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MINHAS PÉROLAS

sábado, 17 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(25) A Sabedoria que Caminha Conosco

 


Ensaio Teológico VIII(25) A Sabedoria que Caminha Conosco

Por Claudeci Ferreira de Andrade

“Antes das colinas, eu nasci” (Pv 8,25). Poucas frases das Escrituras carregam tanta antiguidade em tão poucas palavras. Quem as lê tem a impressão de que o tempo recua até um ponto em que nem sequer a terra existia. Não é de admirar, portanto, que a tradição cristã tenha reconhecido nessas palavras um sinal da eternidade. Essa leitura não nasceu do nada: traz consigo séculos de oração, debates teológicos e até martírios. Por isso, antes de questioná-la, é preciso escutá-la com respeito e reconhecer o peso de sua história.

Escuto essa tradição, mas uma pergunta continua me cutucando por dentro: o que significa, para um poeta hebreu, dizer que a Sabedoria é mais antiga que as colinas? Talvez não se trate de estabelecer a idade de um ser, mas de afirmar que a ordem do mundo não é fruto do acaso. Para o povo bíblico, as colinas representavam permanência, algo que parecia resistir ao próprio tempo. Ao colocá-las diante de uma Sabedoria anterior a elas, o poeta nos convida a olhar além daquilo que os olhos alcançam. O versículo, portanto, não pede uma refutação apressada, mas uma interpretação cuidadosa. Afinal, hokmah, palavra hebraica para sabedoria, é um substantivo feminino. Na literatura sapiencial, ela ganha voz nas praças, oferece banquetes e aparece como uma criança que brinca diante do Criador. Eis a personificação, um recurso literário que dá vida a ideias abstratas e permite que o pensamento se transforme em imagem. Isso, por si só, não constitui uma biografia cósmica; é, antes, uma maneira poética de falar da presença da Sabedoria na criação e na experiência humana.

Mas, a conversa não termina em Provérbios. Em Colossenses 2,3, Paulo afirma que em Cristo “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento”, enquanto o prólogo do Evangelho de João apresenta o Logos como agente da criação. Os Padres da Igreja aproximaram essas passagens e reconheceram na Sabedoria um prenúncio do Filho. Mais tarde, o Concílio de Niceia, em 325, deu forma doutrinal a uma convicção fundamental da fé cristã: o Filho é gerado, não criado. Confesso que é justamente nesse ponto que meu primeiro rascunho tropeçava. Reduzir Cristo a um “arquétipo de valores universais” pode até parecer uma saída elegante, mas é uma simplificação que deixa de lado aquilo que o cristianismo historicamente afirma sobre sua identidade. Ora, se quero dialogar honestamente com essa tradição, preciso encará-la de frente, sem contornar suas convicções para tornar mais confortável o meu próprio argumento. Para a fé cristã, a Sabedoria não é apenas um ideal a perseguir, uma virtude a cultivar ou um conceito a compreender: é Alguém que se encontra.

E, ainda assim, há uma verdade que me parece inegociável: a sabedoria, em nós, também cresce. Ninguém nasce sabendo viver, muito menos recebe pronta a capacidade de compreender os próprios erros. Lembro-me de uma falha minha, dessas que só mostram o tamanho do estrago depois que a poeira baixa. Insisti em ter certeza, quis sustentar minha razão e acabei perdendo alguém que era importante para mim. Doeu, claro! Mas foi justamente daquela experiência que tirei uma lição que muitos livros, sozinhos, não teriam conseguido me ensinar. A sabedoria que hoje reconheço em mim também nasceu do tombo, da escuta que chegou tarde e do arrependimento que me obrigou a olhar para dentro. Nesse sentido, Sócrates, ao reconhecer os limites do próprio saber — formulação que resume a tradição platônica, embora não seja uma citação literal —, toca numa verdade que o próprio livro de Provérbios anuncia: “o princípio da sabedoria é o temor do Senhor” (Pv 9,10). Não se trata de alimentar o medo, mas de reconhecer os limites humanos diante daquilo que nos ultrapassa. A sabedoria começa quando a arrogância perde a voz e a humildade finalmente encontra espaço para falar.

Por isso, já não vejo necessidade de escolher entre uma Sabedoria anterior às colinas e outra que caminha conosco. Posso reconhecer, de um lado, a interpretação teológica que contempla a Sabedoria como realidade eterna em Deus e, de outro, a experiência humana de quem aprende a viver entre acertos, tropeços e recomeços. Uma não precisa apagar a outra. Que a Sabedoria seja dom que vem do alto e, ao mesmo tempo, fruto que se colhe na terra, com suor, paciência e, não raro, algumas lágrimas. Talvez o mistério esteja justamente aí: aquilo que a fé contempla como eterno em Deus manifesta-se, em nossa existência, como caminho, aprendizado e transformação. Desconfio das respostas definitivas, sim, mas não desprezo as antigas. Quando ouvidas com atenção, elas ainda têm muito a nos ensinar — e, sobretudo, continuam capazes de nos fazer perguntas. Afinal, quem aprende a perguntar com humildade e reverência talvez já esteja, sem perceber, caminhando ao lado da Sabedoria.

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