Ensaio Teológico IV(20) Ouvir, Aprender, Questionar
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma frase de Salomão que carrego comigo como quem guarda uma pedra no bolso — pequena, mas impossível de ignorar: "ouve, e cresce em saber" (Provérbios 1:5). Simples assim. E, no entanto, há noites em que essa simplicidade me confronta, porque ouvir, nos dias de hoje, tornou-se quase um ato de resistência. Vivemos cercados por vozes que disputam nossa atenção o tempo inteiro; todo mundo quer falar, opinar, ensinar, convencer. Poucos, porém, parecem dispostos a parar, respirar e escutar. O mundo grita tanto que, às vezes, até o silêncio parece ter perdido a voz.
Cresci acreditando que a sabedoria tinha endereço certo: as páginas finas de uma Bíblia, a voz grave de um pregador, o silêncio reverente de um templo. Durante muito tempo, foi assim que aprendi a reconhecer aquilo que chamava de verdade. Mas, a vida, essa professora teimosa que não costuma pedir licença, foi me mostrando que o conhecimento não cabe inteiro dentro de um único livro, de uma única tradição ou de uma única voz. Em algum momento da vida adulta — talvez numa madrugada de dúvida, talvez diante de uma leitura que contrariava aquilo que eu havia aprendido — percebi que Paulo já havia deixado uma pista: "não se conformem com este mundo, mas transformem-se pela renovação da mente" (Romanos 12:2). E renovar a mente, convenhamos, não é trocar uma certeza por outra; é permitir que ela seja desafiada, ampliada e, quando necessário, reconstruída.
Foi assim que comecei a admitir, inicialmente com certo desconforto, que a sabedoria também pode nascer fora do templo. Isso não significa que Salomão estivesse errado; significa apenas que o mundo ao qual sua sabedoria se dirigia não é exatamente o mesmo mundo que hoje nos interroga. O conhecimento contemporâneo chega por livros, universidades, laboratórios, experiências humanas, telas, algoritmos e por uma infinidade de vozes que antes sequer teriam oportunidade de ser ouvidas. Se, por um lado, isso amplia enormemente nosso horizonte, por outro, também nos obriga a discernir. Afinal, nem toda voz merece crédito simplesmente porque encontrou espaço para falar.
Quando um pensador contemporâneo trata a inovação como uma busca incessante pelo desconhecido, não necessariamente está contradizendo a sabedoria de Provérbios. Talvez esteja, sem perceber, repetindo uma antiga intuição em outra linguagem. E quando uma voz pública afirma que a educação liberta, ela reencena, com palavras seculares, o mesmo espanto contido em João 8:32: "conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". A linguagem muda, os tempos mudam, as ferramentas mudam, mas certas perguntas permanecem. O ser humano continua querendo saber, compreender, ultrapassar seus próprios limites e descobrir o que existe depois daquilo que já conhece.
Mas, é justamente aí que aparece o verdadeiro problema — aquele para o qual ninguém me preparou. O que fazer quando ouvir e questionar entram em rota de colisão? O que acontece quando a voz da tradição diz uma coisa e a voz da razão contemporânea diz outra, ambas ressoando dentro do mesmo peito? Confesso: não tenho uma resposta fechada. E talvez essa seja justamente uma das formas de honestidade que uma fé madura exige. Há momentos em que a fé não se apresenta como uma certeza tranquila, mas como uma tensão que precisa ser sustentada sem desespero. Afinal, ouvir sem questionar pode transformar-se em obediência cega; questionar sem ouvir pode converter-se em soberba disfarçada de liberdade. Entre esses dois abismos, caminha aquele que realmente deseja encontrar sabedoria.
É por isso que Provérbios 1:7 continua sendo tão provocador ao afirmar que o temor do Senhor é o princípio do conhecimento. Princípio não significa necessariamente ponto final. É começo, porta de entrada, fundamento a partir do qual a busca pode prosseguir. Talvez o problema esteja justamente quando transformamos aquilo que deveria ser uma porta em um muro. A fé que impede toda pergunta pode acabar protegendo mais o medo do que a verdade; e a razão que despreza toda tradição pode descobrir, tarde demais, que também carrega seus próprios dogmas.
Talvez, então, a vida cristã contemporânea não consista em escolher entre a página antiga e a voz nova, entre a tradição e a razão, entre ouvir e questionar. Talvez consista em aprender a caminhar entre elas — às vezes tropeçando, é verdade; outras vezes parando no meio do caminho, olhando para trás e perguntando se ainda estamos na direção certa. Não há vergonha nisso. Quem busca de verdade não precisa fingir que nunca teve dúvidas. Pelo contrário, talvez seja justamente a dúvida honesta que nos impeça de transformar a fé em mera repetição.
No fim das contas, ouvir e questionar podem não ser forças inimigas. Uma escuta verdadeira abre espaço para a pergunta, e uma pergunta sincera nos ensina novamente a ouvir. É nesse movimento, nesse ir e vir entre a certeza e a inquietação, que a mente se renova e a fé deixa de ser estática. Talvez a sabedoria seja exatamente isso: não ter medo de ouvir o que nos desafia, nem vergonha de questionar aquilo que sempre consideramos intocável. Porque a fé que se põe em movimento não é necessariamente uma fé que perdeu o rumo; pode ser, justamente, uma fé que finalmente aprendeu a caminhar.


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