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MINHAS PÉROLAS

quinta-feira, 4 de junho de 2026

O Neoliberalismo Escolar Mata ("Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor." — Paulo Freire)

 



O Neoliberalismo Escolar Mata ("Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor." — Paulo Freire)

*Por Claudeci Ferreira de Andrade


Silvaneide não era uma estatística. Não era uma meta descumprida, um gráfico em queda nem um número perdido no meio de uma planilha colorida. Era professora. Daquelas que chegam antes do sinal, levam provas para corrigir em casa e carregam nos ombros um peso que nenhuma descrição de cargo consegue medir.

Naquele dia, ela estava onde sempre esteve: em sala de aula. No meio da rotina escolar, porém, foi chamada para uma reunião pedagógica. Deixou os alunos por alguns instantes, atravessou o corredor e entrou numa sala onde já estavam membros da equipe gestora e uma representante do Núcleo Regional de Educação (Tutora). O assunto não era um estudante com dificuldades. Não era um projeto para melhorar a aprendizagem. Tampouco era a saúde física ou emocional dos professores.

O assunto eram metas. Metas ligadas a plataformas digitais adquiridas pelo governo. Metas de adesão. Metas de desempenho. Metas que precisavam ser alcançadas porque, aparentemente, tudo precisa caber dentro de indicadores. Segundo relatos, a reunião foi marcada por cobranças e pressão. Pouco depois, Silvaneide sofreu um mal súbito. E morreu dentro da escola.

Há acontecimentos que ultrapassam a esfera da tragédia individual e se transformam em símbolos de algo maior. A morte de uma professora dentro do espaço ao qual dedicou sua vida nos obriga a encarar uma pergunta incômoda: o que estamos fazendo com a educação?

A escola deveria ser um lugar de encontro. Um território fértil onde o conhecimento nasce do diálogo, da curiosidade e da convivência humana. Mas, pouco a pouco, ela vem sendo empurrada para uma lógica empresarial que mede quase tudo, exceto aquilo que realmente importa. Nessa lógica, educadores são convertidos em operadores de indicadores. O tempo da escuta cede lugar à urgência dos relatórios. A confiança é substituída pela vigilância. O vínculo humano perde espaço para a produtividade.

E a escola, que deveria pulsar como comunidade, começa a funcionar como uma engrenagem. Não de formação. De produção. É nesse ambiente que muitos profissionais adoecem. Não apenas no corpo. Adoecem na mente. Adoecem nas emoções. Adoecem na esperança. Vivem sob a sensação permanente de insuficiência, como se estivessem sempre em dívida com alguma meta, algum sistema ou algum avaliador invisível e visível. (coordenadora agendando com o professor para assistir à sua aula e fazer relatório).

Por isso, Silvaneide não pode ser vista como um caso isolado. Há professores afastados por ansiedade, depressão e burnout. Há educadores que fazem cursos de progressão funcional deitados em leitos hospitalares, receosos de perder direitos conquistados após anos de dedicação. Há profissionais exaustos que continuam trabalhando porque já não conseguem enxergar outra saída. E quando alguém finalmente desaba, costuma-se dizer que foi uma fatalidade. Mas será mesmo?

Fatalidades acontecem. Padrões se repetem. E o que estamos vendo há anos não se parece com acaso. Quando o cuidado é substituído pela cobrança, algo se rompe. Quando metas passam a valer mais do que pessoas, algo se rompe. Quando a gestão esquece que trabalha com seres humanos, algo se rompe.

O neoliberalismo aplicado à educação raramente se apresenta de forma explícita. Não chega fazendo discursos grandiosos. Não precisa. Ele se instala discretamente nos procedimentos. Nas métricas. Nos rankings. Nas comparações permanentes. Na obsessão por desempenho. Na crença de que todo problema humano pode ser resolvido com mais monitoramento, mais controle e mais produtividade.

É um sistema silencioso. E talvez seja justamente por isso que se torna tão eficiente. Ele mata quando retira da escola qualquer possibilidade de cuidado. Mata quando transforma a precarização em rotina. Mata quando faz do esgotamento um requisito não declarado da profissão. Mata quando convence educadores de que seu valor depende exclusivamente daquilo que produzem. E, quando a vida finalmente entra em colapso, o sistema lava as mãos e chama tudo de acidente. (Mata quando procrastina o processo de aposentadoria e licenças já conquistadas).

Mas, a pergunta continua de pé, firme, desconfortável e necessária. Quantos sinais ainda serão ignorados? Quantos pedidos de socorro serão tratados como fraqueza? Quantos professores precisarão adoecer para que entendamos que educação não é mercadoria e que escolas não são empresas?

Silvaneide tinha um nome. Tinha uma história. Tinha afetos, responsabilidades, sonhos e preocupações que jamais aparecerão em qualquer relatório de desempenho. Sua morte não deveria ser apenas mais uma notícia consumida pela velocidade das redes sociais. Deveria ser um espelho. Um daqueles espelhos difíceis de encarar porque revelam aquilo que preferiríamos não ver. Porque a maneira como tratamos nossos professores revela, no fundo, a maneira como tratamos o próprio futuro.

E um país que transforma educadores em máquinas de desempenho talvez esteja ensinando, sem perceber, a mais cruel de todas as lições: a de que resultados importam mais do que vidas.


