Ensaio Teológico VI(14) Questionando a Doutrina do Julgamento Divino: Uma Perspectiva Psicológica e Filosófica
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Houve um tempo em que eu temia a Deus do jeito errado — não como quem teme perder algo precioso, mas como quem teme ser pego em falta. Deitava-me à noite revisando o dia, como quem procura provas contra si mesmo, convencido de que existia, em algum lugar, uma lista com meu nome entre aqueles que seriam separados como joio. Levou anos até eu perceber que aquele medo não nascia propriamente da fé, mas da imagem de Deus que eu havia herdado sem nunca me dar ao trabalho de questionar: a de um juiz à espreita, esperando o próximo tropeço.
Eclesiastes já reconhecia isso muito antes de mim: "Não há homem justo na terra que faça o bem e nunca peque" (7:20). Se a própria Escritura admite, sem rodeios, a fragilidade da justiça humana, por que insistimos em construir teologias que parecem ignorar essa realidade? Por que continuamos dividindo o mundo entre os que erram e os que não erram, como se houvesse uma linha nítida separando uns dos outros? Talvez porque seja mais fácil temer um Deus que julga do que confiar num Deus que compreende. O primeiro parece exigir apenas obediência; o segundo nos chama à entrega. E, convenhamos, entregar-se é bem mais difícil do que obedecer por medo.
A psicanálise, cada uma a seu modo, também se aproximou dessa inquietação. Não cito Freud literalmente — seria imprudente atribuir-lhe frases que a tradição popular repete sem documentação precisa —, mas sua obra sugere, de maneira recorrente, que aquilo que julgamos como "perversão" pode ter raízes em processos internos que escapam à consciência do próprio sujeito. O apóstolo Paulo, sem dispor de qualquer vocabulário clínico, já havia percebido um paradoxo semelhante: "Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio" (Romanos 7:15).
Há algo profundamente humano — e, para quem lê Paulo pela lente da fé, profundamente bíblico — nessa constatação de que nem sempre compreendemos as forças que nos movem. Muitas vezes, repetimos comportamentos que sabemos serem prejudiciais, carregamos padrões que não escolhemos conscientemente e reproduzimos dores que, de tão antigas, já parecem fazer parte de nós. Isso não significa retirar do ser humano toda responsabilidade por seus atos, mas reconhecer que responsabilidade e compreensão não são inimigas. Pelo contrário: talvez só consigamos transformar aquilo que primeiro aprendemos a compreender.
Um Deus que julgasse apenas a superfície do ato correria o risco de ser imaginado de maneira tão limitada quanto eu me julgava naquela época. Eu olhava para um dia ruim e concluía que havia algo errado comigo; via uma queda e transformava aquele episódio numa sentença sobre quem eu era. Não perguntava por que eu havia caído, o que estava carregando, que feridas alimentavam aquela repetição. Eu só julgava. E, ao fazer isso, acabava reproduzindo dentro de mim a mesma lógica que dizia temer diante de Deus.
Foi somente quando parei de temer e comecei a perguntar — por que erro? O que carrego? De onde vem essa repetição? — que a fé deixou, pouco a pouco, de parecer uma espécie de vigilância permanente e começou a se transformar em descanso. Não porque Deus tivesse deixado de se importar com o certo e o errado, nem porque toda conduta pudesse ser justificada pelas circunstâncias, mas porque comecei a compreender Sua justiça de outra maneira. Talvez ela se pareça menos com o tribunal que eu imaginava e mais com o olhar de um Pai que conhece a história inteira antes de pronunciar qualquer sentença.
É justamente aí que Romanos 14:13 ganha uma força especial: "Deixemos de julgar uns aos outros. Em vez disso, façamos o propósito de não colocar pedra de tropeço ou obstáculo no caminho do irmão." O texto desloca nosso olhar. Em vez de gastar energia examinando a falha alheia, somos convidados a examinar aquilo que fazemos com ela. O problema, talvez, não esteja apenas no erro do outro, mas na maneira como reagimos diante dele. Há uma diferença enorme entre discernir e condenar, entre corrigir e humilhar, entre chamar à responsabilidade e transformar uma queda numa identidade.
Talvez, então, a doutrina que mais precisemos revisar não seja propriamente a do julgamento divino, mas a pressa com que projetamos sobre Deus o nosso próprio modo de julgar. Criamos um Deus à nossa imagem e semelhança: severo quando somos severos, impaciente quando somos impacientes, pronto para condenar quando nós mesmos estamos prontos para condenar. E depois nos assustamos com a imagem que criamos.
No fim das contas, talvez a maturidade espiritual comece justamente quando deixamos de perguntar apenas "quem está errado?" e passamos a perguntar "o que está acontecendo aqui?". Essa mudança parece pequena, mas muda tudo. A primeira pergunta procura culpados; a segunda procura compreensão. A primeira levanta o dedo; a segunda abre os olhos.
E talvez seja esse o ponto em que a fé deixa de ser apenas medo de errar e começa a se tornar caminho de transformação. Não somos chamados a negar o pecado, mas a compreendê-lo sem transformar o pecador em pecado. Não somos convidados a abandonar o discernimento, mas a temperá-lo com misericórdia. Afinal, se Deus realmente conhece o coração e a história de cada pessoa, talvez devêssemos pensar duas vezes antes de assumir para nós o lugar que pertence somente a Ele.
Porque, no fim, a pergunta mais desconcertante não é se Deus julga. É outra, bem mais próxima de nós: por que temos tanta pressa de julgá-lo — e de julgar uns aos outros em Seu nome?
Duas questões discursivas sobre o texto:
1. O texto apresenta uma crítica à ideia de que algumas pessoas são intrinsecamente "perversas" e merecem punição divina. Considerando as diferentes perspectivas apresentadas, como a sociedade construiu e mantém ao longo da história o conceito de "perversão"? Quais os interesses e as consequências sociais dessa construção?
Esta questão convida os alunos a refletir sobre a historicidade e a construção social da noção de perversão, incentivando-os a questionar as bases e os impactos dessa categorização.
2. O texto destaca a importância da liberdade individual e da tolerância. Como podemos conciliar a busca por uma sociedade mais justa e equitativa com a necessidade de estabelecer limites para comportamentos considerados prejudiciais?
Esta questão desafia os alunos a pensar sobre os desafios de construir uma sociedade que valorize a diversidade e a liberdade individual, ao mesmo tempo em que garante a segurança e o bem-estar de todos.


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