Ensaio Teológico III(26) A importância da confiança em si mesmo
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Houve um tempo em que, todas as manhãs, eu precisava fazer uma escolha que me parecia impossível: ajoelhar-me ou agir. Não porque uma atitude anulasse a outra — isso eu só compreenderia mais tarde —, mas porque, no calor da aflição, cada oração soava como uma confissão de impotência, enquanto cada iniciativa parecia uma silenciosa desobediência à fé que me ensinaram desde cedo. Na memória ecoavam as palavras de Provérbios 3:5: "confie no SENHOR de todo o seu coração e não se apoie em seu próprio entendimento". E eu me perguntava, sem encontrar resposta imediata: até onde vai a confiança em Deus e onde começa a responsabilidade que Ele mesmo colocou em minhas mãos?
Curiosamente, foi Nietzsche quem me ajudou a formular a pergunta certa. Ao afirmar que "Aquele que tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como", ele não me parece negar a fé; ao contrário, desafia-nos a dar-lhe um propósito vivido, concreto, encarnado no cotidiano, e não apenas uma esperança abstrata de socorro. Aos poucos fui percebendo que o verdadeiro dilema nunca foi escolher entre Deus e mim mesmo. A questão era compreender que a fé, quando não se traduz em atitudes, corre o risco de tornar-se uma petição sem compromisso; e que a ação, quando se distancia da fé, transforma-se num esforço solitário, pesado demais para ser sustentado por muito tempo.
Essa percepção encontrou eco também nas palavras de Einstein, quando afirmou que "a imaginação é mais importante que o conhecimento". Imaginar, nesse contexto, é ousar enxergar possibilidades onde o medo insiste em mostrar apenas limites. É acreditar que ainda somos capazes de recomeçar, mesmo quando a resposta às nossas orações parece demorar. Einstein não se destacou apenas pelo conhecimento que acumulou, mas pela coragem de continuar perguntando quando quase ninguém tinha respostas. Carol Dweck desenvolveria essa mesma intuição ao falar da mentalidade de crescimento: a convicção de que nossas capacidades não nascem prontas, mas são forjadas no atrito com os erros, os desafios e os fracassos.
E foi justamente no fracasso que compreendi a diferença entre fé e autoconfiança. A fé sustentou-me quando já não havia mais nada que eu pudesse fazer; a autoconfiança ergueu-me quando ainda existia um passo a dar. Não competiram entre si, nem ocuparam o mesmo lugar. Pelo contrário, completaram-se. Cada uma alcançou aquilo que a outra, sozinha, não seria capaz de alcançar. Enquanto uma alimentava a esperança, a outra transformava essa esperança em movimento.
Hoje, quando leio Filipenses 4:13 — "posso todas as coisas naquele que me fortalece" —, já não enxergo qualquer conflito entre a ação humana e a confiança em Deus. Vejo, antes, uma parceria silenciosa e profunda. Deus fortalece, mas sou eu quem dá o primeiro passo, quem enfrenta os obstáculos e continua caminhando, mesmo quando o caminho parece íngreme. A fé não me dispensa do esforço; ela lhe dá sentido, direção e perseverança. Talvez seja essa a maturidade espiritual que a vida, aos poucos, me ensinou: não escolher entre orar e agir, mas compreender que a oração prepara o terreno, enquanto a ação lança a semente. E é justamente da união entre ambas que nasce a colheita.


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