ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (25): Entre Lideranças e a Busca pela Glória Divina.
Houve um homem na igreja que frequentei durante muitos anos. Não era o pastor. Era o outro. Aquele que chegava antes de todo mundo e saía quando quase não havia mais ninguém. Conhecia o nome de cada pessoa, a história de cada família, as dores escondidas atrás de cada sorriso. Transitava pelos corredores com uma facilidade impressionante e sorria com uma generosidade que, naquela época, eu confundia com humildade.
Demorei a perceber que aquele sorriso também era uma forma de ocupar espaço. Ele não precisava subir ao púlpito para exercer influência. Tampouco precisava pregar. Seu domínio acontecia nos bastidores, onde poucos olham e quase tudo se decide. Com uma eficiência discreta, definia quem falava, quem permanecia, quem era acolhido e quem, pouco a pouco, sem alarde e sem explicações, simplesmente deixava de aparecer. Era um homem de fé, disso não duvido. Mas, era também um homem que apreciava o poder. E, convenhamos, essas duas realidades às vezes convivem dentro da mesma pessoa numa harmonia inquietante.
Anos depois, ao ler a Terceira Epístola de João, encontrei uma palavra para aquilo que havia testemunhado. Ou melhor, um nome: Diótrefes. Um personagem antigo que continua assustadoramente atual. Um homem que amava ocupar o primeiro lugar, que fazia da liderança um fim em si mesma e que, pouco a pouco, colocava o próprio nome onde deveria haver apenas o nome de Cristo.
Há algo de profundamente vertiginoso nessa inversão. O mais intrigante é que ela raramente é percebida por quem está dentro da dinâmica. Quando uma comunidade passa a girar em torno de uma liderança, o olhar se adapta sem que ninguém note. É como acontece com os olhos na escuridão: aos poucos, eles se acostumam. E então a figura humana à frente começa a ocupar o centro da paisagem, enquanto a verdadeira luz vai sendo empurrada para o fundo, tornando-se cada vez mais difusa, cada vez mais distante, cada vez menos reconhecível.
É exatamente esse tipo de situação que João descreve. Não fala de um monstro nem de um vilão caricatural. Não apresenta um herege escancarado. Fala de alguém que simplesmente não abria espaço para os outros. Alguém que interceptava cartas, rejeitava irmãos e afastava quem ousasse discordar. O autoritarismo espiritual raramente se apresenta como autoritarismo. Quase sempre veste roupas mais respeitáveis. Chega disfarçado de zelo, de prudência, de defesa da verdade ou de proteção ao rebanho.
Talvez por isso eu me lembre desse texto sempre que ouço alguém afirmar, com uma devoção que chega a causar desconforto: "É o que o pastor disse." Como se a voz do pastor e a voz de Deus fossem uma só. Como se não houvesse ruído, interpretação, limitação humana ou qualquer possibilidade de equívoco no caminho.
Mas, não são. Nunca foram. A fé que depende exclusivamente de um intermediário humano para sobreviver é, inevitavelmente, uma fé vulnerável. Não porque todo líder seja mal-intencionado, mas porque todo ser humano é limitado. E aquilo que é limitado jamais poderá sustentar, sozinho, aquilo que é infinito.
A verdade é que ninguém consegue olhar para duas direções ao mesmo tempo. Quem tenta termina perdendo ambas de vista. E há ondas — as da rotina, das pressões do grupo, dos medos, das dúvidas e das expectativas coletivas — que embaralham justamente a visão quando ela se torna mais necessária.
Não escrevo estas linhas como quem alcançou uma conclusão definitiva. Muito pelo contrário. Escrevo como quem continua caminhando. Como quem ainda aprende a distinguir a luz verdadeira do reflexo estrategicamente posicionado. Como quem vai descobrindo, passo a passo, que a glória não precisa ser disputada, que a verdade não necessita de guardiões para existir e que Cristo, curiosamente, jamais demonstrou interesse em formar uma corte de primeiros lugares.
O que Ele pediu foi algo muito mais desafiador. Que cada pessoa o encontrasse por si mesma. E talvez resida aí a forma mais rara, mais madura e mais difícil de liderança: aquela que não atrai os olhares para si, mas aponta, silenciosamente, para além de si mesma.


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