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MINHAS PÉROLAS

domingo, 12 de abril de 2026

O Tribunal dos Cadernos: Entre a Norma e o Medo ("Construímos muros demais e pontes de menos." — Isaac Newton)

 




O Tribunal dos Cadernos: Entre a Norma e o Medo ("Construímos muros demais e pontes de menos." — Isaac Newton)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Fim de bimestre não chega de mansinho, não; chega dando voadora. Nem preciso consultar o calendário, porque o corpo entrega o jogo antes: é o cansaço que senta nos ombros, aquele nó chato apertando a garganta e o pressentimento de que o "fervo" está vindo. Naquela tarde, o calor estava de rachar o coco. O ventilador de teto era puro barulho, girando em falso e só espalhando um ar quente que parecia carregar toda a tensão da sala.


Eu já sentia o cheiro da encrenca. Antes mesmo de levantar os olhos, o burburinho lá no fundo me avisou. Não era conversa fiada, era articulação pura. Quando olhei, batata: vinham vindo. Em bando. É sempre assim, né? Às vezes brota até gente de outra turma na porta, como se a coragem precisasse de claque, ou como se enfrentar o mestre ficasse mais fácil quando a responsabilidade se dissolve no meio da massa.

Apertei a caneta. Coisa boba, mas o corpo fala. Na frente vinha o de sempre, o "líder da vez". Ostentava uma segurança que, convenhamos, passava longe do caderno — ali o terreno era árido —, mas dominava o palco como ninguém. Teatro ensaiado. Nem abriu o caderno de cara. Primeiro, soltou o verbo:

— "Professor…" Mas ó, não era chamado. Era intimação. O tom veio atravessado, meio torto, de quem não quer explicação, mas cobra espaço. Senti o estômago dar aquele nó. Respirei fundo e segurei a onda. Por fora, uma estátua; por dentro, um deserto. Logo atrás, as meninas. No sapatinho. Só observando. E vou te falar: aquele silêncio gritava. Eu sentia que qualquer palavra minha poderia ser distorcida e usada contra mim em tribunal. Já não era uma aula, era um julgamento com plateia sedenta. E o ventilador lá, rangendo… parecia que o barulho aumentava conforme o clima pesava. Quando o caderno finalmente deu as caras, só confirmou a tragédia: páginas banguelas, atividades feitas nas coxas, um esforço capenga. Mas, naquele segundo, o conteúdo era o de menos. O caderno era só um figurante num jogo mudo de medir forças, de testar quem mandava no pedaço. Minha garganta secou. Poxa, eu queria falar tanta coisa… Queria ver além daquele papel: enxergar o moleque que rala o dia todo, a menina que adoeceu, o outro que não tem um minuto de sossego em casa pra estudar. Eu queria ser justo. Ser gente. Só que ali, naquele fogo cruzado, ser humano era perigoso demais. Porque eu sabia — e sabia bem — que qualquer gesto de compreensão viraria arma. A exceção viraria regra; o cuidado, desconfiança. Bastava um cochicho mal parado, uma leitura torta, e pronto: eu estaria na berlinda. Minhas mãos, grudadas na mesa, estavam tensas. Só notei depois. Aí, fiz o que o protocolo manda: me agarrei na norma. Na regra seca e impessoal, aquela que não acolhe ninguém, mas serve de escudo. Falei firme, talvez até com uma dureza que eu não queria. Nada de exceção. Segui o roteiro. Enquanto as palavras saíam, senti algo endurecer aqui dentro, como se eu estivesse vestindo uma couraça de metal. Não era coragem, era puro instinto de defesa. Eles recuaram. Não um por um, mas em bloco, do mesmo jeito que chegaram. Uns de cara amarrada, outros num silêncio de chumbo. O grupo se desfez sem alarde. Ficaram apenas os passos se afastando, o nheco-nheco do ventilador... e eu. A sala vazia tem um silêncio que pesa toneladas. Fiquei ali, encarando a mesa. Tudo "nos conformes". Notas redondinhas — aquele seis da misericórdia pra evitar fadiga — sem margem pra questionamento. Mas tinha algo muito errado, e isso não cabe em nenhuma planilha de Excel. Foi aí que a ficha caiu, amarga pra caramba: naquele dia eu não ganhei a discussão. Eu perdi algo muito mais fundo. Pra não arrumar sarna pra me coçar, engoli a minha humanidade — justamente o que dá sentido a essa loucura que é ensinar. O medo dos coordenadores levou a melhor. E o pior nem foi o medo em si. Ele não me fez errar o conteúdo; ele me fez amolecer o caráter. Desde então, essa pulga atrás da orelha não me deixa em paz: quantas vezes não é a falta de matéria que trava o aprendizado, mas o medo que impede o encontro?
No fundo, ensinar deveria ser ponte, aproximação. Mas, quando a desconfiança senta na primeira fila, a gente aprende — mesmo sem querer — a manter distância. E é nesse afastamento, quase invisível e todo "justificável", que a educação vai escorrendo pelo ralo… bem devagarinho.


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Minha crônica é um material riquíssimo para debatermos conceitos como instituição, poder, controle social e as relações de conflito dentro do ambiente escolar. Abaixo, preparei 5 questões discursivas pensadas para o Ensino Médio, focando no alinhamento construtivo entre a narrativa literária e os conceitos sociológicos:


1. O Coletivo e a Identidade:

No texto, o professor observa que os alunos não vêm sozinhos, mas "em bando". Do ponto de vista sociológico, como a formação de grupos influencia o comportamento do indivíduo e por que a "coragem precisa de plateia" nesse contexto de enfrentamento à autoridade?

2. Relações de Poder e Território:

A crônica descreve a aproximação do líder do grupo como um "jogo de força e de território". Analise como o conceito de Poder (segundo a ideia de que ele não é algo que se possui, mas que se exerce nas relações) aparece no embate entre o tom de voz do aluno e a postura do professor.

3. Instituição e Normatização:

O narrador afirma que, para se proteger, "agarrou-se na norma, na regra seca e impessoal". Explique a função das regras e das instituições (como a escola) no controle das tensões sociais e discuta: por que a impessoalidade da norma serve como uma "couraça" para o indivíduo em situação de conflito?

4. O Conflito entre o "Eu" e o "Papel Social":

Existe uma tensão no texto entre o desejo do professor de ser "justo de verdade" (olhando as dificuldades individuais dos alunos) e a necessidade de manter a autoridade do cargo. Como as expectativas sociais sobre o papel do professor e o papel do aluno podem impedir que uma relação mais humanizada aconteça na prática?

5. A Desconfiança como Barreira Social:

Ao final, o texto reflete que o medo e a desconfiança impedem o "encontro" e a "aproximação". De que maneira a quebra do vínculo de confiança entre os membros de uma comunidade (neste caso, a comunidade escolar) afeta o processo de socialização e a construção do conhecimento?

Dica Pedagógica: Ao aplicar estas questões, você pode incentivar os alunos a refletirem não apenas sobre o "erro" do comportamento agressivo, mas sobre as estruturas sociais que levam tanto alunos quanto professores a se sentirem ameaçados uns pelos outros.

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