Ensaio Teológico VI(25) Muros Derrubados: Sobre Beleza, Culpa e a Verdade que Liberta
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma imagem em Provérbios que nunca me abandonou, embora talvez não seja a mais lembrada quando se fala de autocontrole: a de uma cidade sem muralhas. "Como a cidade com seus muros derrubados, assim é o homem que não sabe dominar-se." Não aparece ali uma mulher sedutora à espreita, nem uma armadilha externa à qual o homem pudesse atribuir a própria queda. A imagem aponta para dentro: é o homem que está desguarnecido, sem limites, sem muralhas interiores. Confesso que essa passagem me perturba mais do que qualquer sermão sobre "mulheres tentadoras" que já ouvi em púlpitos evangélicos. E não é difícil entender por quê. O provérbio desloca o problema do corpo alheio para o caráter de quem deseja. Ainda assim, boa parte da pregação que cresci ouvindo parece ter feito o caminho inverso: ergueu muros no corpo da mulher, enquanto deixou desguarnecido o caráter do homem. Foi justamente essa contradição — entre o que o texto diz e o uso que dele se faz — que me trouxe até aqui. E, para ser sincero, ainda não sei se consigo resolvê-la por completo.
Simone de Beauvoir escreveu que não se nasce mulher, torna-se mulher. Li e reli essa frase muitas vezes, e ela sempre me pareceu desmontar, quase em silêncio, o alicerce da narrativa que estou examinando. Se o "feminino" também é uma construção social e cultural, então a chamada "beleza perigosa" não pode ser tratada simplesmente como destino biológico de uma metade da humanidade. É, antes de tudo, uma imagem construída, nomeada e interpretada por quem olha e por quem narra. E aqui está o ponto que considero decisivo: talvez o problema não esteja na beleza em si, mas no significado que atribuímos a ela. Não é a mulher, portanto, nem o seu corpo, nem a sua beleza que deveriam ocupar o banco dos réus. É o olhar que transforma beleza em ameaça, desejo em culpa e liberdade em acusação. É esse olhar — sobretudo o olhar masculino — que precisa ser colocado sob exame.
Mas, talvez a pergunta mais incômoda nem seja sobre elas. Talvez seja sobre nós, homens, e sobre aquilo que fazemos com a nossa própria liberdade. Paulo, em Gálatas, afirma que fomos chamados à liberdade, mas adverte que essa liberdade não deve se transformar em ocasião para satisfazer a carne; antes, somos chamados a servir uns aos outros pelo amor. Há algo revelador nessa passagem: a responsabilidade recai sobre quem exerce a liberdade, não sobre quem, por sua presença, desperta o desejo. A lógica muda completamente. Já não estamos diante da ética da acusação, mas da ética da autoria. A pergunta deixa de ser "o que ela fez para me provocar?" e passa a ser "o que eu faço com aquilo que sinto?". E essa mudança, embora pareça pequena, vira a mesa inteira. Uso minha liberdade para amar ou para culpar o outro pela minha fraqueza? Nesse terreno, não há como terceirizar a responsabilidade. A escolha, no fim das contas, é minha.
Foi nesse ponto que Martin Luther King Jr. entrou na minha reflexão. E preciso admitir: hesitei em trazê-lo para este texto. Transpor uma luta racial para uma discussão de gênero é uma operação delicada. As histórias de opressão têm suas particularidades, suas dores e seus contextos; não são peças de um mesmo quebra-cabeça que possam ser simplesmente trocadas de lugar. Seria, portanto, um erro tratá-las como equivalentes. Ainda assim, há algo no núcleo do sonho de King — a ideia de julgar pelo caráter, e não pela aparência — que atravessa diferentes contextos sem precisar apagar suas diferenças. O que me interessa nesse princípio é a recusa em reduzir o ser humano àquilo que os olhos conseguem enxergar. Se posso tomar essa recusa emprestada, faço-o apenas como eco, nunca como equivalência. Afinal, olhar para alguém e enxergar apenas sua aparência é uma forma silenciosa de aprisionamento; reconhecer seu caráter é começar a derrubar as grades.
No fim das contas, talvez tudo se resuma a uma escolha entre duas verdades possíveis. De um lado, podemos continuar culpando a beleza alheia pela nossa própria fragilidade, como quem derruba os próprios muros e, depois, procura um culpado do lado de fora. Do outro, podemos aceitar a responsabilidade pela maneira como olhamos, desejamos e escolhemos. É aqui que a palavra do Evangelho de João ganha um sentido ainda mais profundo: é a verdade — sobre nós mesmos, sobre o nosso desejo, sobre os nossos limites e sobre a nossa responsabilidade — que verdadeiramente liberta.
Não é a mulher que precisa se cobrir para que o homem aprenda a se dominar. Não é o corpo feminino que precisa desaparecer para que o caráter masculino apareça. Tampouco precisamos transformar a beleza em pecado para preservar a moral. Talvez seja exatamente o contrário: precisamos de homens capazes de olhar sem possuir, desejar sem objetificar e escolher sem transferir para o outro o peso de suas próprias escolhas. Precisamos de homens que compreendam que liberdade não é fazer tudo o que se deseja, mas assumir aquilo que se faz com o desejo.
E talvez seja esse o sentido mais bonito da imagem de Provérbios. Uma cidade sem muros não é necessariamente uma cidade condenada; é uma cidade vulnerável, que precisa reconstruir suas defesas. Só que, desta vez, os muros não devem ser levantados ao redor do corpo do outro. Devem ser erguidos dentro de nós — não para aprisionar o desejo, mas para orientá-lo; não para transformar o outro em ameaça, mas para proteger a dignidade de ambos. A verdadeira maturidade começa quando paramos de vigiar os muros alheios e finalmente percebemos que os nossos também precisam de reconstrução.
Para aprofundar a discussão, proponho as seguintes questões:
A construção social do gênero: O texto enfatiza a construção social do gênero e desafia a ideia de que os papéis de gênero são fixos e imutáveis. Como a sociedade e a cultura moldam nossas percepções sobre a masculinidade e a feminilidade? Quais são as consequências dessas construções sociais para as relações entre homens e mulheres?
O papel da religião na construção de gênero: A religião tem sido utilizada para justificar desigualdades de gênero ao longo da história. Como podemos interpretar os textos religiosos de forma a promover a igualdade e o respeito mútuo? Quais são os desafios e as oportunidades para uma interpretação mais inclusiva dos textos sagrados?
A sexualidade e o poder: O texto sugere que a visão tradicional da mulher como tentadora está relacionada a questões de poder. Como o poder e a sexualidade se entrelaçam na construção de identidades de gênero? Quais são as implicações dessa dinâmica para as relações interpessoais?
A educação como ferramenta de transformação: Como a educação pode contribuir para desafiar estereótipos de gênero e promover relações mais equitativas? Quais são os principais desafios para implementar uma educação não sexista nas escolas?
A responsabilidade individual e coletiva: O texto destaca a importância da responsabilidade individual na construção de relações saudáveis. No entanto, como a sociedade como um todo pode contribuir para a criação de um ambiente mais seguro e igualitário para todos?


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