*(A professora Silvaneide Monteiro Andrade, de 56 anos, faleceu vítima de um infarto no dia 30 de maio de 2025, dentro do Colégio Estadual Jayme Canet, em Curitiba (PR). Ela sofreu o mal súbito enquanto estava na sala da equipe pedagógica, onde havia sido chamada para ser cobrada por metas de uma plataforma digital de redação. — https://appsindicato.org.br/morte-de-professora-dentro-de-escola-civico-militar-em-curitiba-gera-comocao-nacional-e-debate-sobre-adoecimento/ )


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Como professor de Sociologia do Ensino Médio, elaborei 5 questões discursivas, simples na linguagem, mas profundas na reflexão, perfeitamente adequadas para uma folha de prova. Elas acompanham as expectativas de resposta (gabarito) baseadas estritamente nas ciências sociais.


Questão 1: Neoliberalismo e a Lógica Empresarial na Escola

“O neoliberalismo aplicado à educação raramente se apresenta de forma explícita. (...) Ele se instala discretamente nos procedimentos. Nas métricas. Nos rankings.”

Pergunta: O texto critica a introdução de uma "lógica empresarial" dentro das escolas públicas. A partir dos seus conhecimentos em Sociologia, explique de que forma o modelo econômico e político do neoliberalismo transforma a educação em mercadoria e o papel dos professores dentro da escola.

Expectativa de Resposta

O estudante deve explicar que o neoliberalismo aplica a lógica do mercado de trabalho privado às instituições públicas. Isso transforma a educação em uma busca por eficiência produtiva, onde a escola passa a funcionar como uma empresa produtora de dados, e o professor deixa de ser um articulador do conhecimento crítico para se tornar um mero operador de plataformas digitais e metas estatísticas.

Questão 2: Adoecimento, Produtividade e Alienação do Trabalho

“E a escola, que deveria pulsar como comunidade, começa a funcionar como uma engrenagem. Não de formação. De produção. É nesse ambiente que muitos profissionais adoecem.”

Pergunta: O texto cita que muitos profissionais sofrem com ansiedade, depressão e burnout por viverem sob a sensação permanente de insuficiência. Relacione a cobrança excessiva por produtividade e alcance de metas com o adoecimento físico e mental dos trabalhadores na sociedade atual.

Expectativa de Resposta

O estudante deve apontar que, no capitalismo atual, a cobrança desmedida por metas e o monitoramento constante geram um ambiente de forte pressão psicológica. O trabalhador se sente alienado e desumanizado, pois seu valor como pessoa passa a depender exclusivamente dos números que ele produz. Esse esgotamento de energia e a falta de tempo para o autocuidado levam ao adoecimento crônico da mente (burnout) e do corpo (como o mal súbito).

Questão 3: Racionalização e o Controle Social (Vigilância)

“A confiança é substituída pela vigilância. O vínculo humano perde espaço para a produtividade. (...) (coordenadora agendando com o professor para assistir à sua aula e fazer relatório).”

Pergunta: O monitoramento constante das aulas e a exigência de preenchimento de relatórios contínuos são formas de controle dentro da escola. Como a Sociologia explica a substituição da "confiança e do vínculo humano" por mecanismos de vigilância e controle social dentro das instituições de trabalho?

Expectativa de Resposta

Espera-se que o aluno identifique que as estruturas burocráticas usam a vigilância e a fiscalização (como visitas programadas e relatórios de desempenho) para garantir a padronização e a obediência do trabalhador. Esse controle retira a autonomia pedagógica do professor e transforma o ambiente escolar, que deveria ser de cooperação e diálogo, em um espaço de desconfiança e estresse institucional.

Questão 4: Burocracia versus Direitos Sociais do Trabalhador

“Mata quando procrastina o processo de aposentadoria e licenças já conquistadas.”

Pergunta: O texto faz uma crítica severa aos entraves burocráticos que atrasam ou dificultam direitos garantidos dos professores, como licenças médicas e a aposentadoria. Do ponto de vista sociológico, qual é o impacto social quando o Estado e a burocracia governamental priorizam as métricas de desempenho em vez de garantir o bem-estar e os direitos de seus servidores?

Expectativa de Resposta

O estudante deve explicar que o atraso intencional ou a negligência burocrática com direitos fundamentais (como licenças para tratamento de saúde ou aposentadoria) demonstra a desvalorização do funcionalismo público. Isso aprofunda a precarização do trabalho, pois obriga profissionais exaustos ou doentes a continuarem na linha de frente da produção, mostrando que a máquina estatal passa a valorizar mais os índices do que a vida humana que sustenta o sistema.

Questão 5: A Função Social da Escola

“A escola deveria ser um lugar de encontro. Um território fértil onde o conhecimento nasce do diálogo, da curiosidade e da convivência humana.”

Pergunta: Com base na leitura da crônica e na nota informativa sobre o caso da professora Silvaneide, faça uma reflexão crítica sobre qual deve ser a verdadeira função social da escola na construção do futuro de um país, contrapondo-a à visão de que "resultados importam mais do que vidas".

Expectativa de Resposta

O aluno deve concluir que a função social da escola pública é a formação humana integral, a promoção da cidadania, a emancipação crítica dos sujeitos e o acolhimento comunitário. Uma escola que prioriza resultados numéricos acima da integridade das vidas de seus professores e alunos falha democraticamente, pois ensina a crueldade da indiferença em vez de promover uma sociedade justa, solidária e humanizada.

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