Ensaio Teológico I(31) Entre o Bem, o Mal e a Verdade: Uma Travessia Entre Fé e Razão
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma frase de Bertrand Russell que nunca deixou de ecoar em mim: "muitos aceitariam a moral cristã se ela viesse sem a doutrina cristã". Confesso que, durante muito tempo, resisti a essa ideia. Ela me soava como um ataque direto à fé. Hoje, porém, enxergo outra possibilidade: talvez seja, antes de tudo, um convite. Um convite para perguntar se a bondade humana realmente precisa de um proprietário divino para existir ou se, na verdade, ela é, antes de tudo, humana — e, quem sabe, justamente por isso, também possa ser divina.
É aí que o desconforto começa. Afinal, se tantos avanços nos direitos humanos, na ciência e na democracia aconteceram, em diversos momentos da história, apesar dos dogmas religiosos — e não necessariamente por causa deles —, como sustentar que a rejeição à Bíblia seja a principal origem das mazelas humanas? A questão não é simples. Stefan Zweig observava que faz parte da condição humana buscar a luz, e essa busca, convenhamos, não costuma pedir licença a nenhuma escritura sagrada. Já Émile Durkheim vai ainda mais longe ao afirmar que a moral não nasce nem da natureza humana nem da vontade divina, mas da própria sociedade, construída entre conflitos, acordos, rupturas e reconciliações. Se ele estiver certo, então a ética não é uma revelação caída do céu, mas uma obra coletiva, permanentemente esculpida pela experiência humana.
Ainda assim — e aqui está a inflexão que não consigo evitar, porque nasce daquilo que experimento e não apenas do que penso —, também não sou capaz de descartar a possibilidade de que exista algo maior, uma fonte de sentido que ultrapasse as explicações da sociologia e da filosofia. Talvez Durkheim explique de maneira admirável como a moral se organiza; talvez, contudo, não consiga responder por que ela nos toca tão profundamente. Por que a injustiça ainda nos faz sofrer? Por que o mal nos indigna e o bem continua despertando esperança, mesmo quando sabemos que somos, em grande medida, uma sociedade organizando a si mesma? É justamente nesse território da dúvida — e não da certeza — que ressoam as palavras de Paulo: "examinai tudo, retende o bem". Não vejo aí uma ordem cega, mas um chamado ao discernimento, quase um eco secular avant la lettre, como se a própria fé convidasse o ser humano a pensar antes de simplesmente aceitar.
Séculos depois, Agostinho reforçaria essa mesma disposição ao lembrar que a Bíblia foi escrita para que creiamos nela, mas que ninguém pode crer verdadeiramente sem antes compreender. E talvez seja justamente aí que Russell e Agostinho, tão distantes em suas conclusões, acabem se encontrando. De um lado, o cético; do outro, o santo. Ambos, porém, recusam a ingenuidade intelectual. Ambos insistem que a fé — ou sua recusa — precisa atravessar o exame, o contexto e a busca sincera pelo sentido.
Talvez você, leitor, também já tenha habitado esse lugar de tensão: aquele em que o desejo de acreditar disputa espaço com a necessidade de pensar. Eu conheço bem essa travessia. Vivo nela. E, quanto mais caminho, mais suspeito que é justamente nessa fronteira incômoda — onde a razão faz perguntas e a fé se dispõe a escutá-las — que se revela o verdadeiro significado de ser sal da terra e luz do mundo. Não o de escolher definitivamente um dos lados, mas o de aprender a caminhar entre ambos, sustentando essa tensão fecunda com humildade. Porque, afinal, talvez a verdade não seja uma fortaleza já concluída, e sim uma ponte em permanente construção, pela qual seguimos atravessando, passo a passo.


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