O NOVO ENSINO MÉDIO: UM LABIRINTO DE DESAFIOS E DESCONTENTAMENTO ("Não adianta enfeitar o cocô com florzinha, a merda já está feita". — Michely Deotti)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Era uma vez, num país nem tão distante assim, uma escola de portões cinzentos onde o esforço tinha virado peça de museu, dessas que ficam esquecidas atrás de um vidro empoeirado. Pelos corredores, já não se via o brilho inquieto de quem conquista conhecimento com as próprias mãos; o que ecoava era uma espécie de conforto anestésico, um silêncio disfarçado de progresso. Tudo passou a ser entregue sem luta, embalado e distribuído como quem oferece algo sem peso nem história. A régua, teimosa, resolveu mirar para baixo. E Firmino, um rapaz de dezesseis anos, com olhos cansados de quem faz amizade com a madrugada, caminhava por ali carregando uma mochila leve demais para a idade que tinha. O excesso de concessões operava nele o pior dos milagres: roubava-lhe a disposição de construir, arrancava-lhe a dignidade de descobrir que algumas coisas só ganham valor quando custam suor. Lá no fundo, numa parte silenciosa da alma, ele intuía algo difícil de explicar: quando tudo vem fácil, quase nada cria raízes.
Enquanto isso, o governo seguia anunciando mundos e fundos aos quatro ventos, como quem vende horizontes engarrafados. Mas, Firmino, criado entre ruas que ensinam cedo a desconfiar de promessas generosas demais, conhecia o cheiro das facilidades suspeitas. Sabia — ainda que sem colocar em palavras bonitas — que a dificuldade também educa. Ela esculpe caráter, lapida firmeza, endurece a madeira antes de transformá-la em ponte. Porque a verdadeira generosidade não é a que entrega tudo pronto; é a que oferece instrumentos para alguém mudar o próprio destino. E isso, gostem ou não, exige disciplina, rigor e alguma dose de enfrentamento.
Foi então que chegou o Novo Ensino Médio. Chegou como chegam certas reformas: fazendo barulho, atropelando histórias e levantando poeira. De repente, anos de estudo, formação acadêmica e experiência docente pareciam perder peso diante do chamado "notório saber" — uma brecha que, na prática, permitia transformar o ato de ensinar numa espécie de improviso institucionalizado. Dentro da sala dos professores, o sentimento era estranho, quase um desterro silencioso. Era como estar em casa e, ainda assim, sentir que haviam trocado as fechaduras. Eu me perguntava onde cabia alguém que dedicou anos à educação quando a própria essência do magistério começava a ser tratada como produto de liquidação. Ah, Novo Ensino Médio... talvez o meu maior desafio não esteja no que você mudou, mas naquilo que desfigurou.
E a máquina seguiu seu trabalho: inventou palavras novas para velhos vazios. O "mais educação" mudou de roupa e virou PIA — o irônico Programa de Intensificação da Aprendizagem que, sob o discurso de recuperar defasagens, acabou institucionalizando o avanço sem bagagem. O currículo se fragmentou nas famosas "trilhas", esses itinerários formativos que prometeram autonomia, mas muitas vezes entregaram apenas um mapa rabiscado às pressas. Firmino me olhava do fundo da sala. Seu olhar carregava aquele tipo de confusão que dispensa explicações. Estava perdido entre caminhos que prometiam direção, mas pareciam desembocar em lugar nenhum. Sem bússola, sem horizonte, sem a velha e santa paciência que o estudo exige. As telas lhe ensinaram a velocidade; a escola parecia ter desaprendido a ensinar espera.
E aqui a verdade precisa aparecer sem maquiagem nem cerimônia: esse Novo Ensino Médio se parece com uma criança mimada, sem identidade definida, que já nasceu sem fôlego. Dói dizer isso, mas algumas coisas precisam ser ditas antes que o silêncio vire cumplicidade. Porque podem vestir o defunto com roupas caras, borrifar perfume pedagógico, cercá-lo de relatórios estatísticos reluzentes e discursos tecnicamente impecáveis; ainda assim, a realidade tem um hábito inconveniente: ela aparece. E quando aparece, desmonta cenários. Remendar pano gasto com tecido frágil não fortalece a estrutura; só aumenta o tamanho do rasgo. Como observou Michely Deotti, verniz nenhum corrige rachaduras profundas.
