O Selo da Infalibilidade : OS DONS E AS RESPONSABILIDADES FAZEM OS HOMENS DIFERENCIADOS ("Os Homens são precisamente diferenciados conforme as realizações de suas necessidades básicas". — Marcos Costa)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
A discussão começou por causa de um pedaço de pano. Coisa pequena. Tecido, costura, cor padronizada. Dessas coisas que, vistas de longe, parecem não carregar importância alguma. Mas, basta chegar perto para perceber que certos panos escondem guerras inteiras dobradas entre as fibras. — Se a gente é obrigado a usar uniforme, por que o senhor não usa? Se o professor pode vir com a roupa que quer, eu também posso.
O rapaz, dezessete anos recém-inaugurados, cruzou os braços e sustentou o olhar com aquela coragem típica da juventude — uma mistura curiosa de convicção e precipitação. Tinha no rosto a expressão de quem acredita ter encontrado uma rachadura definitiva no sistema, uma peça solta capaz de derrubar toda a engrenagem.
Atrás dele, a turma mergulhou naquele silêncio curioso que só as salas de aula conhecem. Um silêncio que não é ausência de som; é expectativa. Trinta pares de olhos esperando o próximo movimento, como quem acompanha uma partida de xadrez e tenta adivinhar quem fará o erro primeiro.
O argumento dele carregava a lógica sedutora dos nossos tempos: a transferência instantânea de responsabilidades. Se o outro pode, eu também posso. Se o outro falha, minha falha encontra abrigo. E, para colocar a cereja no bolo, veio a sentença lançada com a confiança de quem acredita ter dado xeque-mate: — No fim das contas, somos nós, alunos, que pagamos o seu salário com o imposto de tudo o que a gente compra.
A frase ficou alguns segundos no ar. Palavras têm disso: às vezes saem da boca e permanecem flutuando no ambiente, procurando onde pousar. Olhei para aquele rapaz. E o que enxerguei ali não foi insolência. Não exatamente. Vi algo mais antigo e mais humano: uma confusão silenciosa de papéis. Uma tentativa de medir o mundo usando uma régua ainda em construção. Porque os jovens, muitas vezes, fazem isso sem perceber: procuram nas fraquezas dos adultos uma autorização para justificar as próprias quedas, enquanto ignoram justamente aquilo que deveria servir de horizonte.
Olhei para o quadro-branco. O pincel-marcador descansava entre meus dedos. Resolvi recorrer a uma velha parábola que guardo para dias de ventania. — Pensa comigo — falei, diminuindo o tom da voz. — Se um motorista comum estaciona na calçada ou avança o sinal vermelho, ele leva multa, certo? Mas, se uma viatura faz a mesma coisa durante uma emergência, ninguém estranha.
Ele permaneceu olhando. A sala também. — E sabe por quê? Porque, naquele momento, o policial não está agindo apenas como indivíduo. Ele está revestido de uma função pública. Carrega uma responsabilidade que vai além dele mesmo.
Dei alguns passos pela sala. — Aqui dentro acontece algo parecido. O aluno tem uma missão: aprender, descobrir, questionar, crescer e respeitar o processo. O professor carrega outra: orientar, conduzir e assumir responsabilidades que o aluno ainda está aprendendo a suportar. As funções não são iguais. E tudo bem que não sejam.
Fiz uma pausa curta. — Porque quando a gente tenta transformar responsabilidades diferentes em coisas idênticas, cria uma falsa igualdade. E uma igualdade falsa costuma produzir injustiças verdadeiras. A turma permanecia em silêncio. — Sem uma hierarquia saudável, o conhecimento não atravessa a ponte. Vira só ruído. Todo mundo fala; ninguém escuta.
O rapaz continuou me olhando, mas algo havia mudado. Os braços, antes cruzados como muralhas, começaram a ceder devagar. O semblante endurecido deu lugar àquela expressão rara de quem foi pego pensando. Ele não respondeu. Não rebateu. Ficou ali por alguns segundos, quieto, encarando a mesa. Então o sinal tocou. Recolheu o material, colocou a mochila nos ombros e saiu sem dizer palavra.
Não sei se assimilou a conversa. Talvez certas ideias precisem amadurecer em fogo baixo. Algumas lições não entram pela porta; ficam rondando a janela até encontrarem um jeito de entrar. Permaneci na sala organizando meus materiais, colocando folhas dentro da velha pasta já gasta pelo tempo. E foi ali, no meio daquele silêncio de fim de aula, que me atravessou uma mistura estranha de cansaço e esperança. Porque sei que a autoridade humana está longe da perfeição. Nós, professores, erramos, hesitamos, tropeçamos e carregamos nossas pequenas ruínas particulares. Não somos donos da verdade; somos apenas gente tentando acender fósforos em dias de tempestade.
1. O texto começa discutindo a obrigatoriedade do uniforme escolar e como o aluno questiona a diferença entre a vestimenta dele e a do professor. Em Sociologia, estudamos que cada indivíduo ocupa uma posição na sociedade com expectativas de comportamento específicas. Explique o que são "papéis sociais" e por que o professor e o aluno possuem papéis e responsabilidades diferentes dentro do espaço escolar.
2. O aluno utiliza o argumento de que, por pagar impostos, é ele quem "paga o salário" do professor, tentando inverter a dinâmica de poder. Pensando na estrutura do Estado e dos serviços públicos, por que a relação entre um cidadão e um funcionário público (como o professor) não deve ser enxergada como uma simples relação comercial de "cliente e prestador de serviços"?
3. Para explicar a diferença de funções, o professor recorre à parábola do motorista e do policial na viatura, mencionando que o policial está "revestido de uma função pública". Relacione essa parábola com os conceitos de Poder e Autoridade Legítima. Por que a autoridade do professor em sala de aula é necessária para que o conhecimento seja transmitido?
4. O narrador afirma que "quando a gente tenta transformar responsabilidades diferentes em coisas idênticas, cria uma falsa igualdade. E uma igualdade falsa costuma produzir injustiças verdadeiras". Pensando nas desigualdades e nas diferenças que existem na sociedade, por que tratar pessoas em posições e condições diferentes de forma absolutamente idêntica pode gerar injustiça?
5. No final da crônica, o professor reconhece que as autoridades humanas são imperfeitas, mas defende que o respeito pela posição de quem ensina é uma das colunas que sustentam a sociedade. De que forma a escola atua como uma instituição de socialização que prepara os jovens para respeitar regras e conviver em coletividade no mundo fora dos portões escolares?
💡 Sugestão de atividade complementar:
Uma excelente forma de iniciar a aplicação dessas questões é pedir para um aluno ler a crônica em voz alta para a turma. O ritmo narrativo do texto ajuda a capturar a atenção dos estudantes logo de cara, pois retrata um cenário que eles testemunham quase diariamente.



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