Ensaio Teológico III(24) “Além do Espiritual: Uma Abordagem Multidisciplinar para Problemas de Sono”
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há noites em que o silêncio pesa mais do que qualquer ruído. Lembro-me de madrugadas em que os olhos, exaustos, simplesmente se recusavam a fechar, enquanto a mente, teimosa, insistia em revisitar cada detalhe do dia que havia terminado. E, quanto mais eu tentava dormir, mais distante o sono parecia ficar. Foi justamente nesse território incerto — entre o travesseiro e a insônia — que comecei a perceber que o sono, longe de ser um mistério pertencente apenas a Deus ou exclusivamente à ciência, é uma fronteira onde ambos se encontram, às vezes, se estranham, mas, no fim das contas, acabam se completando.
Há quem reduza a insônia a uma única explicação espiritual, como se bastasse uma oração para que o corpo, enfim, se rendesse ao descanso. Entendo esse impulso. Afinal, existe algo profundamente humano em buscar abrigo no divino quando nos deparamos com aquilo que foge ao nosso controle. O Salmo 127:2 traduz essa confiança secular ao afirmar: "Deus concede sono àqueles que ele ama". Não há motivo para rejeitar essa verdade espiritual. Contudo, também não podemos ignorar que a experiência da insônia é muito mais complexa, cheia de curvas e desvios, do que qualquer versículo, por mais belo e consolador que seja, consegue explicar isoladamente.
Foi justamente essa complexidade que me levou a olhar também para a ciência — não como adversária da fé, mas como sua interlocutora. Freud, ao afirmar que "os sonhos são a estrada real para o inconsciente", parece dialogar, ainda que silenciosamente, com o salmista. Enquanto um contempla a mão de Deus concedendo repouso, o outro observa a mente humana revelando seus mistérios mais profundos. Talvez ambos estivessem descrevendo a mesma realidade por perspectivas diferentes, como quem contempla lados distintos de uma mesma montanha. Nesse cenário, insônia, apneia do sono, ansiedade e depressão deixam de ser inimigos da espiritualidade para revelar algo mais profundo: são sinais de que corpo e alma clamam por escuta, cuidado e compreensão. Pedem fé, sim, mas também discernimento; pedem oração, mas igualmente diagnóstico e tratamento.
Foi então que compreendi algo que, durante muito tempo, me escapou. Buscar terapia cognitivo-comportamental, consultar um médico ou compreender os mecanismos do estresse não enfraquece a fé; ao contrário, honra-a. Reconhecer os recursos da ciência é admitir que Deus também age por meio da inteligência, da razão e do conhecimento que concedeu ao ser humano. Aristóteles, com a serenidade que atravessa os séculos, recorda-nos que "o conhecimento é o melhor remédio para o medo". E o medo — convenhamos — costuma caminhar de mãos dadas com a insônia, alimentando um círculo vicioso que só se rompe quando aprendemos a compreender aquilo que nos inquieta.
Hoje, ao revisitar minhas próprias noites em claro, percebo que a paz não surgiu quando tentei escolher entre orar ou tratar-me. Ela nasceu quando deixei de enxergar essas possibilidades como caminhos rivais e passei a acolhê-las como duas mãos estendidas na mesma direção: uma espiritual, outra científica. Não competem entre si; antes, caminham lado a lado, sustentando quem deseja encontrar descanso. Talvez seja esse o verdadeiro repouso: não apenas aquele que fecha os olhos do corpo, mas, sobretudo, o que aquieta a alma. É quando deixamos de travar a falsa batalha entre fé e razão e descobrimos, enfim, que ambas podem conduzir ao mesmo lugar: a serenidade de quem aprende a descansar.




Acudam, a boa moça de família, aluna de piano, deixou-se levar pelos prazeres da carne! Culpa do Tabu…