Lá fora, do lado de além daqueles portões, a vida não oferece amortecedores. O mercado de trabalho tampouco distribui segundas chances por gentileza. E me vêm à mente as palavras duras de Frei Anselmo Fracasso: "Acariciar para depois castigar é o mesmo que enfeitar os condenados antes de levá-los à forca". Há frases que chegam como martelo. Essa é uma delas. Facilitar hoje o caminho de Firmino, privando-o do conhecimento defendido com unhas e dentes, talvez seja uma das formas mais cruéis de abandono. Porque há empurrões que não parecem empurrões: vêm acompanhados de sorrisos, tapinhas nas costas e discursos bem-intencionados.
Não escrevo movido por amargura nem por ressentimento. Escrevo por amor — talvez um amor inquieto, quase desesperado, desses que se recusam a assistir calados ao desmonte do que acreditam. Escrevo por Firmino. E por tantos outros rostos que passam diariamente pelas salas de aula carregando futuros inteiros nos ombros. Eles merecem mais que a mediocridade transformada em política pública. Merecem descobrir a grandeza do esforço, o prazer da conquista e a dignidade que existe em superar limites. Porque a vida cobra caro, cedo ou tarde. E a verdadeira compaixão nunca esteve em aplainar todos os caminhos; ela mora em algo muito mais difícil: oferecer as ferramentas certas para que nossos jovens atravessem as tempestades de cabeça erguida e conquistem, por direito e suor, aquilo que chamarão de próprio futuro.
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Olá! Como professor de Sociologia, fico muito feliz em ver como a literatura e a análise da realidade escolar podem caminhar juntas. O texto que compartilhei nos dá um prato cheio para discutir conceitos clássicos e contemporâneos da nossa disciplina: desigualdade social, o papel das instituições, políticas públicas, alienação e as transformações no mundo do trabalho. Abaixo, elaborei 5 questões discursivas, simples, mas que tocam no fundo das ideias do texto, para fazer meus alunos pensarem criticamente sobre a realidade que eles mesmos vivem.
1. O texto menciona que o jovem Firmino, morador da periferia, carrega uma "mochila leve demais" e desconfia das facilidades oferecidas pela escola. Pensando na Sociologia da Educação, de que forma uma escola que facilita excessivamente a aprovação, sem garantir o aprendizado real, pode aprofundar as desigualdades sociais em vez de combatê-las?
2. A crônica critica o conceito de "notório saber", que permite que pessoas sem formação universitária deem aulas no Novo Ensino Médio, e afirma que os professores sentiram que "haviam trocado as fechaduras" de sua própria casa. Como a desvalorização da formação docente afeta a escola enquanto instituição social responsável pela transmissão do conhecimento científico?
3. O autor afirma que a máquina pública "inventou palavras novas para velhos vazios", citando siglas e termos técnicos como o PIA e as "trilhas". Na Sociologia, estudamos como a burocracia e a linguagem técnica podem ser usadas pelo Estado. Explique como esse uso de discursos "tecnicamente impecáveis" pode mascarar os problemas reais da educação pública.
4. O texto traz uma forte reflexão sobre o mundo fora da escola, afirmando que "o mercado de trabalho tampouco distribui segundas chances por gentileza". Relacione a crítica do texto sobre a falta de preparo e rigor na escola com os desafios que os jovens das classes populares enfrentam ao tentar ingressar em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e implacável.
5. O autor cita uma frase de Frei Anselmo Fracasso: "Acariciar para depois castigar é o mesmo que enfeitar os condenados antes de levá-los à forca". No contexto da educação, por que a ideia de "facilitar o caminho" do aluno hoje pode ser considerada uma forma ilusória de inclusão social?
💡 Dica pedagógica para o professor:
Ao aplicar essas questões, incentive os alunos a usarem a própria vivência deles no Ensino Médio como parte da resposta. Isso ajuda a transformar a teoria sociológica em algo vivo e palpável.
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