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MINHAS PÉROLAS

sábado, 24 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(4) SABEDORIA E LOUCURA: AS DUAS PORTAS DA CONSCIÊNCIA

  


Ensaio Teológico IX(4) SABEDORIA E LOUCURA: AS DUAS PORTAS DA CONSCIÊNCIA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Provérbios 9 é um dos capítulos mais bem construídos da literatura sapiencial. De um lado, a Sabedoria edifica sua casa, prepara a mesa e envia suas servas à cidade; do outro, a Loucura, sentada à porta da própria casa, chama os que passam. Curiosamente, ambas fazem praticamente o mesmo convite: "Quem é simples, volte-se para aqui". No entanto, os destinos são diferentes: uma conduz à vida; a outra, aos "convidados do Sheol". A cena é belíssima e, confesso, também me inquieta. Antes de qualquer crítica, porém, preciso fazer uma ressalva por uma questão de justiça: a "Loucura" do texto não representa a diversidade psíquica, o inconformismo ou a dúvida sincera, mas a imprudência de quem rejeita a correção. Criticar o capítulo como se ele condenasse todo aquele que pensa diferente seria erguer um espantalho. O que me interessa, de fato, é outra questão: o que acontece quando esse mapa de duas portas é aplicado, sem reflexão, à vida de pessoas reais, onde quase nunca encontramos placas indicando o caminho certo ou o errado?

Penso que a própria tradição sapiencial reconhece que esse mapa é mais frágil do que a leitura isolada de Provérbios 9 pode sugerir. Eclesiastes põe o sábio e o tolo lado a lado e constata, com certa amargura, que "o mesmo destino" os alcança; além disso, reconhece que o coração humano está cheio "de loucura enquanto vivem". Jó, por sua vez, questiona a lógica simplista de que quem anda corretamente necessariamente prospera. Afinal, se toda pessoa justa fosse poupada do sofrimento, como explicar as dores de Jó? E, se toda adversidade fosse sinal de culpa, quantos inocentes não seriam injustamente condenados? A própria Bíblia, portanto, abre espaço para perguntas que complicam as respostas fáceis. Isso me tranquiliza, pois questionar uma passagem não significa abandonar a Escritura, mas continuar a conversa que ela mesma começou.

É nessa conversa que Michel Foucault me ajuda a pensar, desde que eu não o transforme em oráculo. Em História da Loucura, ele examina como a fronteira entre razão e desrazão foi traçada historicamente, muitas vezes ao preço do silenciamento daqueles colocados do lado considerado "errado". Já em A Hermenêutica do Sujeito, recupera o cuidado de si dos antigos como um exercício constante de atenção e transformação pessoal, e não como um mergulho egoísta no próprio umbigo. Clifford Geertz, em O Saber Local, completa essa reflexão ao mostrar que até o chamado "bom senso" é atravessado pela cultura: aquilo que uma sociedade considera prudência outra pode interpretar como fuga. A sabedoria, vista por esse ângulo, também tem sotaque, endereço e história. Isso não significa que tudo seja relativo, mas que convém pensar duas vezes antes de transformar nossos próprios critérios em medida universal para julgar os outros.

Entretanto, minha crítica a essa divisão entre sabedoria e loucura também exige cautela. Seria incoerente rejeitar a ideia de um caminho único e, logo depois, transformar o autoconhecimento numa nova estrada obrigatória. Afinal, olhar para dentro também pode ser uma forma sofisticada de vaidade; nem tudo o que nasce em nosso íntimo merece ser tratado como verdade. O próprio livro de Provérbios afirma, logo após a cena dos dois convites, que o princípio da sabedoria é o temor do Senhor. Essa afirmação me lembra que existe algo além de mim, capaz de questionar minhas certezas, corrigir meus passos e me fazer reconhecer os limites daquilo que penso saber. Talvez a sabedoria que procuro não esteja exclusivamente fora, nas tradições e nos ensinamentos que recebo, nem apenas dentro de mim, nos sentimentos e nas reflexões que cultivo. Quem sabe ela nasça justamente do encontro entre uma voz que me chama de fora e um coração que aprende, por dentro, a ouvir sem se anular, a questionar sem desprezar e a mudar sem perder a própria consciência.

Termino, então, sem distribuir sentenças nem apontar vencedores. Se todo ser humano carrega em si a possibilidade da sabedoria e da imprudência, a questão deixa de ser simplesmente escolher uma porta e fechar a outra para sempre. O desafio é reconhecer nossas contradições sem permitir que elas assumam o comando da casa. Por isso, a pergunta que me acompanha não é apenas "qual porta devo escolher?", mas "como convivo com a que me inquieta, sem entregar a ela o comando da casa?". E há outra, ainda mais difícil, daquelas que continuam martelando na cabeça mesmo depois que o livro se fecha: quantas vezes chamei de loucura aquilo que era apenas o começo de uma pergunta nova? Afinal, talvez o maior perigo não esteja somente em seguir a voz errada, mas também em acreditar tanto que já conhecemos a verdade que deixamos de escutar.

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