Ensaio Teológico II(1) Além da Memorização: A Travessia de Fora Para Dentro
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Houve um tempo em que eu confundia sabedoria com uma memória bem treinada. Respondia depressa, citava autores de cor e salteado, repetia com precisão o que mentes brilhantes haviam pensado muito antes de mim. Durante algum tempo, isso pareceu suficiente. Afinal, quem distingue, à primeira vista, uma biblioteca ambulante de uma mente realmente sábia? Mas, bastou uma pergunta simples — feita, curiosamente, por quem eu menos esperava — para que todo aquele edifício de certezas vacilasse. Pela primeira vez, fiquei em silêncio. Não porque me faltassem informações, mas porque me vi obrigado a pensar com a própria cabeça, sem a muleta de uma citação, sem a proteção da autoridade alheia. Foi ali, justamente quando minha erudição deixou de me amparar, que comecei a perceber que memória e sabedoria pertencem a mundos diferentes.
Kahlil Gibran escreveu que a sabedoria deixa de ser sabedoria quando não desperta em nós o desejo de descobrir por nós mesmos. Hoje compreendo, pela experiência, a profundidade dessa afirmação. Existe um tipo de conhecimento que aprisiona justamente porque parece completo. Ele nos livra da dúvida e, ao nos poupar da dúvida, acaba roubando também o encantamento da descoberta. O verdadeiro sábio não é aquele que sempre tem uma resposta na ponta da língua, mas quem continua disposto a fazer perguntas que desinstalam, inquietam e obrigam a rever convicções. Talvez seja por isso que Provérbios não convide ninguém a decorar respostas, mas a clamar por entendimento, a levantar a voz em busca do discernimento. O verbo é de movimento. A sabedoria bíblica nunca foi passividade; sempre foi peregrinação.
Mas, há outro perigo, mais sutil. A sabedoria que apenas questiona, sem se importar com quem caminha ao lado, torna-se incompleta. Em muitos casos, transforma-se numa forma elegante de arrogância. Recordo-me de uma discussão em que meus argumentos eram consistentes, mas meu tom era desastroso. Saí convencido de que havia vencido o debate. Só depois percebi que, naquela mesma conversa, perdera algo infinitamente mais valioso: a ponte que me ligava à outra pessoa. A experiência foi dura, mas necessária. Fez-me compreender o que Gandhi intuía ao aproximar a não violência da verdade. De que adianta estar certo se a maneira de defender a verdade humilha quem nos escuta? A verdadeira sabedoria parece preocupar-se menos em triunfar sobre o outro e muito mais em preservar a possibilidade do encontro. Talvez seja justamente por isso que os Evangelhos chamem de bem-aventurados não os vencedores das discussões, mas os pacificadores.
Ainda assim, por mais importantes que sejam o espírito crítico e a compaixão, ambos continuam voltados para fora: para o mundo, para as ideias, para as pessoas. Falta uma última travessia — a mais exigente, a mais silenciosa e, talvez, a mais transformadora de todas. É a viagem para dentro de si mesmo. Foi Agostinho quem escreveu que não devemos sair de nós mesmos para encontrar a sabedoria, pois ela já habita ali dentro. Confesso que levei anos para compreender essa frase. Durante muito tempo, ela me pareceu apenas uma bela abstração filosófica. Hoje a leio de outra maneira. Descobri que toda a sabedoria que eu buscava nos livros, nas conferências, nas conversas e nos debates aguardava, pacientemente, que eu tivesse coragem de fazer uma pausa e escutar aquilo que o silêncio dizia dentro de mim.
Talvez seja esse o verdadeiro itinerário da maturidade. Primeiro, aprendemos a questionar o mundo. Depois, descobrimos que nenhuma verdade vale a pena se não vier acompanhada de compaixão. E, por fim, percebemos que a jornada mais longa nunca foi a que percorremos em direção aos outros, mas a que nos conduz ao próprio coração. A sabedoria não consiste em colecionar respostas emprestadas, nem em exibir uma memória admirável. Ela amadurece quando somos capazes de transformar o conhecimento recebido em experiência vivida, em discernimento próprio, em consciência.
No fim das contas, a sabedoria não é um depósito de certezas nem uma bagagem que carregamos para impressionar quem cruza o nosso caminho. Ela é travessia. É um movimento contínuo de fora para dentro, da informação para a compreensão, da compreensão para a transformação. E talvez seja justamente nesse percurso que aconteça o milagre mais discreto da existência: a pergunta que um dia nos deixou sem palavras já não exige uma resposta definitiva. Ela passa a habitar em nós, moldando nosso olhar, nossa escuta e nosso modo de caminhar pelo mundo.


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