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MINHAS PÉROLAS

domingo, 25 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(7) A LUZ DO CORREDOR: ENTRE O LIMITE, A ESPERANÇA E A RESPONSABILIDADE PELO OUTRO

 


Ensaio Teológico IX(7) A LUZ DO CORREDOR: ENTRE O LIMITE, A ESPERANÇA E A RESPONSABILIDADE PELO OUTRO

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Conheço uma frase que costuma ser dita com cansaço e, quase sempre, sem maldade: "com este não adianta mais". Não zombo de quem chega a esse ponto, porque sei que o desgaste é real e merece respeito. Afinal, ninguém é de ferro, e há momentos em que insistir numa relação parece remar contra a correnteza. Reconheço, portanto, que estabelecer limites não é um defeito, muito menos sinal de falta de amor. Existem relações abusivas nas quais permanecer significa continuar se ferindo, e a própria sabedoria bíblica, em Provérbios 15:12, aconselha cautela diante do escarnecedor. É preciso, porém, distinguir duas coisas que a pressa costuma misturar: não desistir de alguém não significa permanecer em risco. Posso fechar uma porta para proteger minha integridade e, ainda assim, deixar acesa a luz do corredor. Posso me afastar sem transformar o afastamento numa sentença definitiva sobre o valor ou o futuro de quem ficou do lado de lá.

É justamente essa sentença que as reflexões contemporâneas da psicologia e da pedagogia nos convidam a questionar. Com Carol Dweck, em Mindset (2006), compreendo que a maneira como enxergamos nossas capacidades influencia nossa relação com o aprendizado e com os próprios erros. Quando alguém é rotulado como "incorrigível", corre-se o risco de tratá-lo como se estivesse condenado a ser para sempre aquilo que hoje demonstra ser. Com Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido (1968), lembro que ninguém se constrói sozinho, isolado da palavra, do trabalho, da ação e da reflexão. Já Urie Bronfenbrenner, em A ecologia do desenvolvimento humano (1979), ajuda-nos a perceber que o comportamento não nasce no vazio: é influenciado pelas relações familiares, pela escola, pela comunidade e pelo contexto cultural em que cada pessoa vive. Nada disso elimina a responsabilidade individual, nem transforma todo erro em culpa do ambiente. O que muda é o alcance do nosso olhar. Em vez de perguntar apenas "o que há de errado com ele?", vale perguntar também: o que aconteceu em sua trajetória? Que relações alimentam esse comportamento? E, sobretudo, que outras experiências poderiam ajudá-lo a encontrar um caminho diferente?

Penso, então, na cena de um professor diante de um adolescente que debocha de tudo, enfrenta as regras e já foi considerado um caso perdido por três escolas. Cansado, o educador poderia simplesmente repetir o diagnóstico dos colegas e tratá-lo como mais um problema a ser despachado. Em vez disso, mantém a firmeza, corrige sem humilhar e, dia após dia, cumprimenta o garoto pelo nome. Não passa a mão na cabeça dele, tampouco finge que nada aconteceu. Apenas se recusa a confundir o comportamento de hoje com o destino de amanhã. Até que, certa tarde, depois da aula, o adolescente se aproxima e pergunta, quase sem levantar os olhos, se pode levar um livro emprestado. Não há música de fundo, discurso emocionante ou transformação milagrosa. Há apenas um pequeno gesto, desses que quase ninguém nota, mas que podem mudar a direção de uma vida. Anos depois, talvez aquele rapaz nem se lembre de uma frase específica do professor. O que ficará na memória será o fato de alguém ter continuado a enxergá-lo para além das suas dificuldades. Reconheço que essa é uma cena ilustrativa, e a substituiria, sem hesitar, por um rosto real do meu próprio percurso. Afinal, quem passou anos entre o giz, os cadernos e os desafios da sala de aula sabe que nem toda mudança faz barulho. Às vezes, ela começa num cumprimento, num livro emprestado ou na simples decisão de não tratar ninguém como um caso encerrado.

Por fim, creio que a raiz mais profunda dessa postura está na ética e na fé. Emmanuel Levinas, em Totalidade e Infinito (1961), coloca a responsabilidade pelo outro no centro da reflexão ética. Essa ideia me faz lembrar o "eis-me aqui" de Isaías 6:8 e, sobretudo, as parábolas de Lucas 15. Ali encontramos o pastor que vai atrás da ovelha perdida, sem transformar o resgate numa conta de custo e benefício, e o pai que corre ao encontro do filho quando ainda está "ainda longe". A imagem é poderosa: antes mesmo de o filho chegar à porta, o pai já se movimenta em sua direção. Não se trata de aprovar os erros do rapaz, mas de reconhecer que a possibilidade de recomeçar não precisa morrer junto com a confiança perdida. Quem transforma a rejeição em princípio corre o risco de se parecer mais com o irmão mais velho, que permanece do lado de fora da festa, agarrado às próprias razões, do que com o pai, que acolhe sem fingir que nada aconteceu.

Por isso, prefiro encerrar com um convite, não com uma ordem: sejamos firmes sem nos tornarmos fechados, pacientes sem cair na ingenuidade e acolhedores sem abandonar nossos limites. Nem todo mundo está pronto para mudar quando estendemos a mão; alguns sequer reconhecerão o gesto. E tudo bem: não somos donos do tempo, da consciência nem das escolhas alheias. Nossa responsabilidade não é garantir a transformação de ninguém, mas evitar que o cansaço nos convença de que certas pessoas já não merecem nenhuma possibilidade de mudança. Afinal, nem toda semente brota na estação em que a plantamos. Algumas precisam de mais tempo, de outro terreno ou de cuidados diferentes. E, se não podemos obrigar a semente a florescer, podemos ao menos evitar que a nossa impaciência transforme o jardim inteiro em chão abandonado. Uma sociedade mais justa não se constrói com a ingenuidade de quem aceita tudo, mas com a coragem de quem estabelece limites sem perder a humanidade. Porque, às vezes, não precisamos manter a porta aberta para sempre; basta não apagar, por completo, a luz do corredor.

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