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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(19) A Sabedoria Vale Mais do que o Dinheiro?

 



Ensaio Teológico VIII(19) A Sabedoria Vale Mais do que o Dinheiro?

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Pergunto-me, numa sociedade que vive de olho no dinheiro, se existe algo que realmente valha mais do que ele. Para refletir sobre essa questão, volto a Provérbios 16:16, que prefere a sabedoria ao ouro. Mas, faço isso sem pressa e sem medo de questionar as interpretações que, de tão repetidas, acabam virando verdades incontestáveis. Afinal, o livro de Provérbios não despreza a riqueza: afirma que a bênção do Senhor enriquece (10:22), reconhece que os bens do rico são sua cidade forte (10:15) e apresenta a oração de Agur, que pede apenas o pão necessário para viver (30:8-9). Até Eclesiastes reconhece que a sabedoria e o dinheiro são "uma defesa" (7:12). Ora, diante disso, parece-me ingênuo transformar o versículo numa espécie de slogan, como se a questão fosse simplesmente escolher entre ser sábio ou ser rico. A vida, convenhamos, é bem mais complicada do que essa conta.

Desconfio, porém, que a própria sabedoria também tem seu preço, embora ele não venha estampado numa etiqueta. Em Os Herdeiros, Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron mostram como o capital cultural é transmitido no ambiente familiar, à mesa, nas conversas e até no vocabulário. Assim, aquilo que a escola muitas vezes consagra como mérito individual também carrega as marcas da origem social. Já Amartya Sen, em Desenvolvimento como Liberdade, compreende a pobreza como privação de capacidades e oportunidades concretas. Essas reflexões me levam a uma conclusão incômoda: pregar sabedoria a quem mal consegue sobreviver, sem lhe oferecer condições para estudar, refletir e ampliar seus horizontes, é uma forma elegante de crueldade. Afinal, como exigir que alguém cultive a mente quando a fome lhe ocupa os pensamentos? Não basta apontar o caminho; é preciso garantir que todos tenham condições de percorrê-lo.

Volto-me, então, a Eclesiastes, que declara tudo vaidade (1:2) e compara o esforço humano a correr atrás do vento (2:11), mas também recomenda desfrutar os frutos do próprio trabalho (2:24; 3:22). Vejo nisso uma contradição profundamente humana: trabalhamos para construir alguma coisa, deixar nossa marca no mundo e reconhecer algum sentido naquilo que fazemos, embora saibamos que nada disso dura para sempre. O problema, a meu ver, começa quando o trabalho deixa de ser parte da vida e passa a ocupar o lugar da própria vida. É por isso que rejeito a teologia da prosperidade, que transforma a riqueza em selo de aprovação divina e, não raro, faz da pobreza uma suspeita de fracasso espiritual. O livro de Jó já põe essa lógica em xeque, enquanto Jesus é direto ao afirmar que não se pode servir a Deus e a Mamom (Mt 6:24). E aqui cabe uma reflexão: quando tudo é medido pelo ganho, até os afetos passam a ser contabilizados. Os laços deixam de ser encontros entre pessoas e viram investimentos dos quais esperamos algum retorno.

Lembro-me, enfim, de um comerciante bem-sucedido que, diante de uma notícia ruim, não sabia para quem telefonar. Tinha dinheiro, negócios e, talvez, tudo aquilo que muita gente chama de sucesso, mas lhe faltava alguém com quem dividir o peso daquele momento. Penso também numa vizinha sem estudo formal que era a primeira a bater à porta quando o luto chegava a uma casa da rua. Não precisava de diploma nem de conta bancária recheada para oferecer presença, escuta e um ombro amigo. Diante dessas duas vidas, sei qual delas me parece mais rica, embora reconheça que essa comparação, por si só, não resolve todas as questões. Concluo, portanto, que a supremacia da sabedoria sobre o dinheiro continua merecendo discussão: ela não é neutra, não está igualmente ao alcance de todos e tampouco garante uma vida sem tropeços. Prefiro enxergá-la como um dos caminhos para uma existência plena, desde que esse caminho esteja aberto a todos, e não reservado a quem já nasceu com privilégios. No fim das contas, busco a verdadeira riqueza nos vínculos que não se negociam e na difícil arte de equilibrar aquilo que preciso ter com aquilo que desejo ser. Porque dinheiro pode comprar conforto, mas não necessariamente companhia; pode abrir portas, mas não ensina, sozinho, a acolher quem chega. E, nessa conta da vida, há valores que não cabem no bolso nem se medem pelo saldo bancário.

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