Ensaio Teológico III(29) Proximidade e Proteção: Uma Análise Teológica e Filosófica
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma lembrança que, de vez em quando, bate à porta da minha memória. Duas irmãs, criadas sob o mesmo teto, compartilhando a mesma história, os mesmos afetos e as mesmas cicatrizes. Justamente por essa intimidade, passaram a cobrar uma da outra uma lealdade quase sufocante, como se o vínculo de sangue fosse um contrato invisível, capaz de exigir presença constante, concordância permanente e renúncia sem limites. Em contraste, vi um desconhecido oferecer abrigo, cuidado e acolhimento a alguém com quem jamais havia convivido. Aquela cena me deixou uma pergunta daquelas que não se calam facilmente: será que a proximidade, por si só, cria obrigações maiores ou, no fim das contas, é o respeito mútuo — e não a distância — que realmente sustenta o cuidado entre as pessoas?
Essa questão atravessa séculos de reflexão teológica e filosófica. Em muitos ambientes cristãos, especialmente no contexto evangélico, costuma-se defender que a proximidade — seja familiar, afetiva ou comunitária — naturalmente amplia o dever de proteção, cuidado e honra. Há, sem dúvida, razões para pensar assim. Afinal, quem convive conhece de perto as necessidades do outro. No entanto, a perspectiva bíblica parece ir além desse círculo imediato. Ao escrever aos gálatas, Paulo afirma que devemos levar as cargas "uns dos outros", cumprindo, assim, a lei de Cristo (Gálatas 6:2). A escolha das palavras não é casual. O apóstolo não restringe esse compromisso aos parentes, aos amigos ou aos membros da própria comunidade. Ao contrário, amplia o horizonte da responsabilidade humana e nos convida a enxergar o próximo para além das fronteiras da afinidade.
A filosofia chega a uma conclusão semelhante por outro caminho. Immanuel Kant afirma que cada ser humano possui dignidade intrínseca e deve ser tratado sempre como um fim em si mesmo, jamais como um instrumento para satisfazer interesses alheios. Se levamos esse princípio a sério, percebemos que o valor de uma pessoa não aumenta nem diminui conforme sua proximidade conosco. A compaixão não deveria depender do sobrenome, da amizade ou da frequência do convívio. É verdade que a convivência nos torna mais sensíveis às dores daqueles que estão ao nosso redor. Contudo, essa proximidade não pode se transformar no critério que determina quem merece mais ou menos cuidado. A dignidade humana não conhece escalas.
Quando se atribuem obrigações desproporcionais aos vínculos mais próximos, corre-se o risco de transformar o afeto em cobrança. Pais, filhos, irmãos e amigos passam a carregar expectativas que, muitas vezes, ultrapassam aquilo que podem oferecer. Não raro, o amor acaba cedendo lugar ao ressentimento, porque aquilo que deveria ser um gesto livre converte-se em dever permanente. É justamente nesse ponto que o ensinamento de Jesus, registrado em Mateus 7:12, ressoa com impressionante simplicidade: tratar os outros como gostaríamos de ser tratados. O texto não estabelece categorias nem cria privilégios baseados na proximidade. Seu alcance é universal. A chamada "regra de ouro" não distingue entre familiares e desconhecidos; ela apenas reconhece a humanidade comum que nos une.
Também os grandes pensadores da história caminham nessa direção. Sócrates lembrava que não basta viver; é preciso viver bem, isto é, viver com justiça. Séculos depois, Martin Luther King Jr. ampliaria essa compreensão ao afirmar que o destino humano é compartilhado e que "a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar". Embora pertençam a épocas e contextos distintos, ambos convergem numa mesma convicção: o compromisso ético não nasce da geografia afetiva, mas do reconhecimento da dignidade do outro. A distância pode separar corpos, mas jamais deveria separar consciências.
Talvez esteja na hora de revermos uma ideia que, de tão repetida, acabou parecendo indiscutível: a de que amar quem está mais perto significa amar melhor. Nem sempre é assim. O verdadeiro cuidado não floresce porque alguém pertence à nossa família, ao nosso círculo de amizades ou à nossa comunidade. Ele nasce quando reconhecemos, no rosto do outro, a mesma humanidade que habita em nós. É esse reconhecimento que transforma a obrigação em escolha, a convivência em respeito e a proximidade em oportunidade de servir, nunca em instrumento de cobrança.
No fim das contas, proteger alguém não deveria ser consequência de um laço imposto, mas expressão de uma consciência amadurecida. Quanto mais compreendemos que toda pessoa é portadora da mesma dignidade, menos importância damos às fronteiras que costumam dividir "os nossos" e "os outros". E talvez seja justamente aí que a ética, a filosofia e o Evangelho se encontrem: na certeza de que o amor não mede distâncias, não calcula privilégios e não escolhe destinatários. Ele simplesmente reconhece o ser humano e estende a mão.


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