Ensaio Teológico III(8) “Fé e Vitalidade: Uma Análise Crítica da Visão Religiosa”
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Minha avó tinha um ritual que parecia costurar seus dias. Antes mesmo do café, ajoelhava-se ao lado da cama, fazia sua oração e só depois seguia com a rotina. Durante mais de quarenta anos, não faltou a um culto sequer. Sua fé era discreta, firme e constante, dessas que não precisam de alarde para existir. Ainda assim, aos setenta e dois anos, o câncer a alcançou. Foi uma despedida lenta, dolorosa e implacável. Nenhuma oração, por mais sincera que fosse, conseguiu alterar o curso da doença. No velório, porém, ouvi alguém sussurrar que talvez ela tivesse "algum pecado escondido" para explicar tamanho sofrimento. Confesso que senti uma indignação difícil de descrever. Eu conhecia minha avó. Sabia da mulher íntegra que ela foi. Não havia pecado oculto algum; havia apenas um organismo cujas células, como acontece com milhões de pessoas, passaram a se multiplicar fora de controle. A doença não perguntou em quem ela acreditava. Apenas fez o que tantas vezes faz, indistintamente, com fiéis e incrédulos.
Foi essa lembrança que me levou a olhar com mais cuidado para uma ideia bastante difundida em certos ambientes religiosos: a de que saúde, vitalidade e longevidade dependem, essencialmente, da fé e da obediência a Deus. Essa compreensão costuma apoiar-se em passagens como "o temor do Senhor é fonte de vida, para desviar dos laços da morte" (Provérbios 14:27), ou na promessa de que guardar os ensinamentos divinos é "vida para os que as acham, e saúde para todo o seu corpo" (Provérbios 4:20-22). Não questiono a beleza nem o valor espiritual dessas palavras. Ao contrário, reconheço nelas um convite a uma vida marcada pela sabedoria e pelo equilíbrio. O que me inquieta é outra questão: minha avó viveu exatamente dessa maneira e, ainda assim, adoeceu. Isso me obriga a perguntar se essas promessas devem ser entendidas como garantias literais e automáticas ou se pedem uma interpretação mais ampla, mais sensível ao conjunto da experiência humana.
Afinal, a saúde também está submetida a fatores que escapam à vontade, à disciplina e até mesmo à oração. A genética, por exemplo, pode predispor um organismo a determinadas enfermidades, independentemente da intensidade da fé de quem o habita. Há ainda os vírus, as mutações celulares, os acidentes, o envelhecimento natural do corpo. Voltaire observava que "a natureza sempre prevalece; nós somos totalmente determinados por ela". Ainda que a afirmação possa soar radical, ela nos lembra de uma verdade desconfortável: a biologia não estabelece privilégios religiosos. Minha avó, por mais piedosa que fosse, não foi poupada dessa realidade. A natureza não fez distinção entre sua devoção e a incredulidade de qualquer outra pessoa.
O mesmo raciocínio vale para a prosperidade. Embora a fé possa inspirar disciplina, esperança e perseverança, dificilmente ela explica, sozinha, os diferentes destinos humanos. Saúde de qualidade, acesso à educação, alimentação adequada, saneamento básico, estabilidade econômica e oportunidades sociais costumam exercer um peso muito maior sobre a qualidade de vida do que qualquer fórmula religiosa. Ao longo dos anos conheci pessoas sem religião alguma que desfrutaram de excelente saúde até a velhice. Da mesma forma, vi homens e mulheres profundamente religiosos enfrentarem enfermidades devastadoras sem encontrar uma explicação teológica capaz de aliviar sua dor. Epicuro chamava de "opinião vazia" a crença de que os deuses determinam esses desfechos. Não compartilho de seu ateísmo, mas reconheço a força de sua advertência: atribuir toda saúde ou prosperidade à obediência divina é ignorar fatores concretos que influenciam decisivamente a existência humana.
Quando penso em minha avó hoje, não vejo uma mulher castigada por uma culpa invisível. Vejo alguém que viveu com honestidade, cultivou a fé até o último suspiro e, como todos nós um dia enfrentaremos, encontrou-se diante da fragilidade inevitável da condição humana. Nietzsche escreveu que "não há fatos, apenas interpretações". Talvez uma das interpretações mais cruéis seja justamente aquela que transforma o sofrimento em evidência de culpa. Nem toda dor esconde um castigo. Muitas vezes, ela apenas revela aquilo que insistimos em esquecer: somos seres vulneráveis, sujeitos às mesmas limitações biológicas, creiamos ou não, diante da mesma physis indiferente.
É por isso que concluo esta reflexão sem diminuir a fé da minha avó — ao contrário, continuo admirando-a profundamente. O que questiono é a doutrina que transforma a fé numa espécie de contrato de imunidade contra as tragédias da existência. Reduzir saúde e vitalidade à obediência religiosa não apenas simplifica uma realidade infinitamente mais complexa; pode também impor um peso injusto sobre quem já sofre, fazendo da dor um suposto indício de culpa. A fé pode oferecer consolo, esperança, coragem e sentido quando tudo parece desmoronar. E isso, convenhamos, já é extraordinário. Mas, ela não deveria ser apresentada como garantia de uma proteção que a biologia, a história e as circunstâncias da vida, tantas vezes, desmentem.


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