Ensaio Teológico VI(20) A Reavaliação da Autoridade Parental à Luz da Contemporaneidade
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Lembro-me de uma cena aparentemente banal, dessas que só ganham peso muito tempo depois: um pai, de braços cruzados, diante do filho adolescente, dispara: "porque eu mando, e ponto final". O rapaz permanece calado e baixa os olhos. Não por concordância, mas, talvez, pelo simples cansaço de continuar discutindo. A cena termina, mas a pergunta fica: quantas famílias não repetem esse mesmo roteiro, geração após geração, confundindo silêncio com respeito e obediência com formação de caráter? Afinal, fazer alguém obedecer é relativamente fácil; ajudá-lo a compreender por que deve fazer alguma coisa é um desafio bem maior.
O mundo mudou — e mudou depressa. Com ele, mudaram também os critérios pelos quais certas certezas herdadas são avaliadas. A experiência dos pais continua sendo um patrimônio valioso, disso ninguém duvida. Afinal, quem viveu mais acumulou histórias, erros, acertos e aprendizados que os filhos ainda não tiveram tempo de experimentar. Mas, experiência não é sinônimo de infalibilidade. Ter vivido mais não significa ter razão em tudo. Numa sociedade que se transforma na velocidade da nossa, até os mais experientes precisam conservar uma qualidade que, às vezes, parece escassa: a disposição para rever aquilo que um dia parecia inquestionável.
Françoise Dolto, em seus estudos sobre a psicanálise da infância, chamou a atenção para os efeitos de uma obediência imposta sem espaço para elaboração interna. Quando a criança ou o adolescente apenas aprende a obedecer, sem compreender o sentido daquilo que lhe é exigido, corre-se o risco de produzir não maturidade, mas repressão disfarçada de disciplina. E essa advertência continua atual. Exigir sem explicar, mandar sem dialogar e corrigir apenas o comportamento visível pode até resolver o problema naquele momento, mas raramente forma consciência. O comportamento muda porque existe uma ameaça; a convicção, porém, não nasce daí. E os jovens, pressionados simultaneamente pelas normas de casa e pelas exigências de um mundo social em permanente transformação — amigos, redes sociais, grupos de pertencimento e expectativas que mudam quase da noite para o dia — não deveriam carregar sozinhos o peso de conflitos que, na verdade, pertencem a duas gerações que estão aprendendo a viver num mundo novo.
Talvez, então, a pergunta que todo pai deveria fazer a si mesmo, antes de exigir silêncio, seja: "Estou pedindo obediência porque tenho razão, ou porque tenho autoridade?" Parece uma diferença pequena, mas não é. Uma coisa é orientar porque se compreende o caminho; outra, bem diferente, é exigir simplesmente porque se ocupa uma posição de poder. A primeira busca formar consciência; a segunda, muitas vezes, apenas produz submissão. E talvez seja justamente nessa distinção que comece uma relação familiar mais saudável. Provérbios 1:5 afirma que o sábio "ouvirá... e aumentará o seu saber". E veja que interessante: o texto fala em ouvir, não apenas em falar. A sabedoria bíblica, nesse ponto, já carregava em si a semente de um princípio que hoje consideramos fundamental: quem educa também precisa estar disposto a escutar.
É claro que a autoridade de Salomão ao tratar de temas como moralidade, comportamento e formação dos mais jovens refletia o contexto de seu tempo. Tratava-se de um mundo profundamente hierárquico e patriarcal, muito distante da sociedade contemporânea e das ferramentas críticas de que hoje dispomos. Não faria sentido, portanto, transportar mecanicamente para o presente métodos concebidos para outra realidade histórica. Mas, isso não significa jogar fora o princípio ético. Entre aquele mundo e o nosso ainda existe uma ponte possível: o compromisso com a formação moral permanece, embora os métodos de transmiti-lo precisem ser repensados. O desafio atual não é simplesmente entregar aos filhos um pacote de regras prontas, mas ajudá-los a desenvolver discernimento para enfrentar situações que os próprios pais jamais imaginaram viver.
É aí que a orientação parental precisa mudar de forma sem perder sua essência. Na era da informação, orientar não significa abandonar a autoridade; significa redefini-la. Autoridade pode ser presença, não apenas imposição; pode ser exemplo, não apenas ordem; pode ser escuta, e não somente discurso. O filho precisa saber que existe alguém capaz de estabelecer limites, mas também precisa perceber que esses limites têm sentido. Provérbios 22:6 recomenda: "ensina a criança no caminho em que deve andar". Ensinar, porém, é muito mais do que ordenar. Quem ensina acompanha, demonstra, conversa, corrige, explica e, quando necessário, também reconhece que errou. Afinal, como esperar que um filho aprenda a pensar por conta própria se, dentro de casa, ele nunca teve permissão para pensar?
Talvez seja esse um dos grandes paradoxos da educação dos filhos: queremos que sejam adultos responsáveis, críticos e capazes de tomar boas decisões, mas, muitas vezes, tentamos prepará-los para isso negando-lhes justamente a oportunidade de decidir, questionar e aprender com as próprias escolhas. É evidente que criança e adolescente precisam de limites. Liberdade sem responsabilidade pode virar abandono; autoridade sem diálogo, por outro lado, pode transformar a educação numa espécie de quartel doméstico. O equilíbrio está em ensinar que liberdade e responsabilidade caminham juntas.
No fim das contas, talvez o maior legado que possamos deixar aos nossos filhos não seja a certeza de que tivemos sempre razão. Isso seria, além de impossível, uma herança bastante pobre. Talvez seja muito mais valioso mostrar-lhes que somos capazes de aprender, rever conceitos, pedir desculpas e mudar de ideia quando a realidade nos convence de que estávamos errados. Afinal, há uma grandeza especial em dizer a um filho: "Eu não sei"; ou, ainda, "você tem razão". Isso não diminui a autoridade dos pais. Pelo contrário: humaniza-a.
Talvez a verdadeira autoridade parental não esteja em conseguir a última palavra, mas em ensinar os filhos a encontrar a própria voz sem perder o respeito pelo outro. Não se trata de criar filhos que simplesmente obedeçam, mas pessoas que saibam discernir. E, quem sabe, o maior legado que possamos deixar seja justamente este: não a certeza de termos tido sempre razão, mas a coragem de termos aprendido, com eles, a duvidar juntos.
Questões Discursivas sobre o Texto
Questão 1:
O texto apresenta uma crítica à ideia da obediência cega dos filhos aos pais. Com base nas informações apresentadas, elabore uma definição de uma relação saudável entre pais e filhos na era da informação, destacando os valores e comportamentos que a caracterizam.
Questão 2:
O texto menciona a importância do diálogo entre pais e filhos. Discuta os desafios e as oportunidades do diálogo entre gerações na sociedade contemporânea, considerando as diferentes perspectivas e valores presentes nas famílias.


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