Ensaio Teológico I(32) A Loteria: Entre a Esperança e o Espelho
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há um instante, no fim da tarde, em que alguém para diante de uma banca de jornal, escolhe seis números e paga menos do que custaria um café. Nesse gesto aparentemente banal habita uma das perguntas mais antigas da condição humana: afinal, o que significa ter esperança quando quase nada se tem?
A crítica social, quase sempre, responde depressa demais. Diz-se que a loteria é uma armadilha; que esvazia o bolso de quem menos possui; que transforma os poucos ganhadores em vitrines para seduzir milhares de novos apostadores; que alimenta, enfim, uma engrenagem fria de um sistema que lucra com a fome de sonhos dos mais pobres. Há verdade nessa denúncia. Seria ingenuidade negá-la. Mas, existe também um incômodo que costuma passar despercebido: a facilidade com que se julga, à distância, uma escolha que só pode ser compreendida de perto.
Reduzir o apostador à condição de vítima ingênua — ou, pior, de alguém irresponsável que desperdiça o próprio sustento — é esquecer que a vida jamais coube inteira na lógica de uma planilha. Há cálculo, sim. Mas, há também esperança, desejo e imaginação. Há, sobretudo, o direito — tantas vezes negado aos pobres — de sonhar com um futuro diferente daquele que lhes foi imposto. Como lembrou Nelson Mandela, a pobreza não nasce da natureza, mas das mãos dos homens. Por isso mesmo, ela não pode ser tratada como culpa de quem a sofre, nem como fraqueza de quem, mesmo cercado por ela, ainda encontra coragem para sonhar.
Confesso que falo também por experiência. Já fiz essa aposta. Não porque acreditasse que um bilhete premiado resolveria todos os problemas da vida, mas porque havia um prazer discreto em permitir que a imaginação voasse por alguns dias. Pensava numa casa, numa viagem, num recomeço. Não gastei aquilo que me faria falta; investi o equivalente a um pequeno luxo e, em troca, comprei algumas horas de devaneio. Se isso é ilusão, talvez seja a mesma ilusão que sustenta um poema, inspira um filme ou fortalece uma prece: essa convicção provisória de que o impossível ainda pode morar no horizonte.
Talvez seja justamente por isso que desconfio dos julgamentos fáceis sobre as escolhas alheias. Jefferson enxergava na busca da felicidade um direito inalienável. Convém lembrar que essa busca nem sempre percorre os trilhos da razão pura e, ainda assim, continua sendo digna de respeito. Julgar o sonho do outro — sobretudo quando esse outro tem tão pouco a perder e tanto a desejar — é uma forma silenciosa de crueldade travestida de bom senso.
O que realmente deveria nos inquietar não é o bilhete de loteria nas mãos de quem é pobre, mas a pobreza que o leva a enxergar nesse bilhete uma das poucas portas ainda entreabertas. Se a indignação precisa encontrar um alvo, que seja a injustiça que produz a necessidade do sonho fácil — nunca o sonho em si. Como disse Martin Luther King Jr., a injustiça em qualquer lugar ameaça a justiça em todos os lugares. É essa injustiça estrutural, e não a aposta ocasional, que exige de nós consciência, resposta e ação.
As Escrituras, por sua vez, oferecem um convite antigo e sempre atual: o da compaixão para com quem tem menos. Não nos convocam a vigiar como o pobre administra seus poucos recursos, mas a refletir sobre a responsabilidade de quem possui mais e pode repartir. A tradição bíblica fala de compadecer-se do necessitado, de ajuntar tesouros que não se corrompem e, acima de tudo, de examinar o lugar onde repousa o coração humano. Talvez seja exatamente esse o convite inesperado que a loteria nos faça. Sem querer, ela nos obriga a perguntar onde está, de fato, o nosso tesouro: na crítica dirigida ao outro ou no cuidado sincero com quem continua sonhando porque a vida lhe ofereceu pouco além da esperança.
No fim das contas, a loteria talvez não seja nem oportunidade nem armadilha. É, antes de tudo, um espelho. Nele se refletem, de um lado, a esperança de quem aposta; de outro, o julgamento de quem observa à distância. E então a pergunta deixa de ser sobre seis números para tornar-se uma pergunta sobre nós mesmos. Que reflexo desejamos contemplar? O da desconfiança que aponta o dedo ou o da compaixão que se aproxima, procura compreender e, só depois disso — talvez — decide ajudar a construir um mundo em que sonhar não dependa de um bilhete, de seis números e de uma prece.

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