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MINHAS PÉROLAS

sábado, 8 de agosto de 2026

Ensaio Teológico IV(20) Ouvir, Aprender, Questionar

 


Ensaio Teológico IV(20) Ouvir, Aprender, Questionar

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há uma frase de Salomão que carrego comigo como quem guarda uma pedra no bolso — pequena, mas impossível de ignorar: "ouve, e cresce em saber" (Provérbios 1:5). Simples assim. E, no entanto, há noites em que essa simplicidade me confronta, porque ouvir, nos dias de hoje, tornou-se quase um ato de resistência. Vivemos cercados por vozes que disputam nossa atenção o tempo inteiro; todo mundo quer falar, opinar, ensinar, convencer. Poucos, porém, parecem dispostos a parar, respirar e escutar. O mundo grita tanto que, às vezes, até o silêncio parece ter perdido a voz.

Cresci acreditando que a sabedoria tinha endereço certo: as páginas finas de uma Bíblia, a voz grave de um pregador, o silêncio reverente de um templo. Durante muito tempo, foi assim que aprendi a reconhecer aquilo que chamava de verdade. Mas, a vida, essa professora teimosa que não costuma pedir licença, foi me mostrando que o conhecimento não cabe inteiro dentro de um único livro, de uma única tradição ou de uma única voz. Em algum momento da vida adulta — talvez numa madrugada de dúvida, talvez diante de uma leitura que contrariava aquilo que eu havia aprendido — percebi que Paulo já havia deixado uma pista: "não se conformem com este mundo, mas transformem-se pela renovação da mente" (Romanos 12:2). E renovar a mente, convenhamos, não é trocar uma certeza por outra; é permitir que ela seja desafiada, ampliada e, quando necessário, reconstruída.

Foi assim que comecei a admitir, inicialmente com certo desconforto, que a sabedoria também pode nascer fora do templo. Isso não significa que Salomão estivesse errado; significa apenas que o mundo ao qual sua sabedoria se dirigia não é exatamente o mesmo mundo que hoje nos interroga. O conhecimento contemporâneo chega por livros, universidades, laboratórios, experiências humanas, telas, algoritmos e por uma infinidade de vozes que antes sequer teriam oportunidade de ser ouvidas. Se, por um lado, isso amplia enormemente nosso horizonte, por outro, também nos obriga a discernir. Afinal, nem toda voz merece crédito simplesmente porque encontrou espaço para falar.

Quando um pensador contemporâneo trata a inovação como uma busca incessante pelo desconhecido, não necessariamente está contradizendo a sabedoria de Provérbios. Talvez esteja, sem perceber, repetindo uma antiga intuição em outra linguagem. E quando uma voz pública afirma que a educação liberta, ela reencena, com palavras seculares, o mesmo espanto contido em João 8:32: "conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". A linguagem muda, os tempos mudam, as ferramentas mudam, mas certas perguntas permanecem. O ser humano continua querendo saber, compreender, ultrapassar seus próprios limites e descobrir o que existe depois daquilo que já conhece.

Mas, é justamente aí que aparece o verdadeiro problema — aquele para o qual ninguém me preparou. O que fazer quando ouvir e questionar entram em rota de colisão? O que acontece quando a voz da tradição diz uma coisa e a voz da razão contemporânea diz outra, ambas ressoando dentro do mesmo peito? Confesso: não tenho uma resposta fechada. E talvez essa seja justamente uma das formas de honestidade que uma fé madura exige. Há momentos em que a fé não se apresenta como uma certeza tranquila, mas como uma tensão que precisa ser sustentada sem desespero. Afinal, ouvir sem questionar pode transformar-se em obediência cega; questionar sem ouvir pode converter-se em soberba disfarçada de liberdade. Entre esses dois abismos, caminha aquele que realmente deseja encontrar sabedoria.

É por isso que Provérbios 1:7 continua sendo tão provocador ao afirmar que o temor do Senhor é o princípio do conhecimento. Princípio não significa necessariamente ponto final. É começo, porta de entrada, fundamento a partir do qual a busca pode prosseguir. Talvez o problema esteja justamente quando transformamos aquilo que deveria ser uma porta em um muro. A fé que impede toda pergunta pode acabar protegendo mais o medo do que a verdade; e a razão que despreza toda tradição pode descobrir, tarde demais, que também carrega seus próprios dogmas.

Talvez, então, a vida cristã contemporânea não consista em escolher entre a página antiga e a voz nova, entre a tradição e a razão, entre ouvir e questionar. Talvez consista em aprender a caminhar entre elas — às vezes tropeçando, é verdade; outras vezes parando no meio do caminho, olhando para trás e perguntando se ainda estamos na direção certa. Não há vergonha nisso. Quem busca de verdade não precisa fingir que nunca teve dúvidas. Pelo contrário, talvez seja justamente a dúvida honesta que nos impeça de transformar a fé em mera repetição.

No fim das contas, ouvir e questionar podem não ser forças inimigas. Uma escuta verdadeira abre espaço para a pergunta, e uma pergunta sincera nos ensina novamente a ouvir. É nesse movimento, nesse ir e vir entre a certeza e a inquietação, que a mente se renova e a fé deixa de ser estática. Talvez a sabedoria seja exatamente isso: não ter medo de ouvir o que nos desafia, nem vergonha de questionar aquilo que sempre consideramos intocável. Porque a fé que se põe em movimento não é necessariamente uma fé que perdeu o rumo; pode ser, justamente, uma fé que finalmente aprendeu a caminhar.

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