Ensaio Teológico III(32) Entre a Letra e o Espírito: Uma Releitura do Dualismo Cristão
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Minha avó rezava o terço todas as noites. Sentava-se sempre na mesma cadeira, voltava os olhos para o mesmo canto da sala, onde um retrato do marido falecido parecia lhe fazer companhia, e dali tirava forças para seguir em frente. Para ela, o mundo tinha contornos nítidos: havia os justos e os ímpios. Essa divisão não era expressão de intolerância, muito menos de crueldade; era um mapa. Um mapa que lhe permitia atravessar o luto, enfrentar as injustiças da vida e suportar a doença sem perder o rumo nem a esperança. Foi somente muitos anos depois, quando a filosofia cruzou o meu caminho, que compreendi algo essencial: talvez o problema nunca tenha estado no mapa que ela utilizava, mas na convicção de que só pudesse existir um único mapa para orientar a existência.
É justamente a partir dessa constatação que este ensaio se desenvolve. Não pretendo desmontar a fé, tampouco enfraquecer o cristianismo. O que proponho é algo mais modesto — e, ao mesmo tempo, mais necessário: examinar a leitura literal que, tantas vezes, acaba endurecendo aquilo que nasceu para iluminar. Há uma diferença profunda entre questionar uma interpretação e questionar a própria fé. E essa distinção importa, sobretudo para quem, como minha avó, encontrou no dualismo bíblico não um instrumento de opressão, mas um abrigo em meio às tempestades da vida.
Quando Nietzsche escreveu, em 1878, que não existem fatos eternos nem verdades absolutas, sua intenção era provocar as certezas cristalizadas de seu tempo. A provocação continua fecunda, mas talvez não encerre toda a questão. Afinal, se não há verdades absolutamente inquestionáveis, também não existe certeza absoluta de que o dualismo cristão seja falso; o que existe é uma entre várias possibilidades de interpretação. Curiosamente, é a própria Escritura que abre espaço para essa releitura. Ao afirmar, em 1 João 4:8, que Deus é amor, o texto bíblico amplia o horizonte e desafia qualquer compreensão que reduza a divindade apenas à figura de um juiz severo, definido exclusivamente pela condenação.
Muito antes disso, Heráclito já intuía que a mudança é a única constante da existência. E a vida, convenhamos, dificilmente cabe em compartimentos tão rígidos quanto gostaríamos. O sofrimento dos justos e o aparente triunfo dos injustos desafiam qualquer explicação simplista. A realidade é tecida por circunstâncias, escolhas, estruturas sociais, acasos e pelo próprio tempo. Basta lembrar Galileu. Condenado por desafiar o paradigma dominante de sua época, terminou reconhecido como um dos homens que mais ampliaram nossa compreensão do universo. Sua história nos recorda que romper com determinadas normas nem sempre significa rebeldia irresponsável; às vezes, significa enxergar mais longe do que o próprio tempo é capaz de admitir.
Essa abertura ao novo, aliás, encontra eco nas próprias Escrituras. Romanos 12:2 exorta: "não se amoldem ao padrão deste mundo, transformem-se pela renovação da mente". Mais do que um convite à obediência mecânica, vejo aí um chamado permanente ao discernimento, à reflexão e ao amadurecimento da consciência. Da mesma forma, Tiago 2:17 nos lembra que a fé sem obras está morta. Talvez seja justamente aí que resida o coração da ética cristã: não na adesão incondicional a uma interpretação única, mas na capacidade de transformar convicções em gestos concretos de compaixão, justiça e misericórdia. Nesse terreno, crentes e céticos podem caminhar lado a lado, porque o sofrimento humano não pergunta em que acreditamos antes de exigir nossa responsabilidade.
Por isso, não desconstruo a fé de minha avó. Ao contrário, continuo admirando a serenidade com que ela encontrou sentido em meio às dores da vida. O que questiono é apenas a ideia de que exista uma única maneira legítima de compreender aquilo que ela rezava todas as noites. Talvez a fé se fortaleça justamente quando deixa de temer as perguntas. E talvez seja esse, no fundo, o ponto de encontro entre Cristo, Heráclito e até Nietzsche. Cada um, a seu modo, parece nos lembrar de que a verdade não floresce na repetição automática das respostas, mas na coragem de examinar, com humildade e profundidade, aquilo em que escolhemos acreditar.

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