare: o texto não destaca os mais barulhentos, os mais rígidos ou os que melhor defendem suas certezas. Destaca os pacificadores. Aqueles que constroem pontes onde outros levantam muros; aqueles que aproximam quando a religião tenta separar; aqueles que escolhem a reconciliação quando seria muito mais fácil alimentar a disputa. Talvez aí esteja uma das expressões mais bonitas da fé: não vencer o outro, mas ajudá-lo a reencontrar a dignidade.
E volto à mulher da pedra no bolso. Hoje penso naquela conversa e imagino quantas pessoas carregam pedras semelhantes sem que ninguém perceba. Pedras feitas de culpa, medo, rejeição, condenação e de uma imagem de Deus que, em vez de acolher, assombra. Gostaria de ter tido, naquela ocasião, a coragem de lhe dizer aquilo que hoje escrevo: que o perdão mútuo — "assim como Deus os perdoou em Cristo" (Efésios 4:32) — não é um troféu destinado aos puros, nem uma recompensa para quem conseguiu acertar tudo. É um convite aberto aos cansados, aos feridos, aos que caíram e aos que ainda estão aprendendo a caminhar.
Talvez, afinal, a verdadeira reforma espiritual do nosso tempo não precise começar pelos tratados teológicos, pelas disputas doutrinárias ou pelas intermináveis guerras de interpretação. Talvez precise começar pelo coração. Uma reforma afetiva, antes de ser uma reforma intelectual: trocar o medo de ser julgado pela possibilidade de ser compreendido; substituir a culpa paralisante pela responsabilidade que transforma; abandonar o punho fechado e reaprender o gesto simples de estender a mão.
Porque, no fim das contas, de que adianta falar de um Deus que ama infinitamente se aqueles que dizem segui-lo continuam fazendo do medo uma religião? Talvez a fé mais madura seja justamente aquela que nos permite respirar fundo e descobrir que, por trás de tantas ameaças, sempre esteve a possibilidade de um abraço. E talvez seja esse o grande desafio: aprender a reconhecer no rosto do outro aquilo que tantas vezes procuramos apenas no céu — a presença de um amor que não expulsa, não humilha e não exige que sejamos perfeitos para nos acolher.
Questões para Discussão:
Como a ideia de um Deus vingativo pode ter se originado e se perpetuado ao longo da história?
Essa questão permite explorar as raízes históricas e culturais dessa concepção de Deus, assim como os interesses que ela pode ter servido.
Qual a importância da linguagem e da interpretação na construção de uma teologia inclusiva e compassiva?
Essa questão destaca o papel da linguagem e da hermenêutica na forma como entendemos os textos sagrados e construímos nossas concepções de divindade.
Como conciliar a ideia de um Deus amoroso com a existência do sofrimento no mundo?
Essa questão aborda um dos grandes desafios teológicos e filosóficos, permitindo uma reflexão sobre a natureza do mal e a presença de Deus em um mundo marcado pela dor.
Qual o papel das religiões na promoção da paz e da justiça social?
Essa questão explora o potencial das religiões para promover valores como o amor, a compaixão e a justiça, ao mesmo tempo em que reconhece os desafios e as limitações desse papel.
Como a psicologia e a neurociência podem contribuir para uma compreensão mais profunda da experiência religiosa e da natureza da divindade?
Essa questão abre espaço para uma intersecção entre a fé e a ciência, permitindo explorar as dimensões psicológicas e neurológicas da experiência religiosa.


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