Ensaio Teológico VI(9) O Sono e a Sabedoria: A Escala 6 x 1 é Mandamento de Deus.
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma imagem que, de tão repetida, acabou ganhando quase status de dogma em nossa cultura: a do executivo que acorda às quatro da manhã, orgulhoso das próprias olheiras, como se o cansaço fosse medalha e o sono, sinal de fraqueza. Ele publica a rotina nas redes sociais, recebe aplausos e, quase sempre, ninguém pergunta quanto seu corpo paga, em silêncio, por esse espetáculo de produtividade. Acordar antes de todo mundo virou símbolo de disciplina, enquanto dormir parece, não raro, uma espécie de confissão de fracasso. É justamente aí que o mito do madrugador virtuoso se revela. Antes de qualquer reflexão sobre sucesso, disciplina ou produtividade, é preciso olhar para o ser humano que existe por trás do despertador.
O Salmo 127:2 já parecia desconfiar desse tipo de heroísmo: "Inútil levantar cedo e dormir tarde, trabalhando arduamente por alimento. O Senhor concede o sono àqueles que ele ama." Repare na delicadeza da palavra "concede". O sono não aparece como prêmio reservado àquele que trabalhou o suficiente para merecê-lo, mas como dádiva: algo que se recebe, não que se conquista na marra, à força de disciplina. Há, nesse pequeno versículo, uma crítica silenciosa à nossa obsessão por produzir sem parar. Como se Deus dissesse ao ser humano: trabalhe, sim, mas não se esqueça de que você não é uma máquina.
Ainda assim, seria ingenuidade negar que existe uma tensão real entre descanso e disciplina. Eles não são necessariamente inimigos; às vezes, convivem de maneira desconfortável dentro da mesma pessoa. É o caso de quem precisa acordar cedo para sustentar a família, cumprir uma jornada de trabalho e enfrentar as responsabilidades da vida, mas que, no fundo, sonha simplesmente com uma noite inteira de sono, sem culpa e sem despertador. Arianna Huffington, que chegou a desmaiar de exaustão antes de se tornar uma das vozes mais conhecidas em defesa do descanso, conhece bem essa contradição. Sua trajetória encontra eco em Provérbios 3:24: "Quando você se deitar, não terá medo; quando se deitar, o seu sono será tranquilo" — uma promessa que soa quase revolucionária num mundo que, muitas vezes, ensinou a confundir tranquilidade com preguiça e exaustão com mérito.
Benjamin Franklin talvez tivesse suas razões, considerando o contexto de sua época e seu próprio ritmo de vida, ao afirmar que dormir cedo e acordar cedo torna o homem "saudável, rico e sábio". O problema começa quando essa máxima, criada em determinado contexto, transforma-se numa regra universal para todos os corpos e todas as pessoas. O neurocientista Matthew Walker, depois de décadas de pesquisas sobre o sono, mostra que a privação crônica de descanso compromete justamente aquilo que Franklin associava à virtude de acordar cedo: saúde, clareza mental e longevidade. A ciência moderna, nesse caso, não destrói a sabedoria antiga; antes, ajuda a compreendê-la melhor. O Salmo 4:8 já expressava essa confiança de maneira admirável: "Em paz me deito e logo adormeço, pois só tu, Senhor, me fazes viver em segurança."
Albert Camus, com sua conhecida ironia diante dos absurdos da existência, observava que "a vida é curta, mas as horas são longas". A frase desmonta, de certo modo, a urgência ansiosa de quem acredita que cada minuto dormindo é um minuto desperdiçado. Afinal, que espécie de vitória é essa em que se ganha algumas horas de produtividade e se perde a capacidade de viver bem as demais? Eclesiastes 3:1 responde com uma serenidade quase terapêutica: "Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu." Há tempo para trabalhar, lutar, produzir e correr atrás dos sonhos, claro. Mas, há também — e isso precisa ser dito sem rodeios — tempo para parar. O descanso não é o oposto do esforço; muitas vezes, é aquilo que torna o esforço possível.
Até mesmo as mudanças artificiais impostas ao relógio, como o horário de verão, tantas vezes justificadas em nome da produtividade e da economia, ajudam a revelar uma verdade mais profunda: o tempo do relógio nem sempre coincide com o tempo do corpo. Os ritmos circadianos variam, as necessidades de sono não são idênticas e não existe uma cartilha capaz de servir perfeitamente a todos. O que funciona para um pode ser um tormento para outro. Nesse sentido, Romanos 14:5 oferece um princípio interessante para pensar essa diversidade: "Cada um deve estar plenamente convencido em sua própria mente." Não se trata de transformar qualquer preferência pessoal em verdade absoluta, mas de reconhecer que a sabedoria também passa pelo respeito às diferenças.
Talvez, então, a verdadeira sabedoria não esteja em vencer o sono, mas em fazer as pazes com ele. Dormir não é desistir da vida; é preparar o corpo e a mente para continuar vivendo. Descansar não significa abandonar a disciplina, assim como trabalhar duro não deveria significar sacrificar a própria saúde no altar da produtividade. Há uma linha tênue entre dedicação e escravidão, entre disciplina e obsessão, entre aproveitar o tempo e ser devorado por ele.
Por isso, reconsiderar as leituras rígidas da tradição não significa abandonar a fé, mas, quem sabe, devolvê-la à sua profundidade original. A fé bíblica nunca foi um culto à exaustão. Ao contrário, ela reconhece limites, ritmos, pausas e estações. Efésios 5:15-16 nos convida a viver como sábios, aproveitando bem o tempo. E talvez aproveitar bem o tempo, hoje, não signifique preencher cada minuto com alguma tarefa, mas ter a sabedoria de perceber quando é hora de parar.
No fim das contas, talvez o verdadeiro sábio não seja aquele que acorda primeiro, mas aquele que sabe quando acordar, quando trabalhar e, sobretudo, quando descansar. Porque há momentos em que a maior demonstração de sabedoria não é levantar da cama, mas permanecer nela sem culpa. Afinal, até o corpo que trabalha precisa de silêncio; até a mente que pensa precisa de pausa; e até quem corre atrás do futuro precisa, de vez em quando, fechar os olhos e confiar que o mundo continuará girando enquanto dorme.
Questão 1:
De que forma a ideia de que o sucesso está ligado à privação do sono se conecta com a lógica da produtividade e da cultura do trabalho na sociedade moderna?
Questão 2:
Com base na crítica à tirania do sono e na importância do descanso adequado, quais alternativas podem ser propostas para promover uma relação mais saudável com o tempo e o sono na sociedade?





