Ensaio Teológico VI(18) Do Fanatismo à Empatia: Desconstruindo Mitos sobre o Ódio Divino
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Lembro-me de uma tarde, ainda menino, em que um pregador bateu o punho no púlpito e gritou que Deus odiava os pecadores com a mesma fúria com que o fogo devora a palha seca. Fiquei ali, calado, encolhido no banco de madeira, tentando entender como um Deus chamado Amor infinito podia caber dentro de um punho cerrado. A imagem daquele gesto ficou na memória. E, para dizer a verdade, a pergunta também: como conciliar o amor de Deus com a ideia de um Deus que odeia? Muitos anos se passaram, mas essa inquietação continua comigo. Talvez seja justamente ela, mais do que qualquer erudição teológica ou filosófica, que me traga de volta a este tema.
A imagem de um Deus que odeia é sedutora para quem precisa de certezas rápidas, respostas prontas e, sobretudo, de inimigos bem definidos. Afinal, é mais fácil dividir o mundo entre os que Deus ama e os que Deus rejeita do que encarar a complexidade da experiência humana. Mas, convenhamos, essa leitura é uma simplificação perigosa. Quando arrancamos uma expressão de seu contexto histórico, literário e cultural, corremos o risco de transformar o divino em um espelho de nossos próprios rancores. Em vez de encontrarmos Deus, acabamos encontrando a nós mesmos — com nossas paixões, nossos preconceitos e nossas certezas. Carl Rogers, ao defender a compreensão incondicional como terreno fértil para o crescimento humano, ajuda-nos a desconfiar de qualquer concepção de amor que dependa, necessariamente, da ameaça e da punição. Se a compreensão favorece o amadurecimento nas relações humanas, por que haveria de ser diferente quando pensamos nossa relação com o sagrado?
Martin Buber oferece outra chave importante para essa reflexão. Sua concepção da relação Eu-Tu aponta para um encontro no qual o outro deixa de ser objeto de julgamento e passa a ser reconhecido como presença. Isso vale para o ser humano e, em sua perspectiva religiosa, também para Deus. O outro não é simplesmente alguém contra quem se argumenta, se acusa ou se litiga; é alguém com quem se estabelece uma relação. Um Deus-Tu, portanto, não é uma figura distante, escondida atrás de um tribunal celestial, esperando apenas o momento de proferir uma sentença. É presença que se aproxima, interpela, escuta e espera resposta. É relação, não apenas condenação.
E as Escrituras? É justamente aqui que precisamos caminhar com mais cuidado. Tomemos, por exemplo, Malaquias 1:3 — "odiei a Esaú" — expressão tantas vezes utilizada como prova de que Deus literalmente odeia determinadas pessoas. Entretanto, quando a passagem é lida dentro de seu contexto hebraico, histórico e literário, percebe-se que a linguagem pode funcionar como um recurso retórico de preferência relacional, e não necessariamente como a descrição de um sentimento de ódio nos moldes psicológicos com que nós, seres humanos, costumamos compreendê-lo. A questão, portanto, não é simplesmente apagar o texto porque ele nos incomoda, mas aprender a ouvi-lo antes de transformá-lo em arma doutrinária.
Quando o texto sagrado é lido com paciência filológica, atenção ao contexto e disposição para o diálogo, ele pode revelar muito mais do que uma ameaça. Pode tornar-se um convite à reflexão e à transformação interior. Paulo Freire provavelmente nos ajudaria a compreender esse movimento por meio da ideia de conscientização: ler criticamente é também libertar-se das interpretações que nos foram impostas como verdades absolutas. E isso vale não apenas para o leitor, mas para o próprio texto, que muitas vezes fica aprisionado pelas lentes daqueles que acreditam possuí-lo.
Talvez, então, a pergunta mais importante não seja simplesmente: "Deus odeia o pecador?", mas outra, bem mais desconfortável: "que tipo de fé cultivamos quando escolhemos acreditar que sim?" Essa mudança de pergunta altera o eixo da reflexão. Já não estamos apenas discutindo uma doutrina; estamos examinando o tipo de ser humano que nossa teologia está formando. Uma fé construída sobre o medo pode produzir obediência, é verdade, mas dificilmente produzirá empatia. Pode até fazer alguém baixar a cabeça diante de Deus, mas não necessariamente o ensinará a levantar a cabeça diante do próximo.
Substituir o medo pela compaixão não significa cair numa ingenuidade teológica ou transformar Deus em uma espécie de avô bonachão que passa a mão sobre a cabeça de todo mundo. Nada disso. Significa, antes, amadurecer a compreensão da fé e reconhecer que uma espiritualidade saudável não precisa transformar o outro em inimigo para sustentar suas próprias certezas. É trocar o punho cerrado do púlpito pela mão estendida do encontro; é substituir a lógica da ameaça pela possibilidade do diálogo; é compreender que, quando a religião deixa de produzir compaixão, alguma coisa fundamental se perdeu no caminho.
No fim das contas, talvez a redenção não seja apenas um veredito pronunciado de cima para baixo, como se a história humana pudesse ser reduzida a uma sentença definitiva. Talvez seja também um processo — mútuo, contínuo e profundamente humano — de aprender a amar sem precisar, primeiro, aprender a temer. E talvez aquela criança que um dia ficou encolhida num banco de madeira, tentando conciliar o amor infinito com um punho cerrado, ainda esteja procurando a mesma resposta. Só que agora já não procura apenas uma explicação para Deus. Procura compreender que espécie de pessoa se torna quando decide acreditar no Deus que anuncia.
Duas questões discursivas sobre o texto:
Como a ideia de um Deus que odeia pecadores pode ser reinterpretada à luz das teorias da psicologia humanista e da filosofia do diálogo?
Qual a importância da conscientização e da ação crítica para superar interpretações limitantes e promover uma relação mais profunda com o divino?


Nenhum comentário:
Postar um comentário